“Um dia eu achei que nós podíamos ser felizes juntos”


Noite de Verão, de Hopper

“Eu não consegui fazer você feliz”, ela disse chorando. “Isso é o que me dói mais. Seus olhos tristes. Essa a imagem que vai ficar gravada em mim para sempre. Nunca te disse. Quantas vezes eu quis te pegar no colo por causa desses olhos tristes.”
Era uma conversa de fim de caso, em que os dois fazem um balanço melancólico das perdas e ganhos, em que o casal desfeito tenta entender o que deu errado, o que fez as ilusões do início se perderem, o que fez os braços de desenlaçarem. Em geral são conversas inúteis. Quase sempre um atira no outro a responsabilidade pelo naufrágio amoroso. Sartre disse que o inferno são os outros, e isso é uma verdade quase absoluta no amor. Raras vezes cada um admite sua parte e quando isso acontece tem-se o que se pode chamar de contribuição milionária dos erros. Cada um tem a chance de corrigir seus equívocos em futuros amores.

Aquela era uma conversa do tipo raro. Não havia amor entre eles fazia tempo, e ambos sabiam. O que os ligara um dia se dissolvera inteiramente. Apenas protelaram o adeus. Mas havia uma vontade neles dois em entender com profundidade o que acontecera. E era essa vontade que explicava a conversa honesta naquele momento.

“Você não teve culpa nenhuma em não me fazer feliz”, ele disse. “Quem poderia me fazer feliz? Eu mesmo. Mas. Mas. Sei lá. Isso era um projeto acima das minhas forças. Acho que eu tentei. Mas jamais tive força suficiente para me fazer feliz. Olho ao meu redor. Vejo pessoas infelizes a meu redor e me pergunto: qual delas foi bem-sucedida na tarefa de se fazer feliz?”

Schoppenhauer escreveu que a pior coisa que poderia acontecer a alguém era nascer. Dores, perdas, decepções. Morte. Schoppenhauer foi influenciado pelas filosofias orientais. A verdade essencial do budismo é que viver é sofrer. Alguns dias antes dessa conversa de final de caso Woody Allen dera uma entrevista na qual dissera que viver é sofrer. Allen, autor de dois filmes essenciais para quem gosta de grande arte no cinema, Annie Hall e Manhattan, não fora original na frase, mas verdadeiro. Mesmo o sorriso do Dalai Lama parece forçado se você observa o esgar de sua boca com senso crítico e não com devoção.

“Durante muito tempo eu também me senti culpado de não fazer você feliz”, ele disse. “Eu era pretensioso. Achava que podia controlar tudo. Até a sua taxa de felicidade. O tempo me mostrou que os mais infelizes entre os infelizes são aqueles que querem controlar tudo. Quando eles percebem que não podem, se sentem desesperadamente impotentes. Depois eles enchem os consultórios dos psiquiatras e tomam loucamente antidepressivos em busca de conforto para a pretensão destruída.”

“Um dia eu achei que nós podíamos ser felizes juntos”, ela disse. “Achei não. Tive certeza. Naqueles dias. Os primeiros. Eu revi as fotos para ver se era fantasia minha. Não. Nós estávamos felizes. De verdade, não de mentirinha.”

Passou por ele um trecho de Anos Dourados, a melhor parceria de Tom Jobim e Chico Buarque. Na fotografia estamos felizes.

“Minha mãe lá em cima e nós no tapete. Lembra?”

A mãe dela falava ao telefone demoradamente na parte de cima do sobrado. Eles aproveitavam para se engalfinhar no tapete branco e macio. Sabiam pelo barulho do telefone quando a mãe enfim terminara a conversa. E se recompunham.

Ele sorriu. Lembrava bem as tardes quentes no tapete. Mais tarde a tagarelice da mãe dela o incomodaria, mas ali era uma bênção.

“Onde foi que nos perdemos, onde foi?”, ela disse.

“Não sei. A vida nos perdeu, acho. Ninguém caminha junto uma vida inteira. O tumulto das coisas faz com que as pessoas se percam umas das outras. Irmãos se perdem de irmãos. Amigos se perdem de amigos. Amores eternos se perdem também no caos do caminho.”

“Aquelas tardes”, ela disse. “Elas existiram mesmo?”

“Existiram. Elas talvez nos compensem de tanta dor que trouxemos depois um ao outro. E nelas fomos de alguma forma felizes para sempre.”

8 Respostas to ““Um dia eu achei que nós podíamos ser felizes juntos””

  1. Graça Says:

    Belíssimo texto Fabio, muito bonito mesmo. Hoje compreendo que não existe a “felicidade para sempre”, mas sim, a felicidade do agora, nada mais.

    Não conseguimos fazer os outros felizes, no máximo, nossa companhia, quando temos coisas em comum, produzem no outro momentos que podem, até mesmo ser inesquecíveis. Quanto à felicidade, é uma busca pessoal e intransferível…

  2. Nina Says:

    Palavras bonitas, Fabio.
    Nos faz pensar, refletir em muitas coisas. E no entanto, achar que esse “Um dia…” sempre esteja tão distante.

    Mas o amor é sempre isso, mesmo que o tempo não contribua por essa desejada felicidade por inúmeros fatores da vida, mas dentro da gente o amor será sempre pressa, mesmo que demore longos anos, amando devagar e urgentemente. Será sempre a urgência de agarrar-se em alguém. E agarrar-se, fincar as nossas unhas no amor é bom, mesmo sabendo que um dia podemos cair.

  3. Alice Barros Says:

    Adorei. O texto não poderia ser mais exato, mais real. Lembra perfeitamente aquela conversa de despedida e aqueles questionamento incansável de ex namorados que ainda se desejam, mas sabem que não podem mais caminhar juntos.
    Me identifiquei demais.
    =*

  4. Emanuelle Says:

    Será que finais civilizados são possíveis?
    Será que se não existe dor, desespero, lágrimas, lamentação, foi amor de verdade?

    • Red,whathellisthat? Says:

      Claro, Manu! Isso que você descreve aí em cima (dor, desespero, lágrimas, lamentação) é coisa desse amor romântico que nos fazem acreditar que isso é que é amor…
      Claro, eu também acredito muito no amor (romântica assumida nesse blog), mas acredito MUITO mais em amores maduros (e não estou falando em idade, não!) desses que, como disse o poeta, podem se perceber que foram infinito enquanto duraram.
      ;0)

  5. Heleno Almeida Lima Says:

    “No final de um relacionamento, a melhor parte são as lembranças”. Excelente texto, Fábio!

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