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Como ser feliz no amor e no sexo segundo Balzac

09/07/2009

Balzac (1799-1850) foi o romancista entre os romancistas. O maior de todos. Com sua Comédia Humana, composta de 88 volumes independentes mas entrelaçados, Balzac praticamente inventou o romance como gênero literário. Balzac foi um caso raro de trabalhador árduo entre os franceses, culturalmente acostumados a cultivar o ócio acima do trabalho, algo que encontra sua tradução imortal na expressão “joie de vivre” — alegria de viver. Balzac trabalhava 15 horas por dia, movido a café. Não era exatamente um estilo de vida saudável, e ele encontrou a morte na Paris que retratou como ninguém aos 51 anos.

O amor e o sexo estão obsessivamente presentes em Balzac. De seus escritos se pode extrair um pequeno e útil manual de conduta amorosa em 15 frases nas quais Balzac prova ser uma espécie de Buda do relacionamento entre homens e mulheres. Os sutras — sintéticos aconselhamentos — de Buda para a conquista do nirvana encontram em Balzac uma versão para a conquista do sexo perfeito.

Os 15 sutras de Balzac para homens e mulheres em busca de satisfação na relação com seus parceiros amorosos:

1) Na cama está todo o casamento.

2) No amor, é certo que se dermos demasiado não receberemos bastante. A mulher que ama mais do que é amada há de necessariamente ser tiranizada. O amor durável é o que tem sempre as forças dos dois seres em equilíbrio.

3) O homem vai da aversão ao amor. Mas, quando começou por amar e chega à aversão, nunca mais volta ao amor.

4) Ainda não foi possível decidir se a mulher é levada a tornar-se infiel mais por não conseguir se refrear do que pela liberdade que encontra para a traição.

5) Você não avalia como é perigoso para uma imaginação vívida e um coração incompreendido vislumbrar a forma etérea de uma jovem e bela mulher.

6) Numa história de amor, é preciso trair para não ser traído.

7) Numa relação amorosa, o momento em que dois corações podem entender-se é tão rápido como um relâmpago, e não volta mais, depois de ter se dissipado.

8) Quanto mais se julga, menos se ama.

9) A sorte de uma relação amorosa depende da primeira noite.

10) É uma prova de inferioridade, num homem, não saber fazer de sua mulher sua amante. Só os homens tolos julgam que se deve ter ambas separadas — a mulher e a amante. A amante e a mulher devem estar unidas num único ser sublime

11) Por que, de cada dez mulheres bonitas, há pelo menos sete que são perversas?

12) Nada é mais santo, nem mais sagrado do que o ciúme. O ciúme é a sentinela que nunca dorme: ele é para o amor o que o mal é para o homem, um verídico aviso. Quanto mais uma mulher castigar com ciúme um homem, mais ele lamberá, submisso e humilde, o bastão que ao bater-lhe lhe diz quanto ela se interessa por ele.

13) A virgindade, com todas as monstruosidades, tem riquezas especiais, grandezas absorventes. A vida, cujas forças são economizadas, toma no indivíduo virgem uma qualidade de resistência e durabilidade incalculável. O cérebro enriqueceu-se no conjunto de suas qualidades reservadas. Quando os castos precisam de seu corpo ou de sua alma, quer recorram à ação ou ao pensamento, encontram então aço em seus músculos ou ciência poderosa em sua inteligência, uma força diabólica ou a magia negra da vontade.

14) Receber olhares cheios de admiração, desejo e curiosidade é como uma flor que todas as mulheres aspiram deliciadas. Algumas mulheres cumpridoras de seus deveres, lindas e virtuosas, voltam para a casa de mau-humor quando não colhem um ramalhete de galanteios durante um passeio.

15) O homem dominado pela mulher é, com justiça, coberto pelo ridículo. A influência da mulher deve ser absolutamente secreta. Em tudo, a graça nas mulheres está no mistério.

Os melhores fornecedores de orgasmo são os homens improváveis

02/07/2009

“Gosta do Miller?”, disse ele.

“Hmmm?”, disse ela.

“O Henry. Henry Miller.”

“Li algumas coisas dele. Muito sexo. Fiquei enjoada. Um puta machista.”

“Meu. Sei lá por quê. Adoro o cara. A prosa rápida, irreverente, audaciosa. As frases provocativas. Minha predileta: estou quebrado, sem planos, sem rumo, e sou o cara mais feliz do mundo. Tá no Trópico de Câncer.”

“Vontade de rir. O cara ficou rico. Riquíssimo. Quebrado? Só na literatura, pra impressionar as meninas que ele comia. Que eram muito mais novas. Tipo Berlusconi.”

“Tudo bem. No final da vida ele já tava consagrado. É verdade. Pô, mas ele escreveu pornografia pra sobreviver. Vendia para um interessado em erotismo, você sabe. Um dólar a página. Ele era um escritor barato. Como eu. Lol.”

“Quer parar com essa história de lol, por favor?”

“O Miller era louco pelo Gurdjieff. Falava dele de olhos arregalados, mesmo quando já era velho.”

“Hmmm?”

“O Gurdjeiff. Um cara meio guru do começo do século XX. Escreveu um livro chamado Encontro com Homens Notáveis, um clássico obscuro. Li uma vez. Ia ler uma segunda, mas sei lá.”

“Você lê muita coisa ruim. Fico impressionada.”

“Não leio a mim mesmo. Já é um começo. Lol.”

“Não vai parar com esse lol? Levanto e vou embora. Sério.”

“O Hitchens escreveu que as mulheres não têm senso de humor. Discordo. Acho vocês bem mais divertidas que os homens.”

“O Hitchens? Outro machista. Putz. Ele tá barrigudo pra caramba. Obesos consomem mais gás carbônico. Sabia?”

“Não. Voltando. Queria ver o Hitchens escrevendo sobre o Berlusconi.”

“Dois trogloditas, cada um do seu jeito. Um do tipo intelectual, outro do tipo folclórico. Fico admirada que eles façam sucesso.”

“O Saramago deu um cacete no Berlusconi. Chamou ele de coisa.”

“Não gosto do Berlusconi, você sabe. Mas sou mais ele que o Saramago. Putz, alguém devia impedir o cara de escrever. Ele conseguiu destruir até o pobre Jesus num livro sobre ele.”

“Lol.”

“Quer parar, homem?!”

“O Berlusconi e aquelas meninas. Acho que os caras que descem o pau têm uma certa inveja dele. Aos 72 fazer o que ele faz. O Saramago não deve pegar ninguém há muito tempo. Olha. Você consegue imaginar o Saramago transando?”

“Francamente? Acho que o cara deve ser um fenômeno na cama. Os melhores fornecedores de orgasmo para as mulheres são os tipos mais improváveis.”

“Repete. Essa frase eu vou guardar.”

“Já esqueci.”

“Lol.”

“Pára, homem. Esse lol é ridículo.”

“Vou tentar refazer a frase. Os melhores fornecedores de orgasmo são os tipos mais improváveis. É isso?”

“Sei lá.”

“O Berlus …”

“A melhor coisa que li dele foi de uma jornalista inglesa”, ela cortou. “Ela disse que ele não dava mostra de virilidade ou de potência pegando menininhas a troco de muito ouro, mas de total falta de controle.”

“Lol.”

“Chega de lol!”, ela elevou a voz.

“Viu as fotos que o El País deu?”

“Eu não perderia meu tempo com isso, sou ocupada.”

“Aquele Mirek sei-lá-o-quê, o tcheco.”

“Tcheco só conheço o Mucha e o Kafka. E o Kundera. E é o suficiente.”

“Esse Mirek. Tava com o que eles chamam de ‘estado de excitação’.”

“Aposto que o pênis dele é pequeno. Nem vi e não vou ver. Mas aposto.”

“Não medi.”

“Caras como ele e o Berlusconi. São muito óbvios. Não são fornecedores de orgasmo.”

“Lol.”

“Sai já dá minha cama, escritor barato e repetitivo! Essa história de lol tá me deixando louca. Eu nunca berrei desse jeito com ninguém, entendeu?”

“Lol.”

O fastio pós-coito

30/06/2009

ela não devia ficar chateada; passa

ela não devia ficar triste: o fastio dele passa

OUVI DE MINHA amiga Consuelo uma queixa que me pareceu incongruente: “Lembra do Carlos? Dispensei. Ele era insuportavelmente grosseiro depois do orgasmo”. “Como assim?”, perguntei. “Vocês homens tornam-se incivilizados depois que conseguem seu orgasmo. Sobem na árvore, grunhindo para si mesmos, incapazes de dividir. “Dividir. Quantas vezes já ouvi esta palavra sair em estocadas da boca de uma mulher. Di-vi-dir. Em suma, o pobre Carlos, o fiel e dedicado Carlos, depois do orgasmo, quis assistir futebol. Nem um beijo, nem uma palavra de amor. Apenas o som frio e oco do controle remoto. Adeus, Carlos, você não quis di-vi-dir o “depois” do orgasmo.

Consuelo não é exatamente uma feminista, e a queixa, embora intelectualizada, me pareceu cheia de razão. É verdade, depois do sexo somos incivilizados: sofremos de fastio. Todos nós, homens, sofremos do fastio pós-coito. Mas por alguma razão sempre à espreita, talvez o terror antimachismo ou a política de boa vizinhança, temos de fingir que não. Disse firme para Consuelo: “Já não bastam as preliminares extensíssimas que vocês nos exigem, querem agora que fiquemos depois fazendo onda também…” Não sei se foi a palavra onda, mas o fato é que ouvi de Consuelo a seguinte frase: “Você é narcisista e egocêntrico”.

As mulheres são mesmo assim, sinceras. Nós é que somos os eternos mentirosos. E pagamos por isso. Mentimos (ou ao menos omitimos) que queremos ficar ao lado delas depois de totalmente saciados, quando, na verdade, queremos ligar a TV e ver os gols da rodada ou ir à cozinha comer um pedaço de pizza fria. Talvez seja hora de falarmos com a franqueza peculiar ao sexo frágil. Elas nos pedem que compreendamos seu tempo sexual. Nós compreendemos. Elas nos pedem que olhemos seu interior. Nós olhamos. Elas nos pedem que dividamos com elas a preocupação com a gravidez. Nós dividimos. Quero viver meu fastio pós-coito, meu pessoal e intransferível pós-coito, em paz. É meu singelo pedido.

Para nós, homens, parece nonsense o bailado feminino depois da cópula. Não entendemos como elas conseguem permanecer passarinhando ao nosso redor, esfregando seus pezinhos frios na nossa canela e beijando nossa orelha, se não há nenhum motivo gritante para isso. Já não cumprimos nossa missão, passo a passo – caprichamos nas preliminares, olhamos por dentro delas, usamos devidamente a camisinha contra gravidez e doenças? Elas já não estão coradas e felizes? Que mais esperam de nós, depois de tamanha explosão de energia? Não entendo. Há entre um orgasmo e outro um breve momento de indiferença gloriosa. É breve, mas existe. Depois do sexo, estamos fartos, cheios até a boca, boiando no torpor de nossos egos inflados e hormônios sedados, orgulhosos de nós mesmos e completamente indiferentes a ela – ou a tudo. Olhei para Consuelo e pedi: “Clemência! É que, depois do sexo, não precisamos de mais nada”. Consuelo fuzilou-me: “Vocês só nos dizem coisas doces para nos usar. Depois do prazer, não servimos nem para conversar”.

E isso não é ótimo? É como nos sentimos também – usados -, só que não julgamos isso negativo. Consuelo me cansa com a mania persecutória comum a todas as mulheres deste século. Pago por todos os homens opressores da história da humanidade – e quem sou eu? Um oprimido, um homem que não pode viver seu fastio pós-coito sem sustos, porque sabe que um quarto de hora mais tarde estará de novo no alto da montanha-russa da testosterona, prestes a implorar de joelhos que a amada o encha de beijos e ouça as perversões que guardou para ela. Quem é o usado aqui?

Calei-me. Não disse a Consuelo uma imagem que Toni, um amigo em comum, me deu certa vez sobre o momento depois do orgasmo. “Sabe”, ele me disse, “quando você encosta os dois pés na beirada da piscina para dar impulso e ganhar distância? Tenho vontade de fazer isso… na cama”. Ele não disse na cama, ele disse o nome da namorada dele. E completou: “Com todo respeito”. Toni ansiava por ganhar espaço, solidão, estar só com sua total – e fugaz – alforria do desejo. Sexo é prisão. Doce prisão. Se há alguém escravo numa relação de sexo, somos nós, os homens. O desejo nos acorrenta às mulheres; o momento pós-coito nos liberta. Nos sentimos livres, por alguns momentos, daquela angústia permanente que é nosso desejo ancestral de copular com todas as mulheres do mundo, distribuir nossos espermatozóides e proliferar nossas sementes sobre a terra.

É uma centelha de paz justa, merecida, neste universo tão caótico. E não há razão nenhuma para que sintamos culpa pelo fastio diante da nudez irada e tagarela da mulher que acabamos de satisfazer sexualmente e agora insiste numa conversa sem sentido.

O amor na era do tweeter

21/06/2009

E eis que encontro, depois de uma temporada longa, minha amiga Mariza Montálban. Mariza é obcecada por muitas coisas. Pilates, Brad Pitt, revistas de celebridades, Nova York.

Mas sua maior obsessão é ela mesma. Mariza Montálban, que conheci num estágio que fiz numa agência de publicidade de Buenos Aires, ama a si própria acima de todas as coisas. Eu diria até que, depois dela em sua lista de amores, vem ela mesma. E só depois seu gato Peebles.

Mariza, como todas as mulheres auto-idolatradas, adora falar e detesta ouvir. Mas, com tudo isso, gosto dela. Riq, um amigo, disse que nas cidades e nas pessoas de que gostamos perdoamos os defeitos, e é isso que faço com Mariza Montálban. De resto, para ser sincero, Marisa faz um bispo chutar um poste ao olhar para trás, com suas curvas sinuosas como as ruelas de Alfama. Você não precisa prestar atenção nas histórias de Mariza para desfrutar de sua companhia. Basta olhá-la.

O reencontro casual foi numa Starbucks na qual eu tinha ido tomar um chocolate quente, a bebida na qual sou viciado.

“Hombre Sincero!”, ouvi alguém gritar. Aquela voz confiante do tipo existo-só-eu-na-face-da-terra pertencia a uma única pessoa que eu conhecia.

“Mariza”, eu disse.

Me preparei para um abraço mas ela já estava concentrada no laptop que levara à Starbucks. Esquecera rapidamente do Hombre Sincero, como se apenas o reconhecimento bastasse. Fiquei curioso para ver o que a absorvia tanto. Puxei uma cadeira, pedi licença e sentei sem que ela dissesse sim ou não, pois não me ouvira.

“Mariza.”

Nada.

“Mariza.”

Da terceira vez sacudi seu braço, nu como o de Michelle Obama. Mariza tem braços lindos, e gostava de mostrá-los muito antes que Michelle fizesse disso uma moda global.

“Pera um pouco”, ordenou Mariza. “Tou tuitando.”

“Hmmm?”

“Tuitando. Twitter.”

A verdade é que, até ali, eu jamais ouvira a palavra twitter, e muito menos vira alguém tuitando.

“Tenho que melhorar. Tenho que melhorar.”

Mariza não estava falando comigo, mas sim com ela mesma.

“Menos seguidores do que a Lúcia, menos seguidores do que a Linda, menos seguidores do que todo mundo. Sou uma fracassada.”

A voz potente de Mariza Montálban pareceu tremer por alguns momentos, sob o golpe devastador dos seguidores de menos.

“Mariza, você é uma mulher incr…”

Ela não me deixou chegar ao ível consolador.

“Ninguém me segue, ninguém me quer.”

Mais tarde, fui me informar sobre o twitter. Aí entendi o drama pessoal pelo qual passava Mariza Montálban. Suas amigas e elas travavam uma batalha feroz em torno de quem conquistava o maior número de seguidores.

Nenhuma delas estava interessada na possibilidade de ganhar conhecimento e compartilhá-lo com milhares de outras pessoas no twitter. Elas queriam somente bater as rivais em seguidores.

“Você, Hombre. Você não está me seguindo.”

Sua voz era acusadora, embora ela não tivesse tirado os olhos do laptop. Eu nem sabia, ali, o que era seguir no sentido dado pelo twitter.

“Outro dia a Lúcia me disse uma verdade. Uma mulher sensata escolhe o namorado pelo número de seguidores. Os homens com certeza fazem o mesmo. Tô perdida, perdida, perdida.”

Mariza Montálban começou a chorar em plena Starbucks. Me levantei para confortá-la, mas ela me afastou bruscamente com a força que Deus dá a mulheres-que-só-pensam-em-si-mesmas.

“Você não me segue, Hombre. Maldição eterna para você. Ninguém vai seguir você.”

Quase me assustei com a maldição. Mas depois me lembrei que, se ninguém lê escritores baratos, por que alguém haveria de segui-los?

Levantei-me e deixei minha amiga Mariza Montálban entregue à frenética busca de seguidores que a tirariam da depressão em que mergulhara ao ser suplantada pelas amigas que tuitavam melhor que ela.

Mais tarde, ao entrar no twitter, e conhecer um pouco, vi que pouca gente se interessa pelo que as pessoas falam de sua rotina nos 140 toques das mensagens. Mariza, no twitter como em tudo que faz, só fala dela.

Daí a adesão abaixo do que ela gostaria. Mas, justiça seja feita, bem acima da de escritores baratos como, para usar a expressão de Mariza Montálban, o Hombre Sincero.

Faltou Natasha na lista!

18/06/2009

Um amigo meu fez sua lista dos maiores personagens da história da literatura. Para quem quiser ler, este é o link.

Eu ficaria feliz se aqui também nós falássemos sobre nossos personagens favoritos. Que tal? 

Quanto a mim, sinto falta de Natasha na lista. A Natasha dos sonhos e das ilusões perdidas do Pedro em Guerra e Paz, do Tolstoi. Guerra e Paz pode assustar pelo tamanho, dois volumes de 600 páginas cada. Mas, quando você começa a ler, sei lá, você agradece a deus por ter nascido com olhos. Uma escritora portuguesa disse no twitter dela que estava lendo A Morte de Ivan Ilitch, um conto longo do Tolstoi, e falou que a boa arte pode ser feita com poucas páginas.

É verdade. Mas Guerra e Paz é infinitamente superior a A Morte de Ivan Ilitch, embora, primeiro, para muitos este seja o melhor conto jamais escrito e, segundo, eu recomende sua leitura firmemente. Uma digressão: Woody Allen disse que leu, com o método da leitura dinâmica, Guerra e Paz em horas e se lembra de que trata da guerra e da paz. Ponto.

Bem, sou um obcecado pela Natasha e, particularmente, por uma reflexão do Pedro quando a reencontra. Já escrevi algumas vezes isso, e vou escrever mais uma vez com alegria, como o cantor que repete a mesma música não por obrigação, mas por amor. Pedro amava Natasha e, no caos da guerra napoleônica na Rússia e também no caos dos casos de amor, a perde vista. Acaba reencontrando-a e tem dificuldades em reconhecê-la não porque ela tivesse mudado, ou estivesse num lugar improvável, mas porque perdera o brilho dos olhos.

O brilho dos olhos da Natasha. O brilho perdido, para sempre perdido, mas lembrado por Pedro.

Uma lista dos maiores personagens da literatura em que não estejam Natasha e seus olhos outrora brilhantes é uma lista incompleta.

Sorry, Buddy.

“Na nossa história seremos felizes para sempre”

03/06/2009

“Posso te fazer um pedido?”, disse Cris a Pedro. Ela acabara de ler As Travessuras da Menina Má, de Vargas Llosa. Lera com vagar, como sempre. E, também como sempre, com atenção máxima aos detalhes.  Pedro, ao contrário, lia rápido. E perdia detalhes. Leitor compulsivo.

“Hmm”, disse Pedro.

“Escreve a nossa história. O nosso romance. Como no caso da Menina Má. Lembra? No fim ele diz que ela deu a ele a história.”

“Mas”, disse Pedro.

“Por que você gosta tanto da palavra mas?”,  cortou Cris. “É uma coisa tão ruim. Depois do mas nunca vem nada bom.”

Pedro  jamais pensara nisso. Fazia sentido o que Cris dissera? Não sabia.  Refletiria depois. Seguiu adiante.

“Mas eu não sou nenhum Vargas Llosa”, disse.  “Como eu poderia me classificar? Sei lá. Um escritor barato, como o Fabio.”

“Detesto o Fabio”, disse Cris. “Queria que ele morresse. Juro.”

“Mas”, disse Pedro. “Mesmo que eu fosse capaz de escrever como o Llosa. Como seria a nossa história?”

“Você é o contador de histórias”, disse Cris. “Você diz como seria.”

“Filhos. Outro dia vi você num vestido leve e te imaginei grávida. Sei lá. Teríamos um filho.”

“Menino? Menina? Nome.”

“Menina. Antonella.  Anda como um pinguinzinho. Dança como a mãe. Bonita como a mãe. Mas não é geniosa e impaciente como a mãe.”

“Nunca engravidei. Será que consigo engravidar?”, Cris disse.

“Na nossa história, sem dúvida”, Pedro disse.

“Vou ficar muito gorda? Disforme? Você vai perder o desejo por mim? Tenho medo pânico disso.”

“Você vai ficar maravilhosa. Como todas as grávidas. Nada embeleza tanto uma mulher como a gravidez.  Vocês, mulheres, discordam. Mas é um fato da vida. Na gravidez a mulher vira fêmea no melhor sentido que a palavra tem.”

“Tenho outro medo”, disse Cris. “Vi isso acontecer com muita gente. O casal tem filho. O homem vira pai. A mulher vira mãe. O casal some. Quero muito ser mãe. Mas, se o preço da maternidade é deixar de ser mulher,  não pago.”

“Na nossa história você nunca deixa de ser mulher”, disse Pedro. “Mesmo que tivesse não um mas três filhos. Três não. Li outro dia numa revista que alguém na Inglaterra disse que no mundo de hoje é irresponsabilidade ter mais que dois filhos. Do ponto de vista ecológico. Meio ambiente. O cara dizia que era uma agressão à terra.”

“E você …”

“Se acreditei?”, disse Pedro. “Nem sim e nem não. Só não esqueci.”

“Pedro.”

“Hmmm.”

“Vamos viver muitos anos juntos na história que você vai escrever?”

“Interrogação. Meu pai.  Ele não viveu tanto assim. Se eu repetir a trajetória do meu pai, a resposta é não.”

“Você não vai repetir. Você não vai ousar me deixar sozinha. Jura que não.”

“Gostaria de jurar. Mas.”

Mas. Sempre mas. Até quando você vai usar mas nessa quantidade absurda?”

“Um grande escritor inglês disse que escrevia não como queria, mas como podia. Falo como posso.”

“Pedro. Na nossa história. O final vai ser feliz?”

“Finais infelizes são a marca maior dos grandes escritores. Não há um único romance entre os maiores que tenha final feliz.”

“Isso quer dizer que …”, disse Cris.

“Sim. Isso quer dizer que na nossa história seremos felizes para sempre.”

“Por você enfrento até cinema francês”

29/05/2009

Ele: “Leu?”

Ela: “Hmmm?”

Ele: “A pesquisa. Aquela pesquisa.”

Ela: “Hmmm?”

Ele: “A pesquisa sobre a relação entre inteligência emocional e orgasmo entre as mulheres.”

Ela: “Inteligência emocional é uma bobagem. O cara que inventou essa expressão é um enganador, como o Pieter diz.”

Ele: “Pode ser. Mas é uma pesquisa de gente séria. Um cara e uma mulher com credenciais interessantes. A BBC fez uma boa matéria sobre a matéria. Foi a mais lida por dois dias.”

Ela: “Qualquer pesquisa que trate de mulher e orgasmo vai ser muito lida. Básico.”

Ele: “Você tem um ponto. Admito. Mas enfim.”

Ela: “Hmmm?”

Ele: “A pesquisa. Boa ou não. Sei lá. Mas enfim. Mais de 2 000 mulheres preencheram um questionário em que deram  detalhes de sua vida sexual.”

Ela: “O que leva uma mulher a contar intimidades de sua cama? Exibicionismo? Dinheiro? Falta do que fazer?”

Ele: “Elas também responderam perguntas que testava sua inteligência emocional. Teoricamente, claro.”

Ela: “A inteligência delas deve ser bem baixa. Do tamanho do Sarkozy.”

Ele: “Boa. Li que ele tem 1 e 65. Em outro lugar disseram que era 1 e 68. No dia primeiro de abril um tablóide publicou que ele ia fazer uma cirurgia para aumentar do tamanho e ficar com a altura da Carla Bruni. Era o dia da mentira.”

Ela: “Confesso que fiquei decepcionada quando soube que ele era nanico. Imaginava que o cara fosse um gigante, um tremendo gato.”

Ele: “A pesquisa.”

Ela: “Hmmm?”

Ele: “Tá escrito na matéria da BBC que o estudo mostrou uma signigicatica ligação entre inteligência emocional e a freqüência com que as mulheres têm orgasmo com masturbação e intercurso.”

Ela: “Esse palavreado acadêmico é uma piada. Por que os acadêmico escrevem intercurso e não trepada? Intercurso parece curso de internet.”

Ele: “Ou curso internacional. O autor também falou em terapias cognitivas. Cognição me lembra imediatamente ignição. Sabe outra expressão que acho babaca? Fazer amor. Parece que o homem que faz amor usa pijama e pede licença para transar com a mulher.  Mas enfim.”

Ela: “Hmmm?”

Ele: “A co-autora da pesquisa disse que a inteligência emocional ajuda no sexo porque a mulher consegue dizer com mais clareza ao homem suas fantasias e seus desejos.”

Ela: “Tem que ser inteligente emocionalmente para dizer ao cara que ele não deve apertar os mamilos como se fossem parafusos porque isso machuca?”

Ele: “Tem que ter língua e coragem. E franqueza. Talvez seja isso o que os caras definem como inteligência emocional.”

Ela: “Não sei por que você perde tempo lendo essas bobagens. Reparei que você não avançou coisa nenhuma em Guerra e Paz nos últimos quinze dias. As pessoas não lêem Guerra e Paz. Dizem que leram. Mentem. Assim como muita mulher que diz que tem orgasmo mente.”

Ele: “Eengraçado.”

Ela:”Hmmm?”

Ele: “Um terço das mulheres da pesquisa acharam difícil ou impossível gozar durante o sexo.”

Ela: “Que novidade tem nisso?”

Ele: “Uma das minhas maiores desilusões sexuais foi saber quando era adolescente que quase todas as mulheres não gozam no sexo. Pensava que elas ficassem loucas de tesão ao serem penetradas. Nossa, falei penetradas. Devo ter pirado.”

Ela: “Você devia ver muito filme. No cinema toda mulher goza no sexo. Mas é cinema.”

Ele: “Por falar nisso. Que tal a gente ver um filme?”

Ela: “Muito melhor que falar sobre uma pesquisa meia boca. Truffaut. A Mulher do Lado. Que tal?”

Ele: “Preferia O Lutador. O Rourke está incrível. Mas tudo bem. Por você enfrento tudo. Até cinema francês.”

Você nunca vai ficar sozinho

19/05/2009

Eles estavam ouvindo You Will Never Walk Alone no apartamento bagunçado de Pedro. Cristina não conhecia a canção. Pedro lhe contara que era uma espécie de hino do Liverpool. Pedro era fanático pelo Liverpool, embora jamais tivesse visto um único jogo do time ao vivo. Foi ao ouvir na teve a torcida cantar You Will Never Walk Alone que Pedro se converteu num torcedor distante um oceano do Liverpool, mas apaixonado. Nunca Pedro vira nada parecido com aquilo no futebol, um canto de amor e fidelidade sublime em seu estrondo vermelho, a cor do Liverpool. Foi instantaneamente capturado pela magia barulhenta da torcida que cantava. Não bastasse isso, Liverpool era a terra daqueles quatro garotos: John, Paul, George e Ringo.

“Não posso morrer sem ir a Liverpool e cantar You Will Never Walk Alone”, disse Pedro.

“Tanto coisa pra fazer na vida e você vem me falar isso?”, disse Cristina. “Homem louco por futebol tem alguma coisa de gay. Não faz sentido ficar olhando tanto homem correr atrás de uma bola a não ser que o cara que olhe seja gay.”

Pedro riu. Sua boca ficava ligeiramente torta quando ele ria. Num momento de amor,  Cristina dissera que era lindo aquele sorriso torto. Num momento de ódio, dissera que era horrível. Era instável como todas as mulheres, amor e ódio pelas mesmas coisas em momentos alternados.

“Gosto de suas frases definitivas”, disse Pedro. “Não são meras palavras ao vento. São manifestos.”

“Pedro.”

“Humm.”

“Isso não existe. You Will Never Walk Alone. Você nunca vai ficar sozinho. Ninguém diz isso de verdade pra pessoa que ama. O amor surge, floresce e termina. Prometer a alguém que ele jamais vai ser deixado é embuste.”

“Engraçado”, disse Pedro. “Quando te conheci passei a acreditar no amor eterno. Uma coisa que só floresce, floresce e ainda floresce. Era ateu no amor e passei a ser crente com você.”

“Pedro.”

“Humm.”

“Eu… Eu…”

Cristina parecia engasgada com aquilo que queria dizer. Começou a chorar. Em sete meses de namoro Pedro jamais a vira chorar. Cristina parecia ter uma resistência extraordinária às lágrimas. Pedro não sabia se a abraçava e tentava confortá-la ou se a deixava em paz com suas lágrimas. Homem nenhum sabe o que fazer diante da mulher que chora. Na dúvida, Pedro permaneceu parado.

“Eu… me apaixonei por outro homem”, Cristina enfim disse. “Me perdoa, me perdoa.”

Só nesse momento Pedro abraçou Cristina. Como se quem tivesse que receber consolo fosse ela e não ele.

“Aconteceu, simplesmente aconteceu. O professor de ioga.”

Cristina dissera a Pedro, algumas semanas antes que ia começar a fazer ioga. Comentara depois com entusiasmo suas aulas. Estava apaixonada não exatamente pela ioga, mas pelo professor.

“Cristina”, disse Pedro. Ele parecia calmo como quem acaba de tomar Frontal. “Te perdoar do que? Eu só posso dizer obrigado. Você me deu momentos cuja lembrança vai me aquecer nas noites frias e escuras. Sempre.”

Ela pegou sua bolsa e correu em direção à porta. Ia embora para não voltar. Pedro ficou pensativo por alguns segundos. Depois pegou seu iPod e pôs para tocar uma, duas, três, dezenas de vezes You Will Never Walk Alone.

Vivo

18/05/2009

Amigas e amigos. Ao contrário dos boatos que correm, não faleci. Estou vivo, e ao que parece bem. Hibernei num retiro espiritual e muito físico ao mesmo tempo. Amanhã vou colocar no blog um texto novo. Gracias pela paciência.

Balzáqueas22: O casal e o sexo

15/01/2009

“Na cama está todo o casamento.”
Balzac

Pessoas e lugares que passaram

15/01/2009

Uma passagem de um livro me comoveu. O livro se chama Entre Nós. São conversas de Philiip Roth com outros escritores. Roth, com sua exuberância estilística, com sua lubricidade refinada, com sua habilidade rara de ser profundo sem ser tedioso, é um dos meus escritores prediletos. O sexo governa sua obra. Seus personagens vivem e morrem pelo sexo. O sentido da vida, em Roth, é a cópula. (Uma vez escrevi um conto para a Playboy e o editor me solicitou, delicadamente, que trocasse a palavra cópula. Convenci-o a mantê-la com o argumento de que há alguma coisa de selvagem, primitivo em cópula.)

Antes que me esqueça. As conversas de Roth são uma formidável lição para quem faz entrevistas. O preparo dele (sabe tudo sobre a obra dos entrevistados), a agudeza das perguntas, a maneira como aproveita as respostas para seguir adiante. A maneira como demonstra sua admiração sem jamais ficar de joelhos e bajular. As escolas de jornalismo deveriam exigir que seus alunos lessem Entre Nós para aprender sobre a arte de entrevistar.

Mas a passagem de que falei. Ela vem de uma conversa de Roth com outro gênio, Isaac Bashevis Singer, de origem judaica sobre ele. São poucos os escritores tão exímios em contar histórias como Singer, já morto. Roth e Singer têm muito em comum além de serem judeus. Também o sexo governa o universo literário de Singer. Separa-os um Nobel, merecidamente conquistado por Singer e injustamente negado a Roth.

Você gosta de ler e quer recomendações? Compre o que puder desses dois, eu diria.

Singer nasceu na Polônia, onde a maior parte de sua obra é passada. De lá fugiu para os Estados Unidos antes que o nazismo fizesse estragos monstruosos. Conta com graça que, ao chegar à América, foi a uma festa em que imaginava que o idioma seria o iídiche. Ele não falava nada de inglês ainda. Mas. Mas só se conversou em inglês ali. A primeira palavra que ouviu e aprendeu, um tributo à frivolidade e à gula, foi “delicious”. Delicioso. O que se comia.

Roth pergunta a Singer, no trecho que me tocou, como ele conseguiu escrever de forma tão pungente sobre suas raízes depois de abandoná-las. Singer conta que logo que partiu a Polônia lhe parecia muito distante. Mas o tempo a trouxe para dentro dele. “Quando morre uma pessoa que é próxima a você, nas primeiras semanas depois da morte essa pessoa fica tão distante de você quanto é possível se estar; é só com o passar dos anos que ela se torna mais próxima, e aí chega um momento em que você está quase vivendo com ela. Foi o que aconteceu comigo. A Polônia, a vida judaica na Polônia, está mais próxima de mim agora do que estava naquela época.”

Esta a passagem que me impressionou.

Penso nas pessoas queridas que perdi, nos amigos a amores tragados no correr dos longos dias, e vejo o quanto – muito — que sobrevive deles no universo que existe dentro de mim

Balzáqueas21: A Mulher e as Nações

11/01/2009

“Quem pode governar uma mulher pode governar uma nação.”
Balzac

“Estou feliz, mas estou triste”

11/01/2009

Thunder e Pedro estavam disputando corridas de Mario Kart no Wii. Eram velhos amigos, e estavam no apartamento de Pedro.. Entre todos os circuitos do Mario Kart aquele de que mais gostavam era a Rainbow Road, pela beleza extraordinária da paisagem e pela habilidade necessária para percorrer o caminho. A amizade entre os dois lembrava a definição clássica e sublime de Montaigne para os amigos: uma costura entre almas tão forte que não se vê a linha. Montaigne escreveu suas palavras eternas sobre a amizade nos seus Ensaios, e a razão era homenagear um amigo morto, Lá Boètie, autor de uma pequena grande obra chamada Tratato sobre a Servidão Voluntária. Tão forte nas adversidades, com tamanho preparo para enfrentar “o perpétuo vai-e-vém das elevações e quedas”, para usar uma expressão de Sêneca, Montaigne admitiu com pungência que a morte de seu amigo o atirou numa noite longa, fria e escura.
Thunder e Pedro eram devotos de Montaigne e seus Ensaios, bem como de A Mulher do Lado de Truffaut, Os Maias de Eça, O Beijo de Klimt, In My Life dos Beatles e o cheeseburger do Hamburguinho. Também eram devotos de Rivelino e do Corinthians. Achavam que Rivelino tinha sido melhor que Pelé, e eram capazes de passar horas na defesa apaixonada dessa tese contra todas as estatísticas.
Pedro em breve partiria para uma demorada viagem.
“Pedro”, disse Thunder em sua voz estentórea de Fred Flintstone depois de bater mais uma vez o amigo na Rainbow Road.
“Hmmm.”
“Estou feliz mas estou triste”, disse Thunder.
Lol. Pedro riu. Tirou um caderninho de anotações do bolso e escreveu a frase de Thunder.
“Um dia vou usar essa frase em alguma coisa que escrever”, disse Pedro. “Para que não pareça imitação, vou inverter as coisas. Vou dizer: estou triste, mas estou feliz.”
Iam correr agora na Moonview Highway, outra prova exigente do Mario Kart. E outra paisagem deslumbrante: uma corrida noturna, cheia de luzes na escuridão desafiadora, e uma lua que parecia ao mesmo tempo zombar dos pilotos desastrados e saudar os hábeis.
“Thunder.”
“Hmmm.”
“Sua frase. Me lembrou aquele ensaio do Montaigne. Como uma mesma coisa nos faz rir e chorar. É o capítulo 38, se não me engano.”
“38. Acertou. É um dos meus prediletos.”
Terminada a prova na Moonview, com mais uma vitória de Thunder, Pedro se levantou e foi apanhar seu exemplar dos Ensaios. Queria rever uma passagem específica do capítulo 38. Mas antes fez uma reflexão sobre Montaigne e as mulheres.
“Thunder.”
“Hmmm.”
“Você já deu Montaigne para alguma namorada ler?”
“Nem me fale”, disse Thunder. “Foi péssimo. Ela abominou as coisas que o Montaigne escreveu sobre as mulheres. Um machista idiota e arrogante. Foi como ela chamou o Montaigne.”
“Eu ia dizer exatamente isso. Nunca mostre Montaigne para sua mulher.”
Pedro abriu na página cujo trecho queria ler.
“Aqui, Thunder”, apontou com os dedos para o parágrafo que buscara e encontrara. Pediu a Thunder que lesse em voz alta em seu vozeirão.
“Nenhum de nós pode vangloriar-se de não ter, não obstante o prazer que auferir de uma bela viagem, sentido faltar-lhe a coragem de deixar família e amigos”, escreveu Montaigne. “E, se não chegou a derramar lágrimas de verdade, não foi sem um aperto no coração que pôs o pé no estribo.”
“É exatamente como me sinto diante da viagem que eu vou fazer”, disse Pedro. “Pé no estribo. É uma imagem e tanto, não é?”
“Pedro”, disse Thunder. “Um amigo ausente. Isso dói. Não temos tantos amigos assim de verdade.”
Thunder estava com os olhos úmidos.
“Vou sentir sua falta”, disse Thunder em seu vozeirão momentaneamente enfraquecido.
“Thunder”, disse Pedro.
“Uma coisa eu te garanto. Vou treinar Mario Kart direto enquanto estiver fora. Não agüento mais perder para você.”
E então partiram para mais uma prova na Rainbow Road.

Fique com quem faz você rir

31/12/2008

Tio Fábio, um falecido homem sábio do interior, Deus o tenha, sempre gostou de circo. Um dia, quando eu ainda era garoto, ele me levou ao circo. E apontou, com seus dedos amarelados pelo cigarro, o palhaço que me fizera gargalhar. Pense nesse palhaço quando for escolher as pessoas para ter ao seu lado. Amigos, namoradas. É vital ter por perto pessoas que sorriam e nos façam sorrir. (Tio Fábio não era homem apenas de teoria. Na vida prática, tinha, como o palhaço daquele circo tão distante no tempo, uma notável capacidade de fazer os outros rirem.)
Então reflito sobre os relacionamentos amorosos. Eles são tão mais leves, tão mais gostosos quando temos conosco alguém que traga a luz exuberante dos sorrisos genuínos. (Digo genuínos porque não existe nada pior que o sorriso hipócrita e fabricado, como os dos políticos.) E os relacionamentos podem ser um tormento quando quem está ao nosso lado não sabe rir. O ideal é termos uma palhaça como namorada, mulher, manteúda ou que você quiser.
O sorriso é uma atitude. Mostra, quase sempre, um espírito superior, de gente capaz de lidar, com dignidade e bravura, com as adversidades da vida. (Jamais vi uma foto do Dalai Lama em que ele não aparecesse sorrindo. Paz genuína interior ou dissimulação? Alguém tem um palpite?) Assim como o rosto fechado e sombrio é quase sempre sinônimo de pessoas tomadas pelo síndrome da vítima, a compulsão de pôr a culpa de tudo nos outros, a evasão total e descarada de responsabilidade. É aquela história: o mundo me persegue. Ninguém me compreende. Deus criou tudo apenas para que eu fosse sacaneado. Para estas pessoas, Sartre criou a frase definitiva: o inferno são os outros.

O sorriso é, repito, uma atitude. E também uma virtude. Como toda virtude, tem que ser cultivado. São absolutamente excepcionais as pessoas cuja alma já nasce sorridente. Para nós, outros, os chamados normais, sorrir para a vida é fruto de um esforço cotidiano, um treinamento incessante para não ver os fatos sob ângulos negativos.
Um dos livros mais admirados por Tio Fábio (quantas vezes ele tentou fazer-me ler) traz uma passagem de Sêneca, filósofo estóico de quase 2000 anos atrás. Uma passagem sublinhada por Tio Fábio fala de um filósofo que perdeu todos os seus bens no naufrágio. A reação do sábio: É que o destino quis que eu filosofasse mais desembaraçadamente.  (Admiro a disciplina de Tio Fábio de ler livros sempre acompanhado de lápis e caneta. Tentei algumas vezes, mas tropecei em minha completa falta de método. Quem sabe um dia.)
Cercar-se de palhaços foi o conselho que Tio Fábio me deu há muitos anos. Nem sempre fui bem-sucedido. Ou nem sempre dei a devida atenção a esse conselho. Sofri e levei sofrimento e aqui cometo a ousadia de vir fazer um acréscimo à frase de Tio Fábio. Não basta se cercar de palhaços. É preciso que sejamos palhaços também. Receber risadas é bonito, mas mais bonito ainda é dá-las.
Você sabe que uma relação está morta quando se acabam os risos. Um romance saudável tem a estridência irresistível e espontânea das gargalhadas. Pode acontecer que os dois tenham se esquecido de como dar risada. E então vale a pena o esforço de se lembrar. Mas, se você tentar devolver a alegria a uma relação que se tornou pesada e não conseguir nada além de queixumes e lamúrias, é melhor desistir. Não do sorriso, nem da alegria e do amor, mas da relação. Só continue se você gostar do sofrimento. Para quem acredita que o propósito da vida é a felicidade, não há saída se não respirar fundo e cair fora, com um sorriso de preferência.

Balzáqueas21: O silêncio do infiel

25/12/2008

“Um marido, como um governo, nunca deve confessar a culpa.”
Balzac

Balzáqueas20: O amor e a aversão

24/12/2008

“O homem vai da aversão ao amor. Mas, quando começou por amar e chega à aversão, nunca mais volta ao amor.”

Balzac

O presente que não dei

24/12/2008

O mundo basicamente de divide entre os que dão e os que recebem presentes. Eu estou na primeira turma. Poucas coisas me trazem tanto prazer quanto acertar num presente a alguém querido. É uma questão de vocação. Gosto muito mais de dar do que de receber presente.
E no entanto. E no entanto, quando olho para trás e examino minha relação com os presentes, não é algum que dei que me chama a atenção mais que os outros. É um que não dei. E aqui peço licença para uma digressão pugilística. Uma vez li uma matéria numa revista americana sobre um grande lutador. Ele tinha dezenas de vitórias, e apenas duas derrotas. Mas foram derrotas épicas, disputas que entram na lista dos maiores combates do boxe. O articulista escrever que paradoxalmente aquele lutador – chamemos pelo nome, Thomas Hearns – seria lembrado não pelas vitórias mas pelas derrotas.

É mais ou menos o que acontece comigo em relação aos presentes. O que não dei é o que não sai e não sairá jamais de minha mente.

Meu pai. Meu pai, que jamais deixara de trabalhar por causa de doença, um homem vigoroso e exuberante, um certo dia se queixou de dores. Uma bateria de exames mostrou que o problema era aparentemente simples: pedras na vesícula. Uma cirurgia rápida, uns poucos dias de recuperação no hospital e pronto. De volta à vida normal.

A cirurgia foi marcada para uma semana em que eu, um repórter iniciante, faria uma cobertura de um encontro de produtores de petróleo em Quito, no Equador. Tudo parecia banal na questão médica de meu pai, e então embarquei. (Vou poupar você da descrição das dores de cabeça pela perda da mala na conexão que fiz a caminho de Quito.)

Comprei uns poucos presentes nas raras horas vagas que tive em Quito. Mas não para meu pai. Tento entender as razões, e acho que jamais consegui dar presentes a meu pai que eu julgasse dignos dele. Meu pai amava livros. Mas qual livro dar para ele?

Na volta, encontrei meu pai no hospital. Minha mãe, delicadamente, me perguntou o que eu trouxera para ele. Nada. O que parecia ser um problema corriqueiro se transformou num pesadelo. Em pouco tempo meu pai foi fisicamente devastado – mas não mentalmente. Como Sócrates, que confortou seus discípulos na hora de beber a cicuta que o mataria, meu pai nos consolou em sua morte. Deu-nos, na prática, um exemplo sublime de força na adversidade. De aceitação dos reveses. Montaigne escreveu que nada mostra com tanta clareza a estatura de um homem como a sua atitude perante a morte. Pela medição de Montaigne, meu pai foi um gigante.

E eu. E eu. Eu não trouxe nada a meu pai de Quito. E ele estava num leito de hospital. Mas. Mas tudo parecia tão simples. Foi a última oportunidade que tive de dar um presente a meu pai. Um mentiria se dissesse que não carrego um sentimento de culpa nestes anos todos. Uma sensação. Para usar uma frase de um conto de Machado de Assis que li obsesivamente numa fase de minha vida, Um Capitão de Voluntários, uma sensação que não é grande senão por me fazer sentir pequeno.

Presentes. Gosto de dá-los. Muito. Mas o que não dei é que jamais esqueci.

Mãe

03/12/2008

. Me espera. Tô indo para longe, para uma terra cuja língua você jamais entendeu, e não vai ser pouco o tempo que vou ficar lá. Mas me espera.
. Da outra vez que fui para lá você colocou uma lata de Nescau na minha mala sem que eu soubesse. Você me esperou daquela vez. Me espera agora de novo.
. Me ocorre sei lá por que a melodia chorosa de uma canção chamada Never Going Home Anymore, da trilha de Butch Cassidy. . Por que essa música se instalou no meu ouvido?
. Eu escrevi tanto sobre o papai, e tão pouco sobre você. Me sinto culpado e injusto, mas sei que você vai me compreender e perdoar. Você também sempre falou muito mais do papai do que de você. . Sua humildade é majestosa.
. Me espera. Quero reencontrar seus olhos. Nos momentos de apuros eles sempre nos confortaram, a meus irmãos e a mim.
. Me explica. Por que o tempo destrói tão rápido o mundo em que somos felizes?
. Você foi a rainha do nosso mundo. A rainha mais generosa que jamais existiu. Todos os seus súditos, para você, eram bonitos e inteligentes. Todos também tinham bom caráter. Ninguém era desleal, ninguém traía, ninguém fazia nada feio no reino em que você, com o laquê que dava a seus cabelos ares de coroa, era a senhora suprema. Porque a seus olhos todos eram iguais a você.
. Uma das razões pelas quais eu detestaria viver outra vida além dessa é que não suporto a idéia de ter outra mãe que não você. Como um irmão escreveu de outro no livro do Martin Amis, você preencheu todos os meus céus, mãe.
. Não vou mentir. Vou demorar. Mas me espera.

Você prefere a calma ou a intensidade no amor?

26/11/2008

?

Cris e Pedro tinham acabado de sair do novo filme de Woody Allen, Vicky e Cristina. Não era um grande Woody Allen, mas Woody Allen é sempre Woody Allen. Mesmo quando faz um filme menor, vale a pena ver. As obras supremas de Woody Allen ficaram lá para trás. Annie Hall primeiro, depois Manhattan. (Pena que Mariel Hemingway, a garota inocente de Manhattan, tenha envelhecido. O tempo poderia ter parado para ela, para que jamais perdesse os olhos ensolaradamente sonhadores.) O último grande Woody Allen foi A Era do Rádio.
Era mais ou menos isso que Pedro falava depois da sessão, enquanto se dirigiam à Lanchonete da Cidade para comer um sanduíche que leva o nome estranho de bombom.
“O Contardo deu uma pancada na frase essencial da Scarlett”, disse Cris. Ela falava de Scarlett Johanson, que é a Cristina do filme. “Aquela em que ela afirma que não sabe o que quer, mas que tem clareza no que não quer. Vou te dar o artigo dele pra ler.”
“Qual o ponto dele?
“Ele disse que é uma coisa muito infantil. Quem diz que sabe o que não quer se fecha a novas experiências. Pra ele é uma frase covarde e medrosa.”
“Você concorda?”
“Vou te dizer. Aquela frase eu uso com muita freqüência. Eu sei o que não quero”, disse Cris.
“O filme trata exatamente disso”, disse Pedro. “Do medo. Se você tem que optar entre uma história de amor morna que te traga segurança ou uma paixão que te transporte ao céu e ao abismo, o que você faz?”
“Uma coisa morna, nem pensar”, disse Cris. “Sem intensidade você não tem nada no amor.”

No filme, Javier Bardem é um pintor espanhol que vive em Barcelona e faz telas incompreensíveis, mas que desfruta de grande prestígio entre as mulheres. Vem de uma separação atormentada de Penélope Cruz, e está querendo levar para a cama Vicky e Cristina. São duas garotas americanas que foram passar as férias de verão em Barcelona, onde conhecem Javier, a cujo encanto sucumbem.
Javier e Penélope são o símbolo da paixão neurótica. Não funciona. Vicky tem um noivo americano, Doug, um cara certinho e bem-sucedido, mas pelo qual ela não é apaixonada. Vicky e Doug representam a mornidão amorosa.

A tempestade ou a calmaria, o que dá mais certo num caso de amor? É possível um amor ser intenso sem ser neurótico? Uma relação pode ser calma sem ser enfadonha? Esta a maior discussão que o filme traz.

“Aquele beijo”, diz Cris.
Ela se referia ao comentado beijo de Penélope Cruz em Scarlett Johanson. As duas acabam formando um triângulo fracassado com o pintor.
“Achei forçado”, diz ela. “Elas não pareceram gostar de ter se beijado no filme.”
“Concordo. O triângulo ali parecia apenas marketing. Uma mulher ciumenta como a Penélope é no filme jamais aceitaria um triângulo amoroso. A mulher ciumenta morre se vê seu homem com outra mulher”, diz Pedro.
“Você, Pedro. Quem você preferiu, a Penélope ou a Scarlet?”
“A Penélope é muito exagerada. Sou mais a Scarlet.”
“Por que os homens são fascinados pelas loiras?”, disse Cris. “É uma coisa tão … tão infantil.”
“Não sou fascinado pelas loiras”, disse Pedro. “Só falei que prefiro a Scarlet à Penelope.”
“Pedro.”
“Cris.”
“Detesto coisas mornas.”
“Eu também.”
E então, estabelecido o pacto antigelo, dedicaram-se ao sanduíche glorioso da Lanchonete da Cidade.

Balzáqueas 17

19/11/2008

“Numa história de amor, é preciso trair para não ser traído.”
Balzac