Archive for Janeiro, 2007

Dois tipos de homem

31/01/2007

Estou lendo um bom livro. Neve, do turco Orhan Pamuk, Nobel de Literatura de 2006. Me chama a atenção uma frase do narrador: “Há dois tipos de homem. O primeiro não se apaixona antes de ver como a mulher come um sanduíche, como ela penteia o cabelo, com que tipo de bobagem ela se preocupa, por que ela tem raiva do pai, o que as pessoas comentam sobre ela. O segundo tipo, aquele em que me enquadro, só se apaixona por uma mulher quando não sabe nada sobre ela.” Reflito um pouco sobre mim mesmo, e acho que caibo no primeiro tipo.

O piercing como símbolo

30/01/2007

Acabo de ler que o tipo de piercing mais quente e mais polêmico é o que se coloca na vagina. Como aquele com o qual a modelo Karina Bacchi apareceu num ensaio na Playboy. Os homens – os normais, pelo menos – gostam. Não pelo que é em si, um adereço num lugar já suficientemente lindo para dispensá-lo, mas pelo que sugere. O piercing genital indica uma mulher sexualmente ousada, petulante e surpreendente.

A escrava que comanda

29/01/2007

A mais nobre ação de uma mulher amorosa está em perceber o que interessa a seu homem e ajustar-se a isso. É um ato em que a mulher se dá, e ao mesmo tempo ganha com isso. Ganha um amante ardoroso, reconhecido, pouco disposto a investir em outras mulheres. A fêmea que finge escravizar-se a seu macho conquista, na verdade, um escravo. Foi assim que Cleópatra arrebatou César e Marco Antônio. Foi assim que Helena de Tróia derrubou Páris e Menelau.

A terra treme

29/01/2007

Uma velha cigana, num romance de Hemingway, diz a uma jovenzinha pela primeira vez apaixonada que, na vida de uma mulher, há três ocasiões em que a terra treme. Não mais que três. Para um homem a conta não pé muito diferente. u para mim naquela noite em que tive Márcia nos braços e dei meu primeiro beijo. Me pergunto, tolamente, o que a vida fez de Márcia. Proust escreveu que as ruas e os lugares infelizmente são fugitivos como os anos. Acrescento o seguinte: também as pessoas infelizmente são fugitivas como os anos.

Paixão e caixão

29/01/2007

Um artigo de uma revista americana diz que um pouco de guerra num casal pode dar, na hora das pazes, num sexo deslumbrante. Havia até algumas evidências supostamente científicas para apoiar a tese. Pensei o seguinte: pobres dos leitores que decidirem testar. Guerra no amor não se controla como uma pipa, para a qual você dá mais linha ou menos linha de acordo com o vento. Dados os primeiros disparos, não há retorno possível. Os amantes que iniciam uma guerra talvez subam aos céus nas reconciliações sexuais, mas descerão depois ao inferno para não mais saírem, miseravelmente derrotados. O inferno só vai terminar com o fim do romance. Se o homem e a mulher estiverem inteiros, o máximo que conseguirão dizer é: sobrevivi. E não será pouco. Um dos destinos clássicos da guerra amorosa, como na guerra convencional, é o caixão.

O código

29/01/2007

Todo grande amor exige um código, uma senha particular e intransferível, algo que pertença apenas ao casal. significa intimidade, cumplicidade. isola duas pessoas numa multidão. Um amor sem código é como uma praia sem banhista, ou um romance policial com fim previsível. Não deixa lembranças que aquecem e iluminam noites frias e escuras. é uma daquelas pequenas coisas que fazem um grande amor. Em Proust, Swann cantarolava um trecho de uma música, e Odete já sabia que horas de amor sôfrego estavam por vir. Em Fitzgerald, Dayse acendia uma luz em sua casa, e Gatsby sabia que ela a o estava chamando. O casal apaixonado é criativo. Inventa nomes, trejeitos, olhares, gestos como a luz acesa de Dayse ou a música de Swann. Quando as tolices sublimes de um código são esquecidas é porque o amor acabou.

Relações Tóxicas

24/01/2007

Há uma patologia psicológica que talvez explique a duração prolongada de namoros ou casamentos já arruinados: o sofrimento pode viciar tanto quanto chocolate ou cigarro. Entra aí o paradoxo do êxtase no suplício, uma filigrana mental tão sutil que só de pensar em descrever me vem um sentimento invencível de preguiça. E existe um fator físico poderoso: o sexo. Quanto mais tóxica a relação, melhor aparentemente o sexo. Horas incessantes de inferno são substituídas por momentos fugidios de glória sexual. A mulher que ainda há pouco agredia você em palavras e às vezes em gestos suplica por tapas, às vezes pancadas. Parece fantástico. Mas um segundo olhar mostra que, passada a ilusão do deslumbramento erótico, o sexo que emerge de uma relação tóxica é, ele também, tóxico.

Momento Imortal

24/01/2007

E então me ocorre que toda história de amor tem um momento imortal. É aquela cena, aquele instantâneo de que nos lembramos até o último dia. Fechamos os olhos e lá está a cena, clara como uma fotografia. Sei lá. Imagino que seja o apogeu da história, aquele ponto até o qual tudo parece que dá certo e depois do qual as coisas começam a se complicar. Todo romance tem sua imagem definitiva. Pode ser uma caminhada com os cachorros. Ou um sorriso súbito que iluminou um dia triste. Pode ser algo que foi dito ou algo que foi justamente silenciado. É engraçado. Quase nunca a imagem imortal está associada a sexo. O sexo é rude demais, primitivo demais para merecer lugar nas memórias românticas.

Perfume de mulher

23/01/2007

Napoleão, quando estava voltando de alguma campanha no exterior, mandava avisar Josefina. O libidinoso general queria que ela parasse de tomar banho para recebê-lo com cheiro de mulher. Cheiro de mulher. Não há essência que se compare remotamente em poder de arrebatamento ao cheiro de mulher. Napoleão tinha toda a razão. A sorte da multibilionária indústria de perfumes femininos é que as mulheres não concordam com Napoleão. E gastam muito dinheiro para alterar o melhor cheiro do mundo. (Em italiano a frase soa ainda melhor. Profume di donna, nome de um filme italiano do qual lembro apenas isso mesmo, o nome. Há poucos anos Al Pacino foi o protagonista de uma refilmagem).

Triângulo Sagrado

22/01/2007

Me incomoda essa mania de depilação total, avassaladora das mulheres. Francamente. Mataram o Triângulo Sangrado, que nos deslumbrou desde Eva. A mais perfeita criação da natureza foi esse triângulo. E agora ei-lo morto, a golpes de cera pérfida e de uma moda que vai transformando todas as — como dizer? — xotas em réplicas em umas das outras. Passear os dedos mansamente pela maciez da pelagem feminina, uma das mais fascinantes atividades masculinas em todas as épocas, vai-se tornando uma impossibilidade. O que era um passeio incrivelmente erótico pela imensidão capilar das mulheres virou uma volta ligeira e sem graça por uma paisagem árida ou semiárida.

O amor neurótico

22/01/2007

” impede tudo o que constrói uma relação saudável. Impede a amizade. Impede a cumplicidade. Impede a franqueza. Impede a honestidade. Impede a sinceridade. Impede a paz de espírito. Impede até o sexo realmente bom. Porque o sexo só é realmente bom com todos aqueles atributos. Fuja do amor neurótico. Fuja enquanto dá. Enquanto você está fisicamente vivo e mentalmente são.”

Eufóricos do desespero

19/01/2007

Proust, se lembro bem, notou uma curiosidade amorososa extraordinária. Certas pessoas não sofrem apenas com a dor de uma ruptura. Têm, depois, uma outra dose de sofrimento quando percebem enfim que a dor se foi. Uma espécie de nostalgia da aflição as toma e pode derrubá-las pela segunda vez. A tese proustiana é que, se a dor se foi, é porque o amor não existiu. Foi ilusão. Na fantasia sentimental dessas pessoas, o ideal é ficar acorrentado à dor para sempre, num roteiro lacrimejante e mórbido que nada é capaz de alterar. Defino esse tipo de gente como os eufóricos do desespero, gente que se alegra na tristeza.

Ame quieto

16/01/2007

“A mais genuína, a mais poderosa declaração de amor é, muitas vezes, o olhar silencioso, o gesto mudo, e, no entanto, estamos quase sempre inclinados a berrar nossa paixão. Na cama, sobretudo, trava-se muitas vezes uma competição para ver quem grita mais alto, um torneio de gemidos geralmente insinceros e ensurdecedores que cada parceiro acredita, numa mistura de ignorância e ingenuidade, serem excitantes. O berro amoroso incomoda o ouvido e dificilmente chega ao coração. E provoca não orgasmos maravilhosos, não maratonas sexuais inacreditáveis, mas simplesmente sede.”

A opinião alheia

16/01/2007


“Somos escravos da opinião alheia. E isso nos faz inimigos de nós mesmos. Um dia seu chefe está feliz e o cumprimenta no elevador. Você ganha o dia. Mas se alguma coisa aborreceu seu chefe e ele parece não enxergá-lo quando vocês se cruzam, isso talvez seja o suficiente para estragar sua semana. Mais relevante do que os outros pensam sobre nós é o que nós pensamos sobre nós mesmos. Não adianta o mundo inteiro reverenciá-lo se ao olhar para o espelho você não respeita o que vê. Os sábios recomendam unanimemente a busca da indiferença perante a opinião dos outros. Schopenhauer cita como exemplo o líder romano Mário. Um chefe bárbaro mandou desafiar Mário para um duelo. Sem ligar para o que os outros achariam de sua resposta, e muito menos para o que o próprio bárbaro pensaria, Mário mandou o seguinte recado: ‘Se você está entediado com a vida, que se enforque’.”

Fuja!

12/01/2007

“‘Fuja dos reencontros amorosos’, me recomendava Tio Fabio, um homem sábio do interior. Este era um dos pontos cruciais da cartilha sentimental de Tio Fabio, um homem cultivado na filosofia e na arte da galanteria . O tempo me fez entender a advertência de Tio Fabio. Os casos de amor nunca terminam suficientemente bem para que permitam reencontros doces. Se o final foi calmo, é porque não foi amor real. Os amantes arrastam sua paixão muito além do razoável. Uma história de amor verdadeira termina antes da despedida. Em alguns casos, bem antes. Os dias, as semanas em que os dois permanecem juntos sem que na verdade estejam são neuróticos. Destrutivos.”

O beijo

11/01/2007

“Tenho no meu quarto uma reprodução de um quadro de Klimt chamado O Beijo. Está bem na frente da minha cama. Gosto de acordar com aquela imagem estranhamente grandiosa ao alcance de meus olhos míopes de escritor barato. Os pés descalços da moça, o porte majestoso do homem, as pequenas e coloridas flores do campo. Beijo. Não existe nada mais íntimo, nada que aproxime mais duas pessoas que um beijo. Nem o sexo. Mil cópulas não valem um grande beijo.”

O tempo de acabar

11/01/2007

“Pôr fim a uma relação amorosa é uma arte tão desafiadora quanto tocar com graça uma flauta. A covardia nos detém muitas vezes. Outra vezes, o desfecho é adiado por uma última, ou penúltima, lufada de esperança. E há ocasiões em que nossa ação é impedoda apenas por uma inércia para a qual não encontramos e nem buscamos explicação. Sei lá. Talvez nas escolas devesse haver uma disciplina que ensinasse a terminar uma história de amor. Nos ensinam álgebra e geografias remotas nas escolas, mas não coisas básicas da vida, como identificar o final de um caso e agir.”

A solidão

09/01/2007

“Temos que contar com nós mesmos, e no entanto quase sempre depositamos nossa felicidade (ou nossa infelicidade) nos outros. Ninguém pode nos ajudar se nós próprios não nos ajudamos. Ninguém mesmo: nem a mãe, o pai, o amigo, o irmão, a namorada ou a mulher. Ninguém. Vivemos num mundo em que a solidão é tratada como um anátema, um estigma, um mal a evitar. Um grande homem da Roma Antiga disse que jamais estava menos só do que quando estava só, entregue às reflexões. E no entanto poucas coisas nos enchem de tamanho horror quanto a solidão. É porque não contamos com nós mesmos. E assim – e lá vou eu para mais uma de minhas citações favoritas – estamos sempre fugindo de nós mesmos.

“A única coisa que temos sob nosso controle somos nós. Nossa mente e nossas ações. O resto, não. Sua namorada deixou você? É triste, se você gosta dela, mas, se você tem presente que deve contar mesmo é com você próprio, esse é um episódio de tranqüila superação. Não está no seu controle obrigá-la a amá-lo até o último dia. Sob seu controle está você mesmo. É com você mesmo que você deve contar. Não pode haver mais sólido refúgio do que esse contra as adversidades e incertezas da vida.”

O choro masculino

09/01/2007

“Com o homem é o oposto. Ao chorar, ele se descompõe. Fisicamente fica feio. A palavra mais adequada é outra: horrível. Tenho a tese que, se o chorão se olhasse no espelho no momento do colapso moral, o mundo teria um número imensamente maior de homens firmes diante da adversidade. A natureza, ao tornar quase repulsivo o macho em pranto, estava dizendo que homem não chora.”

O orgasmo

05/01/2007

“Há entre um orgasmo e outro um breve momento de indiferença gloriosa. É breve, mas existe. Depois do sexo, estamos fartos, cheios até a boca, boiando no torpor de nossos egos inflados e hormônios sedados, orgulhosos de nós mesmos e completamente indiferentes a ela – ou a tudo. Olhei para Consuelo e pedi: “Clemência! É que, depois do sexo, não precisamos de mais nada”. Consuelo fuzilou-me: ‘Vocês só nos dizem coisas doces para nos usar. Depois do prazer, não servimos nem para conversar’.”