Nunca, jamais, sempre


Engraçado. Quando era para lembrar, esqueci. Quando era para esquecer, lembrei. Aquele dia, lá para trás. Você. Você era a menina de estrelas nos olhos, como a Natasha jovem de Guerra e Paz de Tolstoi. Um trecho. Um trecho em que Pedro narra o encontro, anos depois, com Natasha. Tolstoi escreve que Pedro teve dificuldade em notar que ali estava Natasha, não porque ela tivesse ficado mais magra e mais pálida, ou porque aquele fosse um lugar improvável para ela frequentar. Ele não a reconheceu, à primeira vista, porque aquela face em cujos olhos estivera sempre presente o brilho da alegria de viver mudara. Os olhos agora eram gentis, atentos e tristemente inquisitivos.

Penso em Natasha e penso em você e penso em nós.

Você naquele dia que na hora certa esqueci e na hora errada lembrei era a menina de estrelas nos olhos. Você era a Natasha de Tolstoi. Você. Você acreditava nas coisas, acreditava em você mesma, acredita em mim, acreditava em nós dois. Duas fotos mostram isso na plenitude. Uma se foi com você, a outra ficou comigo. Como numa cena de Sergio Leone, seu rosto foi capturado e revelado nos detalhes pelo fotógrafo. Natasha é você, você é Natasha. Ambas são meninas de estrelas nos olhos.

Ou foram.

Na memória de Pedro de Tolstoi e na minha mesmo serão sempre, de alguma forma.

Quanto a mim. Quando penso naquele tempo em retrospectiva, vejo que foi o fim de minha Era da Inocência. Era da Inocência. Uma expressão tão pungente que dói escreve-la, ainda mais quando precedida da palavra fim. O fim da minha Era da Inocência. Eu era um garoto da Previdência, eu usava roupas baratas e por vezes absurdas, eu era puro, eu, sei lá, eu tinha fé. Uma vez pus um pé de um sapato e um pé de outro. Paletós baratos, as mangas curtas. Camisa tantas vezes fora da calça, atrás.

E os olhos. Os olhos arregalados. Eu acreditava. Um cara de estrelas nos olhos. Depois, sei lá que palavra empregar. Depois de alguma forma me perdi de mim mesmo, e do garoto da Previdência. É um verbo duro, mas não encontro melhor para descrever o que ocorreu comigo: depois me corrompi. O mundo me tomou de assalto, me tragou, e os sonhos ingênuos e lindos acabaram se transformando num cinismo utilitário que me levou para longe, bem longe, do garoto da Previdência. E da inocência.

O mesmo aconteceu com você, e acho que acontece com todo mundo, não é?

Somos, os dois, a Natasha de Tolstoi. Todo mundo é, penso. Glória e miséria. Vivemos a glória, na Era da Inocência, e vivemos a miséria quando, depois, nossos olhos se tornaram, como os de Natasha, tristemente inquisitivos.

. Ouvi de uma jovem e bela filósofa esta expressão outro dia. . Gostei tanto que é o título que vou dar a este texto. .

Ouço agora no Ipod uma canção. Carole King. Tapestry é um grande álbum, um clássico. Um daqueles para ouvir antes de morrer. E presto atenção num verso. Um verso específico. Still Im glad for what we had, and how I once loved you. Mais ou menos isso: a despeito de tudo, sou feliz pelo que tivemos, e pelo quanto um dia te amei.

Mas é tarde demais.

13 Respostas to “Nunca, jamais, sempre”

  1. Alexia Says:

    Nunca, jamais, sempre é tarde demais! lol
    Adorei o texto!
    Bx!

  2. DiJulya Says:

    Vivemos de glória e miséria em glória e miséria…Ora mais misérias do que glórias…Mas vivemos…
    Ótimo texto!

  3. Sabrina Jung Says:

    Para ter de novo estrelas nos olhos…tem que voltar a acreditar…
    Quem sabe a terra nao treme de novo?
    Quem sabe…

  4. Carlos Augusto Rosa Says:

    Gloria e miséria, aparecem sempre na medida certa para cada um de nós, é igual a individualidade biológica, ela é única, não temos cópias nem similares, ainda bem. Em tempo: antes de morrer, só o som dos pássaros envolto no silêncio.
    caurosa.

  5. rachel Says:

    é, lindo o texto. adorei, pra variar.
    agora, de tudo: todos somos glória e miséria foi o ápice. o muito bom ápice, eu diria.

  6. Anónimo Says:

    Belo texto, Fábio! Parabéns! Tem a pungência necessária para tocar fundo na alma do leitor(a). Gosto muito de tudo o que escreve. Principalmente dos textos em que você descreve sentimentos e histórias semelhantes às vividas por mim e por meu ex-primeiro namorado (de um longo tempo atrás). Hoje, ele é você. Quando nos comunicamos por e-mail, hoje ele me diz coisas parecidas com as que você escreve aqui para a sua menina de estrelas nos olhos. Vem confirmar aquilo que você mesmo disse: “O mesmo aconteceu com você, e acho que acontece com todo mundo, não é?” Verdade, Fábio… Acontece com todo o mundo, acho.

  7. Anónimo Says:

    Gostei muito do texto e perfeito,acredito que sempre acontece com todo mundo!

  8. Flávia Says:

    Fábio,

    I N C R Í V E L
    Essa dor da perda de nós mesmos vem me fazendo refletir sobre tudo e no final acho que não é nada, ou simplesmente que é tarde demais.
    Belíssimo texto, vi-me nele.
    Parabéns!

  9. Anónimo Says:

    Há uma passagem ímpar em O Grande Gatsby. Não lembro ao certo, li faz muito tempo, mas na época me deu a mais que prazerosa sensação de que alguém, além de mim, foi capaz de absorver o sentimento. Gatsby reencontra seu amor de juventude e menciona algo como “nunca mais será igual”, que melhor teria sido guardar apenas a lembrança”. Penso que vale para tudo. Nunca é igual.

  10. Moca Says:

    Esse é o texto que eu deveria ter escrito pra mostrar como ando me sentindo ultimamente. Muito bom! um abraço

  11. Dione Sordilli Says:

    Cara, sou colunista social, e, de vez em quando, me arrisco a escrever crônicas de qualquer genêro, mas que inveja, adoraria ter escrito esse. Mexeu comigo, creio que com todos que sentiram a dor da perda!

  12. JU Says:

    Adorei seu texto…
    comecei a ler na revista no hospital…..
    adivinha…
    tive q tirar a pagina com esse texto para levar embora…..
    rsrsrs…
    mas valeu a pena q o texto eh msm muito show…..
    adorei……
    b-ju…

  13. sabrina Says:

    otimo

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