Archive for Março, 2008

Eu me lembro do vestido que flutuava como uma onda no chão sob seus joelhos

30/03/2008

Pedro estava na cama, entre livros e revistas. Dormira lendo A Praia, um romance interessante no qual um casal inglês tem problemas na lua de mel no começo dos anos 60, antes da pílula e da liberação sexual. Era cedo para ele, pouco mais de oito da manhã. Desde sempre Pedro fora um notívago, capaz de atravessar com facilidade uma madrugada numa redação. Tocou seu celular, e pelo toque personalizado ele sabia quem era.
“Carol?”
“Pedro. Ouve.”
Chegaram aos ouvidos de Pedro sons difusos de uma canção. Mas Pedro a reconheceu. Era um clássico de Donna Summer, MacArthur Park.
“Ouvi essa música e tive que ligar pra você, Pedro. Não é um pretexto. Eu simplesmente tinha que falar com você. Essa música. Puxa. Ela é a nossa história.”
Carol. A bela, filantrópica, inteligente e calculista mulher de um banqueiro que preferira o casamento a Pedro. Pedro entendera e apoiara a decisão de Carol, ainda que dolorida para ele. Um jornalista, ele era apenas um jornalista. Que futuro ele poderia oferecer a uma mulher como Carol, acostumada a uma vida cara? Uma vez, quando ele viu alguma dúvida nos olhos verdes e úmidos de Carol, lembrou a ela uma cena de Casablanca. Ilse, a heroína do filme, estava em dúvida entre o amor de sua vida, Rick, um homem desajustado que tocava um bar, e o seu marido, Victor, um ativista anti-Alemanha, no apogeu do nazismo. Rick diz a ela, vivida por Ingrid Bergman em sua deslumbrante beleza, para ficar com o marido. Era um cínico, um bêbado, mas mais que tudo um idealista que fingia não crer em nada. Rick sabia que era importante na luta contra o nazismo que Victor estivesse firme e resoluto na alma, e sem a mulher isso não aconteceria. “Você deve ir com ele”, disse Rick. “Se não for, vai-se arrepender, talvez não hoje e nem amanhã, mas em breve e para sempre.” Em breve e para sempre. Pedro gostava desta fala de Rick. Com essa fala ele convenceu Ilse a seguir com o marido.
“Por que essa é a nossa história?”
“A primeira linha, Pedro.”
Ele não se lembrava da primeira linha. Ela cantou para ele. Tinha uma voz não de cantora, mas agradável e afinada.
“Spring was never waiting for us, dear. It went one step ahead as we followed in the dance.” Carol estava certa. A primavera jamais esperara por eles, esteve sempre um passo adiante.
“Nós. Nós dois. Pedro. Nós não vivemos a primavera da nossa história. Jamais alcançamos. E eu quis tanto, Pedro. Você talvez ache que eu estou falando isso só porque me sinto culpada. Não é isso, Pedro?”
Não. Pedro acreditava na sinceridade de Carol.
“Pedro. Eu vi que você era feito para mim no dia em que você me deu um beijo no rosto depois de entrevistar o meu marido lá em casa. O arrepio que eu senti. Ah, Pedro, você pensa que isso acontece sempre na vida de uma mulher?”
Pedro se lembrou de uma expressão que lera num romance de Norman Mailer. Há uma única vez na vida de uma mulher em que um cara entra numa sala e parece a ela que um macaco está se mexendo em seu estômago.
“Você não errou, Carol. Foi só o tempo que errou. Cheguei na hora errada. A festa era à noite, e eu cheguei de manhã.”
Agora ele se lembrava quase que por inteiro da letra da música que fizera Carol telefonar para ele. Um verso parecia feito para Carol. I recall the yellow cotton dress floating like a wave on the ground beneath your kness. Me lembro de seu vestido amarelo de algodão flutuando como uma onda no chão sob seus joelhos. Uma vez foram ao Parque do Ibirapuera tomar sorvete na barraca de um italiano mal-humorado. Num determinado momento Carol se ajoelhou na grama, olhou para o céu, fechou os olhos e respirou fundo, como se estivesse meditando ou rezando. Seu vestido não era amarelo, e nem de algodão, mas também ele flutuou como uma onda ali no Ibirapuera.
“Pedro. Tem um verso que eu não sei se é uma metáfora, ou se é literal. Someone left the cake out in the rain. I dont think that I can take it cause it took so long to bake it, and Ill never have that recipe again. O que você acha?”
Alguém deixou o bolo na chuva. Não sei se vou suportar isso, porque me custou tanto fazer o bolo, e a receita está perdida para sempre. Mais ou menos isso. O que se perdera: o bolo mesmo num passeio a um parque, ou a receita de um amor único? O que o autor quisera dizer? Pedro preferia a hipótese romântica.
“Uma imagem. Quer dizer, acho que é.”
“Nós. Nós perdemos o bolo, Pedro?”
“Por que tantas perguntas difíceis, Carol? Por que você não me pergunta apenas se estou feliz?”
“Você está feliz, Pedro?”
“Sim, estou feliz. Feliz da melhor maneira possível.”
“Melhor maneira possível?”
“Brincadeira. Apenas estou feliz.” Pedro estava citando uma frase da peça Anjos na América. Uma mulher diz que está feliz da melhor maneira possível. “De mentirinha”.
“Pedro?”
“Carol?”
“A última frase. Eu também sempre vou me perguntar por quê.”
Ele riu. A frase final de MacArthur Park. After all the loves in my life, youll still be the one, and Il l ask myself why.” Depois de todos os amores de minha vida, você será sempre o maior, e eu me perguntarei por quê. Essa última pergunta era pungente. Por que um amor fracassa? O tempo sempre erra, como acontecera com Carol e Pedro?
“Eu também, Carol. Eu também vou me perguntar sempre por quê.”
“Pedro. Tenho que desligar. Vai começar uma reunião aqui na minha empresa. Jura que nunca vai me esquecer. Mesmo que você saia com cem mulheres. Jura que nunca vai me esquecer.”
“Como eu poderia te esquecer, Carol? Aquele vestido flutuando como uma onda no chão sob os seus joelhos dobrados. Como eu poderia esquecer você, Carol?”

Eu me lembro do vestido que flutuava como uma onda no chão sob seus joelhos

30/03/2008

Pedro estava na cama, entre livros e revistas. Dormira lendo A Praia, um romance interessante no qual um casal inglês tem problemas na lua de mel no começo dos anos 60, antes da pílula e da liberação sexual. Era cedo para ele, pouco mais de oito da manhã. Desde sempre Pedro fora um notívago, capaz de atravessar com facilidade uma madrugada numa redação. Tocou seu celular, e pelo toque personalizado ele sabia quem era.
“Carol?”
“Pedro. Ouve.”
Chegaram aos ouvidos de Pedro sons difusos de uma canção. Mas Pedro a reconheceu. Era um clássico de Donna Summer, MacArthur Park.
“Ouvi essa música e tive que ligar pra você, Pedro. Não é um pretexto. Eu simplesmente tinha que falar com você. Essa música. Puxa. Ela é a nossa história.”
Carol. A bela, filantrópica, inteligente e calculista mulher de um banqueiro que preferira o casamento a Pedro. Pedro entendera e apoiara a decisão de Carol, ainda que dolorida para ele. Um jornalista, ele era apenas um jornalista. Que futuro ele poderia oferecer a uma mulher como Carol, acostumada a uma vida cara? Uma vez, quando ele viu alguma dúvida nos olhos verdes e úmidos de Carol, lembrou a ela uma cena de Casablanca. Ilse, a heroína do filme, estava em dúvida entre o amor de sua vida, Rick, um homem desajustado que tocava um bar, e o seu marido, Victor, um ativista anti-Alemanha, no apogeu do nazismo. Rick diz a ela, vivida por Ingrid Bergman em sua deslumbrante beleza, para ficar com o marido. Era um cínico, um bêbado, mas mais que tudo um idealista que fingia não crer em nada. Rick sabia que era importante na luta contra o nazismo que Victor estivesse firme e resoluto na alma, e sem a mulher isso não aconteceria. “Você deve ir com ele”, disse Rick. “Se não for, vai-se arrepender, talvez não hoje e nem amanhã, mas em breve e para sempre.” Em breve e para sempre. Pedro gostava desta fala de Rick. Com essa fala ele convenceu Ilse a seguir com o marido.
“Por que essa é a nossa história?”
“A primeira linha, Pedro.”
Ele não se lembrava da primeira linha. Ela cantou para ele. Tinha uma voz não de cantora, mas agradável e afinada.
“Spring was never waiting for us, dear. It went one step ahead.” Carol estava certa. A primavera jamais esperara por eles, esteve sempre um passo adiante.
“Nós. Nós dois. Pedro. Nós não vivemos a primavera da nossa história. Jamais alcançamos. E eu quis tanto, Pedro. Você talvez ache que eu estou falando isso só porque me sinto culpada. Não é isso, Pedro?”
Não. Pedro acreditava na sinceridade de Carol.
“Pedro. Eu vi que você era feito para mim no dia em que você me deu um beijo no rosto depois de entrevistar o meu marido lá em casa. O arrepio que eu senti. Ah, Pedro, você pensa que isso acontece sempre na vida de uma mulher?”
Pedro se lembrou de uma expressão que lera num romance de Norman Mailer. Há uma única vez na vida de uma mulher em que um cara entra numa sala e parece a ela que um macaco está se mexendo em seu estômago.
“Você não errou, Carol. Foi só o tempo que errou. Cheguei na hora errada. A festa era à noite, e eu cheguei de manhã.”
Agora ele se lembrava quase que por inteiro da letra da música que fizera Carol telefonar para ele. Um verso parecia feito para Carol. I recall the yellow cotton dress floating like a wave on the ground beneath your kness. Me lembro de seu vestido amarelo de algodão flutuando como uma onda no chão sob seus joelhos. Uma vez foram ao Parque do Ibirapuera tomar sorvete na barraca de um italiano mal-humorado. Num determinado momento Carol se ajoelhou na grama, olhou para o céu, fechou os olhos e respirou fundo, como se estivesse meditando ou rezando. Seu vestido não era amarelo, e nem de algodão, mas também ele flutuou como uma onda ali no Ibirapuera.
“Pedro. Tem um verso que eu não sei se é uma metáfora, ou se é literal. Someone left the cake out in the rain. I don�t think that I can take it cause it took so long to bake it, and I�ll never have that recipe again. O que você acha?”
Alguém deixou o bolo na chuva. Não sei se vou suportar isso, porque me custou tanto fazer o bolo, e a receita está perdida para sempre. Mais ou menos isso. O que se perdera: o bolo mesmo num passeio a um parque, ou a receita de um amor único? O que o autor quisera dizer? Pedro preferia a hipótese romântica.
“Uma imagem. Quer dizer, acho que é.”
“Nós. Nós perdemos o bolo, Pedro?”
“Por que tantas perguntas difíceis, Carol? Por que você não me pergunta apenas se estou feliz?”
“Você está feliz, Pedro?”
“Sim, estou feliz. Feliz da melhor maneira possível.”
“Melhor maneira possível?”
“Brincadeira. Apenas estou feliz.” Pedro estava citando uma frase da peça Anjos na América. Uma mulher diz que está feliz da melhor maneira possível. “De mentirinha”.
“Pedro?”
“Carol?”
“A última frase. Eu também sempre vou me perguntar por quê.”

Eu me lembro do vestido que flutuava como uma onda no chão sob seus joelhos

30/03/2008

Pedro estava na cama, entre livros e revistas. Dormira lendo A Praia, um romance interessante no qual um casal inglês tem problemas na lua de mel no começo dos anos 60, antes da pílula e da liberação sexual. Era cedo para ele, pouco mais de oito da manhã. Desde sempre Pedro fora um notívago, capaz de atravessar com facilidade uma madrugada numa redação. Tocou seu celular, e pelo toque personalizado ele sabia quem era.
“Carol?”
“Pedro. Ouve.”
Chegaram aos ouvidos de Pedro sons difusos de uma canção. Mas Pedro a reconheceu. Era um clássico de Donna Summer, MacArthur Park.
“Ouvi essa música e tive que ligar pra você, Pedro. Não é um pretexto. Eu simplesmente tinha que falar com você. Essa música. Puxa. Ela é a nossa história.”
Carol. A bela, filantrópica, inteligente e calculista mulher de um banqueiro que preferira o casamento a Pedro. Pedro entendera e apoiara a decisão de Carol, ainda que dolorida para ele. Um jornalista, ele era apenas um jornalista. Que futuro ele poderia oferecer a uma mulher como Carol, acostumada a uma vida cara? Uma vez, quando ele viu alguma dúvida nos olhos verdes e úmidos de Carol, lembrou a ela uma cena de Casablanca. Ilse, a heroína do filme, estava em dúvida entre o amor de sua vida, Rick, um homem desajustado que tocava um bar, e o seu marido, Victor, um ativista anti-Alemanha, no apogeu do nazismo. Rick diz a ela, vivida por Ingrid Bergman em sua deslumbrante beleza, para ficar com o marido. Era um cínico, um bêbado, mas mais que tudo um idealista que fingia não crer em nada. Rick sabia que era importante na luta contra o nazismo que Victor estivesse firme e resoluto na alma, e sem a mulher isso não aconteceria. “Você deve ir com ele”, disse Rick. “Se não for, vai-se arrepender, talvez não hoje e nem amanhã, mas em breve e para sempre.” Em breve e para sempre. Pedro gostava desta fala de Rick. Com essa fala ele convenceu Ilse a seguir com o marido.
“Por que essa é a nossa história?”
“A primeira linha, Pedro.”
Ele não se lembrava da primeira linha. Ela cantou para ele. Tinha uma voz não de cantora, mas agradável e afinada.
“Spring was never waiting for us, dear. It went one step ahead.” Carol estava certa. A primavera jamais esperara por eles, esteve sempre um passo adiante.
“Nós. Nós dois. Pedro. Nós não vivemos a primavera da nossa história. Jamais alcançamos. E eu quis tanto, Pedro. Você talvez ache que eu estou falando isso só porque me sinto culpada. Não é isso, Pedro?”
Não. Pedro acreditava na sinceridade de Carol.
“Pedro. Eu vi que você era feito para mim no dia em que você me deu um beijo no rosto depois de entrevistar o meu marido lá em casa. O arrepio que eu senti. Ah, Pedro, você pensa que isso acontece sempre na vida de uma mulher?”
Pedro se lembrou de uma expressão que lera num romance de Norman Mailer. Há uma única vez na vida de uma mulher em que um cara entra numa sala e parece a ela que um macaco está se mexendo em seu estômago.
“Você não errou, Carol. Foi só o tempo que errou. Cheguei na hora errada. A festa era à noite, e eu cheguei de manhã.”
Agora ele se lembrava quase que por inteiro da letra da música que fizera Carol telefonar para ele. Um verso parecia feito para Carol. I recall the yellow cotton dress floating like a wave on the ground beneath your kness. Me lembro de seu vestido amarelo de algodão flutuando como uma onda no chão sob seus joelhos. Uma vez foram ao Parque do Ibirapuera tomar sorvete na barraca de um italiano mal-humorado. Num determinado momento Carol se ajoelhou na grama, olhou para o céu, fechou os olhos e respirou fundo, como se estivesse meditando ou rezando. Seu vestido não era amarelo, e nem de algodão, mas também ele flutuou como uma onda ali no Ibirapuera.
“Pedro. Tem um verso que eu não sei se é uma metáfora, ou se é literal. Someone left the cake out in the rain. I don�t think that I can take it cause it took so long to bake it, and I�ll never have that recipe again. O que você acha?”
Alguém deixou o bolo na chuva. Não sei se vou suportar isso, porque me custou tanto fazer o bolo, e a receita está perdida para sempre. Mais ou menos isso. O que se perdera: o bolo mesmo num passeio a um parque, ou a receita de um amor único? O que o autor quisera dizer? Pedro preferia a hipótese romântica.
“Uma imagem. Quer dizer, acho que é.”
“Nós. Nós perdemos o bolo, Pedro?”
“Por que tantas perguntas difíceis, Carol? Por que você não me pergunta apenas se estou feliz?”
“Você está feliz, Pedro?”
“Sim, estou feliz. Feliz da melhor maneira possível.”
“Melhor maneira possível?”
“Brincadeira. Apenas estou feliz.” Pedro estava citando uma frase da peça Anjos na América. Uma mulher diz que está feliz da melhor maneira possível. “De mentirinha”.
“Pedro?”
“Carol?”
“A última frase. Eu também sempre vou me perguntar por quê.”

Cerimônia de adeus

26/03/2008

A vida de um homem é dominada por dois ou três acontecimentos fundamentais. Não mais que isso. Um dos personagens literários mais notáveis do século passado, Harry Angstron, o Coelho, vivia preso aos dias de glória como jogador universitário de basquete. A morte afinal o encontrou, já alquebrado pelo longo passar dos anos e com o coração avariado como um velho motor retificado, na tentativa de fazer uma última cesta numa quadra pública de uma rua qualquer dos Estados Unidos. (Acho um absurdo que o criador do Coelho, o americano John Updike, não tenha recebido o Nobel de Literatura. Se ele tivesse nascido num país exótico e escrevesse numa língua estranha, já teria recebido talvez dois Nobéis.)

Outro ser superior da criação literária, Jay Gatsby, de Fitzgerald, também vivia acorrentado a um único fato do passado: o namoro com Dayse, a calculista mulher por amor da qual ele enfim se arruína e morre. Ainda hoje me comovo ao lembrar das palavras finais de Fitzgerald em Gatsby: estamos condenados a remar sempre para o passado.

Sim. Dois ou três acontecimentos vitais comandam a vida de um homem com a força e quase sempre a crueldade de um cossaco russo. Essa reflexão barata me ocorreu depois que meu irmão Eddy me convidou para ver em sua casa uns velhos slides que achara depois de quase 20 anos. (Nesses tempos de câmeras digitais, os slides soam tão obsoletos quanto um par de galochas.)

As cenas recapturadas por Eddy se centravam numa única época. Se fosse sintetizar essa época, diria o seguinte: os últimos dias em que fomos felizes. Eram os tempos finais de meu pai tal como o conhecemos: exuberante, cheio de vida, óculos de aro preto grosso, o nosso refúgio e o nosso centro. Logo depois ele ficaria doente e, em poucos meses, estaria morto. Então, ao ver resgatadas aquelas imagens de dias felizes, me ocorreu que a minha vida foi dominada por um acontecimento: a morte de meu pai. Talvez não só a minha. Meu irmão Eddy, o fotógrafo daqueles slides, abandonou a máquina fotográfica. Minha irmã Mari parou de tocar violão, ela que tocava e cantava com beleza assombrosa. Tenho a tese de que Mari parou de cantar porque perdeu a única platéia que para ela importava. Nunca vou ser capaz de expressar a admiração e o amor que senti por Mari quando ela, nos minutos finais de meu pai, encontrou forças para cantar, baixinho como convém a um ambiente terminal de hospital mas com absoluta firmeza, as músicas que ele adorava ouvir na voz inspirada da filha. Era um repertório antigo, e lindo. “Naquele bairro afastado, onde em criança vivia a remoer melodias de uma ternura sem par…” Deus, até essa música Mari conseguiu cantar naquela cerimônia de adeus num quarto de hospital. Eu lembro de cada momento naquela noite. O que escrevi num guardanapo minutos depois da morte de meu pai, com minha bic de jovem repórter: “Foste um bravo. Em nenhum momento te entregaste. De teus lábios macerados jamais saíram queixas. Repousa agora, Leão.”

Vejo nos slides como meus irmãos temporões, Juan e Rita, alegraram os últimos anos de meu pai. Sinto uma ponta de inveja ao ver uma imagem em que ambos, crianças ainda, estão aninhados em meu pai. Nós quisemos tanto proteger aquelas duas crianças da dor excruciante de perder o pai numa época em que a gente só deve ser feliz, e no entanto não conseguimos proteger nem a nós próprios. Nós não contamos a eles que o papai ia morrer, e juro que foi por amor. Depois algumas vezes eles nos cobraram a falta de informação. Teriam aproveitado melhor a companhia do papai, mas, Deus, como dizer a duas crianças que seu pai está no fim?

E me vejo a mim, numa das últimas festas de fim de ano com meu pai vivo. Estou ali num canto, vestindo uma camisa de seda cafona, aberta pelo menos mais um botão além do razoável. Ainda não uso óculos, e um certo ar carregado em minha expressão sugere que alguma coisa me inquietava, me angustiava. É como se eu estivesse olhando mais para a frente e percebesse que logo ali, uma curva adiante, dias longos de desamparo e solidão e vã interrogação esperavam o jovem de sobrancelhas grossas que sonhava ser escritor.

Dedicado a Emir Macedo Nogueira

“Mulher nenhuma que me bateu teve uma segunda chance”

25/03/2008

Estou com uma Marie Claire nas mãos. Edição americana. Já disse alguma vez que revistas são um dos maiores amores de minha vida? Acho que sim. A visão de uma banca de revistas me comove. Não sei imaginar como seria a minha vida sem revistas. Vejo na MC uma foto de Amy Winehouse ao lado do marido. Ele tinha sido claramente surrado por ela. “No, no, no”, talvez ele devesse ter dito. Lol. A reportagem diz que é cada vez mais comum homens apanharem de mulheres, Um estudo citado diz que há quase 30% de chances de um cara apanhar da mulher ao longo da vida.

Sou cético em geral. Mas não duvido disso. Você, leitor ou leitora, talvez tenha uma história para contar. Tem? Caso queira compartilhar, sinta-se em casa.

Quanto a mim. Me ocorre uma passagem de John Le Carré, um dos meus romancistas amados. Le Carré foi o mestre supremo da espionagem na Guerra Fria, naquele tempo em que Estados Unidos e União Soviética pareciam estar a um passo de se destruir – e ao mundo. Le Carré, inglês, escreveu naquela época o maior clássico da espionagem, O Espião que Saiu do Frio. Você não leu? Deveria. Dizem, os eruditos, que romance de espionagem é literatura baixa, mas Le Carré fez grande arte. A cena mais bela de O Espião que saiu do Frio é passada no Muro de Berlim, numa tentativa heróica e vã de fuga. Le Carré é um escritor tão bom que sobreviveu ao fim da Guerra Fria. O Jardineiro Fiel é dele, foi escrito muitos anos depois da queda do Muro e do fim da União Soviética, e é um livro ótimo, muito acima do filme de Fernando Meirelles.

Bem, de volta à reportagem da revista Marie Claire. É de Le Carré, pela fala de um personagem, a reflexão mais sábia que já li sobre mulheres agressivas em suas incursões sobre homens. Disse o personagem de Le Carré: . Admito que não li essa frase no momento ideal. Tenho Sêneca, Marco Aurélio e Montaigne ao meu lado. São meus filósofos prediletos, e quantas vezes me trouxeram calor em noites frias e arrastadas, aquelas em que você procura algum sentido para as coisas e a resposta que lhe vem é um silêncio gritante. Gracias, amigos. E digo, tranquilamente, que a frase de Le Carré, pela imensa carga de sabedoria prática, poderia ter sido escrita por qualquer um deles.

Bater os braços, bater os braços, bater os braços

20/03/2008

A mulher pode implicar com qualquer coisa nossa. Com nossos amigos. Com nosso carro. Com nosso cachorro. Com nossa mania de discutir sobre futebol como se fosse uma coisa realmente séria. Até com nossa mãe – que na verdade sempre acha, quase nunca com razão, que somos muito melhores que aquela mulherzinha que lhe impingimos como nora. A mulher pode implicar com tudo que quiser. Exceto uma coisa: o pai.

A pior coisa que uma mulher pode fazer pelo romance é implicar com o pai do namorado, marido ou o que seja. Porque o pai é a figura central na vida de um homem. O pai é nosso modelo desde o berço até o caixão. Nós passamos a vida inteira querendo fazer bonito para as mulheres. (Me lembro do tombo espetacular de bicicleta que meu irmão Ed Hernandez levou aos 8 anos na tentativa de impressionar a Fernanda. Duro mesmo foi levantar-se do chão, não chorar de dor e, com o resto de dignidade que sobrava, subir de novo na bicicleta e voltar para casa, onde minha mãe lhe deu um banho que lhe arrancou gritos assustadores.)

Mas eu dizia o seguinte antes de ser interrompido por mim mesmo e minhas divagações pretéritas. Nós passamos a vida inteira querendo impressionar as mulheres. Mas o julgamento de nenhuma mulher, por mais amada que seja, tem para nós o mesmo impacto do julgamento do nosso pai. A reprovação paterna é cruel como um velho cossaco russo. (Meu Tio Fabio, um homem sábio do interior, dizia que os velhos cossacos russos eram cruéis. Nunca chequei, mas confio em meu tio, e então acredito na crueldade cossaca.) E poucas coisas se igualam, em toda a nossa vida, à aprovação paterna. A maior platéia de um homem é composta de uma só pessoa: seu pai.

Um amigo meu jogava futebol. Futebol sério. Não essas peladas de cervejeiros nos finais de semana. Batia de canhota. Jogou em estádios cheios, com torcida fazendo batucada. Ele me disse uma vez que, durante jogos, sempre olhava para as arquibancadas à procura de seu pai. Importava menos a opinião de seu técnico do que a de seu pai. Cada grande jogada que fazia ele pensava no pai. E quando perdeu um gol decisivo ele ficou arrasado porque sentia que decepcionara seu pai. Sempre entendi esse meu amigo perfeitamente.

Numa certa época da vida, na adolescência, gostamos de contestar o pai. Mas é uma contestação de mentirinha. Somos, na adolescência, idiotas sem juízo, ignorantes presunçosos. Mas esse estado de torpor intelectual não dura uma vida inteira.
Envelhecemos, graças a Deus. E logo aprendemos que nosso pai estava quase sempre certo nos reparos que nos fazia em nossa adolescência. Matamos o pai, adolescentes, para ressuscitá-lo, ainda mais forte, na idade da razão.

E então digo a todas as mulheres do mundo interessadas num bom relacionamento amoroso: não mexam com o pai dele. Se não bastassem todas as razões que alinhei, haveria ainda uma outra. O nosso pai, ao contrário da nossa mãe, quase sempre é aliado da namorada. Porque ele tem a esperança de que ela possa trazer juízo para o filho. Possa transformar o garoto num homem. No mais das vezes, para citar uma frase de La Rochefoucauld que já utilizei outras vezes, é o triunfo da esperança sobre a experiência. (Engraçado. Acho que numa outra ocasião eu disse que o autor da frase era Dr. Johnson, um inglês genial.)

E agora a parte triste. Quem quer coisas alegres mude agora, por favor, de página. A morte do pai atira o homem num persistente estado de desamparo do qual ele leva anos, décadas para se livrar. Às vezes, nunca se livra. Pai morto. E então me ocorre a idéia de uma onda. Para enfrentá-la é preciso bater os braços, bater os braços e ainda bater os braços. Para onde as braçadas levam? Francamente não sei, mas o que importa? O que importa é bater os braços, bater os braços e ainda bater os braços.

O passo apressado das paulistanas

15/03/2008

Roberta acendeu um cigarro, tragou em cima do rosto de Pedro e lhe perguntou se ele não se incomodava com a fumaça. Estavam num restaurante de São Paulo que parece de praia, cheio de gente barulhenta e alegre. Pedro tinha comido frango com cheddar, seu prato predileto. Roberta, vegetariana, comera apenas uma salada. Ela era pouco mais que uma garota. Viera de longe para São Paulo em busca do sonho de trabalhar em revista. Crescera sob o fascínio da leitura de revistas que a faziam viver mil vidas e viajar a múltiplos lugares, e inspiravam nela ora risadas e ora lágrimas.

“Ok, meu pai fumou em cima de mim a vida inteira”, disse Pedro. “Pode ir em frente.” Quando era menino, Pedro dormia na casa da praia no mesmo quarto que seu pai, num beliche precário. O pai na parte de baixo, ele na parte de cima, e a fumaça dos sucessivos cigarros que seu pai acendia subia até Pedro e de lá parecia não sair a noite toda. Pedro jamais fumara, mas gostava do cheiro da fumaça do cigarro barato que seu pai fumava, Continental sem filtro. O cigarro deixara amarelos os dedos com que seu pai os segurava, e um gosto acre em sua saliva. Quando Pedro era pequeno, o pai limpava as pontas da boca do filho com saliva, e aquele gosto era uma das lembranças mais fortes que Pedro tinha do pai. Outra memória forte eram os óculos de aro preto e grosso. No caixão o pai estava sem óculos, e Pedro tratou de procurá-los. Encontrou e os colocou no pai, certo de que ele gostaria.

Roberta procurara Pedro em busca de conselho. Não sabia se voltava para sua cidade ou ficava em São Paulo. Pedro não concebia a vida fora de São Paulo, onde nascera, crescera e esperava morrer. Ir numa segunda-feira chuvosa à Vila Madalena e encontrar ali bares lotados era, para ele, um símbolo da glória paulistana. Como Nova York, São Paulo é uma cidade que não dorme. Não há Dormonid que faça São Paulo dormir.

“Li outro dia. No mundo moderno a escolha da cidade morar é uma das coisas mais importantes que a gente faz para definir nosso futuro”, disse Pedro. “Existem cidades que vão jogar você para baixo, ou manter você na mesma altura em que já está. São Paulo dá a você a chance de ganhar os ares, se elevar até onde os pássaros voam.”

“Mas eu sinto tanta falta da minha cidade”, Roberta disse. “Quando vou para lá não deixo minha mãe me ver fazendo as malas para voltar. Nós choraríamos abraçadas. Também não deixo ninguém ir ao aeroporto para se despedir. É um trato. E sei lá. São Paulo intimida. O passo das paulistanas. É muito apressado.”

Roberta fez uma pausa para tragar o cigarro. “É verdade que intimida mas ao mesmo tempo fascina. Será que vou fazer parte da paisagem de São Paulo algum dia?”

“Já faz, Roberta. Você está completamente integrada na paisagem deste restaurante, por exemplo. Olha só. Você e o seu cigarro e a sua fumaça e a saudade da sua pequena cidade.”

“Fiz certo ao vir para São Paulo? Às vezes não durmo só de pensar nisso. Você, Pedro. Você foi um dos culpados por eu ter vindo.”

“Já tenho tanta culpa para carregar”, Pedro disse. “Também essa?”

“Algumas coisas que você escrevia”, ela disse. “Eu recortava. Muitas vezes eu chorei com elas.”

“Riu também? Sou um comediante frustrado. Tudo que eu queria era fazer as pessoas rirem, como em Friends ou Seinfeld. Fracassei.”

“Pedro. Vou ser sincera. Como comediante você é um fracasso total. Uma incompetência assombrosa.”

Ele riu. “Olha. Acho que você deveria mesmo voltar para sua cidade. São Paulo vai engolir você.”

“Já engoliu”, ela disse. “E eu gostei. Gostei muito.” Ela estava rindo agora. A melancolia desaparecera de seus olhos, e ela parecia convicta de que seu destino de mulher era São Paulo, a cidade que intimida e fascina.

“Você não disse que eu era incompetente para fazer rir?”

“Pedro. Na verdade você devia estar no Cirque Du Soleil. Você é um, sei lá, você se finge de um cara triste, mas na verdade é um … olha, Pedro, você é um mestre … um mestre na arte de ser palhaço.”

O humor instantâneo. Roberta já era uma paulistana, também ela já andava com passos apressados, e apenas não se dava conta ainda disso.

O passo apressado das paulistanas

15/03/2008

Roberta acendeu um cigarro, tragou em cima do rosto de Pedro e lhe perguntou se ele não se incomodava com a fumaça. Estavam num restaurante de São Paulo que parece de praia, cheio de gente barulhenta e alegre. Pedro tinha comido frango com cheddar, seu prato predileto. Roberta, vegetariana, comera apenas uma salada. Ela era pouco mais que uma garota. Viera de longe para São Paulo em busca do sonho de trabalhar em revista. Crescera sob o fascínio da leitura de revistas que a faziam viver mil vidas e viajar a múltiplos lugares, e inspiravam nela ora risadas e ora lágrimas.

“Ok, meu pai fumou em cima de mim a vida inteira”, disse Pedro. “Pode ir em frente.” Quando era menino, Pedro dormia na casa da praia no mesmo quarto que seu pai, num beliche precário. O pai na parte de baixo, ele na parte de cima, e a fumaça dos sucessivos cigarros que seu pai acendia subia até Pedro e de lá parecia não sair a noite toda. Pedro jamais fumara, mas gostava do cheiro da fumaça do cigarro barato que seu pai fumava, Continental sem filtro. O cigarro deixara amarelos os dedos com que seu pai os segurava, e um gosto acre em sua saliva. Quando Pedro era pequeno, o pai limpava as pontas da boca do filho com saliva, e aquele gosto era uma das lembranças mais fortes que Pedro tinha do pai. Outra memória forte eram os óculos de aro preto e grosso. No caixão o pai estava sem óculos, e Pedro tratou de procurá-los. Encontrou e os colocou no pai, certo de que ele gostaria.

Roberta procurara Pedro em busca de conselho. Não sabia se voltava para sua cidade ou ficava em São Paulo. Pedro não concebia a vida fora de São Paulo, onde nascera, crescera e esperava morrer. Ir numa segunda-feira chuvosa à Vila Madalena e encontrar ali bares lotados era, para ele, um símbolo da glória paulistana. Como Nova York, São Paulo é uma cidade que não dorme. Não há Dormonid que faça São Paulo dormir.

“Li outro dia. No mundo moderno a escolha da cidade morar é uma das coisas mais importantes que a gente faz para definir nosso futuro”, disse Pedro. “Existem cidades que vão jogar você para baixo, ou manter você na mesma altura em que já está. São Paulo dá a você a chance de ganhar os ares, se elevar até onde os pássaros voam.”

“Mas eu sinto tanta falta da minha cidade”, Roberta disse. “Quando vou para lá não deixo minha mãe me ver fazendo as malas para voltar. Nós choraríamos abraçadas. Também não deixo ninguém ir ao aeroporto para se despedir. É um trato. E sei lá. São Paulo intimida. O passo das paulistanas. É muito apressado.”

Roberta fez uma pausa para tragar o cigarro. “É verdade que intimida mas ao mesmo tempo fascina. Será que vou fazer parte da paisagem de São Paulo algum dia?”

“Já faz, Roberta. Você está completamente integrada na paisagem deste restaurante, por exemplo. Olha só. Você e o seu cigarro e a sua fumaça e a saudade da sua pequena cidade.”

“Fiz certo ao vir para São Paulo? Às vezes não durmo só de pensar nisso. Você, Pedro. Você foi um dos culpados por eu ter vindo.”

“Já tenho tanta culpa para carregar”, Pedro disse. “Também essa?”

“Algumas coisas que você escrevia”, ela disse. “Eu recortava. Muitas vezes eu chorei com elas.”

“Riu também? Sou um comediante frustrado. Tudo que eu queria era fazer as pessoas rirem, como em Friends ou Seinfeld. Fracassei.”

“Pedro. Vou ser sincera. Como comediante você é um fracasso total. Uma incompetência assombrosa.”

Ele riu. “Olha. Acho que você deveria mesmo voltar para sua cidade. São Paulo vai engolir você.”

“Já engoliu”, ela disse. “E eu gostei. Gostei muito.” Ela estava rindo agora. A melancolia desaparecera de seus olhos, e ela parecia convicta de que seu destino de mulher era São Paulo, a cidade que intimida e fascina.

“Você não disse que eu era incompetente para fazer rir?”

“Pedro. Na verdade você devia estar no Cirque Du Soleil. Você é um, sei lá, você se finge de um cara triste, mas na verdade é um … olha, Pedro, você é um mestre … um mestre na arte de ser palhaço.”

O humor instantâneo. Roberta já era uma paulistana, também ela já andava com passos apressados, e apenas não se dava conta ainda disso.

A última vez que vi Kátia

12/03/2008

Sempre admirei a sabedoria matuta de meu tio Fabio Hernandez. (Sou Fabio Sobrinho, caso você não saiba. Tirei o sobrinho de minha assinatura – ou melhor, tiraram – porque meu primeiro chefe no jornalismo disse que minha assinatura ficaria muito comprida. Meu chefe assinava com seus três nomes, mas as regras para chefes não são as regras para principiantes.) A primeira namorada séria que apresentei à família, numa festa de aniversário de minha avó, mereceu de Tio Fabio um comentário privado. Ele me chamou a um canto, grave como sempre, colocou as mãos nos meus ombros e começou a falar. Pensei que Tio Fabio, um apreciador das belas mulheres por excelência, fosse elogiar a maravilhosa forma física de Kátia, uma morena capaz de fazer um padre engasgar no santo vinho. (E naquela noite Kátia estava espremida num vestidinho preto que parecia capaz de ir pelos ares se ela se atrevesse a encher uma bexiga como as que enfeitavam a festa.)

Mas não. Tio Fabio apenas me disse: “As mulheres não mudaram nada, meu filho. A diferença é que antes elas não fingiam que eram seguras e agora elas fingem que são”. Ele esperou um pouco para ver se a mensagem tinha sido assimilada por seu sobrinho favorito. Quando rememoro a conversa, lembro que fiquei com cara de tolo surpreendido depois da sentença de meu tio, eu que tinha ouvido de minhas colegas feministas na faculdade toneladas de louvação aos seus avanços, expressos em evidências como piercing no umbigo, tragadas na frente do pai e namorados no quarto. Mas presumo que Tio Fabio tenha tido uma interpretação diferente da expressão de meu rosto aparvalhado, pois seguiu em frente como se convencido de que eu tinha absorvido cada palavra. “E a maneira mais fácil para elas fingirem segurança é contestar a opinião que nós emitimos.”

Tio Fabio tinha até umas estatísticas que conferiam ares científicos aos seus argumentos. “O índice de contestação começa em 10%. Em três ou quatro meses, se nada for feito, chega a 50%. Daí a 100% é um pulo.” Eu estava fazendo minhas contas quando Tio Fabio encerrou nossa conversa privada com uma frase de precisão assustadora. “Notei que sua namorada já está perto dos 100%. Parabéns a ela pela rapidez.” Tio Fabio tinha seus momentos de ironia. Foi aí que me dei conta de que naquela noite de festa familiar Kátia tinha contestado quatro das cinco opiniões que dei. Se bem me lembro, foi neutra na outra. Aquela foi a primeira e a última reunião da qual a maravilhosa Kátia – oh, aqueles seios indomáveis, ávidos por romper qualquer coisa que os aprisionasse – participou em minha família. Nosso fim definitivo veio poucos dias depois, quando Kátia quis porque quis que eu a acompanhasse num passeio com seu irritante bassê durante um jogo do Corinthians.
Foi a última vez que vi Kátia.

Aprendi com Tio Fabio, deus o tenha, se deus existe, que um homem pode muitas coisas, menos se deixar submeter à tirania de uma mulher, mesmo que essa tirania nada mais seja que uma máscara da insegurança. Deixamos de ser tiranos há muito tempo e não há o menor sentido em sermos agora tiranizados. Vi várias vezes o próprio Tio Fabio lavar a louça para poupar Tia Magdalena. Também o vi satisfazer, carinhoso, caprichos dela. Uma vez Tio Fabio rodou a cidade, madrugada afora, para encontrar um pacote de Calipso. Tia Magdalena, que era esguia mas com o tempo foi ficando cada vez mais fora do peso ideal, era capaz de comer um pacote inteiro daquelas esplêndidas bolachas de chocolate enquanto via um capítulo da novela das 8.

Mas – eis a diferença vital – Tio Fabio lavava a louça e corria atrás do biscoito porque queria. Não porque minha tia lhe ordenasse. Os homens foram ontem tiranos de suas mulheres? Isso não é razão para que as mulheres sejam hoje tiranas de seus homens. Se os homens lá para trás cometeram absurdos, eu, você, nós não podemos ser o objeto de uma vingança tardia e despropositada de nenhuma mulher. Nem donos, nem servos. Se a agressividade moderna é fruto da insegurança milenar das mulheres, eis um problema que cabe a elas resolver, não a nós. A nós cabe simplesmente dar um chute no traseiro de cada Kátia – oh, e que traseiro aquele – que queira nos transformar em capachos.

Meus dedos discaram seu número sem que eu pudesse detê-los

09/03/2008

“Pedro? Carol. Pode falar?”
Como se ele não pudesse falar com Carol. Pedro sempre pudera. Jamais deixara de atendê-la, mesmo quando não deveria.
“Claro, claro.”
“Olha. Eu tinha decidido não ligar mais para você. Terminamos e pronto. Mas. Sei lá. Fiquei chateada com o que você escreveu sobre mim. Tinha que falar com você.”
Pedro parou para pensar. Que se lembrasse, só escrevera coisas doces sobre Carol. Mesmo quando ela decidira ficar com o marido banqueiro e deixá-lo Pedro, pelo menos assim pensava ele, fora doce. Apoiara a decisão dela.
Ou não?
Sim, fora doce, agora tinha certeza. Poderia ter dito que ela era calculista. Que colocava o dinheiro do marido banqueiro antes do amor. Mas não. Aceitara a escolha dela, e no conto em que narrara a despedida sublinhara a beleza, a inteligência e a classe natural de Carol.
“Que eu escrevi, Carol?”
Pedro sabia que a possibilidade de desagradar alguém ao escrever era muito maior que a de agradar. Mas não havia nada que pudesse fazer em relação a essa maldição dos escritores.
“Você me tratou como uma mulher frívola, fútil. Como, como, como. Como uma simples mulher de banqueiro. Como se eu tivesse me casado com ele por interesse. Como se eu fosse uma vulgar alpinista social. Foi vingança, não foi, Pedro? Você me descreveu daquele jeito para se vingar de mim. Olha. Eu nem deveria ter ligado para que você não soubesse que me magoou tanto. Mas meus dedos discaram seu número sem que eu conseguisse detê-los.”
Pedro desligou o aparelho de som em que ouvia Seems Like Old Times. Parece como nos bons tempos. Era uma de suas músicas favoritas, e era em Carol que estava pensando enquanto escutava Seems Like Old Times. Não imaginava que ela fosse telefonar para ele, e várias vezes se controlara para não ligar para ela. Era um acerto entre os dois. O marido poderia ficar desconfiado. Era ela quem lhe telefonava. Ele não rompeu a regra mesmo depois de separados por uma espécie de respeito póstumo. Ao mesmo tempo em que desligou o aparelho, riu. Sua intenção fora escrever um tributo de amor, não uma vingança.
“Pedro. Sempre achei você melhor falando do que escrevendo”, Carol disse. “Outras mulheres podem achar o contrário, mas meu Pedro sempre foi aquele cara que falava, não o que escrevia. Daquele Pedro eu sinto saudade de vez em quando, admito. Do que escreve tenho raiva.”
“Eu também tenho raiva do que escrevo com mais freqüência do que você imagina, Carol. Se eu soubesse fazer outra coisa que não fosse escrever já tinha parado há muito tempo, Carol.” Pedro gostava de falar “Carol”. Era um nome que ele achava que soava bem. Curto, forte. E tão bonito quanto a dona.
“Mulher de banqueiro. Frívola. Pedro. Você quis me ridicularizar? Você sabe que eu sou uma guerreira. Tenho meu próprio negócio. Que eu montei antes de conhecer meu marido. E é com o dinheiro do negócio que sustento muitas pessoas. Mulher de banqueiro. Você usou essa expressão para me insultar, não foi, Pedro? Se você soubesse como me fez chorar quando eu li aquilo. Meu marido me perguntou por que eu estava chorando, e eu não podia dizer que era por sua causa. Ele queria me consolar, mas isso me irritava ainda mais. Não existe coisa pior que ser confortada por um homem quando você está chorando por outro.”
Pedro gostou da frase. Não existe coisa pior que ser confortada por um homem quando você está chorando por outro. Um dia a usaria em algum conto ou romance que escrevesse.
Pedro ficou calado. Não adiantava dizer que não. Carol jamais se deixara convencer fácil, e muito menos quando estava com raiva. Ele de fato quisera agradá-la ao escrever sobre o caso de amor entre os dois, mas ela jamais acreditaria nisso. Uma jornalista amiga dele, editora de uma revista feminina, dissera que o conto daria um filme.
“Pedro. Eu não sou nenhuma Pattie.”
Ele riu. Pattie. A linda e preguiçosa mulher de George Harrison. Era modelo, e parou de trabalhar quando se casou com George. Pattie trocara George por Eric Clapton. George mantinha uma conta para Pattie na Harrods de Londres. Depois que ela partiu para Eric foi um dia à Harrods, fez uma supercompra e ficou surpresa ao saber que George encerrara a conta. Lol. Na autobiografia de Pattie, que Pedro leu e depois passou para Carol, esta história estava contada com candor.
Ela riu ao falar de Pattie. Pedro adorava o som de sua risada ao telefone. Em momentos de tristeza ele se confortava ao ouvir a risada de Carol ao telefone.
“Pedro?”
“Carol. Carol?”
“Sinto falta das nossas conversas sobre livros. Terminei de ler outro dia um Proust e queria tanto ligar para você.”
Proust. Ocorreu a Pedro uma frase proustiana. Os refrões da felicidade perdida. Por que a gravara entre tantas outras frases de Proust? Proust antes de virar escritor pensara no direito, mas depois refletira que por mais que se esforçasse não podia imaginar nada pior que um escritório de advocacia. Lol.
Carol fora da raiva à nostalgia. E agora silenciava. Teria desligado?
“Carol?”
Passaram-se alguns segundos, até que a voz dela se ouviu.
“Pedro. Você está apaixonado por outra mulher?”
Pedro riu.
“Boba. Sabe aquela música? Pois é. Vai valer sempre. Mesmo você longe, perdida, para sempre perdida, nas terras frias do nunca mais, nunca mais, nunca mais. Mesmo assim. Você é a primeira, a última, tudo.”

Parece que estou batendo na porta do paraíso

06/03/2008

E então estou a caminho da apresentação de Dylan. No carro começa a preparação. Ouço primeiro uma de minhas canções prediletas de Dylan, Knocking on Heavens Door. Batendo na porta do paraíso. Melodiosa, e triste, e com uma letra poética como quase sempre acontece com Dylan. Foi feita para um filme sobre Billy The Kid, o jovem e rápido e ambíguo pistoleiro que virou mito no velho oeste americano. Morto jovem, por mãos traiçoeiras. A letra é uma conversa entre a mãe de Billy e o filho jovem à morte. Melhor: é Billy falando pela última vez com a mãe. Um lamento. Na parte final, que vou traduzir precariamente, Billy diz. “Mamãe, jogue minha arma no chão. Não posso atirar mais. Aquela longa e velha nuvem escura está descendo. .” Admito que fiquei arrepiado apenas de escrever este trecho.

Depois ouço outra grande canção de Dylan, já perto da casa de espetáculos em que ele cantará. Just like a woman. Exatamente como uma mulher. O refrão é sábio, e a melodia é tão suave como a de Knocking on Heavens Door. Dylan fala de uma jovem mulher. Ela faz amor como uma mulher, sente dor como uma mulher, mas desmorona exatamente como uma garotinha. But she breaks just like a little girl. Estou pronto para o espetáculo do homem que meu ídolo maior, George Harrison, chamou de The Man, o Cara. A última vez que vi Dylan foi num dvd, A Última Valsa. É um documentário soberbo de Scorcese sobre a derradeira apresentação da The Band, e Dylan é um dos convidados. Ele canta uma música, Forever Young, composta para o filho. No palco, os músicos da The Band, que acompanharam Dylan num certo momento e depois seguiram seu caminho, o olham com devoção.

Mas ver num dvd é uma coisa e ao vivo é outra. A platéia parece estar não diante de um músico, mas de um herói. As pessoas não estão ali apenas para ouvir Dylan, mas para reverenciá-lo. Com suas pernas finas, um chapéu preto, Bob Dylan sobe ao palco com pontualidade. Cinco músicos o acompanham, e apenas um deles não usa chapéu, me pergunto por quê. Terá esquecido? Gostará de ser diferente? Terá apreço por desafiar o mestre? Ou será que apenas esqueceu no hotel o chapéu? Às 22h11, como vi no relógio do celular, sem dar boa noite à platéia, Dylan executa a primeira música. “Ele pode não cumprimentar”, aceita meu amigo Thunder, mexendo em sua barba de Hemingway e enchendo de água seu copo de uísque escocês. “Ele pode fazer tudo.”

Dylan é um excêntrico, um cara realmente diferente. Não faz concessões ao público. Vi Paul McCartney no Pacaembu há alguns anos, e ele cantou músicas de sua era beatle. E com arranjos rigorosamente iguais. Se você fechasse os olhos, sonhava ver John, Paul, George e Ringo no palco. A platéia quer isso. Não há show dos Stones em que você não ouça Satusfaction, ou Jumping Jack Flash, ou Gimme Shelter, ou Start me Up. Os artistas fazem esta concessão ao público, e o preço pode ser caro para eles. Sinatra uma vez disse que detestava cantar My Way e Strangers in the Night, e eram as músicas que ele mais cantava a pedido do público.
Vocês já imaginaram um comediante que conte sempre a mesma piada?

Dylan faz um espetáculo de uma hora e meia, e depois dá um bônus de duas canções diante de solicitações de bis insistentes. Imagino umas 25 músicas, e não mais que três ou quatro são as clássicas. E mesmo estas Dylan as canta de uma maneira completamente diferente. Presumo que para não se entediar. Meu amigo Ruivo lembra que num espetáculo dos Stones em São Paulo, há alguns anos, Dylan, que por coincidência estava na cidade, subiu suroreendentemente ao palco para cantar Like a Rolling Stone. É para muitos sua melhor composição. A maior revista de música do mundo a colocou na primeiríssima posição entre as 500 canções da história do rock. Os Stones a gravaram anos depois de Dylan lança-la, e outra vez foi um sucesso. Acompanhado pelos Stones, Dylan cantou Like a Rolling Stone. Jagger ia fazer um dueto, mas foi derrotado pela interpretação diferente de Dylan. Uma cena histórica e hilariante.

A questão. Dylan assassina as próprias músicas? Lembro-me de ter lido num jornal ou numa revista americana uma crítica sobre uma apresentação de Dylan. O crítico dizia que como um açougueiro cruel Dylan ia despedaçando e desfigurando suas próprias canções diante de um público impotente para as salvar. Ele assassina suas canções, as reinventa, ou salva a si próprio de ser um escravo de platéias viciadas em sucessos? Fico com a última alternativa. Meu amigo Thunder não reconhece nenhuma das músicas de Dylan, mas fica em seu ponto. “Ele pode tudo. É um herói. Começou rouco, e foi até o fim. Um herói. Você tem que escrever sobre ele, Fabio.”

Like a Rolling Stone é um dos raros clássicos de Dylan esta noite. A melodia está alterada. Uma jovem mulher sobe ao palco, tenta chegar a Dylan, e é detida perto dele. Dylan faz cara de surpresa, e ergue levemente as mãos para se proteger. Não foi necessário. Um segurança colocou a fã indomável em seus ombros e a retirou tão suavemente como foi possível. Os pés dela se balançavam nos ombros do segurança no ritmo da música. “Eu teria pedido um tempo para a platéia e cuidado dela no camarim”, diz Ruivo, líder de uma banda nova de São Paulo. Thunder, com sua barba hemingwayana, apóia Ruivo. Eu também.

Duas músicas de bis, e o final. Dylan, que não dissera nada até ali para a pletéia, curva levemente a cabeça para se despedir. Fico com a sensação de que os críticos vão dar cacetadas em Dylan. Será que acertarei? Num determinado momento, Dylan trocou a guitarra por um piano. Segundo meu amigo Thunder é porque ele não agüentava o peso da guitarra nos ombros tanto tempo assim. Terá Thunder chutado? Sei lá. Perto da porta que vai dar no camarim, Supla tenta levar os seguranças no bico para ver Dylan. Demora, mas consegue.
“O que vimos hoje não foi um show”, diz Thunder. “Foi história. Você tem que escrever sobre isso, Fabio.”
“Escrever o quê?”, pergunto.
“Problema seu”, ele diz. Na saída, ouço Knocking on Heaven!s Door. A versão original. .

Ninguém confiou tanto em mim

03/03/2008

Enfim te vejo. Enfim repousa em ti o meu olhar cansado. Esses versos de Bandeira me ocorrem quando entro na velha cidade em que vivi alguns verões na adolescência. Rodo em meu carro pelas ruas em que caminhei garoto. Não fui eu que levei o carro. Foi o carro que me levou. Alguns lugares marcam a vida de um homem por diversas razões. Aquela cidade selou minha passagem para a vida adulta. Ali terminou a minha era da inocência. Foi nela que as mulheres passaram a despertar um interesse bem mais concreto e menos platônico em mim. Lembro uma visita, a primeira em minha vida, ao que nós meninos chamávamos afetuosamente de zona.

Na minha lembrança a cidade estava sempre ensolarada. E assim sempre será. Paro em frente da casa dos meus tios, onde ficava hospedado. É numa esquina de um bairro de classe média. Nenhuma das pessoas que tanto amei está lá, mas ainda assim fico tocado. Olho para a casa com uma espécie de desespero mudo como se por um milagre aquele mundo perdido pudesse se refazer. Primeiro morreu meu tio, depois minha tia. Outra tia, agregada, uma adoravelmente rabugenta solteirona, também morreu. Meus dois primos deixaram a cidade, cada qual para um canto. Mas de alguma forma naquela casa de esquina a família desfeita está viva e unida. O piano em redor do qual todos se juntavam ainda toca.

Naquela casa tive uma sublime lição de fé. Eu tinha tomado um porre, o primeiro de minha vida. Tinha 16 anos, a noite quente convidava um garoto virgem de álcool a tomar um copo de batida, e depois outro, e mais outro. Convidava, não: ordenava. Ao deitar, no quarto imaculado da casa de minha tia, o mundo girou alucinadamente. Não havia nada que eu pudesse fazer senão vomitar. Foi um tumulto num lar sereno. Aleguei depois que tinha me dado mal com alguns amendoins. Meu tio comentou com minha tia, longe de mim, mas não o suficiente para que eu não ouvisse: “Isso tem cheiro de cachaça.” Meu tio conhecia o assunto.

Somente a tia solteirona acreditou. Durante anos, depois, sempre que me via esticar a mão para um amendoim, ela me lembrava de que não me fazia bem. Minha tia solteirona. Minha amada tia solteirona. A gente coleciona coadjuvantes ao longo da vida. São raros os protagonistas. Minha amada tia solteirona foi protagonista em minha vida. Foi ela que me ensinou a jogar baralho, uma virtude que cultivo desde então. Primeiro o buraco, logo e sempre o pôquer. Escritor barato e jogador igualmente barato.

Mas ela me ensinou sobretudo o significado da fé. A fé só é fé mesmo quando é cega e desafia a lógica. Ela acreditou no sobrinho bêbado a despeito do cheiro de cachaça facilmente identificado por meu tio. Minha amada tia rabugenta. Estou ali, na frente da casa, tantos anos depois. E me ocorre que poucas vezes em toda a minha vida alguém acreditou tanto em mim como ela, a amada tia solteirona. Se eu pudesse recompor aquele mundo perdido, acho que a primeira coisa que faria seria pedir colo a ela. Eu mesmo não acreditei em mim como ela. Minha amada tia solteirona apostou num cara errado, eu, por amor. Simplesmente por amor. Tia Tetê, eis o nome, para mim tão poético quanto os versos de Bandeira.