O Primeiro Amor


Tio Fábio, Deus o tenha, foi um homem sábio do interior. Uma vez ele me viu aflito com uma pilha caótica de livros que eu tinha na cabeceira. Tanta coisa para ler, tão pouco tempo: esse é o motivo da minha aflição, expliquei a tio Fábio. Na próxima vez que o encontrei ele me passou uma citação de Sêneca, o grande filósofo romano de quase 2000 anos atrás. Tenho-a até hoje. “Uma profusão de leitura sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra. É melhor se aplicar num pequeno número de autores do que vagar no meio de muitos.” (Adiante, conforme me contou tio Fábio, Sêneca quase louvou o célebre incêndio da biblioteca de Alexandria, considerado pela visão convencional como um dos maiores desastres culturais da humanidade. Sêneca qualificou a biblioteca queimada como um exemplo de “orgia de literatura”. Tio Fábio gostava de Sêneca porque admirava gente que pensa diferente. Herdei essa admiração. Uma das razões pelas quais falo tanto de tio Fábio é que ele pensa diferente.)

Agora confesso que esqueci por que falei em Sêneca e no esforço inútil despendido em letras inúteis. Ah, lembrei. É que no esforço de seguir o romano genial eu passei a me concentrar em alguns autores, não numa infinidade. E tirei de minha vista a montanha de livros que me trazia tanta ansiedade. Entre as minhas poucas e boas constantes leituras estão dois escritores “espirituais”. Um deles é o monge católico Thomas Merton, já morto. O outro é o monge zen Thich Nhat Hanh, um vietnamita que ergueu uma comunidade budista num lugar retirado na França.

Citei ambos porque, em livros que escreveram, eles trataram de um assunto que é único, vital, indelevelmente marcante na vida de um homem: o primeiro amor. É quando descobrimos que não somos mais crianças. É quando descobrimos que existem outros prazeres além da bola de futebol ou do videogame. E é quando descobrimos também o quanto a alegria está conectada com a tristeza. O quanto a euforia está próxima da angústia. Um telefone que toca com a voz de quem você deseja ouvir. É então o êxtase. Um telefone que teima em ficar cruelmente silencioso. Você é um antes do primeiro amor. E outro depois. Os beijos. O adeus. (E então me ocorre aquela linda canção chamada Crying Game, que deu nome ao filme com o mesmo nome. “First there are kisses/ Then there are sighs/ And then before you know where you are/ You’re saying goodbye”. Primeiro os beijos, depois os suspiros, e antes que você saiba onde está, já está dizendo adeus, mais ou menos isso numa tradução livre. A gravação de Crying Game por Boy George é estupenda.

Merton, em sua autobiografia, nota algo que eu nunca tinha pensado. Somos tão jovens, tão frágeis, quando aparece pela primeira vez em nossa vida aquela onda avassaladora, o primeiro amor. Tanto impacto e somos tão indefesos. Merton se apaixonou antes de virar monge. Thich Nhat Hanh, num pequeno livro chamado Cultivando a Mente de Amor, confessa a paixão que o tomou quando, jovem monge, conheceu uma monja. Ele diz que decidiu falar desse amor para ajudar os outros monges que por acaso enfrentem a mesma situação. Transcrevo um texto que Thich Nhat Hanh fala do objeto de seu amor: “O comportamento dela como monja era perfeito – a forma de se mover, de olhar, de falar. Ela era tranqüila. Jamais dizia alguma coisa, a menos que lhe perguntassem”. (Eis, segundo meu amigo Thunder, que recentemente adotou uma barba hemingwayana, a fórmula da mulher perfeita. A que só fala quando lhe pedem para falar. Thunder é um cínico amoroso.) Mais adiante o monge budista compara seu amor a uma tempestade pela qual ela e ele tinham sido apanhados sem saber como. E também sem saber como escapar.

Ele aconselha a gente a pensar, tempos depois, no primeiro amor. Vamos notar coisas que não percebemos na ocasião. É o que faço agora. Deus, que tempestade. O vestido verde e a blusinha amarela da festa em que começamos a namorar. Os cabelos negros, a tez morena, os olhos verdes. A menina mais bonita da cidade. Afastei-a de mim porque não suportava me sentir tão pequeno. Quanto tempo demorei para entender meu comportamento destrutivo. A tempestade do primeiro amor. Fui apanhado por ela, e poderia ter me deixado levar por suas águas copiosas e deslumbrantes, mas não tive força para fazer outra coisa que não fosse fugir. Fugi de tudo. Até de mim mesmo.

19 Respostas to “O Primeiro Amor”

  1. Maria Augusta Says:

    Do post de hoje ficarei com a primeira citação e ensinamentos do tio Fábio: concentraçao em poucos autores a exemplo do que diria Sêneca “Uma profusão de leitura sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra. É melhor se aplicar num pequeno número de autores do que vagar no meio de muitos”. Sobre o primeiro amor, vou seguir a tua sugestão e me calar.

  2. Gustavo Jaime Says:

    Fabio, tu és um dos poucos autores que fazem parte do meu acervo. O mais importante, segundo dizia Nelson Rodrigues, não era ler – mas reler. Sou grande adepto desta doutrina e mais: aprendi contigo e com outros importantes que sou fiel a “olhar de modo diferente” a obra e a vida.

  3. Pê Sousa Says:

    FH, uma pergunta: existe possibilidade de ser eterno o primeiro amor, ou é apenas uma experiência fugaz, que serve para nos levar a instantes fugidios de saudade?

    • Fabio Hernandez Says:

      não é eterno, e por isso mesmo é que é tão pungente, Pê … se fosse eterno mofaria, acabado se eterniza, paradoxalmente …

  4. Karina Says:

    “(…)
    Como para acercarla mi mirada la busca.
    Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

    La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
    Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

    Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
    Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

    De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
    Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

    Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
    Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

    Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
    Mi alma no se contenta con haberla perdido.

    Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
    y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.”
    Pablo Neruda

    sobre o amor dos meninos, já falei aqui. é das coisas mais… tocantes que há.

  5. Daniel Granja Says:

    Como sempre, induzindo o resgate de sentimentos que insistem em cair no esquecimento…

  6. Alice Barros Says:

    Ahhh… Lembrar do primeiro amor sempre nos traz boas recordações, né? A gente sempre pensa que será único e eterno até que essa boa fase passa e nos ficam as lembranças doces da descoberta desse sentimento tão forte!
    Amei o texto, poderia ficar horas descrevendo todas as boas lembranças que tenho… Mas eu só eu as entenderia e daria o devido valor que elas tem.

  7. Emanuelle Says:

    Fábio, uma coisa que sempre quis saber, mas só agora me ocorreu perguntar: vc é Fábio Sobrinho? Ou sua admiração pelo tio e o nome não tem nada a ver?

    • Fabio Hernandez Says:

      Fabio Hernandez II, na verdade, Manu.

      • Emanuelle Says:

        E sobre seu primeiro amor… Ela deve ter sentido muito com o pé que ela levou. Mas vc foi sábio. Isso tbm eternizou vc na memória dela. E daqui 50 anos ela se lembrará de vc. E as pernas vão tremer. Te garanto!

  8. Obstinação Says:

    Adorei o texto, tomei a liberdade de colocar em meu blog a transcrição do texto do livro de Thich Nhat Hanh no meu blog, com seus créditos.

    Você comenta sobre este monge que se apaixona. E no meu caso, foi eu que me apaixonei por um monge.

  9. Obstinação Says:

    Oi Fábio! Difícil responder a tua pergunta, pois há diferentes conceitos sobre conhecer biblicamente alguém. Eu conheço o intelecto e os valores que ele carrega e tenho imenso fascinio de como ele se comunica com os olhos. Ele é um monge budista, fala pouco e diz demais. Vejo nele a imagem do homem perfeito, assim como o teu primeiro amor deve ter de você rsrsrs.
    Abraços.

  10. Obstinação Says:

    Oi Fábio,
    desculpe a minha imcompreensão, mas é que conhecer biblicamente, em algumas igrejas, se refere apenas em conviver com a pessoa e conhece-la por dentro.
    Não, nunca forniquei e nunca revelei o que sinto por ele, pois respeito a decisão e os votos do monge. É um amor platônico.

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