Os melhores anos da minha vida


Há uma cena num romance de John Updike que me comove. Updike é um dos maiores romancistas contemporâneos, e seus livros têm sempre uma sexualidade intensa e elegante. Mas o trecho a que me refiro não tem nada de lascivo. É a morte de Harry Angstrom, o Coelho. Harry fora um astro do basquete universitário e levou as marcas disso até seu último dia. Ele jamais lidou bem com a idéia de que seus dias de celebridade tinham passado e que agora ele era um simples revendedor de carros japoneses. Acima do peso, colesterol alto, um casamento monótono como sermão de padre espanhol ou conversa de advogado. A morte como que o redime. Já na casa dos 60 anos, com o coração combalido, ele um dia está andando e vê alguém jogar basquete na rua, uma cena comum nos Estados Unidos. Ele não podia se esforçar, por causa do coração, mas entra no jogo. E morre. Na morte, ele afinal se reencontra com o que de melhor houve em sua vida. O basquete, os tempos jovens e sonhadores em que as coisas tinham um significado maior que vender carros da Toyota e arrastar um casamento enfadonho.

Júlio César, o imperador romano. Ele disse que a maior dádiva que os deus podem conceder a alguém é uma morte rápida. Os deuses a concederam ao Coelho, e como bônus lhe deram uma última cesta.

As lembranças mais potentes que carregamos são as da juventude. É quando temos coragem, embalamos sonhos, acreditamos em algo além de uma carteira cheia de dinheiro e cartões de crédito. O tempo nos tira a ousadia, a petulância, a fé cega que nos faz crer que nenhum obstáculo é intransponível, escreveu Cícero, o maior orador que a humanidade gerou.

Ao crescer, diminuímos.

As tentativas desesperadas de rejuvenescimento explicam-se nessa diminuição. O homem que faz implante de cabelo, ou se submete a uma cirurgia plástica para tirar rugas, ou passa a andar com mulheres bem mais jovens, ou engole Viagras, ou faz tudo isso e outras coisas mais, esse homem não busca a aparência perdida.

Ele busca, na verdade, a alma perdida. Ele procura, perplexo, a si próprio.

Foi o que fez Harry Angstrom ao correr atrás de uma bola de basquete que podia matá-lo. Uma bola gloriosamente, mortalmente redentora. Ao pensar em Harry e o basquete, me ocorrem o futebol e eu. Nada me fascinou tanto, na vida, como uma partida de futebol. Fui um pequeno astro na adolescência, mais ou menos como Harry. Uma contusão acabou aos 15 anos com meu sonho de ser jogador de futebol.
Desloquei o fêmur esquerdo. Epifisiólise. Jamais esqueci o nome técnico do mal que me tirou dos gramados que tanto amara. Lembro do cheiro da grama recém-cortada ou molhada como do perfume da mulher amada. Não sei se alguma desilusão amorosa, posteriormente, teve o mesmo impacto da dor de meu sonho infantil destruído. Durante um bom tempo, nem sequer ver futebol na televisão eu conseguia. Como doía, Deus, como doía. A bola para sempre perdida. Um sentimento de fracasso, impotência, melancolia. Desespero. Eu nascera para ser jogador, e aos 15 anos era como se minha vida tivesse perdido o rumo e o sentido.

Lembro meu último jogo na categoria para garotos. Mirim. Eu chegara ao limite da idade. Um empate nos classificava, mas uma falha do goleiro nos eliminou. No carro, a caminho de casa, meu pai me disse: “Você vai se lembrar desses anos como os melhores da sua vida”. Ainda agora parece que ouço, com clareza, suas palavras. Lembro o ponto exato da cidade em que ele disse cada sílaba. Logo depois disso, o fêmur me traiu.

Foram mesmo os melhores anos de minha vida.

Papai estava certo. Minhas fotos naquela época mostravam um menino loirinho, olhos arregalados e brilhantes como os de Natasha, uma bola sempre por perto. Nunca estivemos tão ligados, meu pai e eu, como naqueles dias de futebol. Me pergunto agora o que amei mais naquela época: a bola ou a intimidade intensa com meu pai? Oh God I miss him so much, o verso daquela canção tão bonita de Elton John e Bernie Taupin me ocorre agora ao pensar em meu pai. Talvez um dia, como aconteceu com Harry, apareça uma última e redentora bola na minha frente. Deus, como gostaria de repetir o gesto maravilhosamente irresponsável do velho Harry e chutá-la, uma última e definitiva vez, como o Coelho, e partir como ele depois de um fugaz reencontro com os melhores dias de minha vida, como o Coelho, nós dois que fomos jovens astros de esportes diferentes, e depois desabamos cruelmente, e para sempre, de nossas ilusões.

8 Respostas to “Os melhores anos da minha vida”

  1. Maria Tereza Belumat Says:

    Nem sei se deveria confessar-lhe, mas este seu texto me tocou fundamente, e levou-me às lágrimas.
    Não tentarei aprofundar-me em justificativas e ou explanações, mas foi isto que aconteceu.
    Só para citar, desde que me levantei, nesta manhã linda e iluminada de sol, estou ouvido Michel Legrand cantando “Les Moulins de Mon Coeur”, numa gravação de 1969. Teriam sido estes, para ele, os melhores anos de sua vida?

    • Fabio Hernandez Says:

      provavelmente, MT … Paris em 69 … estudantes na rua … a história sendo escrita … e aquele filme tão lindo do Bertolucci com a Eva Green …

  2. Karina Says:

    : ))

    Mas “a vida eh mesmo engracada, cheia de meninos fingindo-se de homens ate o ultimo dos dias”, nao?

    Podia trazer esse texto nos remembers, hum?

  3. Tretas | Aquarian Publishing Says:

    […] Os melhores anos da minha vida « Fabio Hernandez […]

  4. Alice Barros Says:

    Emocionante, encantador e sincero. Reconhecer em nossa vida os nossos melhores anos é uma tarefa difícil, FH. Ainda mais quando temos um caminho extenso a nossa frente que pode nos tornar plenos de alegria. Eu não saberia dizer quais foram os melhores anos da minha vida, talvez eu esteja os vivenciando agora…
    Agora fiquei pensando muito sobre isso!

  5. Petite Poupée Says:

    Pois eu acho que vc nunca deixou a arte jogar…só mudou de campo. Agora vc dribla palavras, dá chapeu nos sentidos, faz golaços nas redes de nossas emoções.

    Quem perde a ilusão Fábio, perde a utopia…

  6. rodrigo Says:

    CaroFabio…..gostei do seu texto…..e vc sitou o Updike….gostaria de saber se vc, assim como eu, não acha harry coelho, simplesmente o maior personagem da literatura moderna ? para mim é como seele realemnte tivesse existido.
    E por falar em futebol….nunca fui um craque…mas sempre joguei minha bola….e atraves dela minha relação com meu pai era a melhor…a gente jogou bola junto por uns 9 anos…..grandes momentos.

    • Fabio Hernandez Says:

      é um personagem simplesmente extrarordinário, Rodrigo. se não o maior, um dos maiores personagens da literatura contemporânea …

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