João e Rita


“Você pensou que eu ficaria disponível para sempre?”, João disse para Rita. “Quer dizer. A sua disposição?”

João era médico psiquiatra. Rita, advogada criminalista. Ele moreno como um índio, ela loira com uma cabeleira clara que se esparramava por suas costas como uma capa de super-herói. Ambos na casa dos 30. João era três anos mais novo que Rita. Ela preferia homens mais jovens. Achava mais fácil controlá-los.

João e Rita tinham feito o percurso de todo casal da paixão e dos sorrisos ao ódio e aos insultos. Tinham já se separado fazia algum tempo quando Rita soube que João estava saindo com outra mulher. Rita cobrou-lhe satisfações como se ainda estivessem juntos.

Ela própria estava saindo com outro homem, mas negava isso a João para ter mais força em suas recriminações inoportunas. Era, como todos os advogados, uma mentirosa compulsiva e incorrigível. Num determinado momento, João já não sabia se a conhecia de fato ou se só conhecia a versão falsificada que a própria Rita apresentava.

João se perguntou como pudera fazer tantos planos com ela. Casar. Ter filhos. Viver numa casa de frente para o mar. Como ter uma vida com uma pessoa em quem você simplesmente não acredita?

Você pode até ficar uma vida inteira com alguém a quem não ama. Mas não é possível criar uma aliança com alguém em quem você não acredita.

“Você acabou com a minha vida”, Rita disse.

Mulheres que se autovitimizam não costumam ser boas parceiras. Sempre colocam o homem na posição de devedor. Desprezam o que receberam e supervalorizam o que deram. Rita era assim. Jamais dissera obrigado por nada. E cobrava frequentemente o que dizia ter dado.

Exigia a verdade mas vivia de mentiras. Num determinado momento, João se deu conta de que Rita o tratava como um idiota. Era o fim do romance.  Homem nenhum suporta ser tratado como um idiota. Só idiotas poderiam engolir tantas mentiras.

João de repente se deu conta de que, para começar uma nova etapa na vida, tinha que esquecer a velha. Romper com o passado irrevogavelmente.

“Rita, olha para mim”, ele disse subitamente.

Ela olhou.

“É a última vez que você me vê. Guarde essa minha imagem caso queira. Que você realize todos os seus sonhos. Que case com um princípe europeu de olhos verdes. Que tenha filhos lindos como você. Que faça uma carreira maravilhosa porque tem talento para isso. Que viva perto dos amigos que tanto ama. Mas tudo isso longe de mim.”

E então levantou e foi embora para nunca mais, nunca mais, nunca mais.

9 Respostas to “João e Rita”

  1. Nicky Says:

    Sou fã do João.

    Sem mais.

  2. Gustavo Jaime Says:

    Quantas Ritas não cruzam o nosso caminho…

  3. Alice Barros Says:

    Grande João! É assim que tem que ser feito mesmo!

  4. Manu Says:

    FH, e a Maria?
    Rs.
    Delícia, delícia, delícia de texto.
    Vamos viver verdades, galera?
    /

  5. Gueixa Says:

    Essas Ritas viu….

  6. Leo Conrad Says:

    João é um herói. Todos já tivemos nossas Ritas, homens e mulheres, mas de todos que conheci, poucos tiveram a coragem de fazer o que fez João.

  7. Gueixa Says:

    #todaritaquerumjoão

  8. Nina Says:

    Ponto pra João.

  9. Adriana Says:

    Perfeito!

    Ainda bem que o João existe!

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