Archive for Outubro, 2007

O Amor e a Guerra

29/10/2007

Uma revista masculina americana publicou, há algum tempo, um artigo que era uma espécie de elogio da violência no amor. Não, não. Estou exagerando. O artigo apenas falava como um pouco de guerra entre o homem e a mulher pode, na hora das pazes, resultar num sexo alucinante. (E lá vou eu para mais uma digressão: amo uma passagem do filme O Advogado do Diabo em que o Al Pacino descreve, para o marido traído, o sexo que fez com a mulher deste. Em sua voz tonitruante e cínica, ele diz mais ou menos o seguinte para o marido atormentado: numa escala de 0 a 10, considerando-se que o sexo papai-mamãe que você faz com sua mulher é 3, chegamos a 7.)

Enfim: o tal artigo dizia que, depois da guerra, o sexo podia subir alguns pontos na escala Pacino-Diabo. Havia até algumas evidências supostamente científicas para dar suporte à tese. Eu pensei o seguinte: pobres dos leitores e leitoras que decidirem testar. Guerra no amor não se controla. Não há retorno possível, uma vez começados os combates.

Os amantes que iniciam uma guerra talvez subam aos céus nas reconciliações sexuais, mas inapelavelmente descerão ao inferno para dali não mais saírem, miseravelmente derrotados. O inferno só vai terminar com o fim da relação. Acabado o romance, se o homem e a mulher estiverem inteiros, o máximo que conseguirão dizer de tantas coisas que viveram juntos é: sobrevivi. E não será pouco. Porque muita gente não sobrevive. Digo fisicamente mesmo. Um dos destinos clássicos da guerra amorosa, como na guerra convencional, é o caixão.

Eu falei acima em teste. Em casais que decidam testar a tese bélica da revista americana. Mas errei. A guerra no amor, como a globalização, não é escolha. É destino. Os tambores já começam a rufar, anunciando a guerra, quando certos homens e certas mulheres nem trocaram ainda o primeiro olhar de flerte. Pode acontecer que ele, o homem, tenha sido, em todos os outros relacionamentos, tão pacífico quanto uma ovelha tibetana. E ela também. Mas, ao se encontrarem, por alguma química estranha, os exércitos se mobilizam. E não demora muito para que alguém aperte o gatilho.

É o amor neurótico em ação. O amor neurótico é generoso como nenhum outro tipo de amor: proporciona momentos inigualáveis, sobretudo no sexo. E é também cruel como um cossaco russo. (Meu Tio Fabio, um homem sábio do interior, é que me contava que não havia nada tão cruel como um cossaco russo. Jamais conferi a veracidade histórica dessa afirmação, mas confio integralmente na sabedoria de meu tio.) Céu e inferno, céu e inferno.

Uma característica essencial no amor neurótico é que ou você pega o pacote todo ou não pega nada. Não dá para ficar com a parte boa e desprezar a ruim. Infelizmente, é impossível ter sexo com alta nota na escala Pacino-Diabo e, ao mesmo tempo, assistir de mãos dada à novela das 8 comendo pipoca. A fraternidade é uma impossibilidade científica no amor neurótico.

Uma outra característica vital do amor neurótico é que, no princípio, o êxtase predomina sobre a fúria. Há muito céu e pouco inferno. Aos poucos, numa marcha perversa e inexorável, a ordem vai se invertendo. Cada vez mais inferno, cada vez menos céu. No último estágio, do céu resta apenas recordações, mais e mais difusas. Você mal acredita que um dia as coisas andaram bem, tão destruidora a relação se tornou. É tempo de encerrar. Isto é, se você ainda estiver vivo para cair fora. Eu quase ia dizendo, pueril e inútil: fuja, fuja do amor neurótico enquanto há tempo. Mas não adianta: você é capturado muito antes de se dar conta de que se trata de um amor neurótico. Então termino dizendo apenas a quem está vivendo ou vai viver uma paixão dessas: boa sorte.

O dinheiro compra até o amor verdadeiro

29/10/2007

Faz mais ou menos um mês. Estamos no São Cristóvão, e estamos bebendo e conversando. Marçal, o escritor, Ailin, a colunista, e eu. É poético o nome do livro mais recente de Marçal: Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios. Marçal conta que, numa feira literária, disse em público: que editor publicaria um romance com um título desses? Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, levantou a mão.

Li e gostei: bem escrito, sensual. O leitor homem que é homem mesmo tem vontade de comer Lavínia, a fêmea fescenina do livro de Marçal. Temos gostos literários em comum, Marçal e eu: Raymond Chandler, o criador do detetive Philip Marlowe, por exemplo, um dos grandes heróis solitários da literatura. As frases curtas, cortantes, elegantes de Chandler nos emocionam e nos inspiram. (Ailin é mais sofisticada: Clarice Linspector é sua referência.)

Falamos em roteiros. Marçal escreveu alguns, como Cheiro de Ralo. Eu adoraria escrever um. Elogiamos a qualidade internacional do roteiro de Tropa de Elite. O grande roteiro faz com que todas as conversas pretensamente banais sejam inteligentes sem ser artificiais. O roteiro de Friends é, com insistência quase irritante, excepcional. “O melhor criador de diálogos que o Brasil já teve foi o …”, começo a dizer, “… Nelson Rodrigues”, terminamos juntos Marçal e eu. Ailin faz cara de quem concorda,. É nas peças de Nelson Rodrigues, mas não só nelas, que estão os maiores diálogos já escritos em português.

Comento minha admiração por Montaigne. E conto: “Um dia estava triste, e abri ao acaso o Montaigne em busca de conforto.” Faço isso com freqüência. Abro os Ensaios de Montaigne ao acaso em busca de alguma paz. “Meu maior medo é ter medo”, escreveu ele. Mas naquele dia específico em que busquei conforto, conto a Ailin e a Marçal, fui dar num ensaio que começava assim: a mais bela das mortes é a morte voluntária. O elogio do suicídio.Lol. Conto, e rimos. “Meu, quase me atirei do prédio”, digo. Marçal diz que numa época colecionou bilhetes de suicidas. O do poeta Torquato Neto dizia o seguinte: “Perdôo vocês. Espero que vocês também me perdoem.”

Marçal está escrevendo um livro novo. Um anão rico que busca o amor. Ele estudou o mundo dos anões para escrever o livro. Me ocorre uma das grandes frases de Nelson Rodrigues. “.” Vocês concordam, pergunto. Alguma hesitação, mais em Ailin do que em nós dois, mas não muita. Não que não acreditemos no amor, mas o dinheiro é muito forte. Sim, concordamos todos. .

Manhattan

27/10/2007

Revejo na TNT. Um dos dois grandes filmes de Woody Allen. O outro é Annie Hall. O apogeu criativo de Allen. Branco e preto, . Um dos inícios mais belos do cinema. Uma declaração de amor sincera e comovedora a Nova York, sob a melodia arrebatadora de Rahpsody in Blue dos irmãos Gershwin. Não sei por que, penso agora em São Paulo. E me ocorre que gostaria de um dia declarar meu amor a São Paulo, tão gloriosa e tão miserável ao mesmo tempo, tão rica e tão pobre, tão desigual, tão pedra e tão poesia. Mas onde nasci, cresci, onde conheci pessoas e lugares que me fizeram ver o sol e a lua e o mundo de outra maneira. Onde aprendi o valor do sonho e o valor do fim do sonho. E onde pretendo morrer de morte rápida na hora certa. O imperador Julio César disse que a maior dádiva que os deuses podem conceder a alguém é uma morte rápida.

Deus, como gostaria de fazer uma declaração de amor a São Paulo como Woody Allen fez a . Um dia, talvez.

Mas o filme que revejo. A participação tão enriquecedora, nos comentários, de Mariel Hemingway, anos depois. Ela, menina ainda, fez um grande papel em , e a TNT a convidou para comentar o filme, antes dos intervalos comerciais. Mariel é neta de Hemingway, um dos meus romancistas amados. A carreira de atriz não foi adiante, mas ela está eternizada, como uma rainha inamovível, em .

Tão frágil, tão menina, tão linda no papel de Tracy. (Vou poupar vocês aqui de dizer o quanto a incrível semelhança física entre Tracy e Lenira me perturbou por um bom tempo.)

Ela se apaixona, em , por um cara bem mais velho que ela, vivido pelo próprio Woody Allen. Ele tem uma namorada de quem gosta, vivida por Diane Keaton, que na época era casada com Allen, e que fora antes de a estrela desconcertante de Annie Hall.

O cara fica dividido.

Tracy decide fazer um curso de teatro de seis meses em Londres. O cara primeiro a apóia, vá, vá sim, claro. Depois, no derradeiro momento, quando ela está prestes a embarcar no táxi que a levaria ao aeroporto, ele a tenta demover. Como, Londres? Cidade velha, chata. Que você vai aprender lá? Meu, além de tudo, você vai se apaixonar por um ator. Ou um diretor. Vai ser o nosso fim, Tracy. O nosso fim.

E ela, são apenas seis meses, hoje vou e logo estou de volta.

E então a frase que segundo a comentarista convidada pela TNT, agora uma mulher madura, longe do esplendor da menina que viveu, mas de olhar ainda tão intenso, e então a frase que segundo ela é a chave do filme.

Tracy diz a ele, os olhos fixados nos dele, a menina serena e sábia, o homem experiente inseguro e assustado, num paradoxo de gênio.

Você … você precisa aprender a confiar mais nas pessoas.

O verão das nossas vidas

23/10/2007

Olho para minha estante e apanho um livro antigo. É um livro de um escritor barato, e está no meio de romances de escritores nada baratos. Dostoievski e Tolstoi, Balzac e Flaubert, Hemingway e Fitzgerald, Machado e Eça, Roth e Updike, Chandler e Hammett, Garcia Marques e Vargas Llosa.

É um livro simples, banal, tolo, como as coisas que escrevo.

Mas eu o amo, e ele sobrevive ás limpezas periódicas de livros em minha biblioteca.

O nome é Verão de 42, escrito por um certo Herman Raucher, e inspirou um filme tão bonito quanto o livro, e isso é raro. A trilha sonora, um piano lírico, melodioso, lento, triste, é uma das mais belas do cinema.

Um cara retorna ao lugar em que passou o verão de sua vida, uma praia. Essa a história. O narrador lembra aqueles dias ensolarados, aqueles tempos de descobertas e transformação que a gente vive apenas aos quinze anos.

Vou direto ao final. Quero reler as últimas linhas ainda uma vez. O garoto se apaixona por uma mulher mais velha, com quem faz sexo pela primeira vez. Ela fora movida pelo desespero, depois de saber que o marido morrera, e o garoto pela paixão deslumbrada. Depois ela vai embora, e deixa uma carta para ele na qual diz esperar que ele seja poupado de todas as tragédias sem sentido.

Mas ninguém é, ninguém é.

O garoto cresceu, virou homem, e jamais perdeu a carta.

De vez em quando, sempre que o mundo o castigava, ele parava o que estava fazendo e lia outra vez a carta, diz o livro.

Às vezes me pergunto se as coisas que um dia escrevi servirão de conforto a alguém quando o mundo castigar, ou se tudo são folhas na relva, palavras perdidas na imensidão das coisas.

Não tenho resposta, mas secretamente alimento a ilusão de que certas coisas escritas por mim possam, quem sabe um dia, despertar um sorriso num rosto triste.

Um pequeno trecho do tolo livro de Raucher tem este efeito sobre mim. O narrador está indo embora do lugar onde vivera o maior verão de sua vida. O homem se afastou da casa e voltou para a direção de onde viera, com a areia de todos esses anos passados caindo nos seus pés, a manhã fresca, a umidade matutina. E pensou na pequena verdade que ele quando menino tinha levado tanto tempo para entender. A vida é feita de pequenas idas e vindas, e para tudo que um homem leva existe alguma coisa que ele deve deixar.

Para tudo que a gente leva existe alguma coisa que a gente deve deixar.

É uma verdade dolorida, e também uma frase que eu gostaria de ter escrito.

O General e o Guerreiro

23/10/2007

Então penso no General e no Guerreiro. Com eles aprendi tanta coisa, e no entanto nunca lhes disse: obrigado. Rompemos antes que eu entendesse o quanto aprendera com eles. Algumas rupturas nos enriquecem, outras nos empobrecem. Olho para trás e vejo que não havia nada que eu pudesse fazer para evitar romper com o General e o Guerreiro, cada um por uma razão diferente. Sei lá por que estou escrevendo estas linhas, como num impulso irresistível. Talvez seja para agradecer aos dois. Rio comigo mesmo com a idéia de que eles jamais saberão desse agradecimento canhestro e tardio. Mas essa quase certeza não vai me fazer parar aqui.

A mais legítima miséria para um homem é não encontrar a seu redor inspiração. O General. Fico quase comovido ao me lembrar dele. Num filme sobre caras de uma banda de rock que se reencontram anos depois há uma cena linda. Os velhos roqueiros estão falando do guitarrista, desaparecido em pleno florescimento, jovem, cabelos longos, traços lindos e femininos, mas másculo como um gladiador. Um deles diz, num melancolia reverente: “Ele foi o cara mais próximo de gênio que o rock permite”. É como se ele estivesse se referindo ao General. O General foi o cara mais próximo de gênio que o jornalismo permite.

Vi o General escrever uma reportagem complicada e longa de trás para a frente, por razões industriais: o final tinha que chegar à gráfica primeiro. E ouvi o General contar uma história que continha uma reflexão filosófica a jovens entusiasmados e cheios de si. No emprego anterior, ele cuidara de uma coluna lida e admirada. Pensava ter 300 amigos. Quando deixou a coluna, viu que eram apenas três. Os demais era amigos da coluna. O General era um líder que punha os pés nas areias quentes de Tróia e se submetia, como todos nós, soldados, às flechas inimigas. Era uma das razões pelas quais o amávamos tanto. Talvez a principal. O General não chegou a Rei, e tinha que ser assim, mas, como aconteceu com Aquiles na ofensiva grega sobre Tróia, sem ele a vitória teria sido impossível.

O Guerreiro era de outra natureza. Nunca vi ninguém com tamanha capacidade de trabalho. O Guerreiro não tinha um dom excepcional, mas o empenho tenaz, continuado, em certos momentos maluco, o elevou extraordinariamente. Teria sido mais uma nulidade se cedesse um pouco à preguiça, mas não. Era dele o último carro que se via no estacionamento. Quando todos parecíamos exaustos ele ainda era capaz de carregar pedras. Talentos preguiçosos acabaram por ficar bem aquém das conquistas do Guerreiro. O poder do esforço. Ninguém amou tanto o meu trabalho como o Guerreiro. Ele lia as coisas que eu escrevia como se estivesse lendo Machado de Assis. Submetia a meu exame o que escrevia e ficava ansioso diante de um olhar ou uma palavra minha, mesmo sendo meu superior. O Guerreiro acabou dando segurança a um jovem inseguro.

Com o General e com o Guerreiro cresci, combati, sofri, perdi e ganhei. Tomamos caminhos diferentes, e isso é inevitável. O ônibus vai trocando de passageiros ao longo do trajeto: gente que chega, gente que sai. De vez em quando penso nos dois. E entendo a sorte imensa que tive por estar ao lado deles, num certo ônibus, por algum tempo.

Sonhos perdidos

19/10/2007

Então vamos falar dos sonhos. Não dos sonhos realizados, mas dos perdidos. Sonhos perdidos. Acho essa expressão sublime. Poética, lírica, poderosa. Os sonhos que me interessam são os perdidos. Não resisto à tentação de interromper a mim mesmo e falar de um quadro inspirado num outro de Edward Hopper, o grande retratista da solidão americana. O quadro se chama Boulevard of Broken Dreams. Rua dos Sonhos Perdidos. Não troco dez Monas Lisas por aquele pequeno grande quadro.

A minha tese a respeito de sonhos é: eles não existem para serem realizados. Existem apenas para ser sonhados e, depois, perdidos. O sonho realizado morre. O sonho perdido se eterniza. Contemplem, por favor, o quadro que ilustra este texto, e digam se não estou certo. Os sonhos perdidos reunidos naquela lanchonete são para sempre

E então eu olho para mim e para meus sonhos. Meu primeiro sonho sério amoroso foi com Lenira. Outro dia, ao mexer em velhos livros, encontrei uma dedicatória de Lenira. Era um livro francamente horrível. Um tratado de semiótica. Não o li na época e jamais o lerei. Mas vou guardá-lo até o fim de meus dias, como um pequeno troféu, pela dedicatória. “Espero que você goste. Mas, tratando-se de Fabio Hernandez, nunca se sabe.”

A dedicatória me devolveu à memória o rosto jovem de Lenira. E depois a reconstruiu, como um escultor meticuloso, como naquela noite de sábado em que a beijei pela primeira vez. O vestidinho azul. A camisa amarela por baixo dele. O ar ingenuamente sexy de bandeirante. E sobre os olhos mais verdes que as águas do Caribe eu prefiro nem falar.

Tive então o impulso de ir ao condomínio de prédios onde, lá para trás, se realizou o baile em que nos demos o primeiro beijo. Desci do carro e me sentei num banco diante do condomínio. Fiquei apenas olhando, e olhando, e olhando. Na verdade eu não estava ali. Eu estava a muitos anos de distância dali. Uma mulher se aproximou e perguntou, gentil e preocupada, se estava tudo bem. “Sim”, respondi. “Foi só um… sonho.” Ela não pareceu convencida. “Tem certeza de que está tudo bem?” Fiz que sim com a cabeça. Um dia ela também retornaria a seus sonhos perdidos.

E agora me ocorrem meus sonhos literários. Aos 20 anos eu sonhava escrever romances. Muitos romances. Romances como os de Dostoiévski, Jorge Amado e Fitzgerald, meus preferidos naqueles dias. Todos eles tinham lançado seu primeiro romance na casa dos 20 anos. (Acho que Jorge Amado até antes.) Mas a vida me transformou não num romancista sério, mas num escritor barato. Vejo agora mesmo diante de meus olhos uma estante imaginária com os romances importantes que jamais escrevi.

E então penso em Os Maias, de Eça de Queiroz. O final fala exatamente dos sonhos perdidos. Dois amigos conversam pelas ruas de Lisboa sobre seus sonhos destruídos. Um deles, Ega, como eu, nunca escreveu o romance que toda Lisboa tanto esperara. Entendi enfim, terminada a leitura, que sem sonhos perdidos não haveria a grande arte de Os Maias, ou de Hopper, ou de tantos outros gênios. Não haveria aquela formidável tocha que se alimenta da dor para produzir romances, poemas, canções, quadros, filmes que iluminam e aquecem a humanidade nas noites frias, úmidas, escuras. E então eu soube que a maior miséria de todas é não ter uma coleção de lindos sonhos perdidos.

Foto: Edward Hopper / WebMuseum

A pequena aprendiz

19/10/2007

Maria Eduarda olha para Pedro.

“Não que eu não acredite em você, mas duvido de mim mesma”.

Maria Eduarda. O nome da filha que ele não tivera. Maria Eduarda, dos Maias, de Eça. A mulher que se apaixonara pelo irmão Carlos, longe de quem fora criada, sem contato nenhum. Carlos ficou igualmente apaixonado. Tão loucamente que fez sexo com ela, ainda uma vez, desesperado, mesmo depois de saber que era sua irmã. Maria Eduarda. Uma história triste, um nome sonoro e lindo. A filha que Pedro não tivera. Uma personagem que o fascinara desde a primeira leitura.

Pedro dissera a Maria Eduarda que ela era espirituosa, vivaz. Brilhante. Daria uma boa roteirista. Capaz de elaborar frases inteligentes e faze-las parecer coloquiais. Sabe-se lá o que a levara para a medicina, não para o mundo das letras. Para dar anestesias? Não, não era anestesista, e sim anestesiologista. Num mundo tão sofrido, a anestesia tem quase uma missão social: tirar a dor das pessoas. Maria Eduarda tinha uma gérbera na orelha direita, uma espécie de brinco ofertado pela natureza.

“Mestre”?

“Hm”, respondeu Pedro.

Riram. Ela o chamava de Mestre, mas era não para reverenciá-lo e sim para provocá-lo.
“O tempo. É a coisa mais enigmática que existe para mim”.

Pedro riu. O tempo estava do lado dela, mas ela parecia não saber.

“Santo Agostinho disse sobre o tempo o seguinte”, Pedro disse. “Se penso nele, sei o que é, mas se me perguntam sobre ele, não sei dizer. Santo Agostinho. Aquele que confessou que roubava maçãs na infância”.

“Mestre”?

“Hm”.

“Acho essa explicação muito confusa. Sei lá. Une o nada ao nada. Agostinho…”

“Santo Agostinho”, Pedro disse.

“Agostinho. Não acredito em santos. Agostinho é muito confuso”.

Pedro riu da blasfêmia. Se ela não respeitava sequer o santo, como iria respeitá-lo?

“Mestre?”, ela disse no seu tom discretamente zombeteiro.

“Hm”

“Vi na internet os quadros que você recomendou. Schielle e Klimt. Você parece saber tanta coisa. Será que um dia eu também vou saber?”

“Meu, você sabe muita coisa que eu não sei. Não sei nada sobre o Skype. Não sabia que essa flor na sua orelha se chamava gérbera”.

“Não que eu não acredite em você, mas duvido de mim mesma”, repetiu ela.

Não era apenas uma frase literária.

Era uma frase verdadeira. Para nós, todos nós, pensou Pedro.

Não que desconfiemos do que os outros dizem de nós.

Mas desconfiamos de nós mesmos.

Não acreditamos em nós. E não existem palavras alheias que façam isso mudar.

A vida inteira.

A vida inteira somos descrentes de nós mesmos.

E quem acredita realmente em si mesmo está movido ou pela ignorância, ou pela ilusão, ou por uma mistura de ambas.

Nunca, jamais, sempre

16/10/2007

Engraçado. Quando era para lembrar, esqueci. Quando era para esquecer, lembrei. Aquele dia, lá para trás. Você. Você era a menina de estrelas nos olhos, como a Natasha jovem de Guerra e Paz de Tolstoi. Um trecho. Um trecho em que Pedro narra o encontro, anos depois, com Natasha. Tolstoi escreve que Pedro teve dificuldade em notar que ali estava Natasha, não porque ela tivesse ficado mais magra e mais pálida, ou porque aquele fosse um lugar improvável para ela frequentar. Ele não a reconheceu, à primeira vista, porque aquela face em cujos olhos estivera sempre presente o brilho da alegria de viver mudara. Os olhos agora eram gentis, atentos e tristemente inquisitivos.

Penso em Natasha e penso em você e penso em nós.

Você naquele dia que na hora certa esqueci e na hora errada lembrei era a menina de estrelas nos olhos. Você era a Natasha de Tolstoi. Você. Você acreditava nas coisas, acreditava em você mesma, acredita em mim, acreditava em nós dois. Duas fotos mostram isso na plenitude. Uma se foi com você, a outra ficou comigo. Como numa cena de Sergio Leone, seu rosto foi capturado e revelado nos detalhes pelo fotógrafo. Natasha é você, você é Natasha. Ambas são meninas de estrelas nos olhos.

Ou foram.

Na memória de Pedro de Tolstoi e na minha mesmo serão sempre, de alguma forma.

Quanto a mim. Quando penso naquele tempo em retrospectiva, vejo que foi o fim de minha Era da Inocência. Era da Inocência. Uma expressão tão pungente que dói escreve-la, ainda mais quando precedida da palavra fim. O fim da minha Era da Inocência. Eu era um garoto da Previdência, eu usava roupas baratas e por vezes absurdas, eu era puro, eu, sei lá, eu tinha fé. Uma vez pus um pé de um sapato e um pé de outro. Paletós baratos, as mangas curtas. Camisa tantas vezes fora da calça, atrás.

E os olhos. Os olhos arregalados. Eu acreditava. Um cara de estrelas nos olhos. Depois, sei lá que palavra empregar. Depois de alguma forma me perdi de mim mesmo, e do garoto da Previdência. É um verbo duro, mas não encontro melhor para descrever o que ocorreu comigo: depois me corrompi. O mundo me tomou de assalto, me tragou, e os sonhos ingênuos e lindos acabaram se transformando num cinismo utilitário que me levou para longe, bem longe, do garoto da Previdência. E da inocência.

O mesmo aconteceu com você, e acho que acontece com todo mundo, não é?

Somos, os dois, a Natasha de Tolstoi. Todo mundo é, penso. Glória e miséria. Vivemos a glória, na Era da Inocência, e vivemos a miséria quando, depois, nossos olhos se tornaram, como os de Natasha, tristemente inquisitivos.

. Ouvi de uma jovem e bela filósofa esta expressão outro dia. . Gostei tanto que é o título que vou dar a este texto. .

Ouço agora no Ipod uma canção. Carole King. Tapestry é um grande álbum, um clássico. Um daqueles para ouvir antes de morrer. E presto atenção num verso. Um verso específico. Still Im glad for what we had, and how I once loved you. Mais ou menos isso: a despeito de tudo, sou feliz pelo que tivemos, e pelo quanto um dia te amei.

Mas é tarde demais.

O silêncio angustiante

14/10/2007

“É angustiante”, diz ela. “Aquele silêncio.”
Ela se referia a um conto. Fabio reencontra Lenira, cinco anos depois de ela tê-lo deixado. Estão ambos na cantina que frequentavam quando eram reis, Speranza. Só ela fala. Fabio se limita a refletir, ouvi-la, rememorar e, sobretudo, admirá-la.
“Eu entendi o silêncio”, digo. “Quem tinha que falar alguma coisa era ela, não ele. Ela tinha que explicar por que o abandonara. E tinha também dizer coisas que não tinha dito. Basicamente, insultá-lo. Está escrito no conto alguma coisa mais ou menos assim: todos os insultos que proferimos no final de um caso parecem insuficientes depois. E ela tinha ido embora sem falar nada.”
“Ainda assim. A gente lê e fica esperando que ele fale alguma coisa. Qualquer coisa, caramba. Aquele silêncio é … sei lá. Aquele silêncio é … ensurdecedor. Odiei aquele conto. Odiei no bom sentido, se existe bom sentido. “
“A lógica do Fabio é inatacável, eu acho. Ele se calou quando falar fazia sentido, lá para trás. Seria um erro falar quando falar já não fazia mais sentido.”
“Quem era a Lenira”, ela falou.
“Pergunte a quem escreveu. Sabe aquela história do Hemingway. A terra treme três vezes sob os nossos pés. Ouvi dizer que a Lenira fez a terra tremer pela primeira vez para o autor.”
“Como será que ela era.”
“Imagino morena, nos cabelos e na pele, olhos verdes. Olhos que tinham o brilho da alegria de viver, como os da Natasha de Guerra e Paz. Imagino aquele tipo de mulher bela que parece desconhecer sua beleza, e que por isso é duplamente bela, e um mistério impenetrável para os homens . E imagino, pelo autor, que ele seria capaz de escrever nas costas de um fotinho três por quatro dela algo assim: para a menina de quinze anos mais linda que jamais existiu ou existirá. É um cara muito … muito xarope, se me entende.”
Ela riu e concordou.
Aquele escritor era mesmo muito xarope.

Os olhos de Natasha

14/10/2007

Tolstoi. Leio numa revista americana que há uma espécie de renascimento de Tolstoi nos Estados Unidos. Duas novas traduções de Guerra e Paz, um dos clássicos de Tolstoi, estão sendo lançadas lá. Tolstoi, um gênio absoluto. Mas meu coração sempre bateu mais forte por Dostoievski, um dos meus heróis literários. Lembro o final de Humilhados e Ofendidos, de Dostoievski. Ivan, um escritor barato como eu, pensa em Natasha, a mulher que amara e que perdera, e reflete: “Tudo podia ter sido tão diferente”. É um dos finais de romance que jamais esqueci, e jamais esquecerei.
Mas Tolstoi. Relançamento duplo de Guerra e Paz nos EUA, e eu teimoso me lembro é de outro clássico de Tolstoi, Ana Karenina. A primeira frase de Ana Karenina é, em si mesma, um clássico. “Todas as famílias são parecidas, mas as famílias infelizes são infelizes cada qual à sua maneira.” Ana, casada, nobre, sucumbe ao fascínio irresistível e canalha do Conde Vronski. Perde o marido, perde o filho, perde depois Vronski e termina, em outro desfecho célebre, se atirando atormentada sob as rodas de um trem.
Mas o que eu queria compartilhar aqui é um trecho de Guerra e Paz. É um desafio ler Guerra e Paz, dois volumes cada um de suas seiscentas páginas. Mas, como um flerte que leva um grande tempo a se transformar em namoro, é uma jornada arrebatadora viajar pelas páginas de Guerra e Paz, um retrato da Rússia sitiada pelas tropas napoleônicas no início dos anos 1800.
O trecho.
“Pedro não reparara em Natasha não porque jamais esperasse vê-la ali, mas por causa de enorme mudança ocorrida nela desde a última vez que a vira. Ela estava mais magra e mais pálida. Mas não era isso que a tornara irreconhecível. Era impossível reconhecê-la à primeira vista porque naquela face, em cujos olhos antes sempre brilhara um sorriso secreto de alegria de viver, agora, quando ele chegara e a vira pela primeira vez, não havia sequer a sombra de um sorriso; eram agora olhos comuns – atentos, gentis, tristemente inquisitivos”.

Penso que todos nós somos, de alguma forma, Natashas. Meninos e meninas de olhos de estrela, transformados pelo correr dos longos dias em homens e mulheres de olhos como os de Natasha, atentos, gentis, tristemente inquisitivos. Mas não mais brilhantes como tinham sido lá atrás.

Um verdadeiro demônio

10/10/2007

Li na revista Época uma resenha sobre Homem em Queda, o novo romance de Don De Lillo. Gosto de Don De Lillo, não tanto quando de outros dois escritores americanos contemporâneos dele, John Updike e Philip Roth, mas gosto. Isso quer dizer: da resenha passei para o romance, que retrata o 11 de Setembro, a queda das Torres Gêmeas em Manhattan sob o impacto de dois aviões seqüestrados e comandados por terroristas islâmicos.

Há, claro, reflexões sobre o amor em Homem em Queda. Uma, particularmente, me chamou a atenção. Reparto-a. É a mãe de uma personagem. Ela fala à filha pouco antes de ela se casar. “Tem um certo tipo de homem, um arquétipo, o tipo mais confiável pros amigos homens, tudo que um amigo deve ser, um aliado, um confidente, empresta dinheiro, é leal, etcetera e tal, mas com as mulheres ele é um demônio. . Quanto mais perto dele a mulher chega, mais ele percebe que ela não é um dos amigos dele. E aí é pior pra ela. O Keith é assim. É com esse homem que você vai casar”.

É uma definição que, para usar uma imagem criada pela propaganda para divulgar o canal da Warner, “faz pensar”. Ou não faz?

Não lavo louça

09/10/2007

Detesto lavar louça. Esta frase simples, banal, com cujo conteúdo todo homem desde Adão concorda integralmente, me valeu uma memorável repreensão da Nadja. Estávamos ainda no começo de nosso namoro e ela me convidara para jantar em seu apartamento. Comemos um risoto de açafrão quase maravilhoso. (Claro que, naquela noite, omiti o “quase” e completei a lisonja cavalheiresca ao repetir o prato por amor a Nadja e não ao risoto.) Terminada a comida, imaginei que fôssemos voltar ao acolhedor sofá de Nadja e trocar juras (e não só juras) apaixonadas, animados pela voz de Sinatra.

Mas Nadja, como quase toda mulher, tem por divisa primeiro o dever, depois o prazer. E então, em vez de se dirigir ao sofá e aos meus braços ávidos, ela apanhou a louça que usara e a levou à pia. Não sou tão insensível a ponto de não perceber que ela esperava que eu fizesse o mesmo. Fiz, com a ansiedade comovente do apaixonado que deseja agradar o objeto de sua paixão naqueles primeiros momentos ao mesmo tempo tão difíceis e tão fascinantes.

Foi tal a minha presteza que cheguei à pia antes que Nadja. E já cantarolava mentalmente Whats New?, minha interpretação favorita de Sinatra, imaginando um rápido retorno ao sofá e às imensas possibilidades contidas nele, quando Nadja abriu a torneira e começou a lavar a louça. Olhando para trás, entendo que ela esperava tudo de mim naquele instante em que tinha um prato sujo em suas mãos de anjo. Tudo menos a frase talvez inoportuna, mas certamente honesta, que me escapou como um raio: “Detesto lavar louça”.

Você viu Volcano ou qualquer outro filme que mostre um vulcão em ação? Nadja, quando explode, é mais ou menos daquele jeito. Som, fúria, tremores. “E você acha que eu gosto de lavar louças?” O eu, pronunciado com a veemência abissal de que só Nadja é capaz, teve o efeito de uma lava ardente sobre meus ouvidos. “Você acha que qualquer mulher gosta? Vocês, homens, são muitos engraçados.” (Tenho certeza de que “engraçados” foi uma concessão que ela fez a minha primeira visita a seu apartamento.)

Quando penso no episódio, imagino que Nadja tinha em mente um objetivo maior do que minha ajuda desajeitada ali na pia. Ela queria, sobretudo, que me sentisse culpado. Culpado de mil culpas. Porque o homem culpado é ridiculamente fácil de manobrar e controlar. Basta apresentar-lhe a culpa e pronto: ele faz tudo que lhe seja ordenado.

Mas antes de sucumbir à culpa me veio a questão: por que eu deveria gostar de lavar louça? Por que eu deveria me sentir culpado de dizer que detesto lavar louça? O ponto é:existem coisas para homens e existem coisas para mulheres.

Note bem. Não estou dizendo que as mulheres devem lavar a louça. (As mãos hábeis de Nadja se prestam a objetivos bem mais interessantes que aquele.) Estou apenas dizendo que não temos por que nos sentir culpados por detestar lavar louça. Por detestar acompanhar nossas namoradas quando vão comprar sapatos no shopping. Por detestar ir ao supermercado na manhã de sábado enquanto nossos amigos jogam futebol. Quando a gente percebe que não tem culpa por detestar essas situações abomináveis, fica mais fácil resolvê-las.

Naquela noite da qual falava acima, minha história com Nadja poderia ter naufragado no inicio se eu reagisse erradamente à repreensão enérgica que ouvi. Se eu tivesse sujado as mãos, a submissão covarde logo estabeleceria um padrão e cobraria depois um preço. Disse, simplesmente: “Detesto lavar louça, sim”. Fiz uma breve pausa e completei. “Mas já começo a desconfiar que vou amar loucamente você mesmo com as mãos sujas de gordura.”

Nadja largou tudo e me empurrou para o sofá. Cheguei a ouvir por um instante, ao longe, o som monótono da torneira aberta. Mas logo todos os meus sentidos se concentravam naquela mulher explosiva e formidável. Foi a melhor noite da minha vida, até ali, e Nadja disse o mesmo.

Nenhum de nós sentia culpa de nada.

Mulheres grisalhas

05/10/2007

Li na revista Época que muitas mulheres estão deixando de tingir os cabelos em nome da autenticidade. Numa era tão marcada pelo artificialismo – dentes de mentira, seios de mentira, olhos azuis de mentira – fico de certa forma comovido com esse movimento. Gostaria que pegasse. Mas vai?

Tropa de Elite

05/10/2007

Invadi a madrugada de ontem vendo . Não dá pra parar. Pra mim, o melhor filme nacional de todos os tempos. Sei que o Jabor não há de concordar, mas é. Começa pelo roteiro brilhante. O narrador conta a história tão bem — com naturalidade espirituosa – quanto o narrador de Beleza Americana. Deus sabe como é difícil escrever um roteiro de alta qualidade. No último VMB, por exemplo. Que roteiro ruim, mais uma vez. As conversas entre a dupla que entregava os prêmios. Ah, era pra rir? Tentativa de piada? Ok. E a Cicarelli? Bem melhor naquela praia espanhola do que no palco. Lol. Mas eu falava de . Interessante o ponto do Padilha, o diretor: a classe média e a classe alta financiam os traficantes ao consumir drogas. São vítimas deles depois sem se dar conta de que são também seus patrocinadores.

Rina e Pedro

04/10/2007

Rina acabara de chegar à sua mesa no jornal quando reparou num embrulho em que se via uma letra que, num tempo já remoto, significara tanto para ela. Era uma mesa tão caótica quanto sua dona. Quem a remexesse talvez encontrasse um jornal de seis meses antes. “Para Rina” era tudo o que se lia naquele embrulho em que se alojara, evidentemente, um livro. O nome de quem mandara o embrulho não aparecia. Nem era preciso. Passariam cem anos e Rina reconheceria aquela letra infantil, redonda, quase de colegial, aquela letra que mexera tanto em suas reportagens na época em que não havia computadores nas redações. Aquela letra que um dia a fizera tão feliz ou tão infeliz, e que agora aparecia à sua frente sem o veneno e sem o fascínio de outrora, apenas uma letra perdida entre tantas outras.

Rina era a melhor repórter de São Paulo. Cabelos curtos e negros, sobrancelhas cerradas que quase se tocavam, nariz gloriosamente acima das medidas ortodoxas. Um jeito petulante, quase belicoso de ser, como se estivesse o tempo todo na iminência de guerrear. Atribuía a beligerância às raízes italianas, mais ou menos como o grande personagem de Graciliano para quem sua rudeza selvagem era obra daquela vida agreste que lhe dera uma alma agreste. Rina ganhara fama fazendo perfis demolidores de gente em evidência de São Paulo. Era sarcástica, era cruel, era impiedosa e, se as pessoas sobre as quais escrevia às vezes a detestavam, os leitores a amavam.

Na vida pessoal, era uma mentirosa brilhante e compulsiva. Enganava maridos, enganava amantes, enganava todo mundo. “Você é a maior mentirosa desde os dinossauros”, dissera-lhe no dia em que romperam o homem da letra redonda. Desde os dinossauros. Onde ele fora buscar essa frase? Foi o único instante, na conversa, em que ela riu. Talvez tudo com aquele homem tivese durado tão mais que o razoável, pensou ela um dia, porque ele a fazia rir. Mas homens que fazem uma mulher rir são os mais perigosos, aprendera mais tarde. Porque são eles depois que farão essa mulher chorar.

Em outros tempos, ela teria aberto o embrulho com rapidez sôfrega. Agora acabou de se instalar calmamente em sua mesa, viu se havia recados de seu editor (e atual marido) no terminal e só depois abriu o embrulho. Era um livro, um romance, escrito pelo homem da letra redonda. Nunca É Tempo Demais era o título. “Título horroroso”, pensou ela. “Mataria o editor que desse um título desses a uma reportagem minha.” Verificou, surpresa, que o homem da letra redonda ainda conseguia irritá-la. Abriu o livro e topou com uma dedicatória. “Para o bem ou para o mal, você é tão responsável por esse livro quanto eu.”

Rina balançou a cabeça. Ele nunca escrevera uma dedicatória para ela nos tempos em que isso tinha importância. Eram casados, não um com o outro, e ele dizia que queria preservá-la, e ela o chamava de cínico, porque dizia que ele queria na verdade era preservar a si próprio.

Agora vinha essa dedicatória extemporânea, fora de hora. Tudo neles, pensou ela, acontecera na hora errada. Quando ela quis deixar o marido, ele hesitou. Quando ele quis deixar sua mulher, ela já não queria mais. “Nossos relógios nunca marcaram a mesma hora”, ela escreveu-lhe numa carta, algum tempo depois da separação. Rina folheou o livro. O homem da letra redonda dissera-lhe que estava escrevendo um romance inspirado no que os dois tinham vivido. Rina tentara dissuadi-lo. “Alguma coisa que só trouxe dor, sofrimento e desespero para quem a viveu não pode dar boa literatura”, dissera a ele. Bem, não o dissuadira. “A grande arte nasce exatamente do inferno”, respondera ele. “Ana Karenina sob as rodas do trem é o inferno. Rubião gritando ‘ao vencedor as batatas’ é o inferno. Raskolnikof matando a velhinha é o inferno. Carlos da Maia comendo a amante mesmo depois de saber que ela é sua irmã é o inferno. Tudo o que o céu produziu é uma mentira chamada Deus”.

Rina verificou, no livro, o nome que ele escolhera para ela. Marília. “Que nome medonho”, pensou. “Ele só pode ter me dado esse nome pra me provocar. Filho da puta.” Sim, ele ainda conseguia irritá-la. O amor termina um dia, refletira ela certa vez ao pensar nos dois, mas o ódio é eterno. Uma vez ela se surpreendeu com o pensamento de que tudo de ruim que acontecesse a ele a agradaria. Uma doença. Uma demissão. Uma desilusão.

Um cartão caiu do livro no instante em que Rina se preparava para fechá-lo. Era um convite para o lançamento do livro, dali a duas noites, na casa do editor, no Jardim América. “Tudo o que eu quero é não vê-lo nunca mais”, pensou ela. Mas tratou de cancelar todos os seus compromissos para dali a duas noites. E também os daquela tarde. Disse a seu editor e marido que não se sentia bem, podia ser um começo de gripe, e foi embora com o livro debaixo do braço. Entrou no seu carro e alguma coisa (não foi ela em hipótese nenhuma) a levou para uma rua ali perto do jornal, que servira, tanto tempo atrás, de ponto de encontro para os dois. Parou o carro no lugar costumeiro, colocou uma velha canção dos Beatles (“now somewhere in the black mountain hills of Dakota…”), desligou o seu telefone celular e começou a ler o livro.

Às vezes levantava os olhos para ver os carros que vinham em sua direção, como se o homem da letra redonda estivesse prestes a aparecer, como sempre acontecia tanto tempo atrás. Gostaria que um milagre o trouxesse àquela rua, naquele momento, apenas para poder xingá-lo. A gente nunca encerra um caso satisfeita com os xingamentos proferidos contra quem nos fez sofrer tanto, por mais coisas que tenham sido ditas.

De repente Rina começou a soluçar, primeiro baixinho, depois mais intensamente, e depois veio um choro convulsivo, bem ao seu estilo de mulher estrepitosa. Certas mulheres são silenciosas. Rina trazia sempre barulho ao redor de si. Abriu a janela do carro e arremessou o livro no meio da rua. Chorava não de saudade, não de tristeza, não pelo que podia ter sido e que não foi.

Chorava de ódio.

“Te odeio, te odeio tanto, Pedro”, gritou ela ali naquela velha rua, como se o homem de letra redonda estivesse a seu lado. “Queria tanto jamais ter te conhecido. Você acabou comigo, com tudo o que eu tinha de bom e de feliz”.

Pedro. Era a primeira vez que ela falava o nome dele em muito tempo.

Antes de partir, alguma coisa a fez apanhar o livro jogado no meio da rua. Uma deferência, talvez, a uma época da vida em que acreditara em finais felizes, ainda que o homem da letra redonda sempre dissesse que a vida como ela é matasse tudo o que fosse remotamente parecido com um conto de fadas.

Eles acabavam de sair de um restaurante na beira do mar de Salvador numa noite esplêndida de verão. A praia estava deserta e eles estavam de mãos dadas, o que sempre fora tão raro em seu amor clandestino. Tempos depois ele lembraria com dor a quantidade miseravelmente pequena de vezes em que caminharam de mãos dadas. Esses pequenos detalhes eram, nas suas memórias do que chamaria depois de os anos Rina, a parte que mais o mortificava. Estavam calados enquanto a água já minguante das ondas lambia seus pés. De repente ela deitou-se na areia branca. Ele teve vontade de chorar diante da visão majestosa daquela mulher que embelezava com seu desejo urgente e inadiável a noite quente de Salvador. Ela abriu as pernas, dobrou os joelhos, retirou com graça a calcinha branca e, com um olhar em que havia ao mesmo tempo uma ordem e uma súplica, mas mais uma ordem que uma súplica, o chamou. “Não pára, não pára, não pára nunca mais”, disse ela quando ele começou a invadi-la. “Fica sempre, fica pra sempre dentro de mm.” Naquele momento ele pensou que a maior dádiva que poderia receber era, no momento da morte, ter na mente, como um quadro de linhas bem nítidas, a imagem daquela mulher, não, daquela deusa horizontal que reinava com desespero lúbrico e desvairado sobre a areia noturna e tépida de Salvador.

Pedro olhava distraído para os três ases alinhados em sua mão direita. Em outras ocasiões essa visão o teria enlevado, mas naquela noite contemplou a trinca de ases com a indiferença de quem vê um comercial banal na televisão. Jogava pôquer todas as quartas-feiras na casa de uma velha tia. Gostava de vários jogos de baralho, como tranca e buraco, mas nenhum o fascinava tanto quanto o pôquer. Porque era um jogo que dependia menos da sorte do que do talento. Já vira gente com sorte perder muito dinheiro. Já vira também gente sem sorte ganhar muito dinheiro. Pedro aprendera a jogar, garoto ainda, com o dono de um bar situado na praia em que seu pai comprara uma casa de veraneio. Chamava-se Bira, estava sempre bêbado, vendia o melhor peixe frito que o garoto comeria em toda a sua vida e, quando perdia muito dinheiro, dizia que tinha que se afastar do jogo. A seguir, puxava a cadeira e se afastava do jogo. Bira era a pessoa mais engraçada que Pedro conhecera. Contava velhas piadas, repetia velhos truques e quem o via ou ouvia se divertia como se fosse a primeira vez.
“Quantas?”, perguntou Serena, naquela quarta-feira, baralho na mão. Ainda agora, aos 60 anos, Serena conservava vestígios notáveis de uma beleza que o tempo fora incapaz de destruir. Pedro não percebera que a pergunta era dirigida a ele. “Pedro”, disse ela, a voz um pouco mais alta. “Sua vez. Quantas?” Ele se desculpou e pediu duas. Ficou na trinca e depois, sem se lembrar da pedida dos parceiros e movido por uma irrefreável vontade de arriscar, apostou o que a mesa comportava. Trezentos e vinte reais. Os parceiros foram fugindo até que sobrou apenas Serena. Ela pedira uma carta apenas e hesitava.

Em outras noites, aqueles segundos de indecisão o teriam deixado excitado e apreensivo. Não naquela. Serena consultou mais uma vez suas cartas. Depois, apanhou um monte de fichas e jogou-as na mesa. “Pago”. Ele mostrou os três ases. Ela mostrou o quarto, a carta que viera para ela e lhe dera uma seguida mínima vitoriosa.

“Você é o melhor jogador de pôquer que eu já vi numa mesa”, disse Serena enquanto puxava o monte barulhento de fichas para perto de si. “Mas hoje está se comportando como o pior. Parece a 10000 quilômetros daqui. Você sempre foi um predador no pôquer. Agora parece um carneirinho distraído. Que é, ansioso com o lançamento do livro amanhã? Ou é Portugal?”

… continua no post abaixo

Rina e Pedro – continua…

04/10/2007

Pedro apenas balançou a cabeça. O melhor jogador de pôquer, dissera Serena. O melhor, o melhor. Ele sempre quisera ser o melhor em tudo. O melhor jogador de futebol até que uma perna espatifada encerrasse a promessa de uma grande carreira aos 15 anos. O melhor jornalista de sua geração. Fizera uma carreira rápida e vitoriosa. Uma vez um empresário lhe pedira que fizesse um trabalho de redação com o seguinte intróito: “Chamei você porque você, segundo informações que cruzei, é o melhor texto do Brasil”.

O melhor, o melhor.

Mas agora, aos 39 anos, via-se apenas como um espetacular fracassado.

Não era o lançamento de Nunca É Tempo Demais que o afligia naquela noite. Não era também a iminência da mudança solitária para Portugal. Era a perspectiva de um confronto, no lançamento do livro, com quem mais o fizera feliz e mais o fizera infeliz. Com a mulher que, ao sair de uma vida, destruíra todas as mentiras que ele construíra para si. O vitorioso. O homem que jamais hesitava. O homem que tinha o controle de tudo.

Sobrara o fracassado que não conseguira reter aquilo que mais amara na vida. Ele não sabia se gostaria de rever Rina.

Estavam deitados na cama de um hotel no interior de São Paulo. Ela dissera a seu marido que ia fazer uma reportagem sobre o patrimônio de Quércia em Pedregulho. Ele dissera a sua mulher que ia entrevistar um ministro em Brasília. As mentiras que contavam os ajudariam a viabilizar sua vida junta, mas depois teriam o poder de destruí-la. Pois jamais confiariam inteiramente um no outro. Quando, numa longa viagem que fez a serviço do jornal, ela não lhe deixou o telefone do hotel, ele logo viu a repetição do artifício que ela sempre aplicara no marido. Ela sempre negou as acusações, mas nem no dia em que romperam irremediavelmente ele acreditou na sua inocência. Mas tudo isso estava muito distante naquela noite interiorana. Ela apanhara um baralho na recepção e pedira que lhe ensinasse a jogar pôquer. “Olha essa carta”, disse ele com um ás nas mãos. “É a melhor carta que pode aparecer pra você. Agora, às vezes um determinado olhar pode levar os outros jogadores a acreditar que você tenha várias cartas como essa em que você tenha nenhuma.” “Muito complicado”, disse ela. “Buraco é mais simples. A gente pode simplesmente roubar na contagem. Como a minha mãe. E tem mais uma coisa: eu não suportaria perder dinheiro”. Ela sempre o considerara muito displicente em relação ao dinheiro, herança de uma mãe que passara fome na infância e bombardeara a filha com noções severíssimas sobre a importância de cada centavo. Antes de abandonar o baralho naquele quarto de hotel no interior de São Paulo para entrar nela mais uma vez, ocorreu-lhe que fora o pôquer mais fabuloso que já jogara ou jogaria no futuro.

Pedro estava diante de seu analista, Gabriel. Gabriel tinha os cabelos longos apanhados num rabo de cavalo. Seus ares remetiam aos anos 60. Em certos momentos parecia um hippie retirado de uma foto de Woodstock e transportado para aquela saleta modesta que lhe servia de consultório na Vila Madalena. Uma mesa, duas cadeiras ordinárias, alguns quadros baratos pendurados na parede. Gabriel acreditava nos astros e fazia os mapas astrais de seus clientes, e Pedro considerava todas essas bobagens como mais uma demonstração de que ninguém é perfeito. Gabriel tinha um bom ouvido e falava a Pedro coisas que ninguém antes falara. Era o suficiente.

Mais uma vez, o assunto era Rina. Desde que ela o deixara, Pedro dera para falar compulsivamente nela. Era como se a ausência física fosse, de certa forma, compensada pelas palavras. Pedro observara o efeito de suas observações sobre Gabriel. Ele parecia também fascinado por Rina, como aquele detetive que se apaixona por um retrato na parede, em Laura, a partir dos depoimentos que ouve.

“Durante muito tempo me atormentei com a idéia de que era um devedor. Ela tinha me oferecido tudo. O fim do casamento e até a distância dos filhos. E eu, que dei? Graham Greene, John Updike? Ela me ofereceu vida real. Tudo o que eu dei foi literatura. A frase, aliás, é dela”.
“Você deu o que podia naquele instante. E você sabe muito bem que não foi só literatura. Acho que as pessoas acabam fazendo as coisas certas mesmo quando julgam estar erradas. Naquele momento em que você me falava na hipótese de deixar sua família para ficar com ela, você estava preso por um laço que fora posto fazia muito tempo. Não teria funcionado. Você teria tentado ficar com ela, mas aquele velho laço acabaria cobrando seu preço. Depois, quando você enfim se livrou do laço, ela já não queria você. Que fazer? É a vida como ela é. Você tinha que fazer as coisas a seu modo. Por etapas. Primeiro tirar o laço, depois renovar sua vida. Esse é o seu jeito. Mas não era o jeito dela. Você não fracassou, ao contrário do que possa estar sentindo ainda hoje. Você triunfou. E ela também. Pena, talvez, que não tenham triunfado juntos.”

“Como falar em triunfo se eu perdi o que mais quis e amei na vida? Não, não tente me confortar com palavras doces. Nosso único triunfo foi termos sobrevivido um ao outro. Nós éramos nefastos um para o outro. Lembra aquele filme, A Mulher do Lado?

“Claro. Meu preferido do Truffaut. O Depardieu jovem e magrinho, antes de se transformar numa versão moderna e patética do Obelix”.

“Pois é. O homem fala para a mulher exatamente isso: nós somos nefastos um para o outro. Bem, como você lembra, eles não sobreviveram a eles mesmos. Ela o atrai para uma última cópula, mata-o e depois se mata. Jamais esqueci a moral da história: nem com você, nem sem você”.

“Nem com a Rina, nem sem a Rina, você quer dizer”.

“É. Num certo instante tive a convicção de que não sobreviveríamos a nós mesmos. Veja bem, eu quis matá-la. Ela estava viajando e eu estava convencido (ainda estou) de que ela me enganava. Fiquei desvairado e, naquele momento, compreendi, absolvi e de alguma forma até aplaudi todos os amantes assassinos desde Otelo. Eu andei uns dias com uma faca no carro para matá-la. Até hoje, quando vejo outra vez a faca, me pergunto se não deveria tê-la enfiado naqueles seios tão convidativos, tão disponíveis. E ela também admitiu claramente que uma vez teria me matado se pudesse. Se você visse o rosto dela nessa ocasião, não duvidaria”.

Rina estava separada do marido. Ele descobrira uma carta que Pedro enviara a ela. Rina aproveitou para dizer que seu casamento falira. Naquela noite, uma segunda-feira que os amantes depois chamariam de Bloody Monday, ela esperava Pedro. Ele decidira beber antes com os amigos e se atrasara uma, duas, três horas. Quando bateu à porta, encontrou uma mulher furiosa, num exíguo vestido amarelo. Ela lhe bateu, e ao erguer o braço ele viu os pêlos nas axilas que sempre o tinham perturbado tanto por dar a ela um ar de selvageria sexual. Então ela o insultou no tom mais barulhento que pôde e depois o expulsou de casa. Naquela noite, ela decidiu tentar retomar o casamento com o marido. E também se libertar de Pedro. Libertou-se, algum tempo mais tarde, ao iniciar um romance com o editor de seu jornal, que Pedro certa vez disse a Rina ser “um idiota que só vai poder puxá-la para trás”. Era irrelevante. Até porque seu papel não era puxá-la para frente, como Pedro, tão convicto em sua arrogância petrificada, acreditava ter feito. Seu papel era libertá-la de Pedro. E também de seu primeiro marido e de todo um mundo velho ao qual ela acabara acorrentada.

Era um lançamento de livro como tantos outros. Pessoas muito mais interessadas em beber e comer de graça do que no livro que estava sendo lançado. Pedro rejeitara o quanto pudera a idéia, mas o editor o convencera. “No Brasil, você sabe melhor que eu, é muito difícil vender livros”, disse o editor. “Sem a agitação que sempre traz uma festa de la
nçamento, é impossível”. Uma antiga amiga o pegou a certa altura pelo braço e o levou para um canto. “É a nossa história, não é? Já comprei o meu exemplar, mas só vou ler se for a nossa história”.Pedro balançou a cabeça. “Não perca seu tempo”.

Nesse instante Rina entrou na sala e a velha amiga entendeu tudo. Pedro, perturbado como um adolescente apaixonado diante da aparição de uma namorada remota, derrubou o uísque que estava em seu copo.

“Mais uma vez perdi para ela, não foi?”

“Talvez não tenha sido uma grande idéia tentar competir com ela”.

Ele pediu licença e foi receber Rina. Rina, ele logo notou, estava com um vestido preto que ele lhe comprara na Benetton da Quinta Avenida. Era a primeira vez que a via vestida com ele.

“Detestei o livro”, ela disse. Já tratara de apanhar um cálice de vinho.
“Bem, alguma coisa temos ainda em comum. Reli o romance ontem e também detestei”.

“Você falsificou tudo. Colocou, como sempre, as falas inteligentes em você e as tolas em mim”.

“Talvez tenha sido a maneira de compensar a inferioridade que eu sentia diante de você na vida real”.

“E aquele final feliz. É patético. Eu lutei tanto por um final feliz e você só conseguiu me oferecê-lo num livro”.

“Confesso que hesitei, mas depois achei que devia a nós aquele final feliz. Mesmo ao preço de resenhas me chamando de açucarado. A vida não foi muito generosa conosco. Por que a ficção não poderia ser?”

Ela tomou todo o vinho e apanhou outro cálice. Era como se estivesse se preparando para uma jornada dura.

“Você soube que eu casei de novo?”

Claro que soubera. Berenice, uma amiga comum, lhe contara. Pedro sorriu ao lembrar a maneira cautelosa como Berê lhe dera a notícia. Mais ou menos como se avisa alguém que uma pessoa querida morreu.

“Imaginei que você fosse me convidar para padrinho. Piada”.

“Você não vai me perguntar se eu estou feliz?”.

“Você é feliz?”

“Muito. Com o meu marido eu tenho todos aqueles orgasmos que eu fingia ter com você”.

“Antes ou depois daquelas fabulosas conversas sobre futebol?”

Seu novo marido fora comentarista esportivo. Ela tentou jogar vinho no rosto de Pedro, mas o copo estava vazio.

“Seu grosseiro, seu arrogante. Você se acha melhor que todo mundo, não é?”
Ele pensara em responder que talvez tivesse se achado o melhor até conhecê-la. Depois se considerara um fracassado irremediável. Mas aquela discussão já o exaurira.
“Eu queria tanto não ter conhecido você. Fiquei tão feliz quando me disseram que você ia embora para Portugal. Me fala que é verdade, me fala que é verdade”.

Sim. Dois dias depois ele embarcaria para Portugal. Aparecera uma oportunidade profissional e ele não hesitara. A mudança era como o símbolo de uma nova vida. Ia sozinho. Decidira que a solidão era indispensável pelo menos para o início do recomeço.

E então ele, movido por uma súbita repulsa a mais essa farsa que representavam no que era talvez o último encontro em muitos anos, a abraçou como jamais a abraçara em público. Com força, com paixão. Todo mundo estranhou, mas Pedro não se importou. Rina primeiro tentou se libertar do abraço, depois como que capitulou e retribuiu o abraço com a mesma intensidade.
“Detesto Portugal, detesto Portugal”, ela disse com a mesma convicção estrídula e lacrimosa com que tantas vezes dissera detestar Pedro. “Talvez houvesse uma esperança para nós, em algum outro tempo, em alguma outra situação. Mas Portugal significa nunca mais. Nunca mais.”

“Meu Deus, parece que você quer que eu repita o trecho que deu o título do meu livro. Lembra? Numa despedida, o rapaz lembra o final de Shane. A mulher apaixonada pergunta: ‘Quer dizer que nunca mais?’ E o mocinho responde: ‘Never is a long time’. Nunca é tempo demais.”

E então ela se libertou dos seus braços e saiu correndo.

“Literatura, literatura. Você sempre vai me oferecer literatura. Você é uma fraude.”
Não era a despedida que ele imaginara, mas a vida como ela é não permite aeroportos brumosos, um avião de turbinas ligadas, alguém indo e alguém ficando, e atrás de tudo a melodia merencória daquela música tocada por Sam.

E de resto ela estava certa.

Ele era uma fraude.

A maior fraude desde os dinossauros.

Encheu mais um copo de uísque, secou-o de um gole e, sem que ninguém percebesse, se retirou para a solidão de seu apartamento. No caos de seus pensamentos embriagados, encontrou forças para gritar para ninguém, antes de desabar no tapete da sala. “Ela sempre esteve certa, ela sempre esteve certa.”

Estavam num quarto do Over, o motel onde tudo se iniciara e agora tudo se acabava. Tinham acabado de fazer amor, uma expressão que ele sempre abominara. Preferia copular. Não, já não era a mesma coisa. A chama que sempre flamejara com fúria sumira. Ele, depois de cinco anos, a percebera distante. A distância que vira nela o fizera afastar-se também. Era a última vez. Um certo momento ele pareceu ver, ali naquele mesmo quarto, o casal tão cheio de vida, fé e paixão de cinco anos antes. Ela tinha tirado a roupa, naquela primeira vez, e ele parecia não saber o que fazer. “Você não vem?”, perguntou ela. Não foi uma primeira vez gloriosa, mas depois viriam tais e tantas glórias, e tais e tantas misérias, que tudo o que acontecera antes para cada um dos dois tornou-se irrelevante como um tíquete já usado.

“Me diz a coisa mais bonita que você já disse a alguém”, pediu ele no instante da separação. “Você é o homem da minha vida. Uma vez perguntaram para a Tônia Carreiro sobre seu romance com o Rubem Braga. ‘ Valeu cem anos’, ela respondeu. O nosso também. Cem anos”. Quando ela saiu do carro dele para nunca mais, ele ainda a chamou uma última vez.

“Me beija. Me beija por toda uma vida”.

E então eles se beijaram por toda uma vida.

Velhos amigos

02/10/2007

Éramos inseparáveis na escola de jornalismo. Ele, um obcecado por fazer tudo o melhor possível; eu; com a tranqüilidade preguiçosa de alunos sem grande ambição. Paulo e Fabio. Em comum algumas coisas, como a paixão pelo Corinthians, os romances de Graham Greene e os solos de guitarra suavemente minimalistas de George Harrison. Nescau, Calipso, Coca. O amor desvairado por jogar futebol: éramos capazes de sair direto de uma sexta de madrugada, bêbados, rumo a um jogo de futebol no sábado pela manhã. Montaigne e Sêneca. Gatsby, o romance de Fitzgerald. Conhecíamos e discutíamos detalhes de Gatsby. Anotávamos trechos de livros que nos pareciam especiais, e isso era outro ponto que tínhamos em comum. O Gatsby de cada um de nós estava quase todo rabiscado. O tempo se incumbiria de dar a nós dois o destino que cada um começou a construir lá para trás.

Paulo é o que comumente se define um jornalista de sucesso. Primeiro repórter, depois editor, depois diretor de revista. Minha carreira foi menos variada. Primeiro um escritor barato. Sempre um escritor barato.

A vida nos afastou. (A vida sempre afasta os amigos da juventude. A vida é cruel como um cossaco russo nesse trabalho de afastamento de amigos.) Ficamos anos sem nos ver. Deixei pelo telefone, duas ou três vezes, recado com sua secretária. Não recebi retorno. Entendi: pessoas em alta posição nunca têm tempo para nada, ao contrário de vagabundos como eu, para os quais os minutos fluem vagarosos como a água de um riacho. Até que um dia nos encontramos por acaso numa fila de cinema. Tínhamos ambos ido ver A Mulher do Lado, de Truffaut. (Não pus, por engano, esse filme perturbador na lista de nossas paixões comuns. Agora corrijo o erro. Como falávamos desse filme em nossos dias de jovens, como elucubrávamos, como discutíamos cada cena.)

Ver meu amigo bem-sucedido na fila de A Mulher do Lado me levou imediatamente a uma constatação. Sim, ele vestia um blazer que me pareceu Armani, e imagino que fosse Rolex o relógio que tinha no pulso esquerdo. Mas, na alma, não mudara tanto assim, ou assim me pareceu ao vê-lo na fila. Estávamos ambos sozinhos. A Mulher do Lado era e é um filme sagrado para nós. E filmes sagrados, dizíamos ele e eu em nossos dias de jovens, exigem que você os veja sozinho. Para se concentrar inteiramente. No máximo, a companhia de um saco de pipocas. Nada mais.

Combinamos tomar um lanche na saída. Nada muito demorado. No dia seguinte, meu amigo tinha uma reunião bem cedo. Fomos ao Hamburguinho, outra de nossas obsessões comuns que me esqueci de listar. Miramos em silêncio respeitoso o quadro Boulevard of Broken Dreams, sobre o qual tanto falávamos lá pra trás. Na melancólica lanchonete retratada no quadro parecíamos reencontrar um pouco da juventude para sempre perdida. “Sempre invejei você”, Paulo me disse.

Pensei que fosse piada. “Invejou o quê?” Minha desimportância? Desde quando escritores fracassados despertam inveja? Eu imaginava uma estante repleta com livros escritos por mim. Um novo Dostoievski. Um novo Fitzgerald. E acabei como um colunista de assuntos sentimentais. Com dinheiro contado para comer esse sanduíche. “Ele suspirou. “Você não foi apanhado pela gaiola em que me meti. Você é dono de você. Há muito tempo eu deixei de ser dono de mim. É o preço que ambiciosos como eu pagam.”

Eu disse: “E quem não paga? Só não paga quem não pode”. Ele deu uma risada irônica. E olhou para algum lugar que era bem longe dali. “Meu pai. Meu pai não pagou.” O pai morto era uma dor constante para meu amigo. “Foi o maior homem que eu conheci. O maior jornalista. Fui bem mais longe na carreira que ele. Muitas vezes me perguntei por quê. Outro dia finalmente entendi. Fui adiante não porque fosse melhor que ele. Mas porque sou pior. Eu paguei o preço que meu pai recusou pagar.”

Era hora de ir embora. Antes de nos despedirmos, para talvez nunca mais nos encontrarmos, Paulo me disse: “Leio você. Sabe? Acho que me realizei em você. Um escritor barato. Era isso que eu queria ser. Barato e livre. Mais não tive a coragem de recusar o que as pessoas chamam de sucesso”. Então meu amigo foi em seu carro importado rumo a sua cobertura, a seu sucesso dolorido e a seu sentimento de orfandade e desamparo. Antes de partir, Paulo abriu o vidro de seu carro e gritou para mim a frase de que mais gostávamos em Gatsby. Gatsby estava derrotado, caminhando rumo ao nada, abandonado por todos os que o bajularam enquanto estava por cima, quando o narrador gritou para ele: “Ei Gatsby, você é melhor que todos eles”. Ainda hoje me comove lembrar essas palavras pungentes de Nick, o narrador. Ouvi a mesma frase de Paulo. Com uma pequena modificação. “Ei, Fabio, você é melhor que todos nós.” Nós quem, pensei depois. Os que se venderam como ele diz ter se vendido? Depois apanhei um táxi no ponto, pedi ao motorista que me deixasse na Kilts e no trajeto pensei que o sucesso é mesmo uma coisa muito engraçada.

A pequena filósofa de olhos de jabuticaba

01/10/2007

“Foi bom pra vc?”, Fabio perguntou.
“Fabio. Você me deixa vermelha assim. Não vou responder.”
“Você já fingiu?”, disse ele para a pequena filósofa de olhos de jabuticaba.
“Fingi o quê?”, ela respondeu no seu tom inseguro e tocante de jovem mulher. Tinha 22 anos, era advogada, e não sabia como vivera até ali sem o Nirvana. Fabio recomendara a ela que ouvisse o Nirvana, em particular a última música do acústico da MTV.
“Você sabe. Orgasmo. Que nem a Meg Ryan em Harry e Sally. Aquela cena do bar. Quando ela começa a gemer de mentirinha na frente todo mundo.”
“Não vi o filme. Não é do meu tempo.”
Sim, não era um filme do tempo dela. Havia uma distância considerável de anos entre os dois. Mas ele sabia que ela veria o filme assim que pudesse. Fora o que fizera quando ele lhe falara de Klimt e Schielle, os dois pintores de que Fabio tanto gostava. Ela fora à internet rapidamente conhece-los. Com o Nirvana agira do mesmo modo.
“Mas enfim, você já fingiu?”
“Quando eu percebo que o cara se esforçou. Realmente se esforçou. Mesmo eu não tendo, sei lá, você sabe o quê, finjo que sim.”
“E quando acha que o cara não se esforçou?”
“Nem pensar. Dou um jeito de cair fora logo. Sabe aquela sensação masculina que você descreveu em Fastio Pós-Coito?”
Fabio escrevera um texto em que dizia ter vontade de dar um empurrão suave na mulher depois do sexo para ver futebol sossegado. Ou algo parecido.
“Sinto a mesma coisa, Fabio. Tenho vontade dar um empurrão no cara e sumir.”
“Com seu namorado isso acontece?”
“Não. Ele é doce, e se esforça sempre. Depois da transa, fica passando as mãos no meu cabelo e tomando vinho.”
Os cabelos dela eram longos, loiros, lisos. Fabio imaginou a cena romântica e bonita do namorado depois do sexo. E pensou nele mesmo. Tomaria vinho, mas não exatamente no copo, se tivesse vinho, como Henry Miller ou Anais Nin.
“O Nirvana”, ela disse. “Aquela última música. Estou arrepiada só de lembrar o Kurt Cobain dando aquela piscada. Mais ou menos aos quatro minutos.”
Ele fechou os olhos e lembro da piscada. Cobain piscava os olhos, dava como que um demorado suspiro e depois cantava o último trecho com desespero pungente e arrebatador. O Nirvana não deu bis naquela noite porque Kurt Cobain sabia que jamais conseguiria cantar nada melhor do que aquela versão sublime de Where Did You Sleep Last Night.
“Fabio.”
“Oi.”
“Gosto de falar seu nome. Gosto de ouvir você falar o meu. Olha. Obrigado por te me dito para ouvir o Nirvana. É por isso que gosto de conhecer pessoas. A gente é uma mistura de todas as pessoas que conhecemos.”
“Gostei dessa frase, Alexandra. Você é uma pequena filósofa.”
“Alexia. Se tocassem dois telefones ao mesmo tempo. Num seu namorado e noutro eu. Qual você atenderia?”
“Você. Acho. Por causa do Nirvana. E do Klimt. E do Schielle. Lol. E por causa também do lol.”
Lol. Laughing out loud. Rindo. A linguagem descolada dos chats de pôquer. Fabio contara isso a ela, e depois ela pusera a expressão em seu repertório para agrada-lo.
“Fabio.”
“Alexandra.”
“Tenho que ir. Estou estudando quatro horas por dia para passar no exame da ordem. Depois vou estudar oito para entrar na promotoria pública.”
“Fabio”, disse ela mais uma vez antes de partir.
“Oi.”
“Foi muito bom pra mim. Lol”

A pequena filósofa de olhos de jabuticaba

01/10/2007

“Foi bom pra vc?”, Fabio perguntou.
“Fabio. Você me deixa vermelha assim. Não vou responder.”
“Você já fingiu?”, disse ele para a pequena filósofa de olhos de jabuticaba.
“Fingi o quê?”, ela respondeu no seu tom inseguro e tocante de jovem mulher. Tinha 22 anos, era advogada, e não sabia como vivera até ali sem o Nirvana. Fabio recomendara a ela que ouvisse o Nirvana, em particular a última música do acústico da MTV.
“Você sabe. Orgasmo. Que nem a Meg Ryan em Harry e Sally. Aquela cena do bar. Quando ela começa a gemer de mentirinha na frente todo mundo.”
“Não vi o filme. Não é do meu tempo.”
Sim, não era um filme do tempo dela. Havia uma distância considerável de anos entre os dois. Mas ele sabia que ela veria o filme assim que pudesse. Fora o que fizera quando ele lhe falara de Klimt e Schielle, os dois pintores de que Fabio tanto gostava. Ela fora à internet rapidamente conhece-los. Com o Nirvana agira do mesmo modo.
“Mas enfim, você já fingiu?”
“Quando eu percebo que o cara se esforçou. Realmente se esforçou. Mesmo eu não tendo, sei lá, você sabe o quê, finjo que sim.”
“E quando acha que o cara não se esforçou?”
“Nem pensar. Dou um jeito de cair fora logo. Sabe aquela sensação masculina que você descreveu em Fastio Pós-Coito?”
Fabio escrevera um texto em que dizia ter vontade de dar um empurrão suave na mulher depois do sexo para ver futebol sossegado. Ou algo parecido.
“Sinto a mesma coisa, Fabio. Tenho vontade dar um empurrão no cara e sumir.”
“Com seu namorado isso acontece?”
“Não. Ele é doce, e se esforça sempre. Depois da transa, fica passando as mãos no meu cabelo e tomando vinho.”
Os cabelos dela eram longos, loiros, lisos. Fabio imaginou a cena romântica e bonita do namorado depois do sexo. E pensou nele mesmo. Tomaria vinho, mas não exatamente no copo, se tivesse vinho, como Henry Miller ou Anais Nin.
“O Nirvana”, ela disse. “Aquela última música. Estou arrepiada só de lembrar o Kurt Cobain dando aquela piscada. Mais ou menos aos quatro minutos.”
Ele fechou os olhos e lembro da piscada. Cobain piscava os olhos, dava como que um demorado suspiro e depois cantava o último trecho com desespero pungente e arrebatador. O Nirvana não deu bis naquela noite porque Kurt Cobain sabia que jamais conseguiria cantar nada melhor do que aquela versão sublime de Where Did You Sleep Last Night.
“Fabio.”
“Oi.”
“Gosto de falar seu nome. Gosto de ouvir você falar o meu. Olha. Obrigado por te me dito para ouvir o Nirvana. É por isso que gosto de conhecer pessoas. A gente é uma mistura de todas as pessoas que conhecemos.”
“Gostei dessa frase, Alexandra. Você é uma pequena filósofa.”
“Alexia. Se tocassem dois telefones ao mesmo tempo. Num seu namorado e noutro eu. Qual você atenderia?”
“Você. Acho. Por causa do Nirvana. E do Klimt. E do Schielle. Lol. E por causa também do lol.”
Lol. Laughing out loud. Rindo. A linguagem descolada dos chats de pôquer. Fabio contara isso a ela, e depois ela pusera a expressão em seu repertório para agrada-lo.
“Fabio.”
“Alexandra.”
“Tenho que ir. Estou estudando quatro horas por dia para passar no exame da ordem. Depois vou estudar oito para entrar na promotoria pública.”
“Fabio”, disse ela mais uma vez antes de partir.
“Oi.”
“Foi muito bom pra mim. Lol”