A pequena filósofa de olhos de jabuticaba


“Foi bom pra vc?”, Fabio perguntou.
“Fabio. Você me deixa vermelha assim. Não vou responder.”
“Você já fingiu?”, disse ele para a pequena filósofa de olhos de jabuticaba.
“Fingi o quê?”, ela respondeu no seu tom inseguro e tocante de jovem mulher. Tinha 22 anos, era advogada, e não sabia como vivera até ali sem o Nirvana. Fabio recomendara a ela que ouvisse o Nirvana, em particular a última música do acústico da MTV.
“Você sabe. Orgasmo. Que nem a Meg Ryan em Harry e Sally. Aquela cena do bar. Quando ela começa a gemer de mentirinha na frente todo mundo.”
“Não vi o filme. Não é do meu tempo.”
Sim, não era um filme do tempo dela. Havia uma distância considerável de anos entre os dois. Mas ele sabia que ela veria o filme assim que pudesse. Fora o que fizera quando ele lhe falara de Klimt e Schielle, os dois pintores de que Fabio tanto gostava. Ela fora à internet rapidamente conhece-los. Com o Nirvana agira do mesmo modo.
“Mas enfim, você já fingiu?”
“Quando eu percebo que o cara se esforçou. Realmente se esforçou. Mesmo eu não tendo, sei lá, você sabe o quê, finjo que sim.”
“E quando acha que o cara não se esforçou?”
“Nem pensar. Dou um jeito de cair fora logo. Sabe aquela sensação masculina que você descreveu em Fastio Pós-Coito?”
Fabio escrevera um texto em que dizia ter vontade de dar um empurrão suave na mulher depois do sexo para ver futebol sossegado. Ou algo parecido.
“Sinto a mesma coisa, Fabio. Tenho vontade dar um empurrão no cara e sumir.”
“Com seu namorado isso acontece?”
“Não. Ele é doce, e se esforça sempre. Depois da transa, fica passando as mãos no meu cabelo e tomando vinho.”
Os cabelos dela eram longos, loiros, lisos. Fabio imaginou a cena romântica e bonita do namorado depois do sexo. E pensou nele mesmo. Tomaria vinho, mas não exatamente no copo, se tivesse vinho, como Henry Miller ou Anais Nin.
“O Nirvana”, ela disse. “Aquela última música. Estou arrepiada só de lembrar o Kurt Cobain dando aquela piscada. Mais ou menos aos quatro minutos.”
Ele fechou os olhos e lembro da piscada. Cobain piscava os olhos, dava como que um demorado suspiro e depois cantava o último trecho com desespero pungente e arrebatador. O Nirvana não deu bis naquela noite porque Kurt Cobain sabia que jamais conseguiria cantar nada melhor do que aquela versão sublime de Where Did You Sleep Last Night.
“Fabio.”
“Oi.”
“Gosto de falar seu nome. Gosto de ouvir você falar o meu. Olha. Obrigado por te me dito para ouvir o Nirvana. É por isso que gosto de conhecer pessoas. A gente é uma mistura de todas as pessoas que conhecemos.”
“Gostei dessa frase, Alexandra. Você é uma pequena filósofa.”
“Alexia. Se tocassem dois telefones ao mesmo tempo. Num seu namorado e noutro eu. Qual você atenderia?”
“Você. Acho. Por causa do Nirvana. E do Klimt. E do Schielle. Lol. E por causa também do lol.”
Lol. Laughing out loud. Rindo. A linguagem descolada dos chats de pôquer. Fabio contara isso a ela, e depois ela pusera a expressão em seu repertório para agrada-lo.
“Fabio.”
“Alexandra.”
“Tenho que ir. Estou estudando quatro horas por dia para passar no exame da ordem. Depois vou estudar oito para entrar na promotoria pública.”
“Fabio”, disse ela mais uma vez antes de partir.
“Oi.”
“Foi muito bom pra mim. Lol”

7 Respostas to “A pequena filósofa de olhos de jabuticaba”

  1. lol Says:

    Entendo que a música é um presente eterno. Geralmente está ligada a situações, pessoas… Com toda certeza vc ter indicado Nirvana para essa pequena filósofa será algo que ela levará por muito… muito tempo… Where Did You Sleep Last Night é perfeita… e aquele momento de Kurt Cobain aos 4 minutos é realmente arrepiante.

  2. Anónimo Says:

    Lol

  3. 34s Says:

    Hello, can you hear me?

    Fabio, esta sua última coluna na Criativa ficou demais. Por um segundo, senti até o cheiro de chuva.

    Beijos!

  4. Anónimo Says:

    adorei esse texto, jah vivi algo muito parecido, a parte q fala dos nomes me encantou, pq eu disse isso pra alguém chamado fabio a pouco tempo, que gostava de ouvir ele dizer meu nome.
    é interessante como as estórias se repetem, nem q sejam na imaginação das pessoas.
    beijo

  5. valéria Says:

    muito bom ler um fabio mais erótico … pelo menos de vc teremos bis?

  6. Margarete Inácio Says:

    Momentos simples que se tornam inesquecíveis ….

    MARAVILHA DE VIVER …

    Beijos

  7. Manuel Says:

    Eu também descobri Where Did You Sleep Last Night por causa de seu texto. Mas a pequena filósofa me fez lembrar de um poema do Fernando Pessoa.

    “sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram / ou metade deste intervalo, porque também há a vida”

    Abs

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