Quero ser especial


Entre tantos textos que escrevi, este é meu predileto. Por várias razões. Acho que ali está claro o tipo de mulher que mais me interessa, e imagino que à maior parte dos homens. Como curiosidade, foi a primeira vez que eu notei que os leitores me ouviam. Escrevi este texto na Vip, no final da década de 1990, e saí de férias. Foi um dos meus primeiros artigos. Ao retornar, havia uma série de emails, pela primeira vez. Eu era um colunista inciante e relutante. Ali vi que poderia ter futuro …

Uma querida amiga minha, Mariza Montalbán, uma morena de fazer cego olhar para trás e gritar “uau!”, me perguntou outro dia: “O que a Lenira fez para que você fosse tão apaixonado por ela naqueles tempos? Quero a receita”. Ela se queixou, depois, de que jamais sentiu em nenhum de seus namorados uma paixão parecida com a que viu em mim pela Lenira, long, long time ago, como diz aquela música tão linda, American Pie. Não, pelo menos, depois da segunda semana. A beleza soberba de Mariza Montalbán tem sido suficiente para inspirar paixões arrasadoras, sim. Mas não duradouras.

Foi assim com seu último namorado, Hugo, um jornalista amigo meu. Fui eu quem apresentou um ao outro. A paixão abrasiva de Hugo por Mariza durou seis dias e onze horas. Nem um minuto mais. Outro dia vi Hugo num bar animadíssimo com uma garota bem menos bonita que Mariza. Depois ele me disse que a nova namorada, Pietra, pelo menos não corrigia o seu inglês precário. (Hugo chama Spike Lee de Espique.)

A pergunta de Mariza me obrigou a pensar nas razões pelas quais fui, no passado, um escravo físico e intelectual de Lenira. E cheguei a uma conclusão: isso tudo tem muito mais a ver com atitude do que com beleza. A beleza pode acender uma paixão num homem. Mas só a atitude é capaz de mantê-la. Lenira tinha uma dose assombrosa disso. De atitude.

Lenira fazia você acreditar na ilusão de que era o único homem no mundo. Lenira olhava você como se estivesse olhando para o Brad Pitt. Lenira punha os olhos dela nos seus e não tirava de lá nem para piscar. Um, vários homens bonitos podiam passar por nós, Lenira só tinha olhos para mim. I only have eyes for you, me ocorre agora aquela música romântica americana. Lenira parecia prestar atenção em cada sílaba que eu pronunciava, como se eu fosse Montaigne, ou Flaubert, ou Pitágoras. Mesmo quando eu dizia uma tolice espantosa, Lenira reagia como se acabasse de ouvir uma frase inspirada, genial. Lenira ria da piada mais sem graça que você poderia contar. Seu supremo talento era fazer tudo isso sem aparentar falsidade.

Lenira realmente parece achar você um cara especial.

Isso, na verdade, é tudo que um homem quer de uma mulher. Que não o faça sentir mais um na multidão. Minha bela amiga Mariza Montalbán é o oposto. Mariza sempre dá um jeito de deixar claro que ela é especial. Mariza olha para os homens de cima para baixo. Parece estar fazendo um favor a eles por estar ali em sua companhia. Numa mesa de bar ou restaurante, olha sempre para outros homens bonitos que entram. Parece entediar-se depois de alguns minutos de conversa com seu acompanhante. Seus olhos erram pelo ambiente como besouros, ou bizorros, como dizia Hugo. E, porque lavou louça seis meses num restaurante londrino, se acha no direito de corrigir impiedosamente o inglês de seus namorados, como fez com o convictamente monoglota Hugo. Mariza é zero em atitude.

Lenira era 10 com louvor nessa disciplina. Um dia, no começo da carreira, eu estava arrasado. Uma promoção que eu esperava ansiosamente na redação me foi afinal negada. Meu chefe preferiu promover uma colega mulher com quem devia estar tendo um caso. Eu sabia que escrevia muito melhor que ela, mas sabia também que jamais teria 90 de busto como ela. E então dancei. Quando contei a história para Lenira virou-se para mim e disse: “Você é melhor que todos eles”.

Já faz muito tempo que essa frase foi pronunciada. E já faz também muito tempo que Lenira é apenas uma recordação de doçura intermitente para mim. Mas desde aquele dia, sempre que um vento frio sopra sobre minha alma, sempre que eu procuro sentido para as coisas sem encontrar, sempre que tenho vontade de fugir para dentro de mim mesmo e não retornar, aquela frase de Lenira tão, tão, sei lá, tão pungente, ainda que tão distante da realidade de um escritor vulgar como eu, um loser como os americanos dizem, aquela frase, eu dizia, me volta aos ouvidos como um cobertor numa noite de inverno. Tudo que no fundo o homem quer é que pelo menos para sua namorada ou mulher ele seja melhor que todo mundo.

Lenira me fazia sentir assim.

19 Respostas to “Quero ser especial”

  1. Alice Barros Says:

    Uau!!! Que lição, FH… Se todas as mulheres fossem como a Lenira não teríamos tantas solteironas no mundo, né? hahaha
    Adorei, adorei, adorei!!!

  2. Graça Says:

    Fabio,

    Dica devidamente anotada. Vou começar a treinar desde já.

    Agora, o duro vai ser estar conversando com um homem e não lembrar de vc falando tudo isso…rsrsrs…

    Ah!! Outra coisa…fiquei imaginando a cara de Lenira …impagável…rsrsrs…vc é ótimo FH !!

  3. lasatine Says:

    Eu também quero ser especial

  4. Alexandre Cassis Says:

    Fabio, esses textos são deliciosos de ler. Por favor, faça uma coletânea e publique em um livro.
    Pode até ser chamado de “manual do homem sincero” se voce permitir uma sugestão de um leitor e fã “barato”.
    Lenira é o que podemos chamar de Amelia do seculo 21.

  5. Nina Says:

    Que texto mais bonitinho, seu Hernadez.

    Suponho que pra ser uma “Lenira” da vida, o cara também tenha que merecer os olhos, a atenção, a devoção; caso contrário fica meio complicado fazer um homem sentir-se assim.

    Deixei de querer ser somente “bela” já faz um bom tempo (esse é um dos grandes problemas em algumas mulheres, achar que a beleza será duradoura. Tipo “uma carta atrás da manga” em um relacionamento. Tsc!), essa certamente foi uma das melhores atitudes já tomada.
    ____

    “(…) Bonita
    Pra que os olhos do meu bem
    Não olhem mais ninguém
    Quando eu me revelar
    Da forma mais bonita
    Pra saber como levar todos
    Os desejos que ele tem
    Ao me ver passar…”

    Gostei do texto, seu Hernandez.

  6. Karina Says:

    Não só aos homens isso interessa, Fabio Hernandez.

    Para mim, essa “capacidade” está muito acima de muita coisa. Mas, acredite, exige tb certa habilidade. No final das contas, o cara tem que ter o talento mesmo, e acredito que tb as mulheres. Do contrário, resvala para uma espécie de idolatria vazia, a famosa babação de ovo.

    E se não for de verdade, que seja convincente o bastante.

    Boa escolha de melhor texto.

  7. Paulo Rods Says:

    Beleza hernandez? esse eu ja conhecia, mas e sempre bom revisitar os teus textos. agora lembrei de uma coisa que aconteceu comigo em um pub Australiano em Dublin:
    estavamos eu e uma amiga, que se tornou namorada depois, no andar de cima quando vi uns amigos dela la embaixo e disse:
    – would you like join your friends?
    e ela:
    – no way!!!!!! im here whith you!!!!!!
    era uma fase pessima na minha vida e essa simples frase me fez sentir o melhor cara nao de dublin mas do mundo inteiro e e sempre uma luz quando a alma escurece. mais uma vez obrigado.
    ps. alguem sugeriu uma compilacao dos teus textos ai em cima so pode ser brincadeira ne? nao esperem nada pessoal comprem o Homem sincero e nao sejam leitores baratos 🙂

  8. Nicky Says:

    Favourite…
    I can see why.

  9. Maria Tereza Belumat Says:

    Ah! a palavra e o seu poder…
    Quando dita por alguém que nos é importante, permanecem para sempre. Para o bem ou para o mal, nos acompanham pela vida.
    Me lembrei do poema “O que eu gosto do teu corpo…”, do Julio Cortázar, publicado no livro “Papéis Inesperados”:

    O que eu gosto do teu corpo é o sexo.
    O que eu gosto do teu sexo é a boca.
    O que eu gosto da tua boca é a língua.
    O que eu gosto da tua língua é a palavra.

  10. Maria Tereza Belumat Says:

    Ops!
    Sorry!
    … Quando dita por alguém que nos é importante, permanece para sempre. Para o bem ou para o mal, nos acompanha pela vida.

  11. john Says:

    caraca fh… Nem conheci a Lenira, mas jah pensei em casar com ela 😛 heheh Mas eaih? como vc partiu o coraçao da coitada?? Jah q ela virou uma recordação de doçura intermitente para vc 😛

    Nao… pq ela nao partiria o seu coraçao, nao eh mesmo?? vc deve ter sido bem avarento!! ainda kis mais 😛 hehe

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