Areia Escaldante


Para muitos, o escritor abaixo, do qual reproduzo um trecho, só não levou o Nobel por escrever numa língua morta …

 

O sol de Salvador clareara ainda mais os cabelos já claros e longos de Gabriela. Quase lhes devolvera a loirice da infância. Gabriela tinha 48 quilos, adequados para o seu metro e 63. Mas já tivera 56 quilos. Para não voltar aos dias de gorducha, pusera uma balança eletrônica em seu banheiro na qual se pesava toda manhã depois do banho. Quando passava dos 52, acionava uma dieta intuitiva mas eficaz da qual estavam banidos doces, pães e massas.

Gabriela sabia como agradar a um homem. Ela parecia tratar cada homem com quem falava como se fosse o único. Esse era seu maior e mais duradouro encanto. Nunca ninguém fizera antes Eduardo sentir-se tão espirituoso. Gabriela olhava direto nos olhos, ria intuitivamente mesmo das piadas que não entendia, parecia sempre interessada na conversa. E tinha o que se poderia definir como um certo ar sexual permanente. Você punha os olhos nela e imediatamente tinha pensamentos sexuais. Gabriela parecia sexual num velório, num corredor de hospital ou numa cadeira de dentista.

De repente ela se desvencilhou da mão de Eduardo. Correu alguns metros, estacou perto do mar e deitou-se de costas na areia. O vestido de verão de um amarelo quase que transparente, comprado de uma negra de 120 quilos na Praia do Forte, pareceu a Eduardo indescritivelmente belo sob o fundo de areia. Naquele instante ele daria tudo para que os relógios nunca mais se movimentassem e Gabriela se eternizasse deitada ali na imensidão branca de Itapuã, num início de madrugada cálida. Quando Eduardo a alcançou, ela já retirara a calcinha e a abanava com a mão esquerda como um leque e também como um troféu. Era uma calcinha branca. Gabriela só usava calcinha branca. Ela ordenou: “Vem. E se alguém chegar, não pára.”

Eduardo foi.

2 Respostas to “Areia Escaldante”

  1. Gueixa Says:

    Eu conheço essa Gabriela. Ela é aquela que trato os homens pelo diminutivo não é?

  2. Maria Augusta Says:

    …”tratar cada homem com quem falava como se fosse o único”… já percebi que essa é a grande qualidade das tuas mulheres. Assim, és pra mim, meu escritor dileto.

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