Once upon a time in Parsons Green


Peter estava com Tania no Seven Bells, um pub em Parsons Green. Era um de seus pontos prediletos de Londres. A pint era boa, a comida era boa, o preço era bom. Peter gostava de se sentar com os olhos voltados para a praça de Parsons Green. Ficava vendo as crianças de patinete, os casais namorando na grama, homens e mulheres lendo ou simplesmente deitados sem fazer nada. Peter jamais descobrira o mistério da grama londrina. Você não tem que usar uma toalha de anteparo para se deitar. Você pode sair do escritório para comer um sanduíche na grama, como num piquenique, deitar em seguida para descansar e depois basta se chacoalhar para poder outra vez voltar ao trabalho, sem ter que tomar banho ou trocar de roupa.

Nada é tão londrino quanto deitar na grama de um parque.

Peter pensava por que se apaixonara por Tania. Verdade que ela era atraente, verdade que seu acento ucraniano era extremamente charmoso, verdade que era simplesmente matadora a tatuagem do violino de Man Ray nas costas brancas de quem nasceu, cresceu e viveu com sol escasso. Verdade que, como uma Ibiza Angel que era, uma das lendárias massagistas do Empire, o cassino de Londres de Leicester Square, seus dedos sutis e ao mesmo tempoo intensos provocavam múltiplas sensações boas no homem. Verdade que no sexo ela parecia sempre faminta, voraz, disposta a agradar.

Mas não era isso. Ou não era apenas isso. Tania sabia fazer um homem se sentir único. Olhava nos olhos nas conversas, não perdia uma só palavra, ria das piadas. O riso não era alto e grosseiro: era suave e transmitia sinceridade. Tania não desviava a cabeça quando um homem bonito entrava no bar, no restaurante ou onde fosse. Peter, com ela, se sentia único e insubstitível.

Quem pode resistir a uma mulher assim?

“Você parece preocupado”, ela disse.

E estava mesmo. Mal tocara no prato, uma combinação de linguiça, purê de batatas e um molho agridoce. Claudio lhe telefonara na noite anterior. Queria desabafar. E ouvir o amigo.  Serra fora hostilizado por petistas numa andança pelo Rio. Alguma coisa fora atirada nele, e ele acabou fazendo uma tomografia. Imagens mostrariam, depois, que o que jogaram em Serra era uma bolinha de papel. Aparentemente, ele queria tirar proveito político do episódio. Estava atrás de Dilma e isso poderia ajudar. Mas o dono do jornal queria que Claudio escrevesse um editorial em que sublinhasse a intolerância dos petistas diante da divergência.

Claudio não era petista. Tivera problemas, na juventude, com petistas em disputas em movimentos estudantis. Mas era jornalista. Um editorial sério teria que questionar, muito mais que os braços que atiraram a bolinha de papel, o teatro de Serra. Não havia uma só marca de nada em sua cabeça. Como era de esperar, a tomografia não acusara rigorosamente nada.

Mas não era este o editorial que o dono pedira.

Claudio acabara escrevendo o que lhe fora mandado, depois de relutar. Cada palavra saíra com repugnância, mas saíra. Tinha que falar com alguém, e essa pessoa era Peter, seu velho amigo. Dissera que nunca se sentira tão irrelevante como jornalista. Estava pensando em se demitir. A perspectiva de escrever no futuro coisas como aquele editorial o apavorava. Pensava, quando jovem, que poderia mudar o mundo com o jornalismo. Agora percebia que não conseguia sequer mudar uma ordem do patrão.

Mas.

Mas o salário, os bônus, as obrigações pesavam, e não pouco. Peter aconselhou Claudio a não fazer nada até o final das eleições. Sugeriu que tirasse férias depois e viesse a Londres, onde poderia espairecer e decidir com calma seu futuro. De resto, Peter disse a Claudio que o espaço dos editoriais era dos donos, e não dos editores do jornal.

“Algum problema no Brasil?”, perguntou Tania. Ela estava comendo uma salada de folhas com brie derretido. Era vegetariana.

“Nada, nada”, disse Peter. Não iria aborrecer Tania com uma história de bastidor de redação.

“Minha mãe diz que um homem bom merece ser tratado como um rei quando está preocupado”, disse Tania.

“E …”, disse Peter.

“Você é um homem bom.”

“E …”

“Sou uma filha obediente.”

“E …”

“E parece que uma chuva caiu em mim. Estou completamente molhada.”

“E…”

“Então acho que a gente deve terminar logo essa comida””, disse Tania. Ela se inclinou para Peter, deslizou a mão direita sobre sua coxa, e viu que ele queria exatamente a mesma coisa que ela.

2 Respostas to “Once upon a time in Parsons Green”

  1. Alice Barros Says:

    Uaaaaaaaau! Que quente, FH!

  2. Dailon Says:

    Show ! Uma mulher dessa ganha meu coração facil , só pelas atitudes.

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