Salvador, Bahia


Por Carybé

Eduardo e Gabriela caminhavam de mãos dadas na areia branca e morna de Itapuã. Tinham acabado de jantar e dançar num restaurante à beira-mar. Eduardo amara a voracidade divertida com que Gabriela comera um caranguejo cozido. “É um prato lúdico”, dissera ela, um pequeno martelo na mão esquerda e um pedaço de carne branca no canto direito da boca. “Você come e se diverte quebrando a casca”. Era um começo de madrugada de verão, e havia àquela hora ainda quente e abafada poucas pessoas na imensidão esbranquiçada da praia. O imobilismo pétreo das folhas dos coqueiros que recortavam a praia era a perfeita ilustração do calor tórrido. Até a luz do céu enegrecido de Salvador parecia suar. “Salvador é perfeita”, disse Eduardo. “Só falta um aparelho de ar condicionado.”

Eduardo era editor de esportes do jornal A Tarde, de Salvador. Lembrava índio de filme americano moderno: cabelos pretos escorridos, olhos puxados, pele escura. O sotaque baiano abrandara-se depois que quatro anos na sucursal de São Paulo do jornal, mas ainda se percebia a procedência de Eduardo antes do final da primeira frase. A essência do sotaque acompanha o baiano do berço ao jazigo. Eduardo vestia bermuda azul, camiseta branca e um Nike branco e vermelho já quase destruído por três anos de uso em quadras de tênis, mas cada vez mais confortável na decrepitude. Tinha um certo ar rebelde, reforçado pela barba baixa, um corte que era menor que o 1 e maior que o zero. Quem via percebia imediatamente que ali estava um homem que jamais votaria na turma de ACM. Um homem que ouvia Caymmi e Caetano e alguma música da nova era, mas não Sinatra e provavelmente não a axé music.

Eduardo gostava da imagem que transmitia, um cara moderno, cético o bastante para contestar verbalmente, o “sistema” mas não tolo o suficiente para levar essa contestação à prática. Tinha que pagar contas e sabia que teria dificuldades em fazê-lo se mandriasse pelo Pelourinho na companhia de pretensos gênios e comprovados desocupados.

Gabriela riu com algum exagero do comentário sobre a necessidade de ar condicionado. Quase gargalhou. E não perdeu a graça. Um grande escritor disse certa vez que conheceu na vida quatro mulheres capazes de gargalhar sem perda de beleza. Gabriela seria a quinta se ele a tivesse conhecido. Ela era repórter especial da Folha de S. Paulo e chegara dias antes a Salvador para cobrir um campeonato internacional de vôlei de praia. O sol de Salvador clareara ainda mais os cabelos já claros e longos de Gabriela. Quase lhes devolvera a loirice da infância. Gabriela tinha 48 quilos, adequados para o seu metro e 63. Mas já tivera 56 quilos. Para não voltar aos dias de gorducha, pusera uma balança eletrônica em seu banheiro na qual se pesava toda manhã depois do banho. Quando passava dos 52, acionava uma dieta intuitiva mas eficaz da qual estavam banidos doces, pães e massas.

Gabriela sabia como agradar a um homem. Ela parecia tratar cada homem com quem falava como se fosse o único. Esse era seu maior e mais duradouro encanto. Nunca ninguém fizera antes Eduardo sentir-se tão espirituoso. Gabriela olhava direto nos olhos, ria intuitivamente mesmo das piadas que não entendia, parecia sempre interessada na conversa. E tinha o que se poderia definir como um certo ar sexual permanente. Você punha os olhos nela e imediatamente tinha pensamentos sexuais. Gabriela parecia sexual num velório, num corredor de hospital ou numa cadeira de dentista. “Você me lembrou de Havana. Estive lá há três anos”, disse ela. “Havana também é perfeita. Perfeita como cenário. Falta apenas uma mão de tinta.”

De repente ela se desvencilhou da mão de Eduardo. Correu alguns metros, estacou perto do mar e deitou-se de costas na areia. O vestido de verão de um amarelo quase que transparente, comprado de uma negra de 120 quilos na Praia do Forte, pareceu a Eduardo indescritivelmente belo sob o fundo de areia. Naquele instante ele daria tudo para que os relógios nunca mais se movimentassem e Gabriela se eternizasse deitada ali na imensidão branca e quente de Itapuã. Quando Eduardo a alcançou, ela já retirara a calcinha e a abanava com a mão esquerda como um leque e também como um troféu. Era uma calcinha branca. Gabriela só usava calcinha branca. Ela ordenou: “Vem. E se alguém chegar, não pára.”

Eduardo foi.

Quarenta minutos depois, os dois estavam a caminho do hotel em que Gabriela se hospedara no Palio vermelho de Eduardo quando soou o celular dela. “Desculpe”, disse Gabriela a Eduardo enquanto baixava o volume do toca-cds. Tocava pela segunda vez seguida Don’t Look Back in Anger, do Oasis. Era um cd que Gabriela mesmo gravara. Ela gravava as músicas de que gostava duas ou três vezes seguidas para não ter que ficar voltando o cd. Naqueles dias em Salvador, ela estava apaixonada pelo Oasis. Quando comparavam o Oásis aos Beatles, Gabriela se indignava. Achava o Oasis muito melhor. Perto deles, dizia, os Beatles faziam música de elevador. A descoberta do Oásis amortecera a tristeza que sentira com o disparo na boca que liquidara Kurt Cobain e o Nirvana. “O rock morreu”, pensara. Chorara no dia em que Kurt Cobain se matou e só dormira depois de tomar dois comprimidos de Lorax e mais um de Dormonid.

“Alô…Ah, é você. Que bom te ouvir. Saudade. Quê? Olha, a ligação está um horror. Vou jogar fora este celular. Bom, estou indo para o hotel e ligo em quinze minutos, tudo bem? Te amo.”

Gabriela encerrou a ligação, aumentou outra vez o volume do toca-cds e virou-se para Eduardo.

“Era o Arizinho”

Ocorreu a Eduardo na hora que nenhuma mulher respeita um marido a quem trata no diminutivo.

Ela mal guardara o celular na bolsa do couro cru também comprada de uma baiana na praia quando o sinal de chamada outra vez soou. O ritual foi mais uma vez seguido por inteiro, desde o polido pedido de desculpa a Eduardo até a diminuição do som. (Agora tocava Where Did You Sleep Last Night, cantada por Kurt Cobain no acústico do Nirvana na MTV em Nova York, entre outras músicas de todos os gêneros e de todos os tempos a predileta de Gabriela. Aquela voz lúgubre, aquela história de tormento, ciúme e suspeita, tudo isso eram provas, pensava ela, de que Deus e o diabo existem.)

“Alô…Ah, é você. Que bom te ouvir. Saudade. Quê? Olha, a ligação está um horror. Vou jogar fora este celular. Bom, estou indo para o hotel e ligo em quinze minutos, tudo bem? Te amo.”

Guardando o telefone, ela virou-se para Eduardo.

“Era o Fabinho”.

Ocorreu outra vez a Eduardo a reflexão sobre o uso de diminutivos, agora ligada não maridos mas namorados.

“Eles estão preocupados comigo. Quer dizer, conosco. Comigo e com o bebê. Grávida. Seis semanas. Não me pergunte de quem, está bom? Alguns dias…Bem, muitos dias saí de uns braços para cair em outros. Aprendi o essencial: não dizer o nome de nenhum na cama. Assim você não erra. Espero que você não seja moralista”.

“Fui coroinha na infância e embebedei alguns padres, mas acho que já passei essa fase”

Eduardo refletiu que era a primeira vez que copulava com uma mulher grávida de outro homem. E outro homem que ela não sabia exatamente qual fosse. Ele jamais imaginara que pudesse haver algo de erótico nessa idéia, mas havia. Antes que pudesse sequer refletir sobre o assunto, estava perturbado. Automaticamente apanhou a mão dela, que estava em sua coxa direita, e levou-a para o ponto certo. Virou-se rapidamente para ela.

“Posso pedir duas coisas?”

“Duas. Dez. Quantas você quiser. Quero que você faça de mim o que quiser. Você é meu senhor.”

“Duas só. A primeira: vamos desligar seu celular. Como você repetiu duas vezes agora há pouco, seu celular não funciona mesmo. A segunda: nunca me chame de Eduardinho.”

“Então fica Dudo. Tudo bem?”

Ninguém o chamava de Dudo. Edu, Dudu, Duda, sim, mas Dudo não.

“Tudo bem. Claro, tudo bem. Pode tudo. Só não pode Eduardinho.”

Instantes depois estavam deitados no quarto de Gabriela. Uma mulata pintada por Irakitan parecia fitá-los com agrado na parede, como se quisesse reunir-se aos dois. “Irakitan é o artista mais invejado de Salvador”, disse Eduardo a Gabriela. “Ele teve um caso com a Jacqueline Bisset quando ela era a mulher mais bonita do mundo. É o que dizem, pelo menos”. Eduardo passeava os dedos longos pela pequena borboleta tatuada na virilha direita de Gabriela enquanto ela discava para São Paulo. Depois levou-os à argola que ela fazia no mamilo esquerdo. “Foi uma amiga que me sugeriu isso”, ela explicara para Eduardo. “Ela me disse que uma argola no seio deixa a mulher excitada o tempo inteiro.” Eduardo olhou com um misto de ternura e desejo para aquela barriga ainda discreta na qual medrava uma nova vida sabia-se lá por obra de qual homem. Quando atenderam ao chamado, Gabriela pôs o indicador sobre os lábios que sorriam para pedir silêncio a Eduardo.

“Arizinho?”

“Gabi?”

“Agora sim dá para ouvir. Vou jogar fora o celular que você me deu.”

“Gabi?”

“Oi…”

“Vou morrer, Gabi. Vou morrer se você demorar aí. Vocês: você e o nosso filhinho.”

“Seria tão romântico. Acho que todos os meus namorados disseram que iam morrer sem mim. Mas nenhum cumpriu a profecia. Ficaram até mais gordos. Tristeza de amor dá fome.”

“Gabi?”

“Oi…”

“Não estou conseguindo nem trabalhar. Não consegui escrever uma só linha para a nova campanha da Brahma. Uma única idéia era tudo que eu queria. Sabe uma gaveta vazia? É mais ou menos o que eu virei. O criador que menos cria na publicidade de São Paulo.”

“E que mais prêmios ganha…”

“E sabe que não crio nada? Porque falta você. Você é a minha platéia. Você é minha única platéia. Quero que se dane o público, quero que se danem aqueles diretores de marketing. Você é a platéia.”

Eduardo olhou-o impaciente. Apontou para o Timex Ironman que tinha no pulso. Ela topou o bocal do telefone e disse baixo para Eduardo: “Todo publicitário fala muito. E toda mulher de publicitário acaba virando uma espécie de terapeuta. Calminha.”

“Gabi?”

“Oi…”

“Ninguém mais ri das minhas piadas na agência.”

“Calma, Arizinho. Ninguém é engraçado o tempo todo. Nem o Jim Carrey. O último filme dele é um lixo. Você mesmo disse.”

“Gabi”

“Oi…”

” Onde você dormiu ontem? Liguei para o seu quarto às 4 da manhã e ninguém atendeu.”

Ela repetiu a pergunta para ganhar tempo.

“Onde eu dormi ontem? Eu?”

Eduardo rapidamente socorreu-a Escreveu num papel: insônia. Sala de ginástica. Tinha letra boa, redonda. Letra de normalista.

“Tive insônia durante a noite. Fui para a sala de ginástica.”

“Gabi?”

“Oi…”

“Fiquei desesperado.”

“Bobinho…”

“Gabi?”

“Oi…”

“Te amo.”

“Tchau.”

Gabriela nem chegou a colocar o aparelho no gancho. Encerrou a ligação como indicador direito e prontamente iniciou outra. Entre uma e outra pediu paciência a Eduardo.

“Fabinho? Sou eu. Agora dá para ouvir. O celular é um horror.”

“Gabi? Não agüento mais. Vou embarcar amanhã de manhã para aí. Se eu não conseguir uns dias de folga na corretora, me demito.”

Fábio era um jovem e promissor corretor de valores que Gabriela conhecera ao fazer uma reportagem sobre talentos emergentes no mundo das finanças. Tirava meio milhão de reais por ano em comissões. Fábio queria desesperadamente que Gabriela deixasse o marido e se juntasse a ele. Ela lhe pedia tempo. Quando soube da gravidez, ele disse ter certeza de que era o pai. E mais uma vez fez pressão para que Gabriela abandonasse Ari. Gabriela disse que discutiriam melhor quando voltasse de Salvador.

A possibilidade de que Fábio fosse para Salvador a incomodou. Estava tendo bons momentos com Eduardo e não gostaria de interrompê-los.

“O quê? Você se demite? Você está louco? Vai jogar pela janela meio milhão de reais por ano?”

“Por você jogo 2 milhões.”“Não precisa. Já estou voltando. O campeonato termina daqui a três dias.”

“E ele, como vai?”

“Ahn…ele?”

“Ele, o nosso bebê.”

“Ah, claro. Ótimo.”

“Ontem quase fiquei louco. Liguei de madrugada e ninguém atendeu no seu quarto. Imaginei as piores coisas.”

“Por que será que as pessoas imaginam sempre a piores coisas, Fabinho?”

No exato momento em que formulou essa pergunta, a paciência de Eduardo se esgotou. Ele começou a entrar nela com rigidez desesperada e urgente.

“Eu tive insônia. Fui fazer exercício na sala de ginástica do hotel. Ligo amanhã. Te amo, Fabinho.”

A declaração de amor foi penosa, feita aos arrancos.
“Você está…você está gemendo, Gabi?”

“Estou…estou me agradando. Quando…quando penso em você, não resisto.”

“Te amo, Gabi.”

“Tchau.”


por Carybé

Parte 2

Gabriela conhecera Eduardo no campeonato mundial de vôlei de praia, que ambos cobriam para seus jornais. Estavam os dois entre os jornalistas que entrevistavam Jaq, a estrela do campeonato. Eduardo perdera sua bic. Pediu uma caneta emprestada à primeira jornalista que viu ali naquele grupo. Era Gabriela. Assim que viu Eduardo, ela como que voltou no tempo. Ele lhe lembrava sua primeira paixão, Pedro: pele escura, cabelos pretos e lisos em enorme quantidade, olhos pretos que pareciam tristonhos, um jeito quase infantil de sorrir. Com Pedro ela desenvolveu a fantasia da dominação. O homem pode tudo. A mulher pode apenas se esforçar para satisfazer as vontades dele. Chamava-o na cama de “senhor”, “mestre”. Muitas vezes ele testou-a. Queria ver até onde ia a fantasia. Gabriela jamais recuou. Pedro definiu Gabriela sexualmente. Fez dela uma mulher libertária, sem preconceitos, disposta a tudo na busca libidinosa do prazer.

Eduardo apanhou a caneta que Gabriela lhe estendeu no torneio de vôlei e riu na mesma hora. Era uma caneta azul-clara em cuja parte de cima estava sentado um roqueiro com uma guitarra vermelha. Mais tarde ela lhe contaria que ganhara a caneta de um colecionador de canetas baratas e extravagantes, Daggy Boy. Eduardo reparou que ela o olhava com fixidez. Convite? Talvez. De qualquer forma, ele gostou do que viu: pele clara de quem usa protetor acima de 20 para evitar rugas, cabelos longos e claros, vestido negro colado. Estavam ambos nas acomodações destinadas à imprensa na arquibancada montada na praia. Era o terceiro e decisivo set.

“Sabe o que eu acho?”, disse ele do lado dela.

Ela virou o rosto.

“Acho vôlei de praia o esporte mais chato do mundo. É pior que o vôlei normal. Se é possível.”

“Sabe o que eu acho?”, disse ela. “Que você tem razão. Vôlei de praia só não é mais chato que vôlei normal porque nada é mais chato que vôlei normal. Qualquer dia vou sugerir ao nosso colunista de vôlei que escreva uma coluna com a seguinte sugestão: o jogo já começa 2 sets a 2. E só se joga então o set decisivo.”

“Seria o cúmulo do antiprofissionalismo eu convidar você para dar o fora daqui em pleno jogo. E no set decisivo de uma partida que vai definir as duplas finalistas. A Folha investiu dinheiro para você estar aqui. Meu chefe também confia na minha boa cobertura. Seria simplesmente absurdo convidar você para ir até uma daquelas praias da Linha Verde em que a civilização ainda não colocou as garras. Um absurdo.”

Ela sorriu para ele. “Realmente. Um horror. Antiprofissional. Antiético até. Me sentiria uma larápia agindo assim.”

E puxou-o pelo braço para longe dali no seu passo rápido, que ele tinha alguma dificuldade em acompanhar.

“Por que as mulheres paulistanas andam tão rápido?”, perguntou ele enquanto se esforçava para ficar do seu lado.

“Sei lá. No meu caso, é para chegar mais depressa ao topo.”

Havia desde o princípio, entre eles, um sentimento de urgência. Aquilo tinha hora para terminar. Os romances acabam sem data definida. Acabam simplesmente quando têm que acabar. Mas o deles tinha dia e hora para chegar ao fim. E tinha até um cenário: o Aeroporto 2 de Julho. A urgência os fez parar o carro de Eduardo antes de chegarem perto da primeira praia da Linha Verde para fazer sexo.

“Pensei que já tivesse deixado para trás essa fase”, disse ele depois das acrobacias no carro. “Nem me lembro mais da última vez em que usei o carro para isso.”

“Eu lembro. As pessoas não acreditam, mas lembro de cada vez. E não foram poucas. Carro é erótico. Viril. Aquela história toda de potência. Mil cavalos. Dois mil. É tudo muito excitante.”

A urgência os fez íntimos em cinco minutos de conversa. Ela sabia o essencial sobre ele. Que era casado pela segunda vez com uma arquiteta portuguesa cinco anos mais velha. Que tivera dois filhos de um primeiro casamento. Que ia fazer 40 anos no mês seguinte e estava apavorado. Que tocara guitarra num conjunto de rock na adolescência. Que sonhara na juventude escrever romances e terminara escrevendo sobre jogos de futebol. Pior ainda, reescrevendo textos alheio. “Saber o que restou desse meu sonho? Uma estante imaginária cheia de romances escritos por mim.”

E ele sabia também o essencial dela. Que tentara se matar tomando comprimidos de sua mãe hipocondríaca na noite em que soubera que Pedro morrera num acidente com sua moto. “Não ter conseguido me matar é minha maior frustração”, disse ela. “Teria sido tão lindo, tão poético. Morrer de amor é algo que pode acontecer a você apenas uma vez na vida. Depois ninguém mais merece que você se mate.” Ele soube também das fantasia sexuais que Gabriela desenvolvera com Pedro. E soube que ela, como ele outrora, também planejava escrever romances. Já estava, na verdade, escrevendo um. Nele o protagonista se chamava Pedro, mas não morria. Não morria nunca. Eterno Pedro. “Quando as coisas dão errado na vida, sempre resta a ficção, não é?” Ele disse a ela que esperava que o romance sobre Pedro não fosse parar também numa estante imaginária. E entendeu que nada nem ninguém jamais conseguiria prender aquela mulher que era a quintessência da liberdade. E entendeu também que sua vida se tornaria insuportavelmente enfadonha depois que ela partisse. O que achava realmente estranho era que tivesse podido viver quarenta anos sem Gabriela.

por Carybé

Parte 3


Era a última noite. Acabara o campeonato à tarde e Gabriela viajaria na manhã seguinte para São Paulo. Estavam jantando sarapatel no Tempero da Dadá, no Pelourinho. Ela se encantou ao ver um fogão no meio do restaurante.

“Na semana passada vim aqui e o Caetano estava sentado naquela mesa”, Eduardo disse.

“Adoro o Caetano”, ela disse. “Mas não a ponto de ouvir uma música inteira dele.”

“Eu gostava muito do Caetano. Agora nem tanto. Você viu aquela reportagem com ele na Caras?”, ele perguntou.

“Vi. Vi e ri. Achei o máximo saber que ele tem um relógio Bulgari. Hoje ele é um homem de grife. Mas é simplesmente ridículo patrulhá-lo por ter aparecido na Caras.”

“Você reparou?”, Eduardo disse. “Ele está cada vez mais parecido fisicamente com o Fernando Henrique. Mesmos paletós finos, mesmas camisas finas, mesmo pé na cozinha.”

Eduardo riu. “É batata. Todo paulista é racista. Paulista só gosta de paulista.”

“Imagina. Amo pele escura. Acho o Michael Jordan um deus. O homem mais bonito do mundo. Dá de dez em qualquer ator da Globo ou de Hollywood.”

Gabriela fez uma cesta imaginária e graciosa com as mãos. Ela estava de jeans e camiseta branca. Tinha prendido os cabelos num rabo-de-cavalo e parecia uma estudante diante de um dos primeiros encontros. Ele usava jeans e uma camiseta pólo vermelha. Ele tirou da calça um envelope e passou-o a ela.

“É um poema. Não precisa ler. Só peço para não arremessar no lixo, pelo menos na minha frente.”

Ela olhou-o com surpresa.

“O que você está estranhando? Você imaginou mesmo que poderia conhecer um baiano sem ter que enfrentar um poema? O que eu posso dizer para aliviar sua preocupação é que ele é curto.”

Ela leu-o uma, duas vezes. Repetiu a última frase. Ela. Sempre ela. Sempre dela. Ela. A beleza miserável da quimera.

Era um poema ridículo, mas ela o achou lindo.

“Não sei se estou chorando ou se está chovendo em Salvador”, ela disse.

Ela olhou de novo para o papel.

“Quimera. É a palavra mais linda do português. Gozado. Um dia eu usei quimera num texto e meu editor disse que ninguém sabe o que é. Ele riscou a palavra. Editores servem para isso. Riscar palavras.”

Ele concordou. “É, pensando bem, é isso que eu faço. Riscar palavras dos outros.”

Eles saíram do restaurante e foram andar de mãos dadas pelo Pelourinho. Era mais uma noite quente e abafada. Gabriela lembrou-se do comentário de Eduardo sobre a falta de ar condicionado nas ruas de Salvador. Um sentimento de melancolia parecia ir dominando-o.

“Sabe o que eu acabei de pensar?”, ela disse. “Nós não temos nem uma foto nossa. Amanhã você vai esquecer como eu era. Não vai lembrar nem se eu era loira ou morena.”

“Mas o cheiro… Deus, posso ter 80 anos e nunca vou esquecer seu cheiro. Seu … seu cheiro de femea, como aquele bobo chamado Fabio Hernandez escreveu uma vez.”

Ele levou por reflexo o indicador às narinas, fechou os olhos e inspirou com vagar apaixonado. Quando estavam na cama ele sempre deixava o dedo médio direito dentro dela por instantes. Depois, enquanto a penetrava, sorvia o cheiro em demorados haustos, e era como subir ao céu.

“Engraçado”, ele disse. “Eu detesto vôlei de praia, mas não queria que aquele campeonato acabasse nunca. Sabe que contagem eu fazia? Nós ainda temos quatro jogos. Agora três. E então não havia mais nenhum jogo.”

“Por que o jogo sempre termina””

“Talvez fosse um tédio insuportável se ele não terminasse”, ele disse. “Talvez um jogo só possa ser bom exatamente porque ele acaba.”

Ele a levou em seu carro

para o hotel, mas não subiu. O porteiro do hotel apressou-se em abrir a porta do carro, mas ela o dispensou. Queria algum tempo mais.

“A gente entra numa histórias dessas pensando que só vai ser divertido e no fim…”, disse ela.

“E no fim se diverte mesmo, não é? Olha como estamos felizes.”

“Sabe . Eu estive pensando. Se for menino, vai se chamar Eduardo. Dudo. Meu pequeno Dudo.”

“O menino não merece esse castigo. É inocente. O nome é horrível. Nunca perdoei meus pais.”

“E se for menina vai ser Eduarda. Maria Eduarda. Duda.”

“Vou dizer uma coisa que você vai achar ridícula. Queria que esse filho fosse meu.”

“De certa forma é.”

“E que você também fosse minha.”

Ela abriu a porta. Antes de sair, virou-se para ele. “A gente…será que a gente volta a se ver?”

Ele não soube o que dizer. Pensou numas palavras que lera num pequeno quadro. Certas pessoas. Certas pessoas passam pela nossa vida por um breve momento, mas tem um impacto tao grande sobre nós que depois delas nunca mais somos os mesmos, e vemos o céu e a lua de uma forma diferente. Quase disse isso a ela, mas desistiu. Ficou apenas parado, em silêncio, vendo-a afastar-se em direção ao elevador no seu passo rápido de paulistana.

18 Respostas to “Salvador, Bahia”

  1. Daniel Chicote Says:

    Fabio, bela historia.
    Estou em um onibus a caminho de Campinas, para visitar meus pais e tambem ir para o evento que tenho hoje a tarde.
    Não vou conseguir responder como devo a mais esse belo conto, se é que isso é um conto, porque so estou com o Blackberry.
    Mas te digo, esses acontecimentos nos fazem pensar que sempre desejamos mesmo casos intensos de amor e paixao selvagem, porque eles nos remetem a vida.
    Neles voce tem a certeza de que esta vivo e não suspenso em eterna inanicao. — Seria essa a palavra? Vc como meu editor a pode riscar! ;o) —
    Cordiales Saludos y un Abrazo!

  2. Emanuelle Says:

    Dica: posts longos deveriam vir dividos.. expectativa + praticidade.

    Mas concordo com Daniel. Quero uma história assim.

    Ou será que eu tenho?

    • Fabio Hernandez Says:

      Manu, minha tia Lilita sempre me disse que ninguém deve dividir o que pode ser entregue inteiro.

  3. Emanuelle Says:

    Fábio… sua tia lilita com certeza não viveu a boa ansiedade de sempre esperar o melhor, que, pra mim, sempre está por vir!

    • Fabio Hernandez Says:

      uma santa minha Tia Lilita, Manu.
      uma verdadeira santa.

      • Emanuelle Says:

        Fábio, todas as mulheres de sua vida são santas.
        A não ser aquelas que te pisaram, como vc já descreveu em posts anteriores…

        As mulheres da sua família são humanas, hein???

      • Fabio Hernandez Says:

        minha mãe e minha tia Lilita? Santas, Emanuelle.

  4. Alice Barros Says:

    Amei, amei, amei… A narrativa mto envolvente e a história incrível! Engraçado como nos parece estranho uma mulher como Gabriela, que tem quantos homens quer. Mas gostei de ler isso e perceber que existem algumas gabrielas espalhadas por aí!

  5. Petite Poupée Says:

    Legal! Uma trilogia ao melhor sabor Pasolini, mas com seu estilo Fábio: erótico sem deixar de ser complexo, polêmico e provocador sem deixar de ser romântico. Uma musa existencial, trangressora e ousada perdida sem seu grande amor… na exótica Bahia.
    Há pouco tempo acharia bem inverossímil uma personagem que protege mais o rosto que a própria vagina…hoje eu penso ser crível. Que acha divertido comer caranguejo à marteladas, crível. Que coloca o nome de um amante no filho, crível. Mas é crível homens assim? Logo quem? Um publicitário, um corretor, um jornalista…tão acostumados a manipular sendo manipulados?…no mínimo ironico…

    Gabi, Gabriela…me encheu de compaixão e ternura.

    Sim…há certas pessoas…inesqueciveis que passam por nós…

  6. Maria Tereza Belumat Says:

    Fabio,

    Me senti tocada por “Salvador, Bahia” que, tenho certeza, seria um fantástico enredo para uma bela obra cinematográfica.
    Qual diretor você escolheria para dirigir o filme?
    Seria o Pasolini, como sugeriu a Petite, ou você teria outra sugestão?
    Deixe-me saber…

  7. Maria Tereza Belumat Says:

    Um bom nome já que, além de ótimos filmes, Sam Mendes possui profunda vivência em relacionamentos amorosos embora, imagino, nenhum com uma paulistana chamada Gabriela.
    A minha sugestão é o Woody Allen…

  8. Maria Tereza Belumat Says:

    Quando cito Woody Allen me refiro ao cineasta responsável por obras inesquecíveis como as que fez até 1994, quando filmou “Bullets Over Broadway”.
    A minha esperança é que “Salvador, Bahia” nos traga de volta esta genialidade que, espero, esteja apenas adormecida.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: