Foi só o tempo que errou


… e então alguém cita nos comentários um texto antigo, e ao procurá-lo vejo que era do tempo em que sequer ilustrava o que escrevia. ‘Foi só o tempo que errou’ pertence a minha fase melancólica. Meu espírito literário, se tenho um, foi moldado por Rubem Braga e Graham Greene, e não surpreende que eu tenha escrito tantos textos sobre fins de caso. Mais uma vez, sugiro que seja lido com a música. E na cena do ônibus, bem, junte-se a plenos pulmões ao coro universal dos desafinados como se por um momento fosse Sinatra ou Billie Holliday.


“Sabe, liguei o rádio do carro naquela estação e pensei: a próxima música que tocar vai ser pra nós”, ela disse. “Tocou uma música que dizia. Dos nossos planos é que tenho mais saudade. Onde está você agora além de aqui dentro de mim? Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou. Vai ser difícil sem você porque você está comigo o tempo todo.”

Os olhos dela estavam úmidos. Ela falava com sofreguidão, com intensidade, e isso não era comum nela. Quieta, discreta, poucas palavras. A pressa com que falava parecia indicar que ela sabia que já não tinham tanto tempo assim para conversas daquela natureza. Era a última oportunidade talvez para olharem para trás e falarem do que representaram um para o outro, ou uma das últimas. Há tempo para chegar e há tempo para partir, está escrito no Eclesiastes, e para eles tinha chegado a hora de partir. Ele não conhecia aquela música. O repertório musical dos dois era diferente, e num determinado momento deixaram de compartilhar as canções que agradavam a um e outro. E os livros, e os filmes, e os planos. Ele foi procurar depois a música da qual ela falara. Vento no Litoral. Legião. “Sei que faço isso pra esquecer, eu deixo a onda me acertar, e o vento vai levando tudo embora.”

“Recebi um email do advogado”, ele disse. “Ele escreveu que tinha sido um final feliz. Final feliz, eu ri ao ler. Final feliz. Antigamente final feliz era, sei lá, bem, não era isso. Não o que ele quis dizer. Que minha proposta de partilha tinha sido aceita, e que estávamos prontos para ir ao juiz para selar a separação. Quando nos encontramos naquela festa. Não, final feliz não era isso. “

“Você”, ela disse. “Você preencheu todos os meus céus. Olhos de estrela nunca mais, nunca mais.”

“Olhos de estrela. Você tinha olhos de estrela. No seu quarto de moça você tinha olhos de estrela.”

Quarto de moça. Rubem Braga. Era um dos textos preferidos dele. Quarto de Moça. Rubem Braga narrava o encontro com uma mulher que ganhara o mundo, e com isso dinheiro e poder e celebridade, mas perdera seu quarto de moça humilde no qual sonhara tanto. Rubem dizia que, se pudesse lhe dar um presente, reconstruiria aquele quarto para ela. Quarto de moça. Ele se lembrava do quarto de moça da mulher com a qual tivera, nas palavras do advogado, um final feliz.

“Eu não consegui fazer você ser feliz, e me sinto fracassada por isso, e isso me dói tanto, tanto”, ela disse.

“Eu também não consegui te fazer feliz, mas acho que significou uma vitória no fracasso. Derrotas podem ser esplêndidas. A nossa acho que foi. Não tiramos a essência um do outro. A tristeza nos uniu, não só ela, é verdade. O sexo era bom, e como era, mas a tristeza foi talvez a nossa conexão mais forte. Não perdermos o que tínhamos de mais genuíno é um triunfo no fracasso.”

“Seus olhos. Seus olhos são tão tristes. Me sinto culpada. Sempre me sinto culpada, você sabe. E se eu tivesse feito …”

“Nós fizemos o que tínhamos que fazer. Nós lutamos. Nós guerreamos, nós fomos guerreiros, os dois, não só eu, você também. Mesmo quando caídos nós combatemos de joelhos pelo nosso amor, por nós dois, e apenas aconteceu que fomos derrotados. Li num livrinho que você me deu que o que importa não é o resultado, mas a luta, a intenção, a entrega, e então nós, sei lá, nós tentamos, e então está tudo bem.” O livrinho ao qual ele se referiu era o Gita. Krishna e Arjuna, o grande diálogo de Gita. Apenas faça, diz o mentor Krushna ao discípulo e guerreiro Arjuna. Ganhar ou perder não diz nada.

“Agimos certo sem querer”, ela cantou. “.”

“Você trouxe uma música, eu trago outra. Desenhos no Jornal.”

“Ah, essa música não. É tão triste. Dói, deus, como tudo isso dói.”
Pareceu a ele que ela estava prestes a chorar, e não havia nada que ele pudesse fazer ou dizer que trouxesse conforto a ela. Ou a ele mesmo. Não há analgésico que diminua a grande dor das coisas que passaram.
“A arte é triste. Uma vez escrevi isso. A alegria não produz nada que preste na arte. Gosto daquele verso. O final. Um rosto distante se apagando no meio da multidão.”

“O jeito como você escreve. O jeito como você olha. Seus livros esparramados na estante, e a luz do abajur até tarde da noite. Eu nunca. Eu nunca vou esquecer.”
“Você dançando. Pequena bailarina. Aquela música. A que fala que todo mundo devia vê-la dançando na areia. É assim que lembrarei de você. Tiny dancer dancing in the sand.”
E então eles se despediram, e então eles eram, para sempre, um rosto distante se apagando no meio da multidão.nos comentário

20 Respostas to “Foi só o tempo que errou”

  1. Eliane Says:

    F. lindo texto… Emocionante! Gosto de textos melancólicos…
    “… e então alguém cita nos comentários um texto antigo”, não tenho certeza se você está se referindo ao meu comentário no post anterior, mas se for, o texto não é esse… O texto que cito é aquele em que Pedro ao ver um episódio de Two and a Half Man se lembra de Cristina…
    “Se sumira fora por excesso e não falta de amor.”

    Beijos
    E.

    • Fabio Hernandez Says:

      putz, eliane, vc escreveu que era ‘foi só o tempo que errou’. tonta!

      • Eliane Says:

        F, eu coloquei “O TEMPO ERROU DUAS VEZES”… Dá uma olhada para você ver… TONTO!

  2. Lucy Says:

    Para ouvir: Ge Ne Rejeite Raiem

    – Se fosse dar um conselho a uma mulher, qual seria?
    – Ame!
    – A um jovem?
    – Ame!
    – A uma criança?
    – Ame!
    (Do filme Pifa – Um Hino ao Amor)

    (Silêncio)

    Antes de você falar “é melhor assim, você tomou a decisão certa” eu cheguei a ter um devaneio com sua boca calando a minha e me fazendo mudar de idéia, e toda vez foi assim, não me entenda mal, mas não me entenda bem, eu sempre tomei as decisões, mas sempre esperei que você não as aceitasse, me contrariasse. Não quero fazer tipo, eu preciso falar só isso, nem que essa conversa seja apenas um ensaio do que eu sempre quis te dizer e ficou preso, uma conversa no telefone engasgada no meio de uma madrugada fria. Resolvo escrever aqui, e na frente desse computador meus pés descalços, nus, estão sem meias, minhas mãos vão deslizando pelo teclado como uma maneira impensada e sem lógica de escrever palavras soltas, de me esquentar, porque o chá quente aqui do meu lado de nada serviu e então continuo a escrever frases sem sentido, sem pontuação e o Word do meu micro enche de linhas sublinhadas em vermelho e verde, não reconhecendo e não aceitando meus erros, palavras sem colocação lógica, como as desses ímãs que eu tenho na porta da minha geladeira que ficam soltas, avulsas, dispersas esperando que alguém monte uma frase antes de um gole d´água ou mesmo me esperando quando eu abrir sua porta sem querer pegar nada e ficar olhando a luz de dentro dela, pensando, eu voltaria pra cá sem ter tocado nada, nem a cerveja que eu mandei comprar te esperando… Eu não lavei as mãos e agora sinto na ponta dos meus dedos o teu cheiro, impregnado, persistente, a mistura do teu sabonete predileto com a nicotina saindo dos teus poros…. Eu quis ficar olhando teu rosto pela última vez decorando sua geografia perfeita, e a nossa música presa na minha memória, como se fosse sempre a última que tinha ouvido embora não a ouço há dias, ela fica aqui, presente.

  3. Patrícia Lerbarch Says:

    Simplesmente lindo! Quaisquer palavras a mais apagariam a beleza de seus pensamentos…

  4. Márcia Says:

    Li esse texto, meu Deus, há quanto tempo? Achei lindo, amei. Foi numa revista, numa viagem de férias. Eu estava numa fase melancólica. Recortei a página, guardei na bolsa, pra ler de novo se a dor apertasse. Agora, chego aqui, sem querer, e encontro o mesmo texto… e estou de novo numa fase melancólica. Esse texto é o rádio do meu carro?

  5. Karina Says:

    Vê, Fabio Hernandez, todos gostamos dessa sensibilidade. Depois de tanto tempo exibindo a face de cossaco russo, quase dá para esquecer que no homem de lata bate um coração.

    Não comentei antes pq estava muito à flor da pele, mas gosto muito. Sempre.

  6. Petite Poupée Says:

    A gente deveria quitar a conta todos os dias pra no final não ter dívidas a acertar, sentimentos pendentes e frustaçoes inevitáveis…acho q sempre ocorre isso qd depositamos a nossa felicidade nas maos do outro…como esse casal… Afinal, como devolver sonhos abortados? Pois sim …contas de amor sempre dão errado, né?

    E pensar q basta estar distraído pra isso acontecer…

    Não posso concordar com Renato Russo… o tempo não erra! e o vento tão pouco é capaz de levar tudo embora!

  7. Graça Says:

    Nossa…Fabio, que texto lindo !! Saiba que esse seu lado e muito mais interessante, muito mais…

    Esta frase “Ha tempo para chegar e tempo para partir” , nao ha nada mais verdadeiro na vida. Partir serenamente…estou pensando muito nisso ultimamente…sera que e possivel, partir serenamente, para ambos?

    Vixiii…acho que estou melancolica

  8. Karina Says:

    Vi o vídeo só agora e me ocorreu mais uma vez que poucas coisas são tão doces quanto as paixões dos meninos… esse sentimento infantil, a pureza que faz querer protegê-los de qualquer desapontamento e de quem se tornarão dali a uns anos. Acho que algumas coisas só cabem na vida adulta. Paixões infantis deveriam ser sempre correspondidas ou pelo menos respeitadas.

  9. Déborah Says:

    Sim, lindo! E todos já disseram.
    Essa é a beleza que constrói o cotidiano: os Quartos de moças destruídos pelos anos; as trilhas sonoras dos finais felizes e as conversas retóricas.

    ” A arte é triste” , sem dúvidas. Não à toa me emocionei com seu texto, Fábio.

  10. Alice Barros Says:

    São textos como este que nos fazem pensar em como levamos nossa vida. Gosto de todos os estilos do FH, mas qd escreve desse modo… Eu gosto muito mais!
    Lindíssimo!

  11. Rafa Says:

    Thoreau, Schopenhauer, Huxley, Gandhi não apenas leram o Gita, mas reverenciaram esse livro belíssimo.

  12. Cynthia Says:

    Saudades de ler esses textos da sua fase melancólica…Fábio
    Já faz algum tempo que não leio seus textos,e hoje quando volto a lê-los encontro um dos meus preferidos. Gosto dessa canção e você deu vida a ela de um forma marcante para mim.
    Sei que não deve ser muito interessante escrever textos como esse, mais adoraria voltar a viajar nessas tristes histórias que você escreve como ninguém.

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