Êxtase no suplício


Ela fala alto com você. Às vezes, grita. Não costuma pedir, mas exigir. Negociar, para ela, é sinônimo de impor. O rosto dela reflete um duradouro estado de insatisfação e raiva. Ela faz você ver que não está à altura dela, uma rainha às voltas com um cara banal. Ela está sempre à espreita para agarrar uma oportunidade de brigar: as bananas que você comprou não estavam maduras ou você não deixou o jornal onde o encontrou. Você já nem se lembra de quando ela perdeu o respeito por você. Mas sabe que ela é capaz de passar quase 1 hora ao telefone insultando você, com um variado e poderoso arsenal de impropérios. Ela não gosta de seus amigos e deixa isso claro, para você e para eles. Um derrotado entre derrotados. E parece acreditar que as amigas dela encontraram príncipes encantados. A lista enorme de seus defeitos é conhecida em detalhes pelas amigas e pela família dela.

Bem-vindo ao Clube das Relações Tóxicas. Não há ganho nelas. E tampouco esperança de melhora. Há uma teimosia neurótica de seguir em frente, com crises constantes e cada vez piores. Num certo momento, mesmo que você, num espasmo de razão, veja que não existe sentido em continuar, se sente como que tomado de impotência. A impressão é que uma corrente, um grilhão intransponível, o liga àquela mulher que o reduziu a nada. Você jura que vai embora. Jura que jamais deixará seus ouvidos serem massacrados com tantas palavras negativas. Jura que se libertará de uma tirania insuportável. E no entanto ali permanece, exposto a ataques insistentes.

Uma das crueldades das relações tóxicas é que o final é muito mais difícil de ser alcançado do que quando você tem uma relação boa, civilizada. E então me vem à mente uma frase que sublinhei há muito tempo, numa época em que era ingênuo e ativo o bastante para anotar passagens literárias que me impressionavam: braços que se desenlaçam numa despedida suprema. Finais romanticamente lindos como esse só são conseguidos por casais que não se deixaram tomar pela toxicidade. Nos casos amorosos tóxicos, os braços demoram infinitamente para se desenlaçar, apesar de tantas coisas ruins. E, quando aparece enfim, o desenlace é, quase sempre, para que as mãos desimpedidas atirem pedras.
Há uma patologia psicológica que talvez explique a duração prolongada: o sofrimento pode viciar tanto quanto cigarro ou sorvete de chocolate. Entra aí o paradoxo do êxtase no suplício, uma filigrana psicológica tão sutil que só de pensar em descrever me vem um sentimento invencível de preguiça. E existe um fator físico poderoso: o sexo. Quanto mais tóxica a relação, melhor aparentemente o sexo. É como se a mulher tóxica reservasse o que lhe sobrou de mais interessante para a cama. Ela xinga, espezinha, acotovela você em todos os espaços disponíveis e até nos indisponíveis, mas na cama se comporta como uma cortesã francesa, como a mais lânguida e excitante das marafonas. Horas incessantes de inferno são substituídas por momentos fugidios de glória sexual. A mulher insuportável que até há pouco xingava você pede para ser chamada de vagabunda. A megera que investia contra você suplica por tapas, às vezes pancadas. E quem não concedia nada diz que você pode fazer o que quiser, sim, o que quiser com ela. Parece fantástico, mas um segundo olhar costuma mostrar que, passada a ilusão do deslumbramento, o sexo que emerge de uma relação tóxica é, ele também, tóxico.

16 Respostas to “Êxtase no suplício”

  1. Lucas Ferreira da Silva Says:

    Ótimo, seus comentários são os meus divãs…

    Fábio, você supera obstáculos a cada dia parabéns de seu sempre leitor fanático – Lucas.

  2. Livia Says:

    Achei seu blog assim como achamos milhares deles todos os dias na net… o que difere um do outro é o desejo de voltar a lê-lo no dia seguinte…aqui estou eu…sou uma mulher e concordo com cada palavra desse texto…considero-me da raça extinta de mulheres que gostam de estar ao lado de alguém para compartilhar coisas boas…seguir andando junto…nem mais embaixo e nem mais em cima…é uma pena ver uma sociedade cheia de mulheres neuróticas…

  3. ms Says:

    eu era uma tóxica.Vixi curei

  4. kamila Says:

    putz,é tão bom isso,que estou sem palavras.

  5. Mariana Bech Says:

    Ainda bem que eu leio tudo isso e me vejo de outra forma. Ainda bem…sorte minha e dele.

  6. Baby Bloom Says:

    Enquanto lia seu post balançava afirmativamente a cabeça, sem parar.
    Eu mantive uma relação assim por 1 ano… E hoje me pergunto o que me levou a permanecer? E depois de rompidas as amarras… e depois de atiradas pedras e farpas… veio o pior: toda neurose crônica deixa sequelas críticas… tsc tsc

    Dois anos já se passaram e eu ainda tenho muito medo de cair em outra armadilha… É… Acho que ainda estou na fase da desintoxicação…

    Adorei seus textos, viu?

  7. Rose Says:

    Querido Fábio,
    Amo seus textos e, esse em especial, está maravilhoso. Só tenho uma pergunta. Por que será que uma mulher “normal” se torna uma mulher tóxica? Será que o homem não tem um pouco de culpa também? Ninguém vira uma doida de uma hora para outra. Falo isso, porque eu mesma fiquei em uma relação assim durante 4 anos e meio. Claro que nem sempre foi ruim, mas nos últimos 2 anos foi uma intoxicação só. Reconheço meus erros, mas sei também, que muito da minha reação era culpa do dito cujo. Bem, para encerrar, consegui há 3 meses sair do inferno que estava minha vida e estou voltando a ser a mulher “normal” que sempre fui. Homens que viciam nunca mais. Cruzes…

  8. Mariana Says:

    Será que todo mundo tem que passar por um relacionamento tóxico na vida? Eu acabei de passar por um, mas um homem tóxico. E é exatamente como vc disse, patológico. Depois de deixar tudo para trás, se desamarrar à força de algo que te puxa pra baixo, você alcança a glória. Agora, pior que o relacionamento tóxico é a vontade louca de ficar sozinha, porque o medo de se prender de novo a alguém desse calibre nos dá arrepios. Um beijo, parabéns pelo texto!

  9. caroline Says:

    Estou estatelada em frente ao pc, lendo algo que pensei que só acontecia comigo. Estou a 7 anos numa relação que ta me matando. Mas não consigo largá-la. Nenhum dos dois alias. Como vc diz em seu texto maravilhoso, o sexo é muito bom. E sem apaga a mágoa do dia anterior, que volta a se repetir novamente. Parabéns pelo texto! E memande o rémedio para acabar com esse vicio.
    abs

  10. Anónimo Says:

    Uma vez ouvi ou li em algum lugar que “quando as relações terminam bem já não há mais amor”. Fiquei pensando nisso…

  11. cinara chaves Says:

    o sexo é tão bom, mas depois ,de pé ,tudo revira…obrigado por seu texto.Estou chorando agora por me ver exatamente vivendo com um homem toxico.

  12. Anónimo Says:

    Huuahuahauhua….
    Po Fábio, vc andou tendo um caso com minha ex? huahuahuauauaua…..

  13. Ana Cranes Says:

    Não vou discutir sobre a toxidade das pessoas.

    Mas não consigo acreditar que alguém assim tão amargo esteja tendo uma vida sexual satisfatória.

    O sexo vivido de forma plena relaxa, acalma. Solta substâncias de bem estar no corpo.

    Trepar muito não necessariamente representa estar trepando bem, talvez a quantidade seja uma busca por uma qualidade que não há!

    Já vivi relações doentias e nos momentos de crise nem o sexo escapava do gosto amargo das toxinas. Era puro fel.

  14. Anónimo Says:

    PARABÉNS!!!

    Texto perfeito…

    Adorei…

    Bjus

    =***

  15. Lct Says:

    Tóxica. Assumida!

  16. Adriana Says:

    Relações tóxicas acontecem por falta de auto-estima…

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