Archive for Junho, 2008

Memento Mori

27/06/2008

Minha primeira revista foi a Vip, da qual lembro com o afeto e a gratidão dedicados a coisas e pessoas que fizeram diferença na nossa vida, e para melhor. Fui colunista lá, sob o título de Homem Sincero. Uma vez participei de uma reportagem especial cujo tema eram os fracassos masculinos. Um amigo meu falou na primeira demissão. Ele recomendava às pessoas que se comportassem, no trabalho, com a lógica do samurai: cada dia pode ser o último. Sem paranóia, sem desespero, sem pânico. Apenas com realismo e serenidade. Quem está preparado para as dificuldades sofre menos com elas. Sêneca falava no perpétuo vai-e-vém de elevações e quedas, e eis uma frase que levo na alma. A gente pensa que os problemas só acontecem com os outros: morte, perda amorosa. E quando eles acontecem conosco, sem que os esperássemos, nossa aflição é enorme. Muitas vezes, maior que o próprio problema.

Ao reler sei lá por que o texto de meu amigo decidi me atrever aqui ao crime de plágio. Meu amigo haverá de me perdoar, quando menos por conta dos velhos tempos em que éramos camaradas de compartilhar sonhos, desilusões e tudo mais o que grandes amigos dividem. Vimos juntos A Mulher do Lado, Era uma vez na América e Corrida contra o Destino. Lemos ao mesmo tempo O Poder e a Glória, Fim de Caso e os Ensaios. Pego a lógica do samurai da qual ele falou profissionalmente e a transporto para o mundo amoroso. Acho que os que amam deveriam viver cada dia como se fosse o último. Até porque, como tudo, um dia isso vai acontecer. Ou porque um dos dois vai se cansar do outro, ou por morte, ou pelo que for. Nada é para sempre. Já ouviu All Things Must Pass, do George Harrison? Estou ouvindo agora. Sunrise doesnt last all morning. O sol não se ergue toda a manhã.

Li um livro com um nome estranho. . É de uma admirável escritora escocesa, Muriel Spark. Memento mori, em latim, significa: lembre-se de que vai morrer. Um velhinho, ou uma velhinha, diz no romance que essa reflexão deveria ser feita diariamente pelos jovens. Quanto mais se medita sobre a morte, menos aterrorizadora ela nos parece. O santo tibetano Milarepa morava em cavernas no Tibete sempre próximas de cemitérios. Epicteto recomandava nunca se afastar da idéia da morte justamente para abrandar seu impacto e vivermos uma vida plena. Morremos mil vezes do medo de morrer, disse Sêneca. Memento mori. Lembrarmo-nos de que vamos morrer é um antídoto contra esse terror de cada minuto. (Sei perfeitamente que o que estou escrevendo soará bizarro no mundo de fantasia em que vivemos, em que a idéia da morte é ingenuamente negada, em cujos comerciais de TV somos todos jovens, bonitos e saudáveis sempre.)
E então volto ao campo das relações sentimentais. Viver cada dia como se fosse o último vai fazer você dizer hoje as coisas bonitas que tem para dizer a ela. Vai fazê-lo dar um beijo não automático nem monocórdio, mas intenso e definitivo. Vai fazer você comprar flores que há tanto tempo saíram do seu decrescente repertório de gentilezas. Viver cada dia como se fosse o último vai fazer você dar o devido valor às pequenas coisas boas que os dois conquistaram juntos e também o devido valor às pequenas coisas ruins para as quais os dois atribuíram um tamanho desmedido.
Talvez faça você viver um eterno verão sentimental até que, e isso é inevitável, gostemos ou não, surja diante do casal o inverno cruel do nunca mais, nunca mais, nunca mais.

What a Wonderful World

21/06/2008

Office. Meu. Assista. The Office. O original é inglês. Duas temporadas, e o autor achou que o ciclo se acabara. Há uma enorme sabedoria em saber o tempo de chegar e o tempo de partir. Em tudo. Numa relação amorosa. Ou profissional. Quantas histórias de amor não permitiram lembranças lindas porque os dois amantes não souberam o tempo de partir, e arrastaram os restos de algo que tinha sido elevado e se tornara penoso? Onde haveria recordações consoladoras ergue-se, nestas situações, uma parede de raiva e amargor. Tempo de partir. Lembro uma cena de Blade Runner em que o andróide loiro filosoficamente contempla a imensidão da noite e para além dela sua própria mortalidade, do alto de um prédio, e com bravura diz ter chegado o tempo de partir.

Mas. Mas. Eu estava falando de The Office. A edição inglesa e a americana, brilhantes ambas. Mike e Dwight fazem diferença na versão americana. Mike, o chefe do escritório, é interpretado por Steve Carell. Pedro me chama a atenção para o cabelo dele. De uma temporada para a outra ele está mais cabeludo. Implante. Recebo um torpedo de meu irmão Juanito. Vá ver Agente 86. Mucho bueno. Carell faz o Agente 86. Agora. Agora. A música. A música do original inglês é infinitamente mais bonita. Um trecho de Handbags and Gladrags, de Rod Stewart. A grande voz rouca indaga, sob uma melodia doce comandada por um piano: so what becomes of you, my love, when they had finally stripped you all? Uau. Suspiro profundo agora. O que se tornou de você, amor?

Quantas vezes na vida você olha para alguém amado – sua namorada, ou um amigo de longas jornadas — e tudo que você tem a dizer é exatamente isso. O que se tornou de você? Era Uma Vez na América. Sergio Leone. A cena final. De Niro, o amigo traído. James Woods, o traidor. Tantos anos depois. Woods busca o perdão nos olhos de De Niro. Que em seu silêncio impenetrável parece apenas dizer: o que se tornou de você? Leone. Sou fascinado por Leone e seus closes nos olhos dos personagens nas cenas mais dramáticas, Enio Morriconni ao fundo. Toda vez que a câmara de Leone se fixava nos olhos de um personagem este parecia indagar, sem resposta, o sentido das coisas. Como decifrar a beleza miserável que existe nesta vida, para citar uma frase de um dos filmes que mais me marcaram, Beleza Americana.

Mas. Mas. Eu queria falar de como o mundo é maravilhoso. . Acho piegas a versão de Louis Armstrong. Deus. O cara talvez acreditasse também em Papai Noel, ou em finais felizes. Mundo Maravilhoso. Lol. Agora. A versão punk, pungentemente devastadora, de Joey Ramone. Joey reproduziu a grandeza épica de Sid Vicious em My Way e Kurt Cobain em Where Did You Sleep Last Night. Joey estava morrendo ao gravá-la. Tempo de partir. Hector was the first of the of the gang to die. Morrissey cantando. O primeiro Ramone a morrer. He stole our hearts away. Quebrou nossos corações.

Mas. Mas. Ele fez grande arte ao recriar . Michael Moore entendeu assim. A cena final de Columbine. Meninos mortos a tiros por outro menino. E então a guitarra pesada e tosca, a voz que vem das entranhas, e o cantor moribundo lembrando a todos nós o quanto é lindo o mundo.

Lembro que o plano era ficarmos bem

18/06/2008

Era um final de caso, e a mulher que partia me disse que ligou o rádio do carro porque sabia que a música que ia tocar falaria de nós dois. O acaso trouxe Vento no Litoral. Não gosto particularmente de Renato Russo e nem da Legião Urbana. Conheço pouco, é verdade, mas tenho o forte sentimento de que conheço o suficiente. Não tenho tanto tempo disponível assim para ouvir músicas, e tenho que escolher bem. Renato Russo não está na minha lista A, e nem B.
Mas. Mas. Aquela é uma canção linda, reconheci quando a ouvi depois. Poética, profunda. O som marinho suave ao fundo. Me lembrei de outra música linda, em que aparece o barulho do mar, Sweet Painted Lady, a doce mulher colorida tão majestosamente descrita por Bernie Taupin numa melodia do jovem Elton John. The smell of the sea in your hair. O cheiro do mar no cabelo dela. Deus, Bernie Taupin e Elton John fizeram de uma prostituta barata uma rainha.
Vento no Litoral é uma despedida, uma canção de desesperança e resignação. Gosto de uma frase em particular. Lembra que o plano era ficarmos bem. Renato Russo faz uma pequena e dolorosa pausa entre as palavras “ficarmos” e “bem”. Uau. Tenho Vento no Litoral no meu Ipod, mas prefiro não ouvir. Há coisas que é melhor não lembrar num fim de caso, e Vento no Litoral me traz memórias que prefiro deixar adormecidas.

Mas. Mas me chamou a atenção a história de ouvir uma canção ao acaso, e decidi fazer o mesmo. Uma única vez. Estava prestes a chegar à São Gualter, e liguei o rádio. A voz poderosa de Morrisey. Não lembro se a música era da fase solo ou dos tempos dos Smiths, para mim a maior banda dos 90 ao lado do Nirvana. Um trecho. Um trecho que ouvi me fascinou. Para que me preocupar com pessoas que não se importam se vou viver ou se vou morrer. O trecho. Esse trecho. Capturou meus ouvidos, me deixou tocado. Me fascinou. Para que me preocupar com pessoas que não se importam se vou viver ou se vou morrer. Engraçado. Devo ser bobo, tolo. Mas. Mas. Refleti alguns segundos e vi que me preocupo com com pessoas que não se importam se vou viver ou se vou morrer. Lol. Lembro. Como Vento no Litoral, lembro que o plano era ficarmos bem.

O Neto e nós, os bacanas

11/06/2008

Meus amigos. Com freqüência gosto de escrever sobre os meus amigos. Li uma vez uma definição sublime sobre a amizade. Era de Montaigne, o filósofo francês dos Ensaios. Vou citar de cabeça. É possível, portanto, que haja diferenças entre o que Montaigne escreveu e o que vou colocar agora, e não para melhor. Os amigos são como uma costura tão sutil que a gente nem nota a linha que os une. Não é à toa que Montaigne é Montaigne. Ele dedicou seus Ensaios a um amigo, de quem francamente não lembro o nome cuja morte simplesmente o arrasou. (Logo ele, Montaigne, um homem finamente cultivado na arte de lidar com a idéia da morte, apoiado na leitura minuciosa e constante de mestres como Sêneca, o grande estóico da Roma Antiga e filósofo predileto de tio Fabio, um falecido homem sábio do interior. Deus o tenha). Ah, lembrei o nome. La Boètie. Este o amigo de Montaigne cuja morte o atirou numa “longa noite fria e escura”.

E então eu dedico esta coluna ao Neto. Talvez o Neto nem tenha sido tecnicamente o que se define como amigo. Não sei sequer seu primeiro nome. Neto de quem? Não sei onde ele morava. Mas no correr dos dias encontramos na vida pessoas por quem temos uma simpatia, uma afinidade tão natural e instantânea que as temos na conta de amigas mesmo que não saibamos, como no caso do Neto, seu primeiro nome. Você pode até deixar de ver essas pessoas por anos, talvez para sempre. Mas de alguma forma elas vivem em você. E ao recordá-las, por uma razão ou outra, uma sensação de calor e conforto como que se instala dentro de nós, ainda que seja por instantes rápidos e fugidios. “Não somos nem mais nem menos do que a soma das marcas deixadas em nós pelas pessoas que participam ou participaram da nossa vida”, dizia tio Fabio. Deus o tenha.

Não lembro como conheci o Neto. Um dia ele estava apanhando bolinhas na quadra de tênis em que eu jogava. Um garoto de uns 12 anos, com aquele clássico e fácil sorriso de teclado dos meninos negros. Tênis surrado, camiseta rasgada, outros clássicos. Tinha raça, tinha garra, o Neto. Logo alguém lhe arrumou uma raquete usada, e ele nos momentos de folga treinava, treinava, treinava. Quando jogávamos um contra o outro eu costumava vencer. Mas rapidamente passei a perder. Um dia o Neto simplesmente me matou com suas bolas curtas. Eu não chegava, e ele ria aquele riso de teclado. O saque das flores, como esse saque me machucou. Era um saque com efeito, e me atirava rumo às flores ao lado da quadra. Daí o nome. Anos depois, quando dou um saque que tira o adversário da quadra, me vem à cabeça de imediato o saque das flores. O Neto cresceu no tênis. Virou rebatedor, disputou campeonatos da federação e tentou iniciar uma carreira de professor.

O tênis podia salvar o Neto. Mas de que vale uma raquete diante do destino? A última vez que o vi foi num torneio. Ele jogava contra um cara rico e forte e arrogante. E esse cara chamou o Neto de ladrão. Não sei se o Neto tinha roubado ou não o ponto, mas hoje quando lembro daquele episódio me arrependo de não ter gritado em favor do Neto e contra o playboy filho da puta. Um remorso que só é grande por fazer que eu me sinta pequeno. O Neto perdeu a partida, não sem antes cair e alegar que tinha torcido o tornozelo, num momento apontando para o direito e em outro para o esquerdo. Lol. Também essa cena ficou marcada em mim. Ele esquecer que tornozelo fingira ter machucado foi uma das situações mais cômicas que vi na vida.

Outro dia me disseram que mataram o Neto. Contaram que ele tinha dado para andar num carrão incompatível com a realidade de professores de tênis. Parece que estava metido no crime. Um acerto de contas. Atirou, não acertou, atiraram, acertaram. Quando vi o filme Cidade de Deus, como que vi o Neto. Um bairro miserável, os garotos miseráveis que se inspiram nos bandidos que lhes dão dinheiro e brinquedos depois de bons golpes. A roda gira, e gira, e gira. Mas olho uma foto antiga e o que vejo é um menino negro com um sorriso maior que o mundo, o Neto, meu amigo Neto, de quem jamais soube o primeiro nome, o dono do devastador saque das flores. Neto, o menino que sonhou enfrentar o destino com uma raquete usada, camiseta rasgada e tênis dados como esmola por um de nós, os bacanas.

Êxtase no suplício

09/06/2008

Ela fala alto com você. Às vezes, grita. Não costuma pedir, mas exigir. Negociar, para ela, é sinônimo de impor. O rosto dela reflete um duradouro estado de insatisfação e raiva. Ela faz você ver que não está à altura dela, uma rainha às voltas com um cara banal. Ela está sempre à espreita para agarrar uma oportunidade de brigar: as bananas que você comprou não estavam maduras ou você não deixou o jornal onde o encontrou. Você já nem se lembra de quando ela perdeu o respeito por você. Mas sabe que ela é capaz de passar quase 1 hora ao telefone insultando você, com um variado e poderoso arsenal de impropérios. Ela não gosta de seus amigos e deixa isso claro, para você e para eles. Um derrotado entre derrotados. E parece acreditar que as amigas dela encontraram príncipes encantados. A lista enorme de seus defeitos é conhecida em detalhes pelas amigas e pela família dela.

Bem-vindo ao Clube das Relações Tóxicas. Não há ganho nelas. E tampouco esperança de melhora. Há uma teimosia neurótica de seguir em frente, com crises constantes e cada vez piores. Num certo momento, mesmo que você, num espasmo de razão, veja que não existe sentido em continuar, se sente como que tomado de impotência. A impressão é que uma corrente, um grilhão intransponível, o liga àquela mulher que o reduziu a nada. Você jura que vai embora. Jura que jamais deixará seus ouvidos serem massacrados com tantas palavras negativas. Jura que se libertará de uma tirania insuportável. E no entanto ali permanece, exposto a ataques insistentes.

Uma das crueldades das relações tóxicas é que o final é muito mais difícil de ser alcançado do que quando você tem uma relação boa, civilizada. E então me vem à mente uma frase que sublinhei há muito tempo, numa época em que era ingênuo e ativo o bastante para anotar passagens literárias que me impressionavam: braços que se desenlaçam numa despedida suprema. Finais romanticamente lindos como esse só são conseguidos por casais que não se deixaram tomar pela toxicidade. Nos casos amorosos tóxicos, os braços demoram infinitamente para se desenlaçar, apesar de tantas coisas ruins. E, quando aparece enfim, o desenlace é, quase sempre, para que as mãos desimpedidas atirem pedras.
Há uma patologia psicológica que talvez explique a duração prolongada: o sofrimento pode viciar tanto quanto cigarro ou sorvete de chocolate. Entra aí o paradoxo do êxtase no suplício, uma filigrana psicológica tão sutil que só de pensar em descrever me vem um sentimento invencível de preguiça. E existe um fator físico poderoso: o sexo. Quanto mais tóxica a relação, melhor aparentemente o sexo. É como se a mulher tóxica reservasse o que lhe sobrou de mais interessante para a cama. Ela xinga, espezinha, acotovela você em todos os espaços disponíveis e até nos indisponíveis, mas na cama se comporta como uma cortesã francesa, como a mais lânguida e excitante das marafonas. Horas incessantes de inferno são substituídas por momentos fugidios de glória sexual. A mulher insuportável que até há pouco xingava você pede para ser chamada de vagabunda. A megera que investia contra você suplica por tapas, às vezes pancadas. E quem não concedia nada diz que você pode fazer o que quiser, sim, o que quiser com ela. Parece fantástico, mas um segundo olhar costuma mostrar que, passada a ilusão do deslumbramento, o sexo que emerge de uma relação tóxica é, ele também, tóxico.

Êxtase no suplício

09/06/2008

Ela fala alto com você. Às vezes, grita. Não costuma pedir, mas exigir. Negociar, para ela, é sinônimo de impor. O rosto dela reflete um duradouro estado de insatisfação e raiva. Ela faz você ver que não está à altura dela, uma rainha às voltas com um cara banal. Ela está sempre à espreita para agarrar uma oportunidade de brigar: as bananas que você comprou não estavam maduras ou você não deixou o jornal onde o encontrou. Você já nem se lembra de quando ela perdeu o respeito por você. Mas sabe que ela é capaz de passar quase 1 hora ao telefone insultando você, com um variado e poderoso arsenal de impropérios. Ela não gosta de seus amigos e deixa isso claro, para você e para eles. Um derrotado entre derrotados. E parece acreditar que as amigas dela encontraram príncipes encantados. A lista enorme de seus defeitos é conhecida em detalhes pelas amigas e pela família dela.

Bem-vindo ao Clube das Relações Tóxicas. Não há ganho nelas. E tampouco esperança de melhora. Há uma teimosia neurótica de seguir em frente, com crises constantes e cada vez piores. Num certo momento, mesmo que você, num espasmo de razão, veja que não existe sentido em continuar, se sente como que tomado de impotência. A impressão é que uma corrente, um grilhão intransponível, o liga àquela mulher que o reduziu a nada. Você jura que vai embora. Jura que jamais deixará seus ouvidos serem massacrados com tantas palavras negativas. Jura que se libertará de uma tirania insuportável. E no entanto ali permanece, exposto a ataques insistentes.

Uma das crueldades das relações tóxicas é que o final é muito mais difícil de ser alcançado do que quando você tem uma relação boa, civilizada. E então me vem à mente uma frase que sublinhei há muito tempo, numa época em que era ingênuo e ativo o bastante para anotar passagens literárias que me impressionavam: braços que se desenlaçam numa despedida suprema. Finais romanticamente lindos como esse só são conseguidos por casais que não se deixaram tomar pela toxicidade. Nos casos amorosos tóxicos, os braços demoram infinitamente para se desenlaçar, apesar de tantas coisas ruins. E, quando aparece enfim, o desenlace é, quase sempre, para que as mãos desimpedidas atirem pedras.
Há uma patologia psicológica que talvez explique a duração prolongada: o sofrimento pode viciar tanto quanto cigarro ou sorvete de chocolate. Entra aí o paradoxo do êxtase no suplício, uma filigrana psicológica tão sutil que só de pensar em descrever me vem um sentimento invencível de preguiça. E existe um fator físico poderoso: o sexo. Quanto mais tóxica a relação, melhor aparentemente o sexo. É como se a mulher tóxica reservasse o que lhe sobrou de mais interessante para a cama. Ela xinga, espezinha, acotovela você em todos os espaços disponíveis e até nos indisponíveis, mas na cama se comporta como uma cortesã francesa, como a mais lânguida e excitante das marafonas. Horas incessantes de inferno são substituídas por momentos fugidios de glória sexual. A mulher insuportável que até há pouco xingava você pede para ser chamada de vagabunda. A megera que investia contra você suplica por tapas, às vezes pancadas. E quem não concedia nada diz que você pode fazer o que quiser, sim, o que quiser com ela. Parece fantástico, mas um segundo olhar costuma mostrar que, passada a ilusão do deslumbramento, o sexo que emerge de uma relação tóxica é, ele também, tóxico.

Sêneca, as formigas e nós

06/06/2008


A maior parte das coisas que dizemos e fazemos é inútil. São palavras de tio Fábio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha. Imagino que ele tenha se inspirado, nessa frase de imensa sabedoria, em Sêneca, seu filósofo predileto. E meu. Imagino, não. Tenho certeza. Tio Fábio sempre gostou de citar expressões deliciosamente ferinas de Sêneca relativas à idéia do esforço em vão, do suor vertido por nada ou quase nada. Uma delas: agitação estéril. Outra: preguiça excitada. Lembro-me de ouvir tio Fábio contar que Sêneca comparava as ações inúteis ao trabalho das formigas que descem e sobem o tronco da árvore sem nenhum propósito.

Penso que isso acontece com quase todo mundo: uma dificuldade poderosa de ficar sem fazer nada. Simplesmente contemplar as coisas. Refletir sobre nós mesmos. Não nos permitimos o ócio. Pegar uma sessão das 2 no meio da semana. Tomar um sorvete no parque no meio da tarde, sob a sinfonia natural da passarada e das folhas tocadas pela brisa. Ou simplesmente fechar os olhos e pensar. Estamos sempre fugindo de nós mesmos. Fugindo de nós mesmos: claro que essa frase de gênio não é minha, mas de um poeta e filósofo romano chamado Lucrécio. Estóico. Sou fascinado pelo lema dos estóicos. Abstém-te e suporta. Em latim soa como um grito épico.

Parecer ocupado é considerado importante, mais do que estar mesmo ocupado. Na vida corporativa, isso chega a extremos de comédia. The Office, o maravilhoso seriado estrelado por Steve Carell, é mais real do que a gente possa imaginar. Quer rir, relaxar, esquecer os problemas? Alugue dvds de The Office. George Costanza, de Seinfeld, é outro mestre da simulação de atividade. Li numa revista que uma empresa de recolocação de executivos desempregados arruma para eles escritório e secretária para que finjam trabalhar. (E fujam de si mesmos, ocorre-me.) Suspeito que tudo isso se encaixe no que Sêneca chamou de agitação estéril. Esqueça agora a empresa. Seu tempo é livre? Pois então você se sente compelido interiormente a ocupá-lo. Você pega o celular e telefona à primeira pessoa que lhe venha à mente, mesmo que não tenha o que dizer. Ou então se instala em frente do computador e entra e sai de chats. Você sobe a escada. Depois desce. Todos nós fazemos isso. Subimos escadas e descemos como as formigas de Sêneca. Sem propósito. Apenas porque não conseguimos ficar sozinhos com nós próprios. Atenção. Eu sou uma formiga de Sêneca. Tenho consciência disso, e é um bom começo para tentar mudar.

Registro aqui o elogio do ócio, numa época de tantos movimentos por nada, de tanta agitação sem nexo. E penso, comovido, numa canção de John Lennon. Ouço-a mentalmente. Watching the Wheels. Olhando para as rodas. Ele dizia que as pessoas estranhavam vê-lo sentado, de olho nas rodas dos carros que passavam e passavam. “Apenas gosto de vê-las girar”, disse John. John Lennon nesse momento foi tão sábio quanto meu tio Fábio, quanto Sêneca, quanto todos aqueles que se insurgem contra a fuga automática e neurótica de si mesmos.

O sábio está demasiadamente ocupado

02/06/2008

Eu tinha brigado com minha primeira namorada. (Pode também ter sido com a segunda. Sempre posso estar enganado. É um direito legítimo de um escritor barato como eu. Balzac não poderia estar enganado. Tolstoi também não. Eu, sim. Mas chega de digressão.)
Ela, a primeira ou segunda namorada, me dissera coisas que me pareceram pesadas. Eu estava arrasado.
Tio Fábio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha, notou meu estado de espírito lamentável. Me perguntou o que acontecera. Respondi. Basicamente, disse que ela achava que eu não valia nada. Que jamais seria alguém na vida. Que era preguiçoso. Que minha ambição era desumanamente pequena. Que por isso meu futuro era menos promissor que o de um chiclete.
Tenho que admitir que naquela tempestade de ofensas ela encontrou uma grande tirada, essa do chiclete. Ainda hoje, quando masco um chiclete, me lembro da comparação. De certa forma me vejo ali no chiclete mascado. (O tempo provaria que em muitas coisas ela acertara nos vaticínios sombrios. Mas não quero falar sobre isso aqui).
Tio Fábio, com sua voz estentórea de Fred Flintstone, me disse que um dia eu entenderia que o importante não é o que as pessoas pensam sobre a gente. Mas o que nós pensamos de nós mesmos. A opinião alheia pesa muito mais sobre nós que nossa própria opinião.
É engraçado. É patético. Somos vulneráveis, infantilmente vulneráveis ao que dizem e pensam de nós.
Se nos elogiam, exultamos. Se nos criticam, ficamos deprimidos. O que nós mesmos pensamos sobre nós não interessa diante da opinião, da voz alheia. E então me ocorre uma conversa posterior de tio Fábio sobre o mesmo assunto.
Sabedoria, quando alguém vem dizer que falaram mal de você, segundo tio Fábio, é responder que aquela pessoa maledicente não sabe metade dos seus defeitos. (Ele deve ter aprendido isso com suas leituras de mestres orientais. Ele foi um maníaco por orientais, fossem sábios ou gueixas.)
Somos escravos da opinião dos outros. Achamos que eles julgam grande nosso nariz? Pagamos 5 mil reais por uma cirurgia plástica. Achamos que eles não gostam de nossas roupas? Vestimos as roupas que eles gostariam que nós vestíssemos. Achamos que eles só nos respeitarão se tivermos um carro novo e caro? Compramos. Vivemos, por paradoxal que seja, para os outros, não para nós mesmos.
Você e sua namorada, ou namorado, por exemplo. Aposto que você, antes de fazer alguma coisa no relacionamento, pensa no que ela vai pensar a respeito de sua atitude. Não no que você vai pensar. (Falei em aposta? Sou jogador de pôquer. Mas, estou quase desistindo. Minha tia Lili, blefadora compulsiva, tem me esmagado no jogo. Nem os conselhos de tio Fábio tem sido suficientes para me livrar dos blefes de tia Lili. Socorro.)
Claro que não estou advogando o egoísmo. É o oposto. Estou simplesmente dizendo que o importante é que você se respeite, não que os outros o respeitem. E a gente faz coisas horríveis na tentativa desesperada de conquistar o respeito dos outros. Coisas que muitas vezes nos levam a perder o respeito por nós mesmos. (Alguém aí falou em filosofia barata? Mas o que mais se poderia esperar de um escritor barato? Raciocínios de Platão?)
Se estamos acorrentados à voz alheia, sofremos frequentemente por um reconhecimento que não vem. Isso acontece na vida amorosa. E talvez mais ainda na vida corporativa. E então termino com uma frase que tio Fábio gostava de citar. Confúcio, se não me engano. (Mas posso… bem, não vou repetir.)
Mais ou menos assim: O sábio está demasiadamente empenhado em fazer coisas que lhe trarão reconhecimento para perder tempo esperando por reconhecimento.