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Era uma vez em Salvador – parte 1

30/11/2007

Eduardo e Gabriela caminhavam de mãos dadas na areia branca e morna de Itapuã. Tinham acabado de jantar e dançar num restaurante à beira-mar. Eduardo amara a voracidade divertida com que Gabriela comera um caranguejo cozido. “É um prato lúdico”, dissera ela, um pequeno martelo na mão esquerda e um pedaço de carne branca no canto direito da boca. “Você come e se diverte quebrando a casca”. Era um começo de madrugada de verão, e havia àquela hora ainda quente e abafada poucas pessoas na imensidão esbranquiçada da praia. O imobilismo pétreo das folhas dos coqueiros que recortavam a praia era a perfeita ilustração do calor tórrido. Até a luz do céu enegrecido de Salvador parecia suar. “Salvador é perfeita”, disse Eduardo. “Só falta um aparelho de ar condicionado.”

Eduardo era editor de esportes do jornal A Tarde, de Salvador. Lembrava índio de filme americano moderno: cabelos pretos escorridos, olhos puxados, pele escura. O sotaque baiano abrandara-se depois que quatro anos na sucursal de São Paulo do jornal, mas ainda se percebia a procedência de Eduardo antes do final da primeira frase. A essência do sotaque acompanha o baiano do berço ao jazigo. Eduardo vestia bermuda azul, camiseta branca e um Nike branco e vermelho já quase destruído por três anos de uso em quadras de tênis, mas cada vez mais confortável na decrepitude. Tinha um certo ar rebelde, reforçado pela barba baixa, um corte que era menor que o 1 e maior que o zero. Quem via percebia imediatamente que ali estava um homem que jamais votaria na turma de ACM. Um homem que ouvia Caymmi e Caetano e alguma música da nova era, mas não Sinatra e provavelmente não a axé music.

Eduardo gostava da imagem que transmitia, um cara moderno, cético o bastante para contestar verbalmente, o “sistema” mas não tolo o suficiente para levar essa contestação à prática. Tinha que pagar contas e sabia que teria dificuldades em fazê-lo se mandriasse pelo Pelourinho na companhia de pretensos gênios e comprovados desocupados.

Gabriela riu com algum exagero do comentário sobre a necessidade de ar condicionado. Quase gargalhou. E não perdeu a graça. Um grande escritor disse certa vez que conheceu na vida quatro mulheres capazes de gargalhar sem perda de beleza. Gabriela seria a quinta se ele a tivesse conhecido. Ela era repórter especial da Folha de S. Paulo e chegara dias antes a Salvador para cobrir um campeonato internacional de vôlei de praia. O sol de Salvador clareara ainda mais os cabelos já claros e longos de Gabriela. Quase lhes devolvera a loirice da infância. Gabriela tinha 48 quilos, adequados para o seu metro e 63. Mas já tivera 56 quilos. Para não voltar aos dias de gorducha, pusera uma balança eletrônica em seu banheiro na qual se pesava toda manhã depois do banho. Quando passava dos 52, acionava uma dieta intuitiva mas eficaz da qual estavam banidos doces, pães e massas.

Gabriela sabia como agradar a um homem. Ela parecia tratar cada homem com quem falava como se fosse o único. Esse era seu maior e mais duradouro encanto. Nunca ninguém fizera antes Eduardo sentir-se tão espirituoso. Gabriela olhava direto nos olhos, ria intuitivamente mesmo das piadas que não entendia, parecia sempre interessada na conversa. E tinha o que se poderia definir como um certo ar sexual permanente. Você punha os olhos nela e imediatamente tinha pensamentos sexuais. Gabriela parecia sexual num velório, num corredor de hospital ou numa cadeira de dentista. “Você me lembrou de Havana. Estive lá há três anos”, disse ela. “Havana também é perfeita. Perfeita como cenário. Falta apenas uma mão de tinta.”

De repente ela se desvencilhou da mão de Eduardo. Correu alguns metros, estacou perto do mar e deitou-se de costas na areia. O vestido de verão de um amarelo quase que transparente, comprado de uma negra de 120 quilos na Praia do Forte, pareceu a Eduardo indescritivelmente belo sob o fundo de areia. Naquele instante ele daria tudo para que os relógios nunca mais se movimentassem e Gabriela se eternizasse deitada ali na imensidão branca e quente de Itapuã. Quando Eduardo a alcançou, ela já retirara a calcinha e a abanava com a mão esquerda como um leque e também como um troféu. Era uma calcinha branca. Gabriela só usava calcinha branca. Ela ordenou: “Vem. E se alguém chegar, não pára.”

Eduardo foi.

Quarenta minutos depois, os dois estavam a caminho do hotel em que Gabriela se hospedara no Palio vermelho de Eduardo quando soou o celular dela. “Desculpe”, disse Gabriela a Eduardo enquanto baixava o volume do toca-cds. Tocava pela segunda vez seguida Don’t Look Back in Anger, do Oasis. Era um cd que Gabriela mesmo gravara. Ela gravava as músicas de que gostava duas ou três vezes seguidas para não ter que ficar voltando o cd. Naqueles dias em Salvador, ela estava apaixonada pelo Oasis. Quando comparavam o Oásis aos Beatles, Gabriela se indignava. Achava o Oasis muito melhor. Perto deles, dizia, os Beatles faziam música de elevador. A descoberta do Oásis amortecera a tristeza que sentira com o disparo na boca que liquidara Kurt Cobain e o Nirvana. “O rock morreu”, pensara. Chorara no dia em que Kurt Cobain se matou e só dormira depois de tomar dois comprimidos de Lorax e mais um de Dormonid.

“Alô…Ah, é você. Que bom te ouvir. Saudade. Quê? Olha, a ligação está um horror. Vou jogar fora este celular. Bom, estou indo para o hotel e ligo em quinze minutos, tudo bem? Te amo.”

Gabriela encerrou a ligação, aumentou outra vez o volume do toca-cds e virou-se para Eduardo.

“Era o Arizinho”

Ocorreu a Eduardo na hora que nenhuma mulher respeita um marido a quem trata no diminutivo.

Ela mal guardara o celular na bolsa do couro cru também comprada de uma baiana na praia quando o sinal de chamada outra vez soou. O ritual foi mais uma vez seguido por inteiro, desde o polido pedido de desculpa a Eduardo até a diminuição do som. (Agora tocava Where Did You Sleep Last Night, cantada por Kurt Cobain no acústico do Nirvana na MTV em Nova York, entre outras músicas de todos os gêneros e de todos os tempos a predileta de Gabriela. Aquela voz lúgubre, aquela história de tormento, ciúme e suspeita, tudo isso eram provas, pensava ela, de que Deus e o diabo existem.)

“Alô…Ah, é você. Que bom te ouvir. Saudade. Quê? Olha, a ligação está um horror. Vou jogar fora este celular. Bom, estou indo para o hotel e ligo em quinze minutos, tudo bem? Te amo.”

Guardando o telefone, ela virou-se para Eduardo.

“Era o Fabinho”.

Ocorreu outra vez a Eduardo a reflexão sobre o uso de diminutivos, agora ligada não maridos mas namorados.

“Eles estão preocupados comigo. Quer dizer, conosco. Comigo e com o bebê. Grávida. Seis semanas. Não me pergunte de quem, está bom? Alguns dias…Bem, muitos dias saí de uns braços para cair em outros. Aprendi o essencial: não dizer o nome de nenhum na cama. Assim você não erra. Espero que você não seja moralista”.

“Fui coroinha na infância e embebedei alguns padres, mas acho que já passei essa fase”

Eduardo refletiu que era a primeira vez que copulava com uma mulher grávida de outro homem. E outro homem que ela não sabia exatamente qual fosse. Ele jamais imaginara que pudesse haver algo de erótico nessa idéia, mas havia. Antes que pudesse sequer refletir sobre o assunto, estava perturbado. Automaticamente apanhou a mão dela, que estava em sua coxa direita, e levou-a para o ponto certo. Virou-se rapidamente para ela.

“Posso pedir duas coisas?”

“Duas. Dez. Quantas você quiser. Quero que você faça de mim o que quiser. Você é meu senhor.”

“Duas só. A primeira: vamos desligar seu celular. Como você repetiu duas vezes agora há pouco, seu celular não funciona mesmo. A segunda: nunca me chame de Eduardinho.”

“Então fica Dudo. Tudo bem?”

Ninguém o chamava de Dudo. Edu, Dudu, Duda, sim, mas Dudo não.

“Tudo bem. Claro, tudo bem. Pode tudo. Só não pode Eduardinho.”

Instantes depois estavam deitados no quarto de Gabriela. Uma mulata pintada por Irakitan parecia fitá-los com agrado na parede, como se quisesse reunir-se aos dois. “Irakitan é o artista mais invejado de Salvador”, disse Eduardo a Gabriela. “Ele teve um caso com a Jacqueline Bisset quando ela era a mulher mais bonita do mundo. É o que dizem, pelo menos”. Eduardo passeava os dedos longos pela pequena borboleta tatuada na virilha direita de Gabriela enquanto ela discava para São Paulo. Depois levou-os à argola que ela fazia no mamilo esquerdo. “Foi uma amiga que me sugeriu isso”, ela explicara para Eduardo. “Ela me disse que uma argola no seio deixa a mulher excitada o tempo inteiro.” Eduardo olhou com um misto de ternura e desejo para aquela barriga ainda discreta na qual medrava uma nova vida sabia-se lá por obra de qual homem. Quando atenderam ao chamado, Gabriela pôs o indicador sobre os lábios que sorriam para pedir silêncio a Eduardo.

“Arizinho?”

“Gabi?”

“Agora sim dá para ouvir. Vou jogar fora o celular que você me deu.”

“Gabi?”

“Oi…”

“Vou morrer, Gabi. Vou morrer se você demorar aí. Vocês: você e o nosso filhinho.”

“Seria tão romântico. Acho que todos os meus namorados disseram que iam morrer sem mim. Mas nenhum cumpriu a profecia. Ficaram até mais gordos. Tristeza de amor dá fome.”

“Gabi?”

“Oi…”

“Não estou conseguindo nem trabalhar. Não consegui escrever uma só linha para a nova campanha da Brahma. Uma única idéia era tudo que eu queria. Sabe uma gaveta vazia? É mais ou menos o que eu virei. O criador que menos cria na publicidade de São Paulo.”

“E que mais prêmios ganha…”

“E sabe que não crio nada? Porque falta você. Você é a minha platéia. Você é minha única platéia. Quero que se dane o público, quero que se danem aqueles diretores de marketing. Você é a platéia.”

Eduardo olhou-o impaciente. Apontou para o Timex Ironman que tinha no pulso. Ela topou o bocal do telefone e disse baixo para Eduardo: “Todo publicitário fala muito. E toda mulher de publicitário acaba virando uma espécie de terapeuta. Calminha.”

“Gabi?”

“Oi…”

“Ninguém mais ri das minhas piadas na agência.”

“Calma, Arizinho. Ninguém é engraçado o tempo todo. Nem o Jim Carrey. O último filme dele é um lixo. Você mesmo disse.”

“Gabi”

“Oi…”

” Onde você dormiu ontem? Liguei para o seu quarto às 4 da manhã e ninguém atendeu.”

Ela repetiu a pergunta para ganhar tempo.

“Onde eu dormi ontem? Eu?”

Eduardo rapidamente socorreu-a Escreveu num papel: insônia. Sala de ginástica. Tinha letra boa, redonda. Letra de normalista.

“Tive insônia durante a noite. Fui para a sala de ginástica.”

“Gabi?”

“Oi…”

“Fiquei desesperado.”

“Bobinho…”

“Gabi?”

“Oi…”

“Te amo.”

“Tchau.”

Gabriela nem chegou a colocar o aparelho no gancho. Encerrou a ligação como indicador direito e prontamente iniciou outra. Entre uma e outra pediu paciência a Eduardo.

“Fabinho? Sou eu. Agora dá para ouvir. O celular é um horror.”

“Gabi? Não agüento mais. Vou embarcar amanhã de manhã para aí. Se eu não conseguir uns dias de folga na corretora, me demito.”

Fábio era um jovem e promissor corretor de valores que Gabriela conhecera ao fazer uma reportagem sobre talentos emergentes no mundo das finanças. Tirava meio milhão de reais por ano em comissões. Fábio queria desesperadamente que Gabriela deixasse o marido e se juntasse a ele. Ela lhe pedia tempo. Quando soube da gravidez, ele disse ter certeza de que era o pai. E mais uma vez fez pressão para que Gabriela abandonasse Ari. Gabriela disse que discutiriam melhor quando voltasse de Salvador.

A possibilidade de que Fábio fosse para Salvador a incomodou. Estava tendo bons momentos com Eduardo e não gostaria de interrompê-los.

“O quê? Você se demite? Você está louco? Vai jogar pela janela meio milhão de reais por ano?”

“Por você jogo 2 milhões.”
“Não precisa. Já estou voltando. O campeonato termina daqui a três dias.”

“E ele, como vai?”

“Ahn…ele?”

“Ele, o nosso bebê.”

“Ah, claro. �”Ótimo.”

“Ontem quase fiquei louco. Liguei de madrugada e ninguém atendeu no seu quarto. Imaginei as piores coisas.”

“Por que será que as pessoas imaginam sempre a piores coisas, Fabinho?”

No exato momento em que formulou essa pergunta, a paciência de Eduardo se esgotou. Ele começou a entrar nela com rigidez desesperada e urgente.

“Eu tive insônia. Fui fazer exercício na sala de ginástica do hotel. Ligo amanhã. Te amo, Fabinho.”

A declaração de amor foi penosa, feita aos arrancos.
“Você está…você está gemendo, Gabi?”

“Estou…estou me agradando. Quando…quando penso em você, não resisto.”

“Te amo, Gabi.”

“Tchau.”