Archive for Fevereiro, 2007

A prontidão romântica

23/02/2007

Revejo Gatsby. O Gatsby do grande F. S. Fitzgerald. Ele vai atrás de seu amor da mocidade, Daisy, uma das mulheres mais deslumbrantes e mais cínicas da história da literatura. Gatsby, com sua patética e sublime “prontidão romântica”, para usar as palavras de Fitzgerald, encontra não seu amor perdido, mas a hipocrisia traiçoeira, fatal e frívola de uma mulher movida pelo dinheiro. Sei lá. Fico aqui pensando. Pensando na estranha beleza das desesperadas jornadas pela paixão passada, como a de Gatsby, um dos personagens literários mais amados e admirados por mim. Me pergunto se ele iria ao encontro de Daisy, tantos anos depois, se soubesse o que o aguardava. E tendo a achar que sim. As palavras finais do livro me perturbam ainda hoje: estamos sempre remando contra a corrente, sempre, sempre, sempre.

Sexo zen

23/02/2007

Na filosofia zen você simplesmente faz as coisas sem pensar nelas. Não se governa, não se censura, não se policia. Simplesmente faz. A mente livre de perguntas, inquietações, aflições. O melhor sexo é o que tem o espírito zen. A gente apenas faz. Sem cálculos, sem afetações, sem teatro. Com a mesma naturalidade com que abrimos os olhos ao acordar.

É mais fácil não começar do que terminar

22/02/2007

Tolstoi disse que as famílias felizes se parecem, mas as famílias infelizes são infelizes cada qual a sua maneira. É uma frase célebre e que abre Anna Karenina, um dos maiores romances jamais escritos. Anna é, ao lado de Capitu, de Machado de Assis, a adúltera mais fascinante da literatura. As duas se entregaram: Anna, ao ficar em estado de choque quando seu amante nobre, Vronski, caiu do cavalo numa corrida. Capitu, ao mostrar dor maior que a da viúva no velório do amante, Escobar, melhor amigo de seu marido. Anna terminou sob as rodas de um trem, num suicídio. Capitu, de olhos oblíquos e dissimulados, foi repudiada pelo marido e morreu solitária no abandono europeu. Nem Tolstoi nem Machado trataram bem sua formidáveis adúlteras. Um filósofo escreveu que é mais fácil não começar do que terminar. Para as duas, teria sido definitivamente mais fácil não começar uma história fora do casamento.

O ponto: algumas relações amorosas é mais fácil não iniciá-las do que terminá-las.

Morrer de Amor

22/02/2007

Li, numa revista inglesa, que foi lançada mais uma biografia do grande poeta russo Pushkin. Pushkin, que praticamente inventou a literatura russa, morreu de amor. De amor por Natasha, sua mulher. Natasha era conhecida como a mais bela mulher de São Petersburgo. Na minha imaginação desinformada, vejo-a como uma morena de pele clara como o teclado de um piano e olhos com o brilho hipnotizador de um par de diamantes. Um imprestável e charmoso exilado francês, que vivia do dinheiro fácil de um homossexual rico, se aproximou perigosamente de Natasha. Pushkin desafiou-o para um duelo. O que torna tudo mais absurdo é que ele já ridicularizara, em sua obra, o ato de duelar. O amante de Natasha era um atirador exímio. Pushkin, ainda hoje adorado pelos russos, agonizou alguns dias antes de morrer de amor, alcançado pela bala mortífera do francês canalha. Era 1837 e ele tinha 37 anos.

O coração partido matou o grande Pushkin. A história desse gênio russo me comove, tantos anos depois e a tantos quilômetros de distância. Não existe morte mais gloriosa do que a morte por amor. E também não existe forma mais sublime e definitiva de amor do que aquele que, como o de Pushkin por Natasha, faz morrer.

Os opostos se opõem

15/02/2007

Uma das teses amorosas mais tolas que existem é a dos opostos que dão certo. Duas pessoas diferentes se completariam e, como nas novelas mexicanas ou na Caras, viveriam uma lua de mel que só terminaria no cemitério. Os contrários se atraem, dizem os defensores dessa tese. Pois tudo que vi e vivi me fez convicto do seguinte: os contrários se repelem. Não existe mais maneira mais eficaz de conseguir uma relação frustrante do que dar seu braço a uma pessoa diferente, na essência, de você. Há uma sabedoria na união de pessoas parecidas. Até na idade. Homem velho e mulher jovem, por exemplo, é uma cena patética. Bem como mulher velha com homem jovem. Já pedi a meus amigos: se um dia me virem com uma mulher muito mais jovem, favor me internar. Fiquei maluco.

Você é tudo para mim

15/02/2007

A Mulher do Lado, de Truffaut. Para mim, é o melhor filme sobre o amor que já foi feito. O mais perturbador, o mais surpreendente, o mais poético. E o mais cruelmente veraz. Um homem e uma mulher que tiveram uma paixão destruidora se encontram tempos depois. Ambos estão casados. Mas reatam a ligação. A mesma carga neurótica logo reaparece. Numa cena, a mulher diz para que o homem que as músicas que falam melhor sobre o homem são as mais simples. Porque elas expressam com clareza, sem rebuscamentos, sem artificialiamos literários, os sentimentos que nos tocam de verdade. Eu sinto falta de você. Eu tenho medo de perder você. . Coisas assim. Palavras majestosamente banais ou banalmente majestosas.

Eu, meu, minha

15/02/2007

Meu Tio Fabio, um homem sábio do interior, certa vez me disse o seguinte. Mantenha distância de mulheres que usem muito as palavras “eu, meu, minha”. Prefira as que falem “nós, nosso, nossa”. Algumas vezes não segui esse conselho de Tio Fabio. Me dei mal. Topei com mulheres egocêntricas, para as quais pouca coisa importava além delas mesmas. A advertência de Tio Fabio se aplicaria perfeitamente também para as mulheres. Fosse eu Fabia, não Fabio, ele certamente diria para fugir de homens que despejam pela boca “eu, meu, minha”.

O teste do humor

13/02/2007

Acho que todo cara devia fazer um teste com a mulher antes de iniciar qualquer coisa mais séria com ela. O teste do bom humor. Devia pedir a ela para contar uma piada. Se ela for bem na prova, é o caso de seguir em frente. Se não, para citar um filósofo favorito, Sêneca, convém parar: é mais fácil não começar do que terminar. É mais fácil conviver com gente que sabe rir – sobretudo de si mesma — e fazer rir. No amor, o humor tem uma virtude lateral mas relevante: o riso torna a pessoa mais bonita e mais atraente. A carranca enfeia.

Não sou amigo de ex

13/02/2007

Eu confesso: não sou amigo de ex-namoradas. Ao contrário de outros caras, não faço o menor esforço para manter a amizade de quem saiu da minha cama, dos meus pensamentos e da minha agenda. Não é por raiva, não é por magia, não é por revanche. É simplesmente por desinteresse. O elo que nos uniu foi rompido na separação. Aquela contade de estar junto, de compartilhar as pequenas coisas do cotidiano, de trocar um olhar furtivo e cúmplice no meio da multidão perdeu-se. Torço e muito por todas as elas, deixo claro. Mas não sobra base nenhuma em cima da qual construir uma amizade. Quem já foi tudo para alguém é melhor que se transforme em nada, e não em pouco.

Preliminares

13/02/2007

Acho as preliminares – tais como são hoje, intermináveis – uma conquista feminina e uma derrota masculina. Naqueles dez, quinze, vinte minutos de contorcionismo de corpos, dedos e línguas, nós homens estamos escravizados pela idéia de agradá-las. É mentalmente extenuante. Você está com a língua ali onde você imagina mesmo, mas sua cabeça está tomada pela dúvida sobre se ela está gostando ou não. É claro que pagamos um preço pela exaustão psicológica. Às vezes, depois de dar a ela prazer, não obtemos nossa cota por falência de força.

O homem foi feito para chegar, penetrar e vencer. As mulheres menos egoístas entendem que as ações e as recompensas anteriores ao sexo competem, basicamente, a elas mesmas. Elas têm mãos, têm vibradores e, mais que tudo, têm imaginação para não nos impor uma obra servil. Podemos ficar ao lado e pacientemente esperar, talvez lendo um bom livro ou até, se isso for estimulante para ela, observando- Mas estou falando de um olhar contemplativo, em que não haja dispêndio de energia física ou mental. Um olhar bovino, em suma.

Sem bis

09/02/2007

Escrevo arrepiado. Vi Kurt Cobain num Ipod cantando a música que encerrou o acústico do Nirvana na MTV. Aquela em que ele pergunta para a mulher amada, num grito rouco e desesperado, onde ela passou a noite. Uma interpretação que para mim só tem paralelo, no rock, com Sid Vicious cantando My Way. KC não atendeu aos pedidos de bis naquele show. Aos amigos da banda disse que jamais conseguiria reproduzir o nível soberbo e arrebatador a que chegara naquela canção de dor e traição.

E então penso nos amores. Me pergunto, em mais uma reflexão barata de um escritor barato, se depois de subirmos a alturas sublimes não deveríamos, como Kurt Cobain, encerrar o espetáculo.

Melhor naquilo

09/02/2007

Ouvi certa vez: “Você me atirou para fora de sua vida com seu comportamento infantil, Fabio. E me atirou para os braços de outro homem. Bem melhor que você. Principalmente naquilo.”

Naquilo?

Um dos maiores terrores de um homem é que seu sucessor seja melhor que ele naquilo. O ideal seria que nossos sucessores fizessem tudo – cantar, escrever poesias, ganhar dinheiro, eventualmente até dar uns beijos. Menos aquilo.

O Grande Amor

09/02/2007

Almoço com uma antiga namorada. Leio nela raiva. Ela me odeia e eu aceito que seja assim. O grande amor só é grande amor se terminar em maldição eterna, dizia meu Tio Fabio, um homem sábio do interior.

Nem sempre vai ser assim

07/02/2007

Penso na dor dos amores perdidos. E penso numa fábula oriental. Mais ou menos assim: um rei pede ao homem mais sábio do reino que lhe escreva num papelzinho palavras para ler num momento de extrema aflição, um conforto da adversidade. O sábio cumpre a tarefa. Não muito tempo depois, o reino é invadido. O rei, sem saída, foge. Perdera tudo: poder, dinheiro, relevância. Ele então recorre ao bilhete do sábio. Ali está dito: “Nem sempre será assim”. O rei caído consegue, aos poucos, rearrumar suas forças. Retoma seu reino. E encontra o sábio. Ouve, agora no fausto reconquistado, no poder recuperado, mais uma vez a sentença: “Nem sempre será assim”.

A frase resume o perpétuo vai-e-vém das elevações e quedas, a inconstância da sorte, a fugacidade de tudo que acontece sob o sol. Todo homem arrasado pelo final de um amor deveria ter no bolso um papelzinho com a advertência do sábio oriental. O sofrimento aparentemente insuportável vai desaparecer. O que parecia ser um inverno eterno dentro de nós receberá a visita redentora do sol que avisa que o verão ou já chegou ou está aí. A tristeza que estávamos certos de ser imortal revela-se frágil e é batida por uma lufada cálida de alegria.

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Você é você

05/02/2007

Aristóteles falava do caminho do meio. Nem ser covarde e nem ser irresponsável. Nem ser agitado e nem ser preguiçoso. Assim por diante. Penso nas relações amorosas. A virtude, aí, também está no meio. Nem dar tudo, nem dar nada. Um casal deve dividir alegrias, angústias, posses, orgasmos e até peixinhos no aquário. Mas ninguém deve renunciar a ser o que é. Antes de sermos maridos, namorados, amásios ou o que for, somos nós mesmos. Com nossos pequenos gostos, nossos pequenos (ou grandes) vícios e virtudes. Quando deixamos de ser nós mesmos para agradar alguém, não somos mais nada. Trair a si própria é a mais abjeta das traições.

Triângulo Sagrado – 2

05/02/2007

Leio em alguns comentários objeções higiênicas à minha defesa da abundância natural dos pêlos das mulheres. O sexo é tanto pior quanto maior a preocupação com a higiene. Claro: os dois devem estar limpos, devem escovar os dentes antes. Mas convém não avançar demais. A amante de um czar russo lambia com sangrento prazer – como se fosse o melhor sorvete siberiano –o pênis de seu herói depois que ele a penetrava nos dias de menstruação. Alguém comentou, em meu texto anterior sobre o assunto, que corremos o risco de ficar com um pêlo púbico feminino na boca se estivermos com uma mulher que cultive o triângulo. Ora, existe troféu sexual mais fascinante do que este?