Entre Nós


Uma aquarela de Monet

Uma passagem de um livro me comoveu. O livro se chama Entre Nós. São conversas de Philiip Roth com outros escritores. Roth, com sua exuberância estilística, com sua lubricidade refinada, com sua habilidade rara de ser profundo sem ser tedioso, é um dos meus escritores prediletos. O sexo governa sua obra. Seus personagens vivem e morrem pelo sexo. O sentido da vida, em Roth, é a cópula. (Uma vez escrevi um conto para a Playboy e o editor me solicitou, delicadamente, que trocasse a palavra cópula. Convenci-o a mantê-la com o argumento de que há alguma coisa de selvagem, primitivo em cópula.)

Antes que me esqueça. As conversas de Roth são uma formidável lição para quem faz entrevistas. O preparo dele (sabe tudo sobre a obra dos entrevistados), a agudeza das perguntas, a maneira como aproveita as respostas para seguir adiante. A maneira como demonstra sua admiração sem jamais ficar de joelhos e bajular. As escolas de jornalismo deveriam exigir que seus alunos lessem Entre Nós para aprender sobre a arte de entrevistar.

Mas a passagem de que falei. Ela vem de uma conversa de Roth com outro gênio, Isaac Bashevis Singer, de origem judaica sobre ele. São poucos os escritores tão exímios em contar histórias como Singer, já morto. Roth e Singer têm muito em comum além de serem judeus. Também o sexo governa o universo literário de Singer. Separa-os um Nobel, merecidamente conquistado por Singer e injustamente negado a Roth.

Você gosta de ler e quer recomendações? Compre o que puder desses dois, eu diria.

Singer nasceu na Polônia, onde a maior parte de sua obra é passada. De lá fugiu para os Estados Unidos antes que o nazismo fizesse estragos monstruosos. Conta com graça que, ao chegar à América, foi a uma festa em que imaginava que o idioma seria o iídiche. Ele não falava nada de inglês ainda. Mas. Mas só se conversou em inglês ali. A primeira palavra que ouviu e aprendeu, um tributo à frivolidade e à gula, foi “delicious”. Delicioso. O que se comia.

Roth pergunta a Singer, no trecho que me tocou, como ele conseguiu escrever de forma tão pungente sobre suas raízes depois de abandoná-las. Singer conta que logo que partiu a Polônia lhe parecia muito distante. Mas o tempo a trouxe para dentro dele. “Quando morre uma pessoa que é próxima a você, nas primeiras semanas depois da morte essa pessoa fica tão distante de você quanto é possível se estar; é só com o passar dos anos que ela se torna mais próxima, e aí chega um momento em que você está quase vivendo com ela. Foi o que aconteceu comigo. A Polônia, a vida judaica na Polônia, está mais próxima de mim agora do que estava naquela época.”

Esta a passagem que me impressionou.

Penso nas pessoas queridas que perdi, nos amigos a amores tragados no correr dos longos dias, e vejo o quanto – muito — que sobrevive deles no universo que existe dentro de mim

8 Respostas to “Entre Nós”

  1. Emanuelle Says:

    Amores não dormem.
    Eu acredito que eles adormecem. Só.
    Tem aqueles que nos arrancam muitos suspiros com uma simples lembrança, depois de muito tempo.

  2. Graça Says:

    Fabio, hoje preciso ir por partes:

    Vc me conquista quando coloca quadros impressionistas. Como AMO o impressionismo e Monet, um dos meus preferidos.

    Nunca fui muito chegada na palavra copula. Aprendi a aprecia-la atraves das suas palavras e hoje, tambem acho que existe algo de selvagem nela e isso me agrada.

    Por ultimo, como foram verdadeiras as palavras sobre pessoas que perdemos! Com o tempo as lembranças se tornam mais vividas e delineadas, como se essas pessoas convivessem conosco em um outro espaço-tempo.

    Seu texto me emocionou…

  3. Daniel Chicote Says:

    Somos feitos e moldados por pessoas, não adianta. É claro que temos nosso jeito de ser, mas isso que você disse “que sobrevive deles no universo que existe dentro de mim”, é totalmente verdadeiro.

    Somos uma soma de experiências de tudo o que passamos.

    A única vida real é a que vivemos agora, certo? Mas o que não cala é que o passado nem sempre reconhece o seu lugar, ele está sempre presente. Por isso que é tão importante termos apenas as coisas boas guardadas na mente …

    Eu tenho hoje, jeitos, manias e atitudes, e até pensamentos … que se adequaram em mim, pelas pessoas que passaram pela minha vida. Amigos … e amores … e mais amigos, porque no final, são eles que nos colocam para cima, e nos dão uns tapas na cara para acordarmos e seguirmos em frente.

    Aos amigos – verdadeiros – que foram e que ainda estão aqui … o meu obrigado!

  4. Petite Poupée Says:

    Gostei das indicações!

    Ah…o distanciamento…tão fundamental

  5. Alice Barros Says:

    Lindíssimo o texto, FH! E esse trecho é realmente emocionante. Engraçado que escrevi algo sobre a saudade que tenho da minha vó e em determinado trecho digo que sinto ela muito presente.
    É uma sensação incrivelmente encantadora. A dor inicial da perda e da saudade se transforma em um carinho e uma lembrança extremamente doce…
    Muito emocionada com o texto!

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