C foi, como fazia muitas tardes, à biblioteca municipal. Gostava do silêncio, da erudição, das possibilidades infinitas de leitura que a biblioteca oferecia.
Livro, para ela, tinha que ser no papel. Achava o iPad pesado para ler. Sabia que você podia montar uma biblioteca portentosa no iPad, mas tinha uma relação fortíssima, sentimental com o papel. Livro lido sem virar fisicamente as páginas não era livro, para ela.
C escolheu, naquela tarde, Lady Chatterley, de Lawrence. Tinha visto o filme e ficou interessada no livro.
Começou a ler compenetradamente, como de hábito. Sentiu uma simpatia instantânea por aquela mulher insatisfeita sexualmente, presa pelo casamento a um nobre esnobe e vazio que se tornara inválido ao levar um tiro numa guerra. E sentiu alguma coisa mais forte – curiosidade sexual, talvez – pelo caseiro plebeu, rude e gloriosamente potente que faz de Emma Chatterley uma escrava ansiosa, suplicante.
Fechou os olhos, se imaginou no lugar de Emma e deixou involuntariamente escapar um gemido quase mudo. Levou um susto. Teriam escutado? Observou as pessoas ali na sala de leitura. À sua direita, a uns cinco metros de distância, um homem pareceu dirigir um sorriso lascivo a ela quando os seus olhos se encontraram.
Ou seria impressão?
Ele poderia fazer o papel do caseiro num filme, pensou C. Tinha feições rudes, e usava roupas simples de quem só pode fazer compras em prestações.
C voltou à leitura. Quase deixa escapar mais um gemido na hora em que o caseiro toma Emma por trás. Sodomiza-a com ardor. Era como se figurativamente Lawrence estivesse imaginando a classe privilegiada inglesa sendo sodomizada pela ascendente classe trabalhadora.
C sentiu como que um jato molhá-la inteiramente em baixo. Estava encharcada, como uma rua depois de uma chuva.
Como um livro, um simples livro, podia provocar sentimentos tão fortes? – ela pensou.
Voltou a olhar, discretamente, para o homem tosco que estava ali perto. Mais uma vez, ele pareceu destinar a ela um sorriso que de puro, inocente, ingênuo nada tinha. Teria visto que livro ela estava lendo? Teria percebido por suas maçãs do rosto subitamente rosadas o quanto ela estava sexualmente agitada? O rosto de C ficava rubro quando ela sentia desejo.
C desviou o olhar do estranho e voltou a seu livro. Mas agora as palavras se mexiam tumultuadas por seu cérebro. Perdera o poder de concentração. Ela fechou os olhos. Percebeu que seus mamilos estavam túrgidos como uma cereja. O estranho poderia notar caso olhasse com atenção para seu vestido leve de verão? Usava sutiã, mas mesmo assim os mamilos pareciam capazes de furar o vestidinho em sua turgidez.
Fechou os olhos, mais uma vez.
Subitamente ela teve a impressão de que alguém se sentava a seu lado. Não abriu os olhos. E então pareceu que, por baixo da mesa da leitura, uma mão ia escalando lentamente suas coxas.
Era um sonho que estava tendo em sua excitação furiosa?, se perguntou C, ainda de olhos fechados, como que se recusando a abri-los para não encerrar seu transporte erótico.
Ou …
A mão parecia real. Quente, cheia de calos. Era mão de quem trabalhava fisicamente. Como o caseiro. Não era mão de almofadinha, decididamente.
A mão continuou a subir lenta, discretamente.
Chegando ao destino, baixou a calcinha azul de C o suficiente para poder acariciá-la entre os lábios de baixo. Eram dedos sutis, surpreendentemente sutis, para calos tão pronunciados. Eram dedos de macho cuja religião eram as bucetas do mundo.
E então C não pôde mais. Sua mente explodiu num orgasmo que pareceu interminável, e foi doce o esforço que ela fez para manter o silêncio ritual em meio ao terremoto que tomara sua buceta na biblioteca.
Pareceu perder os sentidos, por momentos.
Quando enfim se recuperou, um tempo depois que ela não saberia definir se eram minutos ou horas, abriu lentamente os olhos.
Quis ver ainda uma vez o estranho que parecia o caseiro.
Mas a caseira dele estava vazia.