Archive for Julho, 2008

O primeiro amor

31/07/2008

Tio Fábio, Deus o tenha, foi um homem sábio do interior. Uma vez ele me viu aflito com uma pilha caótica de livros que eu tinha na cabeceira. Tanta coisa para ler, tão pouco tempo: esse é o motivo da minha aflição, expliquei a tio Fábio. Na próxima vez que o encontrei ele me passou uma citação de Sêneca, o grande filósofo romano de quase 2000 anos atrás. Tenho-a até hoje. “Uma profusão de leitura sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra. É melhor se aplicar num pequeno número de atores do que vagar no meio de muitos.” (Adiante, conforme me contou tio Fábio, Sêneca quase louvou o célebre incêndio da biblioteca de Alexandria, considerado pela visão convencional como um dos maiores desastres culturais da humanidade. Sêneca qualificou a biblioteca queimada como um exemplo de “orgia de literatura”. Tio Fábio gostava de Sêneca porque admirava gente que pensa diferente. Herdei essa admiração. Uma das razões pelas quais falo tanto de tio Fábio é que ele pensa diferente.)

Agora confesso que esqueci por que falei em Sêneca e no esforço inútil despendido em letras inúteis. Ah, lembrei. É que no esforço de seguir o romano genial eu passei a me concentrar em alguns autores, não numa infinidade. E tirei de minha vista a montanha de livros que me trazia tanta ansiedade. Entre as minhas poucas e boas constantes leituras estão dois escritores “espirituais”. Um deles é o monge católico Thomas Merton, já morto. O outro é o monge zen Thich Nhat Hanh, um vietnamita que ergueu uma comunidade budista num lugar retirado na França.

Citei ambos porque, em livros que escreveram, eles trataram de um assunto que é único, vital, indelevelmente marcante na vida de um homem: o primeiro amor. É quando descobrimos que não somos mais crianças. É quando descobrimos que existem outros prazeres além da bola de futebol ou do videogame. E é quando descobrimos também o quanto a alegria está conectada com a tristeza. O quanto a euforia está próxima da angústia. Um telefone que toca com a voz de quem você deseja ouvir. É então o êxtase. Um telefone que teima em ficar cruelmente silencioso. Você é um antes do primeiro amor. E outro depois. Os beijos. O adeus. (E então me ocorre aquela linda canção chamada Crying Game, que deu nome ao filme com o mesmo nome. “First there are kisses/ Then there are sighs/ And then before you know where you are/ Youre saying goodbye”. Primeiro os beijos, depois o suspiros, e antes que você saiba onde está, já está dizendo adeus, mais ou menos isso numa tradução livre. A gravação de Crying Game por Boy George é estupenda.

Merton, em sua autobiografia, nota algo que eu nunca tinha pensado. Somos tão jovens, tão frágeis, quando aparece pela primeira vez em nossa vida aquela onda avassaladora, o primeiro amor. Tanto impacto e somos tão indefesos. Merton se apaixonou antes de virar monge. Thich Nhat Hanh, num pequeno livro chamado Cultivando a Mente de Amor, confessa a paixão que o tomou quando, jovem monge, conheceu uma monja. Ele diz que decidiu falar desse amor para ajudar os outros monges que por acaso enfrentem a mesma situação. Transcrevo um texto que Thich Nhat Hanh fala do objeto de seu amor: “O comportamento dela como monja era perfeito – a forma de se mover, de olhar, de falar. Ela era tranqüila. Jamais dizia alguma coisa, a menos que lhe perguntassem”. (Eis, segundo meu amigo Thunder, que recentemente adotou uma barba hemingwayana, a fórmula da mulher perfeita. A que só fala quando lhe pedem para falar. Thunder é um cínico amoroso.) Mais adiante o monge budista compara seu amor a uma tempestade pela qual ela e ele tinham sido apanhados sem saber como. E também sem saber como escapar.

Ele aconselha a gente a pensar, tempos depois, no primeiro amor. Vamos notar coisas que não percebemos na ocasião. É o que faço agora. Deus, que tempestade. O vestido verde e a blusinha amarela da festa em que começamos a namorar. Os cabelos negros, a tez morena, os olhos verdes. A menina mais bonita da cidade. Afastei-a de mim porque não suportava me sentir tão pequeno. Quanto tempo demorei para entender meu comportamento destrutivo. A tempestade do primeiro amor. Fui apanhado por ela, e poderia ter me deixado levar por suas águas copiosas e deslumbrantes, mas não tive força para fazer outra coisa que não fosse fugir. Fugi de tudo. Até de mim mesmo.

Balzáqueas 1

29/07/2008

Erro pela minha biblioteca desorganizada. Apanho um Balzac, e me dá vontade de reler A Comédia Humana. Balzac foi o maior de todos os romancistas. Um contador de histórias sublime. Ferino, cáustico, corrosivo. Se você tem que ler um romancista na vida, o nome é Balzac. Me ocorre compartilhar aqui algumas de suas frases espirituosas. Vou enfeixá-las sob o título Balzáqueas.

A quem agrada a idéia? A quem não?

Bem, antes que essa enquete diga algo, vamos a uma amostra. Uma jovem e inocente esposa procura uma mulher madura e libertina em busca de conselhos amorosos. Seu marido estava se comportando mal. O irônico é que a jovem vai atrás exatamente da mulher por quem seu marido estava encantado. A libertina se comove com a infeliz em lágrimas. E lhe diz: “Em primeiro lugar, aconselho-a a que não chore assim, porque as lágrimas enfeiam. É preciso saber conformar-se com as tristezas; estas fazem adoecer, e o amor não fica muito tempo junto a um leito de dor. A melancolia dá, é verdade, no começo, um certo encanto que agrada, mas acaba por desmerecer as feições e emurchecer o rosto mais sedutor. Além disso, nossos tiranos – os homens – querem que suas escravas estejam sempre alegres.”

Nem Sócrates poderia dizer coisa mais sábia

26/07/2008

Uma cena de Beleza Americana me impressionou particularmente. O filme todo me fascinou, aliás. Tenho que vê-lo de novo. Acho sublime, comovedora aquela busca desesperada e vã do homem pela juventude perdida. Mandar para o lixo a carreira bem-comportada depois de uma conversa franca com o chefe dilbertiano e ir trabalhar numa lanchonete, sem metas e cobranças que fossem além de entregar com um sorriso o hambúrguer para o freguês. Comprar um carrão imprestavelmente lindo de 20 anos atrás apenas para realizar um sonho que ficará lá longe num mundo que se perdera. E correr atrás de uma garota como se fosse, ele próprio, um garoto e não um homem vencido pelo correr dos dias. Braços remando contra a correnteza, como escreveu Fitzgerald no final de Gatsby. Somos condenados a remar contra a correnteza, e só não encerro essa digressão aqui porque me ocorre uma frase de Cícero cortante como a espada de Musachi, o maior dos samurais: o tempo nos tira as certezas que temos na juventude e, ao perdê-las, vai com elas uma ousadia petulante que é maravilhosa por ser ingênua. E essa é a maior das maldades do tempo, e ainda que as certezas fossem, todas elas, erradas.
Mas era sobre a cena da primeira sentença que eu queria falar. A mãe frustrada, que imagina encontrar a resposta para um casamento miserável nos braços de um amante rico e engomado, diz para filha depois de uma briga conjugal que terminou com pratos lançados na parede: Você aprendeu a maior de todas as lições, você aprendeu que tem que contar apenas com você mesma”. Quando narrei esse episódio a tio Fábio, ele, com sua voz estentórea de imperador romano, disse: “Sócrates não teria falado nada melhor. Talvez Sêneca, mas mesmo assim não tenho certeza”. (Sêneca era o filósofo predileto de tio Fábio.)
Temos que contar com nós mesmos, e no entanto quase sempre depositamos nossa felicidade (ou infelicidade) nos outros. Ninguém pode nos ajudar se nós próprios não nos ajudamos. Ninguém mesmo: nem a mãe, nem o pai, o amigo, o irmão, a namorada ou a mulher. Ninguém. Vivemos num mundo em que a solidão é tratada como um anátema, um estigma, um mal a evitar. Um grande homem da Roma Antiga disse que jamais estava menos só do que quando estava só, entrega às reflexões. E no entanto poucas coisas nos enchem de tamanho horror quanto a solidão. É porque não contamos com nós mesmos. E assim lá vou eu pra mais uma das minhas citações favoritas: estamos sempre fugindo de nós mesmos. Lucrécio, poeta romano.
A única coisa que temos sob nosso controle somos nós. Nossa mente e nossas ações. O resto, não. Sua namorada deixou você? É triste, se você gosta dela, mas, se você tem presente que deve contar mesmo é com você próprio, esse é um episódio de tranqüila superação. Não está no seu controle obrigá-la a amá-lo até o último dia. Sob seu controle está você mesmo. É com você mesmo que você deve contar. Não pode haver mais sólido refúgio do que esse contra as adversidades e incertezas da vida. Foi isso que, naquela cena de Beleza Americana a mãe disse à filha. Era uma mulher histérica, descontrolada, falsa. Mas, vale a repetição, nem Sócrates poderia ter dito uma coisa mais sábia à garota arrasada.

Frase do Dia

21/07/2008

“Após um divórcio, tudo que posso dizer é que na melhor das hipóteses há uma frieza mortal e, na pior, uma ativa sacanagem de parte a parte.”
Norman Mailer, o grande escritor americano morto recentemente, um cara que quis ser Hemingway e quase conseguiu. Casou e se divorciou algumas vezes

Dona Isabel e Bira

18/07/2008

Palavras de tio Fábio, um homem sábio do interior: “Você tem, pela vida afora, uma infinidade de modelos para seguir. A sabedoria está em escolher os modelos certos e descartar os errados. Parece fácil, mas, como tudo o que parece fácil, é na verdade dificílimo”. Reproduzo de memória as palavras de tio Fábio. (Eu deveria estar sempre munido de caneta e papel ao conversar com tio Fábio para registrar suas impressões, mas sou indisciplinado demais para isso.) E coloco em sua boca uma expressão que ele jamais usaria, um superlativo, o “dificílimo. Tio Fábio, como todo cultor da elegância ao falar e escrever, despreza os superlativos, recurso de escritores baratos como seu sobrinho. (O agregado criado por Machado de Assis em Dom Casmurro, um pequeno grande personagem da literatura brasileira, era obcecado por superlativos.)
Mas o assunto são os exemplos, as referências que tomamos para a vida. Gostaria de falar de dois modelos que tive, um de um homem e um de uma mulher. O de mulher foi dona Isabel. Dona Isabel foi a empregada de minha casa nos meus dias de garoto. Descobri a força da mulher em dona Isabel. Com uma vassoura e seus gritos potentes, tocava com completa autoridade para fora de casa meus amigos quando eles faziam o que ela julgava ser bagunça.
Dona Isabel era nordestina. E nos ensinou, sem querer, o inigualável linguajar nordestino. “Esse menino num vai tomá rujão de gente”, dizia sobre mim quando eu fazia arte. Ela previa, aliás com clarividência, que o pequeno Fabio não criaria tão cedo juízo. Dona Isabel passou a vida inteira falando errado o nome de meu pai. Ainda hoje, tantos anos depois da morte de ambos, lembro com emoção a maneira como ela o chamava. Seu Ermírio.
Dona Isabel chegava cedo em casa. Lá pelas 6 da manhã. E não tinha a menor cerimônia em entrar no quarto que eu dividia com meu irmão, abrir as gavetas estrepitosas e guardar as roupas. Como preciosa compensação, levava na cama, a mim e meu irmão, um copo de Nescau bem preto. Dona Isabel vivia só, abandonada pelo marido, e cuidava bravamente de uma série de filhos, e depois dos filhos dos filhos. Nunca disse a ela o quanto a amava, e agora penso que se lhe dissesse ela me mandaria tomar rujão de gente.
Rendi-lhe o canhestro tributo de um escritor barato há alguns anos, quando escrevi um conto pornográfico chamado Dona Isabel. Ela não o leria, ainda que estivesse viva, pois era analfabeta. Com dona Isabel não conheci apenas o poder da mulher. Aprendi também que a sabedoria não está na cultura livresca. Dona Isabel não sabia ler, e foi uma das pessoas mais sábias que conheci. Uma das culpas que levo comigo é não ter ido a seu enterro. Imagino que eu estivesse no fechamento da revista, mas logo percebi que mil fechamentos de revista não valiam o ato de despedida de uma das mulheres que mais amei em minha vida, e a quem sou mais grato.
Agora o homem, um de meus modelos masculinos. Bira era o nome. Não sei se Ubirajara ou Ubiratã. Bira era o típico galã da baixada: bonitão, sempre bronzeado, galanteador. Dizia para as mulheres, olhando-as bem nos olhos, num tom macio e bem lentamente: Meu bemmmmm. Picasso dizia que as mulheres se dividem entre deusas e capachos, e queria que todas fossem capachos para ele. Bira fazia o contrário. Todas eram deusas. Com Bira aprendi que rir é o melhor remédio. Foi meu companheiro em memoráveis noites de pôquer na baixada. De vez em quando, dizia que precisava se afastar do jogo; então se levantava e afastava a cadeira da mesa. Uma das melhores cenas de jogo que conheço foi estrelada por Bira. Muitas fichas na mesa, apreensão, suspense. Bira anuncia uma seguida, para tristeza de todos nós os outros jogadores. Ao colocar as cartas na mesa, Bira acreditava mesmo ter um grande jogo. Só que era uma sequência furada. Bira estava bêbado, como sempre. Era impossível não perdoá-lo, e nós afinal achamos graça numa jogada que com outro cara nos teria enfurecido.
Bira foi dono do Biras bar, na Vila Mar, para mim mais excitante que o Ricks bar de Casablanca. Comandava o bar com a classe de Humphrey Bogart, e com muito mais bom humor. Seu bar era decorado com frases que se vêem em pára-choques de caminhões. Uma delas dizia: Se você me encontrar abraçado com mulher feia, separa que é briga. Pelo menos em minha memória eram lindas as mesas em sua simplicidade de litoral pobre. Pareciam pequenas cabanas. Bira viveu rindo e fazendo rir e, enquanto ria e fazia rir, bebia. Adolescente, mantive ali uma conta nos verões pelo dinheiro que Bira me devia no pôquer. Bira dizia que eu era perigoso no jogo. Nunca comi camarões fritos comparáveis aos feitos por Vilma, a mulher de Bira.
Morreu de beber no natal passado. (Sem piada.) Mando daqui minha gratidão eterna, Bira Boy, galã supremo da Vila Mar, por tantos risos que você me proporcionou.

Dona Isabel e Bira

18/07/2008

Palavras de tio Fábio, um homem sábio do interior: “Você tem, pela vida afora, uma infinidade de modelos para seguir. A sabedoria está em escolher os modelos certos e descartar os errados. Parece fácil, mas, como tudo o que parece fácil, é na verdade dificílimo”. Reproduzo de memória as palavras de tio Fábio. (Eu deveria estar sempre munido de caneta e papel ao conversar com tio Fábio para registrar suas impressões, mas sou indisciplinado demais para isso.) E coloco em sua boca uma expressão que ele jamais usaria, um superlativo, o “dificílimo. Tio Fábio, como todo cultor da elegância ao falar e escrever, despreza os superlativos, recurso de escritores baratos como seu sobrinho. (O agregado criado por Machado de Assis em Dom Casmurro, um pequeno grande personagem da literatura brasileira, era obcecado por superlativos.)
Mas o assunto são os exemplos, as referências que tomamos para a vida. Gostaria de falar de dois modelos que tive, um de um homem e um de uma mulher. O de mulher foi dona Isabel. Dona Isabel foi a empregada de minha casa nos meus dias de garoto. Descobri a força da mulher em dona Isabel. Com uma vassoura e seus gritos potentes, tocava com completa autoridade para fora de casa meus amigos quando eles faziam o que ela julgava ser bagunça.
Dona Isabel era nordestina. E nos ensinou, sem querer, o inigualável linguajar nordestino. “Esse menino num vai tomá rujão de gente”, dizia sobre mim quando eu fazia arte. Ela previa, aliás com clarividência, que o pequeno Fabio não criaria tão cedo juízo. Dona Isabel passou a vida inteira falando errado o nome de meu pai. Ainda hoje, tantos anos depois da morte de ambos, lembro com emoção a maneira como ela o chamava. Seu Ermírio.
Dona Isabel chegava cedo em casa. Lá pelas 6 da manhã. E não tinha a menor cerimônia em entrar no quarto que eu dividia com meu irmão, abrir as gavetas estrepitosas e guardar as roupas. Como preciosa compensação, levava na cama, a mim e meu irmão, um copo de Nescau bem preto. Dona Isabel vivia só, abandonada pelo marido, e cuidava bravamente de uma série de filhos, e depois dos filhos dos filhos. Nunca disse a ela o quanto a amava, e agora penso que se lhe dissesse ela me mandaria tomar rujão de gente.
Rendi-lhe o canhestro tributo de um escritor barato há alguns anos, quando escrevi um conto pornográfico chamado Dona Isabel. Ela não o leria, ainda que estivesse viva, pois era analfabeta. Com dona Isabel não conheci apenas o poder da mulher. Aprendi também que a sabedoria não está na cultura livresca. Dona Isabel não sabia ler, e foi uma das pessoas mais sábias que conheci. Uma das culpas que levo comigo é não ter ido a seu enterro. Imagino que eu estivesse no fechamento da revista, mas logo percebi que mil fechamentos de revista não valiam o ato de despedida de uma das mulheres que mais amei em minha vida, e a quem sou mais grato.
Agora o homem, um de meus modelos masculinos. Bira era o nome. Não sei se Ubirajara ou Ubiratã. Bira era o típico galã da baixada: bonitão, sempre bronzeado, galanteador. Dizia para as mulheres, olhando-as bem nos olhos, num tom macio e bem lentamente: Meu bemmmmm. Picasso dizia que as mulheres se dividem entre deusas e capachos, e queria que todas fossem capachos para ele. Bira fazia o contrário. Todas eram deusas. Com Bira aprendi que rir é o melhor remédio. Foi meu companheiro em memoráveis noites de pôquer na baixada. De vez em quando, dizia que precisava se afastar do jogo; então se levantava e afastava a cadeira da mesa. Uma das melhores cenas de jogo que conheço foi estrelada por Bira. Muitas fichas na mesa, apreensão, suspense. Bira anuncia uma seguida, para tristeza de todos nós os outros jogadores. Ao colocar as cartas na mesa, Bira acreditava mesmo ter um grande jogo. Só que era uma sequência furada. Bira estava bêbado, como sempre. Era impossível não perdoá-lo, e nós afinal achamos graça numa jogada que com outro cara nos teria enfurecido.
Bira foi dono do Biras bar, na Vila Mar, para mim mais excitante que o Ricks bar de Casablanca. Comandava o bar com a classe de Humphrey Bogart, e com muito mais bom humor. Seu bar era decorado com frases que se vêem em pára-choques de caminhões. Uma delas dizia: Se você me encontrar abraçado com mulher feia, separa que é briga. Pelo menos em minha memória eram lindas as mesas em sua simplicidade de litoral pobre. Pareciam pequenas cabanas. Bira viveu rindo e fazendo rir e, enquanto ria e fazia rir, bebia. Adolescente, mantive ali uma conta nos verões pelo dinheiro que Bira me devia no pôquer. Bira dizia que eu era perigoso no jogo. Nunca comi camarões fritos comparáveis aos feitos por Vilma, a mulher de Bira.
Morreu de beber no natal passado. (Sem piada.) Mando daqui minha gratidão eterna, Bira Boy, galã supremo da Vila Mar, por tantos risos que você me proporcionou.

Saudade do Poltergeist

11/07/2008

Cris e Pedro estavam à beira da piscina em Ribs, cada qual com um livro. Pedro relia um romance policial de Agatha Christie, O Caso dos Dez Negrinhos. Agatha Christie sempre fora sua escritora policial predileta. Lera ao longo dos anos muitos anos romancistas policiais supostamente superiores, de PD James a Chandler, de Hammett a Patricia Highsmith. Mas todos lhe pareciam principiantes comparados a Christie na arte de desafiar o leitor a encontrar o assassino. Regularmente Pedro fazia uma limpeza em sua biblioteca, e dava os romances policiais. Excetuada sua amada coleçao de Agatha Christie. Pedro lhe era imensamente grato por tanto entretenimento proporcionado ao correr dos longos dias. Havia, fora isso, um elo com o pai. Como Graham Greene, o primeiro livro de Agatha Christie que lera lhe fora passado pelo pai.

Cris estava lendo um livro de ensaios de Paul Johnson, uma ode aos inovadores e criadores na arte, de Chaucer a Austen, de Dürer a Shakespeare, de Hugo a Turner. Cris pintava. Tinha uma tela em sua sala, e vendera quadros por uma quantia interessante numa temporada que passara na Europa. Tinha uma reproduçao de um Klimt em sua casa. De Klimt amava tanto quanto a arte o amor dedicado a sua mulher e modelo. Era jovem, espirituosa, inteligente. Petulante como costumam ser as mulheres bonitas. Pedro a imaginou num repente gravida, embora as mulheres da geraçao Sex And The City parecessem nao apreciar tanto assim a maternidade. Uma criança morena e agitada, como a mae, pensou. Sofia talvez fosse um bom nome.

“Detestei”, disse ela. Tirou os olhos de Natasha do livro e os fixou em Pedro.
“O quê?” Pedro sabia que Cris era temperamental. Amava as coisas com facilidade, mas podia detestar com facilidade ainda maior.
“O que o Paul Johnson escreveu sobre as mulheres. Você gosta dele, nao?”
“Adorava os artigos dele na Spectator. Ele fazia o pensamento liberal ficar imensamente charmoso. Como o Buckley nos Estados Unidos. Caras assim fariam bem ao Brasil. Acho legais os perfis demolidores que ele escreveu sobre intelectuais como o Tolstoi.”
“Os perfis neste livro que estou lendo sao em geral positivos. Mas o que ele fala das mulheres escritoras como a Jane Austen e a George Sand. Vontade de matar o cara.”
“O que ele fala afinal?”
“Em resumo. Que se elas fossem bonitas e atraentes teriam gerado filhos em vez de livros, e que a gente deve agradecer a natureza por tê-las feito feias o suficiente para se dedicar nao ao casamento e sim à literatura.”
“Lol.”
“Engraçado isso? Esse machismo horroroso?”
“Me cita um trecho legal desse livro.”
“Umas palavras de um pintor japonês. Katsushika. ‘Desenho formas e objetos desde os seis anos. Aos 50 produzira um numero infinito de desenhos. Mas nao estou satisfeito com o que fiz antes dos 70. Aos 80, progredira muito. Aos 100 terei chegado a um estado superior de arte e, aos 110, cada ponto e cada linha terao vida. Desafio aqueles que viverem a ver se cumprirei minha promessa.’ Ele tinha 83 anos quando disse isso.”

Pedro percorreu com os olhos o corpo de bailarina de Cris, esculpido finamente ao longo de anos de exercicios penosos de barra e logo tornado moreno pela luz do sol. Tinha se desinteressado de Agatha Christie, Paul Johnson, Jane Austen e George Sand, e de todas as escritoras que tinham se dedicado às letras por supostamente nao terem encontrado homens interessantes que as desejassem e as levassem ao altar e lhes dessem filhos.

“”, ele disse. Nenhuma outra pessoa entenderia senao Cris. Era o suficiente.

De volta a mim mesmo

07/07/2008

Uma semana de férias. De volta aos lugares em que nos dias jovens meu coração batia inocente.
Por uns instantes fugidios estarei com o menino que teve olhos de Natasha. Aqueles olhos rútilos que só temos uma época na vida, aquela em que acreditamos, sonhamos — e confiamos.
Hasta la vuelta.

Fabio