RECEBO UM telefonema de Thunder, meu amigo. Sei que é ele na primeira palavra, porque vem no tom engrolado de quem tomou um pouco mais que o razoável de uísque. É um clássico de Thunder. Ele me trata como Hernandez. Faz um certo tempo que não o vejo. Na última vez, ele estava como uma barba hemingwayana que lhe dava um ar intelectual e quase levava o interlocutor a entrevistá-lo sobre detalhes de Por Quem Os Sinos Dobram.
“Você não sabe o que li, Hernandez”. ele me diz. Não é muito fácil entender Thunder quando bebe, o que significa que não é fácil entendê-lo quase sempre. É um dos últimos jornalistas da era romântica, para os quais o bar era uma extensão da redação e da própria vida.
“Hmmm”, respondo e entro num regime de concentração total para captar suas palavras quase ininteligíveis. Dou uma pausa na Hypemachine, na qual ouvia Gil cantando Three Little Birds, de Bob Marley. Vai dar tudo certo, diz a música. Não se preocupe. Ela pode ter um efeito calmante se você cantá-la interiormente compenetrado. Lembro de uma cena, num documentário sobre Marley, em que a multidão na Jamaica acompanhava Three Little Birds, que tocava num aparelho de som. Era o funeral dele, e as pessoas cantavam e dançavam Three Little Birds num espetáculo de magnética beleza e invencível esperança.
“Vi um artigo sobre aquele tema que você citou outro dia. FGM”, disse Thunder.
“Hmmmm”.
“Sabe o que dizia?”
“Hmmm.”
“Que a mulher sem clitóris fica mais agressiva.”
Era uma pesquisa que tinha sido feita na África, ele me conta. É lá que se pratica mais a FGM, a mutilação feminina do órgão genital. Chamam, falaciosamente, de circuncisão feminina, mas o verdadeiro equivalente seria a castração do homem, transformado num eunuco igual aos que circulavam nos haréns dos sultões.
“Hmmm.”
“Hernandez.”
“Hmmm.”
“Isso eu acho imposível. Deixar a mulher mais agressiva.”
Uma namorada de Thunder certa vez destruiu a porta de um carro que ele adorava a pontapés, numa crise de ciúme. Thunder, lembro, pagou um bom dinheiro para aquela namorada fazer análise. Mas não adiantou. Terminaram e foi ele quem teve que recorrer a um terapeuta.
“A FGM é culpada de muita coisa”, ele diz, engroladamente. “É um crime matar a possibilidade de prazer no sexo. A vida já é muito dura, Hernandez. Se a gente não pode ao mesmo gemer de vez em quando fica impossível.”
“Hmmm.”
“Mas nada pode deixar uma bxxxxx mais agressiva do que a natureza. Nem a FGM.”
Certas palavras de Thunder não podem ser impressas.
“Hmmm.”
“Hernandez. Mulher que não é agressiva não é mulher. É drag queen.”
A conversa vai seguir desgovernada, como acontece quando Thunder está alcoolizado. Provavelmente ele vai chorar em algum momento e me dizer que posso sempre contar com ele, “meu irmão”. Vou dizer “hmmm” durante o papo e desligar feliz por ter ouvido meu amigo Thunder,














