A melhor cena de amor da literatura


Qual sua cena de amor preferida na literatura?
A minha é de Hemingway, em Por Quem os Sinos Dobram. Uma despedida. Robert Jordan dá adeus a Maria. Ele é um americano que foi combater pela liberdade na Espanha, na Guerra Civil dos anos 30, e ela é uma espanhola simples, jovem. Apaixonam-se, mas guerra é duro.
Jordan se sacrifica por Maria. Ferido, não pode fugir a um cerco dos inimigos. Maria pode. Ele a convence a ir dizendo que ele viveria nela. Jordan morre para que Maria viva e, com ela, o amor deles e, em certa medida, os planos que fizeram juntos para o futuro.
Maria depois deve ter-se apaixonado por homens bem menos interessantes que ele, mas isso é tema para uma especulação quem sabe em outro texto. Ali ela é de Jordan e de mais nenhum outro homem.

Hemingway era de 21 de julho. Hoje. Foi muito lembrado e mesmo assim é pouco, dada a sua grandeza literária. Foi intensamente macho na prosa e na vida, mas escreveu páginas românticas e sentimentais como se fosse um poeta daqueles que morriam de tubercolose, envolvidos em cachecóis e tossindo sangue delicadamente.

Ele se deu um tiro na boca quando cansou de viver. Fez como Sêneca diz que o homem deve fazer quando a vida vira um fardo: saiu dela, sem choro e sem lamentações. Já não podia fazer tudo aquilo que o fascinava: caçar, pescar, fornicar. Nem escrever mais conseguia, prejudicado por uma arteriosclerose.

Bateu em retirada.

Deixou imitadores, seguidores, contos notáveis escritos numa linguagem extraordinariamente enxuta, alguns romances de alto nível, uma vida vivida com volúpia — e também aquela que é para mim a melhor cena de amor da literatura.

28 Respostas to “A melhor cena de amor da literatura”

  1. Graça Says:

    Fabio, nao sou muito ligada em cenas de amor dramaticas, sou basica. Um caminhar de maos dadas na beira da praia ja me basta, mas, se fosse escolher uma, com certeza seria de Hemingway. A veracidade que ele imprimia as cenas faz com que o leitor vivencie o momento como seu.

    Sua escolha Fabio Hernandez, foi uma excelente escolha…

  2. Karina Says:

    hummmm

    só uma me ocorre. Foi paixão à primeira lida, por tudo que diz e pelo que n está dito.

    Lolita.
    Humbert Humbert, em fuga, para num morro ou algo do tipo, e depara do alto com o som das crianças brincando lá embaixo.

    “Ali fiquei, no meu sublime mirante, ouvindo aquela vibração musical, o espocar de gritos isolados contra o tímido murmúrio do fundo sonoro — e compreendi, então, que o que havia de desesperadoramente terrível não era a ausência de Lolita a meu lado, mas a ausência de sua voz naquele coral.”

    Da cena que citou, a frase mais linda Hemingway ficou devendo: “Serei feliz na sua felicidade”.

    • Fabio Hernandez Says:

      ah, o amor lascivo de humbert humbert por lolita é uma escolha surpreendente, karina, e daria margem a duas sessões de psicanálise no mínimo em que o terapeura identificaria sinais de lolita em vc, num momento, e de humbert humbert em outro.

      • Karina Says:

        Lolita é linear, nada me diz. o oposto me atrai no Humbert, um cara cheio de nuanças. mas o que mais se destaca na personalidade dele é a fraqueza, que abomino.

      • Fabio Hernandez Says:

        mas se lolita é o humbert que vc abomina por que vc escolheu exatamente aquele trecho, karina?

      • Karina Says:

        ãhn?!

        abomino a fraqueza dele. isso n me impede de achá-lo um personagem interessante. e ainda vejo que esse aspecto da fraqueza está vinculado de várias formas à dependência que ele assume em relação à Lolita. isso me salta aos olhos. mas é um personagem rico. uma coisa n exclui a outra.

        o trecho que mencionei traz um pouco disso. ali ele n era mais o amante lascivo, mas um cara consciente da vida em que influiu levando a um caminho sem volta.

        Antes, qd ele reencontra Lolita e deseja que ela seja amada e feliz… nesta cena e na que mencionei há sentimentos que superam a obsessão.

        mas n vejo só amor. em ambas há um misto de amor, compaixão e remorso. amor talvez seja até o menos intenso.

      • Fabio Hernandez Says:

        isso se chama dissonância cognitiva, karina. bah

      • Karina Says:

        da minha parte ou da dele? lol

        diagnóstico interessante, Dr. Fabio Hernandez.

  3. Daniel Says:

    Meu voto vai sem nenhuma dificuldade para Rubem Fonseca, em “O Balão Fantasma”, conto integrante de “O Buraco na Parede”. Trecho:

    “Ir para a cama com ela era a maior felicidade que a vida me dava. Ficávamos alegres e ríamos e suávamos mesmo no ar refrigerado de tanto rolar na cama, e nos intervalos tomávamos café-com-leite que ela fazia jogando café solúvel no leite fervendo, e eu saía de lá de madrugada para ela poder dormir, pois não sei dormir com ninguém, nem mesmo com a mulher que eu amo, e dizia em voz alta o nome dela para o sol, se o sol já tivesse nascido, para a chuva, quando tinha chuva, Fabiana, para as portas das casas, Fabiana, para os bueiros, Fabiana, para os carros que passa­vam. E ela sempre sentia dor nos músculos das pernas no dia seguinte.

    Naquela noite ela não riu uma vez sequer. Enquanto eu me vestia, ela repetiu muito séria, tenho que te dizer uma coisa.

    Amanhã. Agora você vai dormir.

    Hoje. Esse balão é uma coisa monstruosa. Qualquer balão é uma coisa monstruosa. Os baloeiros são um bando de criminosos.

    Por que não um bando de sonhadores? O sonho de Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Dos Montgolfier.

    Está vendo? A Marina tem razão. Você simpatiza com eles, vo­cê está do lado deles.

    São comunidades inteiras que fazem o balão, homens, mulheres, velhos, crianças. Eles apenas querem ver o balão subir pa­ra o céu, o mais alto possível.

    Comunidades inteiras? Que justificativa mais idiota. Comunidades inteiras praticam o linchamento e você fica do lado dos assassinos? Estamos perdendo tempo com a sua sociologia equi­vocada.

    Não estou do lado de ninguém. A Marina não gosta de mim.

    Sonhadores foram os que fizeram a floresta da Tijuca, anos e anos de um trabalho de amor. Você sabe que o Rio é a única cidade no mundo que tem em seu perímetro urbano uma flores­ta, a Floresta da Tijuca. Ou não sabe?

    Sei.

    E esses baloeiros cretinos todo ano destroem um pedaço da floresta e você chama eles de sonhadores. Eu preciso te dizer uma coisa.

    Então diz o que você precisa dizer. Mas antes fique sabendo que eu fiz um esforço danado para conseguir os seis detetives e mais o Diogo Cão para fazer essa investigação idiota sobre um balão gigante que provavelmente nunca será feito e que se for feito será apenas mais um entre milhares. Milhares, meu bem, põe isso na sua cabeça, são muitos milhares os balões fabricados nesta época do ano e dezenas de milhares as pessoas envolvidas. Quando sol­tar balão não era crime, os baloeiros imprimiam convites convo­cando o povo para assistir ao lançamento dos balões grandes. E o balão tinha nome e celebrava alguma coisa, um santo, um acon­tecimento, uma data histórica, um desejo. E os poetas da comuni­dade escreviam odes ao balão, que eram cantadas durante o lan­çamento. Agora diz o que você está querendo me dizer.

    Ainda bem que foi proibida essa perversidade cultural.

    Diz o que você quer me dizer.

    Ela não disse imediatamente. Saiu da cama se enrolando no lençol para eu não ver o corpo nu dela, coisa que nunca aconteceu, a não ser nos primeiros dias. Enxugou os olhos no lençol, cuidando para que não aparecesse nenhuma parte íntima do seu corpo. O que Fabiana ia falar devia ser coisa séria, ela raramente chorava.

    Anda, pode falar, eu não agüento ver você chorar e não vou deixar de te amar, não importa o que me disser.

    Eu e Marina estamos escrevendo um ofício ao secretário de Segurança Pública pedindo que seja indicado um outro delegado para integrar o Grupo em seu lugar.

    Pára de chorar, meu bem. Vocês dizem o quê, para justificar minha substituição? Que sou incapaz? Frouxo?

    Não com essas palavras.

    Incompetente? Negligente?

    O Grupo se reúne há quase um ano e nada foi feito. Eu pedi para você prender os baloeiros que estão construindo esse monstro e você não deu importância.

    Esse balão não existe.

    A Marina diz que você está do lado deles.

    E você? Também acha isso?

    Não sei. Sim, acho. Você está zangado comigo?

    Zangado? Isso é nome de anão da Branca de Neve.

    Mas eu não achei graça nem ela achou graça e eu passei a mão de leve sobre a cabeça dela. Agora ela chorava sem esconder.

    Te cuida, garota.

    Eu nunca havia saído da casa dela sofrendo. Tudo por causa de um maldito balão fantasma. Todas as florestas do mundo não valiam o amor que eu sentia por Fabiana, mas aquela florestinha de merda trepada nos cocurutos da cidade, cuja árvore mais antiga tinha a idade da minha avó, valia mais do que o amor de Fabia­na por mim. As mulheres, pensava eu enquanto caminhava pela rua escura, não sabiam amar como os homens. Nós, os homens, havíamos inventado o romantismo e o suicídio por amor, por elas tínhamos coragem de ser palhaços, assassinos, ladrões. Pensei nos suicidas que conhecia. Mas não havia nenhum homem, todos eram mulheres, que por amor haviam cortado os pulsos, tomado barbitúrico, ateado fogo às vestes, pulado na frente do trem, pulado da janela, se enforcado no basculante, só mulheres. O único ho­mem de quem me lembrei foi o Werther. Esse não valia. As mulhe­res sabiam amar sim. Então me deu saudades de Fabiana e comecei a dizer o nome dela no meio da rua e um mendigo que tentava dormir embaixo de uma marquise ficou olhando para mim e eu disse vem cá e ele não veio e eu gritei vem cá, estou mandando, e ele veio apavorado e eu disse repete comigo Fabiana, Fabiana. E ficamos os dois dizendo Fabiana, Fabiana, e depois dei a ele a nota de maior valor que eu tinha no bolso e ele voltou para de­baixo da marquise. E quando eu já estava longe ele gritou Fabia­na, já deitado, acenando com a mão, e eu gritei Deus te abençoe meu bom mendigo, acenando de volta.

    Pura novela das seis.”

    • Fabio Hernandez Says:

      bela escolha, daniel. o rubem fonseca tem um estilo torrencial, inspirado nos noirs americanos, e mesmo com todo seu ceticismo niilista é capaz de escrever grandes passagens românticas, como essa.
      grato por compartilhar.

    • Petite Poupée Says:

      Dani, eu te acho tão interessante…

      Werther é um dos meus preferidos…vc não deve gostar dele, né…

  4. Pê Sousa Says:

    Eu não diria uma cena mas um livro inteiro dedicado ao amor e à tragédia da separação: Love Story. Cafona? Pode até ser, mas que é lindo, isso é…

  5. Grace Olsson Says:

    Cenas de amor sao, ao meu ver, algo simples…Como um andar de maos dadas. Mas, para mim, nada se compara à despedida de Francesca e Robert em AS PONTES DE MADSON. A cena me marcou. Por várias razoes que, eu, definitivamente, nao vou expor aqui. Nao dessa vez.
    Bjs e dias felzies

  6. Petite Poupée Says:

    Ai Fábio…toda uma biblioteca romântica em casa…e tudo se resume a uma única cena:

    “O calor do dia abrandava. Naqueles olhos e tanto de Diadorim, o verde mudava sempre, como a água de todos os rios em seus lugares ensombrados. Aquele verde, arenoso, mas tão moço, tinha muita velhice, muita velhice, querendo me contar coisas que a ideia da gente não dá para se entender – e acho que é por isso que a gente morre. De Diadorim ter vindo, e ficar esbarrado ali, esperando meu acordar e me vendo meu dormir, era engraçado, era para se dar a feliz risada. Não dei. Nem pude nem quis. Apanhei foi o silêncio dum sentimento, feito um decreto:

    – Que você em sua vida toda toda por diante, tem de ficar para mim, Riobaldo, pegado em mim, sempre!… – que era como se Diadorim estivesse dizendo.”

    E uma única frase:

    “Amor vem de amor. Digo. Em Diadorim, penso também – mas Diadorim é a minha neblina…”

  7. Robson Says:

    Não vou dizer que é a melhor e a mais bela cena de amor da literatura, mas é diferente:
    “O amor nos tempos do cólera”, García Márquez.
    Florentino nutre um amor por Firmina durante 53 anos, quatro meses e onze dias, para enfim ficarem juntos, numa viagem de navio, após a esperada morte do marido de sua amada.

    • Fabio Hernandez Says:

      Robson, que boa lembrança … o García Márquez conseguiu tornar romântico um reencontro entre dois velhinhos. muito bom.

  8. Fabi Says:

    Nossa! Resolvi comentar já me desculpando por não ter lido nada romântico de Hemingway…aliás, dele só li O velho e o mar (maravilhoso) anyway…quando li o texto só conseguia pensar na mesma cena que a Grace citou de As pontes de Madson, qualquer coisa assim: espetacular!

  9. Beatriz Says:

    Li esse livro e amei. Adorei a parte em que a guerrilheira velha fala sobre o cheiro da morte: o máximo. Mas, em matéria de amor, prefiro a cena final e a primeira noite de Juvenal Urbino e Fermina Daza em Amor nos Tempos do Cólera, do García Márquez.

    • Fabio Hernandez Says:

      muito bom gosto literário, Beatriz. Essa cena do Garcia Marquez é uma beleza, apesar — se não estou enganado — da idade longeva dos amantes …

  10. Nicky Says:

    Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm

    Sarah Miles e Maurice Bendrix.

    A cena de amor em que ele lê o diário dela e entende o porquê dela tê-lo abandonado.

    Triste e linda.

    • Fabio Hernandez Says:

      Fim de Caso, Greene … bem lembrado, Nicky-san. Li algumas vezes. Um de meus romances favoritos.

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