Nesse nosso mundo onde tudo fenece e tudo perece


por Zéfiro

Uma mulher me esperava no restaurante. Ela sempre chegava um pouco antes; eu sempre um pouco depois. Fazia muito tempo que não a via, mas certos hábitos jamais se alteram. Vi que ela folheava um livro, acomodada numa mesa para dois. Ela sempre tinha um livro à mão para a hipótese de eu demorar mais que o razoável. O livro que ela lia naquele momento, vi depois, era uma pequena biografia de Marcel Proust sobre a qual eu escrevera numa revista.

Era Mariza.
Ela estava de volta à cidade por uns dias para visitar a mãe. Mariza, depois que rompemos, conheceu uma fazendeiro de Mato Grosso. Logo se casaram e ela mudou para lá para viver seu novo amor bucólico.

“Tudo bem?”, perguntei.
“Graças a Deus.”
Rimos e o gelo se quebrou. Era uma piada particular nossa. Mariza é atéia. Ela jamais acreditou em Deus. Num certo momento, deixou de acreditar também em mim. Foi aí que nosso romance começou a terminar. Reencontros com amores passados servem para mostrar muita coisa. Mostram, por exemplo, como uma intimidade construída em anos pode ser dissolver instantaneamente com o rompimento. Você trata com cerimônia constrangida alguém com quem, até pouco antes, tinha a mais absoluta liberdade. Só falta a gente dar continência ao outro.

“A melhor coisa que você fez por mim, em muito tempo, foi indicar na revista este livro”, ela disse. “Sou realmente muito grata a você.” Era a Mariza de sempre, irônica, às vezes ferina mesmo num banal agradecimento pela indicação de um livro.

“Uma frase”, ela continuou. “Tem uma frase neste livro que talvez seja a mais linda que eu já li. E a mais triste também.” Ela me passou o livro aberto numa determinada página. Nessa página, uma sentença estava sublinhada. Mariza costuma sublinhar as frases de que mais gosta nos livros que lê. Eu tentei muitas vezes fazer o mesmo, mas minha falta de método jamais me permitiu consolidar esse hábito. Me impressionei ao saber que Vargas Llosa faz uma ficha de cada livro que lê. Pensei em copiá-lo, mas meu lado caótico me impediu.

Li a frase sublinhada por Mariza. Ela tinha razão. É uma das frases mais tristes que alguém já escreveu. Proust disse: “Nesse nosso mundo onde tudo fenece, tudo perece, há uma coisa que se deteriora, que se desfaz em pó até de forma mais completa, deixando para trás ainda menos traços de si do que a beleza: a saber, a dor”.

A dor. A dor da perda de um amor. A gente imagina que vai morrer sem ele. Como dói aquela ausência. Como dói a perspectiva de nunca mais ter nos braços alguém que a gente imaginava ao nosso lado para sempre. Nunca mais. E no entanto quando aquela dor torturadora se vai, vencida enfim pelo correr dos longos dias, o que sentimos não é alívio, mas vazio e frustração. É como se pensássemos: o grande amor exige uma dor eterna, um luto no coração até o último dia. Só que a dor, como disse Proust, dura ainda menos que a beleza.

Devolvi o livro a Mariza e trocamos de assuntos. O resto do almoço foi, quase todo, alegre. Lembramos certas passagens de nosso romance como na cena final de um dos meus filmes preferidos, Annie Hall, de Woody Allen, e rimos. Lembramos, por exemplo, o dia em que entramos por acaso numa festa de firma num bar do Terraço Itália e acabamos comendo mais, bebendo mais e rindo mais do que qualquer pessoa naquele salão. Lembramos a madrugada bêbada numa boate em que uma dama da noite recomendou compostura a Mariza. Quando Mariza ameaçou entrar em lembranças menos amenas, e delas extrair uma raiva que o tempo foi incapaz de mitigar, entendi que era a hora de pedir a conta. Certas histórias, é melhor não desenterrá-las, escreveu Shakespeare. Concordo.

E então nos despedimos. Sem drama. Ela refizera sua vida e eu a minha. Ela voltava para Mato Grosso e eu para minha rotina de escritor barato. Um novo e promissor capítulo amoroso se instalara na vida de Mariza, e a verdade é que meu coração voltara a bater rápido, bem rápido, por uma mulher. Já não doía como doera nem nela nem em mim, mas ali compreendi com clareza que a morte da dor amorosa também pode, de uma forma estranha, doer.

9 Respostas to “Nesse nosso mundo onde tudo fenece e tudo perece”

  1. Marjorye Says:

    Homem Sincero amo seu bloger suas cronicas, historias, frase etc…entro todos os dias pra le-lo…és meu jornal diario da vida como ela é…no seu lado romantico, real e devastador!
    sou sua fã

  2. Emanuelle Says:

    Um novo e promissor capítulo amoroso se instalara na vida de Mariza, e a verdade é que meu coração voltara a bater rápido, bem rápido, por uma mulher”

    Eu sempre digo isso: se vc amou uma pessoa, pode passar anos, seu coração vai acelerar e as pernas vão tremer. Não importa o quanto tenha doído. Se foi amor, te desestabiliza.

  3. Natália Says:

    Humm, a Manu é romântica. Eu já sou mais do tipo ” a fila anda”. Bye- bye mesmo!

  4. Karina Says:

    já que estamos na fase dos remembers…
    meu comentário ao texto, numa publicação anterior. nada mudou.

    “(…) este post traz um dos temas mais incríveis dO Homem Sincero. Quando o li pela primeira vez escrevendo sobre isso, a dor que causa reconhecer o fim da dor, refleti um bocado. Acho que foi mais ou menos a mesma reflexão que me causou um texto em que compara o amor a latinhas de coca-cola, a inveja que causa um amor desmedido. Ligo uma ideia à outra e penso: quem amou desmedidamente a ponto de se matar por amor também teria, dali a um pouco, experimentado a dor de conseguir simplesmente esquecer aquele amor? Os amores trágicos se sustentam na tragédia de uma forma que não conseguiriam se colocados à prova da ação do tempo? Estou misturando as coisas, mas, enfim, o que quero dizer é que essa consciência do fim da dor sempre me volta. E acho que ela nos faz de certa forma desprendidos. Esse é o lado bom. E é também o lado ruim.”

    • Fabio Hernandez Says:

      pois é, Karina … tenho a sensação de que os que se matam por amor acabariam desistindo se esperassem passar a tempestade …

  5. Mária Says:

    Que texto lindo, quanta sensibilidade. Entrei aqui por acaso e adorei. Parabéns.

  6. Pê Sousa Says:

    FH, muitas foram as vezes que li esse texto, ainda na VIP. Tentei, em muitas ocasiões entender a magnitude da dor e sua excruciante mensagem de abandono e solidão. Nunca o consegui. Passei então, ao menos, a incorporar aos meus hábitos de leitor estabalhoado, sublinhar trechos e fazer fichas de cada livro lido, como vc mesmo o fez. Mas sou uma lástima ainda maior em matéria de habitualidade.

    Só me resta contemplar, mudo, estas suas palavras, magistralmente belas.

    • Fabio Hernandez Says:

      Pê, obrigado pelas palavras generosas. Quanto ao hábito de fichar os livros, sugiro que batalhe por ele. Como escreveu Aristóteles, a virtude está no hábito …

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: