“Nada pode deixar a mulher mais agressiva do que a própria natureza, Hernandez!”

07/02/2010 por Fabio Hernandez

RECEBO UM telefonema de Thunder, meu amigo. Sei que é ele na primeira palavra, porque vem no tom engrolado de quem tomou um pouco mais que o razoável de uísque. É um clássico de Thunder. Ele me trata como Hernandez. Faz um certo tempo que não o vejo. Na última vez, ele estava como uma barba hemingwayana que lhe dava um ar intelectual e quase levava o interlocutor a entrevistá-lo sobre detalhes de Por Quem Os Sinos Dobram.

“Você não sabe o que li, Hernandez”. ele me diz. Não é muito fácil entender Thunder quando bebe, o que significa que não é fácil entendê-lo quase sempre. É um dos últimos jornalistas da era romântica, para os quais o bar era uma extensão da redação e da própria vida.

“Hmmm”, respondo e entro num regime de concentração total para captar suas palavras quase ininteligíveis. Dou uma pausa na Hypemachine, na qual ouvia Gil cantando Three Little Birds, de Bob Marley. Vai dar tudo certo, diz a música. Não se preocupe. Ela pode ter um efeito calmante se você cantá-la interiormente compenetrado. Lembro de uma cena, num documentário sobre Marley, em que a multidão na Jamaica acompanhava Three Little Birds, que tocava num aparelho de som. Era o funeral dele, e as pessoas cantavam e dançavam Three Little Birds num espetáculo de magnética beleza e invencível esperança.

“Vi um artigo sobre aquele tema que você citou outro dia. FGM”, disse Thunder.

“Hmmmm”.

“Sabe o que dizia?”

“Hmmm.”

“Que a mulher sem clitóris fica mais agressiva.”

Era uma pesquisa que tinha sido feita na África, ele me conta. É lá que se pratica mais a FGM, a mutilação feminina do órgão genital. Chamam, falaciosamente, de circuncisão feminina, mas o verdadeiro equivalente seria a castração do homem, transformado num eunuco igual aos que circulavam nos haréns dos sultões.

“Hmmm.”

“Hernandez.”

“Hmmm.”

“Isso eu acho imposível. Deixar a mulher mais agressiva.”

Uma namorada de Thunder certa vez destruiu a porta de um carro que ele adorava a pontapés, numa crise de ciúme. Thunder, lembro, pagou um bom dinheiro para aquela namorada fazer análise. Mas não adiantou. Terminaram e foi ele quem teve que recorrer a um terapeuta.

“A FGM é culpada de muita coisa”, ele diz, engroladamente. “É um crime matar a possibilidade de prazer no sexo. A vida já é muito dura, Hernandez. Se a gente não pode ao mesmo gemer de vez em quando fica impossível.”

“Hmmm.”

“Mas nada pode deixar uma bxxxxx  mais agressiva do que a natureza. Nem a FGM.”

Certas palavras de Thunder não podem ser impressas.

“Hmmm.”

“Hernandez. Mulher que não é agressiva não é mulher. É drag queen.”

A conversa vai seguir desgovernada, como acontece quando Thunder está alcoolizado. Provavelmente ele vai chorar em algum momento e me dizer que posso sempre contar com ele, “meu irmão”. Vou dizer “hmmm” durante o papo e desligar feliz por ter ouvido meu amigo Thunder,

O desejo da mulher que veste burca

05/02/2010 por Fabio Hernandez
Tá certo proibir o uso?

Tá certo proibir o uso?

PEÇO UM instante da atenção de vocês para iniciar, ou reiniciar, uma discussão. A questão da burca, o véu islâmico. O governo francês quer proibir o uso em locais públicos. Alega que é um símbolo da opressão feminina. Um ministro francês disse que a intenção é aplicar uma multa na islâmica encapuzada. Um outro político disse que se sente “estigmatizado” porque não consegue ver a mulher com burca. (Como disse o Duque de Wellington, quem acredita nisso acredita em tudo.)

Pois bem. Vi, em vídeos, depoimentos de mulheres francesas que usam burca. Uma delas diz que ao usá-la se sentiu livre do machismo dos homens, que olham para a mulher como um objeto e, quando ela envelhece, viram o rosto.

É um ponto.

A Naomi Wolf, a escritora neofeminista, disse uma coisa interessante. Ela falou que viajou para países islâmicos e conversou com mulheres em rodas fechadas. Basicamente, o que ela disse é que a burca não suprime a sexualidade, ao contrário do que muitos ocidentais pensam. Apenas estabelece uma divisão entre o público e o privado, e canaliza a sexualidade da mulher para o marido e o casamento. (A  burca é para a mulher casada, e ela é usada fora de casa. Isso, claro, para as muçulmanas adeptas. Não são todas.)

Alguém disse também não ver muita diferença entre o hábito de uma freira católica e os véus muçulmanos.

Nenhuma discussão que envolva a mulher. no mundo de hoje, é tão intensa como esta travada em torno da burca.

Vou fazer uma pergunta para iniciar a sessão. Que mulher é mais objeto de um homem: a que veste burca ou a que não veste nada, como esta abaixo?

A mulher de cima ou esta aqui é objeto?

O Direito à Preguiça em 10 frases históricas

04/02/2010 por Fabio Hernandez

Preguiçosos em tudo, exceto em amar e beber

JÁ VI que o tema do trabalho interessa. Então publico aqui dez trechos de um clássico sobre o assunto, O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue.  Que era genro do Marx, mas isso não vem ao caso. Foi escrito em 1880, mas tem uma estranha atualidade. Lafargue tinha que ser francês, claro. Seu livro foi uma resposta a um outro que proclamava o Direito ao Trabalho.

1) “Sejamos preguiçosos em tudo, exceto em amar e em beber, exceto em sermos preguiçosos.”

2)”O trabalho é a causa de toda a degenerescência intelectual, de toda a deformação orgânica. Comparem o puro-sangue das cavalariças de Rothschild, servido por uma criadagem de bímanos, com a pesada besta das quintas normandas que lavra a terra, carrega o estrume, que põe no celeiro a colheita dos cereais.”

3)” Os filósofos da antigüidade ensinavam o desprezo pelo trabalho, essa degradação do homem livre; os poetas cantavam a preguiça, esse presente dos Deuses.”

4)”Jeová, o deus barbudo e rebarbativo, deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça ideal; depois de seis dias de trabalho, repousou para a eternidade.”

5)”O provérbio espanhol diz: Descansar es salud (Descansar é saúde).”

Ele contemplava

6) “A nossa época é, dizem, o século do trabalho; de fato, é o século da dor, da miséria e da corrupção.”

7) “Introduzam o trabalho de fábrica, e adeus alegria, saúde, liberdade; adeus a tudo o que fez a vida bela e digna de ser vivida.”

8  )”Que se proclamem os Direitos da Preguiça, milhares de vezes mais nobres e sagrados do que os tísicos Direitos do Homem; que as pessoas se obrigue a trabalhar apenas três horas por dia, a mandriar e a andar no regabofe o resto do dia e da noite”

9) “O  trabalho desenfreado é o mais terrível flagelo que já  atacou a humanidade.”

10) “A paixão cega, perversa e homicida do trabalho transforma a máquina libertadora em instrumento de sujeição dos homens livres: a sua produtividade empobrece-os.”

Viver do trabalho é bom, mas morrer do trabalho é um erro

03/02/2010 por Fabio Hernandez

O triunfo da boa vida

RECEBO a visita de meu primo Juan Hernandez. Publicitário. Não que seja preguiçoso, não é. Mas está longe também de ser um soldado da companhia que se voluntaria. Vamos colocar assim: profissionalmente, é um francês. Você pode varar Paris as 24 horas do dia que não vai encontrar ninguém de laptop trabalhando num café. Café e bar são para beber, conversar, flertar para o francês. O trabalho acaba às 5 e ponto. Revoir.

Juan tem o espírito profissional do francês mesmo tendo ascendência caribenha, como eu.

“Meu chefe é um maluco”, Juan me disse. Tratou antes de conversar de pegar uma Guiness na geladeira. “Ele pensa que a vida é trabalhar, trabalhar e ainda trabalhar.”

“Quase todo chefe pensa o mesmo”, eu disse. “Ou não seria chefe.”

“Mas há chefes e há o meu chefe, Fabito.” Ele me chama de Fabito, não sei por quê. É a única pessoa que me chama assim. “Sabe o que ele me disse outro dia? Que se orgulha de não ter ido ao enterro do avô porque tinha que trabalhar.”

“Imagino que um dia ele vá ter vergonha disso, se não for um idiota completo”, eu disse. “Ou vai olhar para os netos e saber que eles não vão segurar a alça na última homenagem.”

Quem glamourizou no Brasil a idéia de prioridade absoluta para o trabalho foi o Grupo Garantia, que depois de vôos espetaculares quebrou no ramo financeiro e acabou se dando bem, com outro nome, no território rústico da indústria cervejeira. Era e é  um conceito importado dos Estados Unidos. Visto o declínio americano, não deve funcionar tão bem assim esse modelo. Os banqueiros americanos estão atolados em dívidas e em antidepressivos.

Juan me olhou com ares visionários, depois de tomar um gole interminável de sua Guiness.

” Ele não vai viver o bastante para ter netos”, disse.

É uma possibilidade real, refleti. Conheci muitos casos de pessoas que morreram de tanto trabalhar, e deixaram órfãos, viúvas e um dinheiro não aproveitado. Viver do trabalho é bom, mas morrer do trabalho é uma pena. Miro Juan a caminho da geladeira, para pegar mais uma Guiness, e gosto de saber que ele não vai morrer de tanto trabalhar, com certeza.

Parabéns por me trair, querida

02/02/2010 por Fabio Hernandez
"Boa escolha, amor"

"Boa escolha, amor"

OLHA. NÃO VOU dizer que é bom e nem ruim. Apenas é diferente. Os ingleses lidam com a traição de um modo único. Acaba de sair um livro em que uma historiadora, Antonia Fraser, conta o caso de amor que teve com o dramaturgo Harold Pinter, morto em 2008 e Nobel de Literatura três anos antes. Eram ambos casados e houve um tremendo falatório nos círculos intelectuais de Londres.

Quando Antonia foi contar ao marido que estava apaixonada por Pinter, ouviu dele, Hugh Fraser, um parlamentar do Partido Conservador, o seguinte comentário: “É o melhor teatrólogo do mundo no momento. Uma escolha adequada.” Quando os dois homens afinal de encontraram, travaram uma demorada conversa em torno do críquete, de assuntos de política internacional e de Proust.

Isso me fez lembrar de outra história de amor à inglesa. Eric Clapton, por um tempo, frequentou a casa de George Harrison pretensamente por razões musicais e de amizade. Na verdade, estava dando em cima de Patti, a mulher de George. (A Layla de Clapton é Patti.) Patti resistiu por um tempo, mas uma hora cedeu. Foi embora para viver (miseravelmente) com Clapton. (Que depois pegaria Carla Bruni, que pegaria Mick Jagger, parte da Itália e da França e, mais recentemente, Sarkozy.)

Um dia, em plena separação, tocam a campainha e Clapton vai atender. É George, o amigo enganado. Tem um revólver na mão. Aperta o gatilho. Era água. Os dois não deixaram de ser amigos, ao contrário. O espetáculo no Royal Albert Hall em homenagem a George, morto aos 58 anos em 2001, foi comandado por Clapton.  No palco estava Dani, o filho de George com a segunda mulher, Olívia. (Para dar uma filosofada, eu diria que, sem que Clapton levasse Patti, George não teria tido Dani, a sua cara, e nem Olívia,  que segundo os relatos foi uma grande companheira nos momentos duros dele, às voltas com um cãncer provocado pelo cigarro. Mas aqui não é filosofia.)

Nestes dias, um escândalo sexual agita o futebol inglês. John Terry, o capitão da seleção da Inglaterra, casado com sua namorada de adolescência e Pai do Ano em 2009, finalizou, como dizem os cafas, a mulher de um amigo, Wayne Bridge. Ele também é da seleção e os dois casais eram amigos de sair juntos.

A grande indagação é se Terry vai … continuar a ser capitão. É este o drama maior: Terry merece a posição de capitão do selecionado? Quem não é inglês não entende. Tévez, por exemplo, argentino maloqueiro, colocou no último jogo, por baixo da camisa do Manchester, uma camiseta em que dizia ser do “Time do Bridge”. Tévez é tango e fúria, os ingleses são músicas regionais no ukelele e um espírito blasé.

Não estou dizendo que é melhor ou pior. Apenas é assim o jeito inglês.

O sexo e o budismo

31/01/2010 por Fabio Hernandez

Talvez, anos depois desta foto, seja a hora para meditação

CATHERINE MILLET. Conhece? Uma cinquentona francesa que, basicamente, deu para todo mundo e contou. Ela escreveu um livro em que narrava suas múltiplas, e ponha múltiplas aí, aventuras sexuais. A capa você vê aí em cima. Tremendo sucesso. O amante depois faturou também. Publicou um livro com as fotos de sua mulher nua. Mais um sucesso. O casal explorou muito bem o sexo. Voilà.

Não comprei o livro do marido, mas, se não me engano, li o livro de Millet. Não tenho certeza, o que significa o seguinte: se li, perdi tempo e não recomendo. Mas não tive como não me inteirar com a vida dela, contada na época em tudo que era jornal e revista. Interessante como mesmo em nossos tempos você  descrever sua vida sexual num livro é uma fórmula precisa de sucesso. As pessoas estão mais conectadas virtualmente num computador do que nos órgãos sexuais reais, blogam bem mais do que copulam, mas um livro de coitos todo mundo compra.

Pois a francesa voltou, vejo num jornal estrangeiro. Escreveu novas memórias. Que começam com a descoberta, no computador, de que seu marido tinha tido alguns casos. Ela é tomada de um ciúme feroz. O nome do livro é exatamente este, Ciúme. Liga para ele e cobra explicações. O cara avisa que ao chegar em casa vai contar tudo e conta.

O que me chamou a atenção, ao ver a resenha no jornal, foi a cara de pau da velhota francesa. Quem encara o sexo de uma maneira tão natural como ela está moralmente impedido de ciúme sexual. Para viciados em sexo, o ato do coito é tão primitivo e instintivo como respirar ou andar. Como, portanto, ter ciúme de quem anda ou respira?

Pode ser que ela esteja desejando vender mais livros. É uma possibilidade.

Está dito na resenha que ela parou de ter orgasmos ao se masturbar depois que soube das amantes do marido. Exceto ao imaginá-lo, de costas, penetrando-as com fúria. O quê? Extraordinaire.  Me ocorreu imediatamente a bunda chacoalhante, medonha de Willem Dafoe em O Anticristo. Uma visão pavorosa.  Reforçou minha absoluta convicção de que, se nascer mulher em outra vida, serei lésbica.

Há, em toda mulher, uma idade de fazer amor e uma idade de fazer meditação transcedental. (Nos homens também, um pouco depois.) Conheci algumas mulheres que, depois de terem feito sexo quase como Madame Millet, se tornaram monjas de ordens budistas e estão aí fazendo casamentos budistas, palestras etc.

Talvez fosse um bom caminho para ela. Budismo também vende bem em livros.

Ninguém é punido por esse crime sexual contra a mulher

27/01/2010 por Fabio Hernandez

Como isso pode acontecer?

FALAMOS OUTRO DIA de O Anticristo, o filme de Lars von Trier em que somos obrigados a ver a bunda de Willem Dafoe mais do que gostaríamos. O que eu não disse foi o seguinte: a cena em que fechei os olhos (uma das, ok) foi aquela em que a mulher pega uma tesoura e, num desvario sexual alucinado, corta o clitóris como se estivesse cortando unha.

Ela estava se punindo pelo prazer que a fizera, na cópula desvairada com o marido pouco tempo antes, perder de vista o filhinho do casal. Que despenca da janela.

Bem, dando uma olhada no noticiário, vejo que no encontro anual de líderes mundiais em Davos, na Suíça, haverá um painel para discutir um assunto tratado pelas iniciais: FMG. Vou ver o que é e descubro que é Female Mutilation Genital, mutilação genital feminina. MGF, então. A extração do clitóris, em outras palavras. No filme, a própria mulher tirou sua fonte de prazer sexual, mas na vida real não é isso que acontece. É algo que se impinge.

Entre nós, brasileiros, não é um tema feminino presente nas discussões, ou estou errado? Mas no mundo é. Sobretudo na África e no Oriente, é comum a MGF, e já na infância, como se vê no perturbador quadro acima. Por trás disso, está a visão do sexo como pecado, aliada ao cinismo de dizer que é o equivalente da circuncisão masculina. É uma contradição monstruosa essa visão. Se o sexo não fosse prazeroso, a espécie humana estaria extinta há muito tempo. Nossos ancestrais teriam passado todas as noites jogando baralho e depois roncando, e nenhum de nós estaria aqui. De resto, em sua sabedoria acachapante e indiscutível, a natureza tem sempre razão. Se fez homens e mulheres em idade de procriação se olharem de forma diferente, tinha seus motivos. Não fosse o sexo e nenhum santo existiria. São Paulo, São Pedro, Santo Agostinho, nenhum deles teria oportunidade de fazer as coisas boas que lhes trouxeram a santidade póstuma.

As brasileiras, ao contrário de tantas outras mulheres em outras partes, estão livres do terror da MGF. É uma sigla que jamais vi no Brasil, aliás. Alguém viu? Imagino, porém, que de alguma forma as brasileiras sejam solidárias ao sofrimento alheio. Não correr o risco da tesoura errada (ou da faca errada) no lugar errado na hora errada pelos motivos errados é uma benção. Se eu fosse mulher (e nesse caso provavelmente seria lésbica), estaria pensando agora como é bom ser brasileira.

Quando o sexo mata

24/01/2010 por Fabio Hernandez
Bom, mas perigoso

Bom, mas perigoso

LI, NO BLOG de um amigo, uma análise sobre O Anticristo, de Lars von Trier, um cara que faz filmes originais, inventivos e provocadores. No blog está escrito que é um filme que, ao contrário do que muitos críticos disseram, defende o sexo moderado, e não alucinado como o que pratica o casal interpretado por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg.

Vi O Anticristo e recomendo, mesmo que em certas passagens convenha fechar os olhos ou ir ao microondas preparar pipoca deixando o filme correr. E é mesmo paradoxal: embora haja muito sexo (incluído logo no começo um pênis intumescido, para usar um adjetivo digno de Alexandre Herculano), o que Trier diz é que a virtude está no meio, conforme a tese clássica de Aristóteles.  Nem avaro nem pródigo, nem humilde nem arrogante, nem desleixado nem escravo do espelho.

Sexo desvairado pode matar inocentes, mostra O Anticristo. Um minuto para o trailer:

A trama gira em torno de um casal que numa sessão de cópula frenética está tão entregue à luxúria que negligencia seu bebê, que sai do berço e acaba despencando da janela rumo à morte na calçada distante e esbranquiçada pela neve. Eles vão convalescer no mato, e o sexo fica ainda mais animal, e então o horror se instala definitivamente. É um filme que poderia ser mostrado com as devidas explicações e certos cortes, numa sala de aula, como parte da educação sexual dos adolescentes. Prestem atenção para que isso não aconteça com vocês, diria no fim a professora de óculos e camisa abotoada até o último botão.

E no entanto foi tomado por muita gente como obsceno. Anais Nin escreveu que, uma vez você iniciado no sexo anormal, é difícil retornar ao normal. Trier, em O Anticristo, diz que você deve pensar bem antes de levar sua vida sexual a extremos como, sei lá, David Carradine, que se enforcou involuntariamente na busca do êxtase pela auto-asfixia erótica e ficou pateticamente pendurado pelado pelo pescoço. Pode parecer careta, moralista, mas é verdade.

Os homens, as mulheres e a Tríade Sinistra

22/01/2010 por Fabio Hernandez
Todas querem caras assim

Todas querem caras assim?

TRÍADE SINISTRA, para mim, era Hitler. Stálin e o Muro de Berlim. Mas há poucos dias soube que existe um significado sexual e evolucionista para esta expressão. Tríade Sinistra é uma espécie de ordem masculina da qual o patrono é James Bond. A má notícia para integrantes da Tríade Sinistra, segundo alguns estudiosos, é que eles são narcisistas, manipuladores e sociopatas. A boa é que eles pegam todas. Fazem muito mais sucesso, entre as mulheres, que nós, os bem-intencionados. James Bond, por exemplo. Seu divertimento predileto é matar pessoas enquanto brinca de salvar o mundo. Só quer, como um legítimo cafa, finalizar mulheres exuberantes para logo depois levantar as calças e mais uma vez defender a humanidade de vilões que por mais que se empenhem chegarão mortos ao fim do filme. Nenhuma resiste a ele. Não porque o cinema coloque em sua pele galãs como Sean Connery ou Daniel Craig, segundo alguns cientistas, mas porque ele tem em dose extraordinária todos os ingredientes da Tríade Sinistra.

Os bonzinhos desde sempre suspeitam que os caras maus ganham muito mais mulheres que eles. É uma lenda urbana global e milenar. Segundo essa lenda, as coisas funcionam mais ou menos assim. O bonzinho serve de ombro e lenço de papel quando a mulher que o desprezou sofre pelo canalha indiferente. Um exemplo recente me ocorre. O jovem cafa irlandês que pegou um dinheiro da velha e assanhada primeira dama que sequer era dela. Me chamou a atenção, numa entrevista que ele concedeu a uma televisão, o sorriso cínico que ele em vão tentou esconder quando disse ao repórter como ela o tratava. Ela terminou numa clínica de repouso mental, depois de tentar se matar quando o irlandês adolescente deu bota com a desculpa de que sofria de câncer no testículo; e ele terminou no café legal que abriu em Belfast com o dinheiro que a amante despachada lhe deu. O marido, um bonzinho clássico que se apressou em perdoar publicamente e aproveitou para avisar ao mundo que jamais a traíra em 30 anos de casamento, serviu com certeza de ombro e lenço de papel depois da  brutal notícia do câncer no testículo que sua mulher recebeu do amante debochado.

Para usar este exemplo no desdobramento inevitável. O drama da mulher que se rende aos Condes Vronskis –  outro símbolo ilustre da Tríade Sinistra, o irresistível canalha russo pelo qual Ana Karenina largou marido e filho para depois se atirar sob um trem  –  o drama ,eu dizia, é que, mal terminaram os gemidos alucinados, o cara já está pensando em outra. O pós-coito, para o cafa, é  o tempo exíguo de planejamento da próxima conquista predatória sexual. Os ambíguos cavaleiros da Tríade Sinistra são romanticamente instáveis como um asfalto durante um terremoto. Enfeitiçam, derrubam e partem, e consideram cumprida sua missão. Deixam o palco para que o bonzinho faça o que se espera dele. Seque as lágrimas e suporte, paciente e solidário como um eremita hindu, o desabafo massacrante.

É uma expressão assustadora, Tríade Sinistra. E de certa forma coloca homens e mulheres em situações estereotipadas. Mas quantas histórias você já viu e viveu que se encaixam nessa tese?

‘Todo o mal que me fizeram não se compara ao mal que eu mesmo fiz a mim’

20/01/2010 por Fabio Hernandez
Uma foto que mostra a forma física e mental

Uma foto que mostra a forma física e mental

HÁ UM TEMPO para nascer e um tempo para morrer, está escrito no Eclesiastes, uma das passagens mais bonitas da Bíblia. Bem como há um tempo para chegar e há um tempo para partir. Assim são as coisas.

Sempre reflito sobre o Eclasiastes, e citei-o ao longo do caminho um sem número de vezes. Sou um obsessivo nas minhas referências, de Gatsby ao Conde Vronsky, de Judite a Betsabá, de Capitu a Muhammad Ali, de Lennon a McCartney, de Klimt a Hopper, de Leone a Woody Allen, de Marco Aurélio a Sêneca, de Montaigne a Epicuro, de meu pai a meu tio. (Que saudade do Papai!)

A sabedoria eterna do Eclesiastes ensina você a aceitar que há uma fase para tudo. Pensei nisso quando vi esta foto de Ivana Trump, ex-mulher de Donald. Ivana, aos 60 anos, está participando de um reality show com celebridades nos Estados Unidos, e nesta foto ela revelou ao mundo sua forma física e, por que não, mental. Roupa íntima, barriga encolhida mas não o suficiente, salto alto, mãos para cima para ajudar no equilíbrio precário das coisas.

É uma mulher rica, mas todo o seu dinheiro e mais o do ex-marido não compram o que ela mais gostaria: 30 anos a menos, sendo que por unzinho só subtraído ela com certeza usaria sem misericórdia o cartão de crédito.

A foto, longe de ajudar a causa das sexagenárias em busca de um fogo que a natureza põe e tira na hora certa, atrapalhou ainda mais. Essa causa já tinha sido abalada, antes dessa foto, pela derrapagem sentimental da primeira dama da Irlanda do Norte, Iris Robinson, que enganou o marido e a si própria ao derrubar um adolescente que só se livrou dela ao alegar câncer no testículo. (Esta é, desde já, uma séria candidata ao título de Desculpa do Ano. Com certeza outros garotos assediados por mulheres que poderiam ser sua avó utilizarão o câncer no testículo. Até que uma senhora mais desconfiada peça um exame que comprove, muitos enroscos serão desatados por garotos espertos e enfastiados.)

Para a mulher, como para o homem, é verdade,  há um tempo para mostrar o corpo e outro para ocultar, ou, na hipótese mais benigna, exibi-lo sob luzes adequadas, ao estilo das boates de antigamente. Sob os quilowatts adequados, a imaginação pode se sobrepor à crua realidade, e então estará tudo bem. As muçulmanas mais ortodoxas não têm este problema, uma vez que a burca esconde primeiro a beleza e depois o declínio. Mas as ocidentais não têm a burca, e não querem. Portanto, a solução não está no guarda-roupa, mas na mente sadia que permite ver o momento de acelerar e o de frear.

A burca resolve a questão para as muçulmanas

A burca resolve a questão para as muçulmanas, mas não para as ocidentais

As leitoras aqui deveriam guardar esta foto e, de tempos em tempos, olhá-la e dizer para si mesmas: “Juro que nunca, jamais, farei isso comigo mesma.” Oscar Wilde escreveu o seguinte: “Todo o mal que me fizeram não se compara ao mal que eu próprio fiz para mim.”  O próprio Wilde foi para a cadeia ao se atirar, como Mrs Robinson, aos braços de um garotão e abandonar a mulher e os filhos no moralismo vitoriano que reinava em seu tempo na Inglaterra. Ivana Trump, neste animado e espalhafatoso desfile atrasado algumas décadas, se encaixa muito bem na frase sábia de Wilde.