Houve uma vez no verão


Este é um texto antigo meu. Não sei como, fui encontrá-lo. Reli, peguei um vídeo no YouTube e decidi, sei lá por que, republicá-lo. Talvez por saudade do verão que vivi tanto tempo atrás, talvez não. Só sei que nele me descobri e também me perdi. Minha sugestão é que seja lido ao som da grande música de Michel Legrand.

Olho para minha estante e apanho um livro antigo. É um livro de um escritor barato, e está no meio de romances de escritores nada baratos. Dostoievski e Tolstoi, Balzac e Flaubert, Hemingway e Fitzgerald, Machado e Eça, Roth e Updike, Chandler e Hammett, Garcia Marques e Vargas Llosa.

É um livro simples, banal, tolo, como as coisas que escrevo.

Mas eu o amo, e ele sobrevive ás limpezas periódicas de livros em minha biblioteca.

O nome é Verão de 42, escrito por um certo Herman Raucher, e inspirou um filme tão bonito quanto o livro, e isso é raro. A trilha sonora, um piano lírico, melodioso, lento, triste, é uma das mais belas do cinema.

Um cara retorna ao lugar em que passou o verão de sua vida, uma praia. Essa a história. O narrador lembra aqueles dias ensolarados, aqueles tempos de descobertas e transformação que a gente vive apenas aos quinze anos.

Vou direto ao final. Quero reler as últimas linhas ainda uma vez. O garoto se apaixona por uma mulher mais velha, com quem faz sexo pela primeira vez. Ela fora movida pelo desespero, depois de saber que o marido morrera, e o garoto pela paixão deslumbrada. Depois ela vai embora, e deixa uma carta para ele na qual diz esperar que ele seja poupado de todas as tragédias sem sentido.

Mas ninguém é, ninguém é.

O garoto cresceu, virou homem, e jamais perdeu a carta.

�De vez em quando, sempre que o mundo o castigava, ele parava o que estava fazendo e lia outra vez a carta�, diz o livro.

Às vezes me pergunto se as coisas que um dia escrevi servirão de conforto a alguém quando o mundo castigar, ou se tudo são folhas na relva, palavras perdidas na imensidão das coisas.

Não tenho resposta, mas secretamente alimento a ilusão de que certas coisas escritas por mim possam, quem sabe um dia, despertar um sorriso num rosto triste.

Um pequeno trecho do tolo livro de Raucher tem este efeito sobre mim. O narrador está indo embora do lugar onde vivera o maior verão de sua vida. �O homem se afastou da casa e voltou para a direção de onde viera, com a areia de todos esses anos passados caindo nos seus pés, a manhã fresca, a umidade matutina. E pensou na pequena verdade que ele quando menino tinha levado tanto tempo para entender. A vida é feita de pequenas idas e vindas, e para tudo que um homem leva existe alguma coisa que ele deve deixar.�

Para tudo que a gente leva existe alguma coisa que a gente deve deixar.

É uma verdade dolorida, e também uma frase que eu gostaria de ter escrito.

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33 Respostas to “Houve uma vez no verão”

  1. Red,whathellisthat? Says:

    Teu texto ficou tão lírico quanto o filme… Ficou ainda mais bonito ao som de Michel Legrand. ;0)

  2. Gueixa Says:

    Ah Fábio, ler e ver e ouvir coisas tão belas em plena segunda de manhã…
    Obrigada.

  3. Eliane Says:

    Lindo texto…
    “Às vezes me pergunto se as coisas que um dia escrevi servirão de conforto a alguém quando o mundo castigar…”
    Eu tenho a resposta… Te conheci através de um texto lido em uma revista, da qual comprei apenas para passar o tempo enquanto aguardava o ônibus em uma rodoviaria… O texto tinha o título “O tempo errou duas vezes”…
    Ainda levo esse texto comigo e sempre que o mundo me castiga em sentido amoroso, leio esse texto… Não sei explicar ao certo o pq… Acho que é pq o texto me passa que tem coisas que simplesmente não eram pra ser… Ou talvez não…

  4. Mariana Meirelles Says:

    É sempre utopicamente reconfortante crer que as desgraças de nossas vidas são obras do acaso, de terceiros ou de alguma força sobrenatural. É sempre um alívio pensar diante da derrota: “não tinha que ser… simples assim!” Mas… pense nisso: se creditamos a nós e aos nossos louváveis esforços pessoais as nossas vitórias, por que não assumirmos também como nossas as derrotas?

    A felicidade e o sofrimento é uma opção, o que nos resta saber é quanto estamos dispostos a pagar pelas nossas escolhas.

    • Eliane Says:

      Concordo que temos que arcar com nossas escolhas, seria muito facil aceitarmos tudo o que nos acontece com um simples “tinha que ser assim”… Mas nos casos de derrotas, como por exemplo em sentido amoroso, pra que se torturar por algo que não deu certo? Se não deu certo é pq não era pra ser… E sempre depois do ocorrido vemos que não era pra ser por tantos e tantos motivos…
      Não concordo que o sofrimento seja uma opção, ninguém em sã consciencia optaria por sofrer… Sofrimento é uma consequencia… O tempo que esse vai durar em nossas vidas, esse sim talvez seja opcional!
      Todos pagamos por nossas escolhas, o negocio é se aceitamos ou não quando chega a “cobrança”…

      • Mariana Meirelles Says:

        “Mas nos casos de derrotas, como por exemplo em sentido amoroso, pra que se torturar por algo que não deu certo? Se não deu certo é pq não era pra ser…”

        Esse ‘não era pra ser’ não lhe parece muito fatalista?

        “E sempre depois do ocorrido vemos que não era pra ser por tantos e tantos motivos…”

        Não era pra ser ou VOCÊ agiu de modo que NÃO FOSSE? As nossas atitudes constroem o nosso caminho. Cada escolha, um tijolo para a sua estrada amarela particular.

        “Não concordo que o sofrimento seja uma opção, ninguém em sã consciencia optaria por sofrer…”

        Conheço uma mulher de cinquenta anos que casou com um homem de trinta, cujo maior sonho era ser pai. Alguns anos após o casamento, ela quase morreu de tristeza porque ele apareceu com um filho fora do casamento. Que fatalidade, heim?!

        “Sofrimento é uma consequencia…”

        Das nossas próprias escolhas.

        “Todos pagamos por nossas escolhas, o negocio é se aceitamos ou não quando chega a “cobrança”…

        A “cobrança” não pede licença e pagar não é uma opção. Olhe para sua própria vida, tem alguma dívida em aberto? Duvido!

        Pense nisso.

      • Fabio Hernandez Says:

        uma das maiores besteiras que uma mulher pode fazer é se casar com cara mais novo, mariana. segundo as estatísticas mais confiáveis, 100% dos casos terminam mal. pense nisso

      • Mariana Meirelles Says:

        Fábio, isto foi apenas uma ilustração para exemplificar que fatalidades não existem, que as coisas não acontecem porque acontecem… a vida é um eterno construir. As coisas não são porque tinham que ser, elas são porque NÓS as fazemos assim. Acasos não existem!

    • Graça Says:

      Fabio, 100 % e um enorme exagero. Ja me relacionei com um homem mais novo e nao havia drama nenhum e acabou porque tinha que acabar, como qualquer outro relacionamento. Tenho uma tia que esta casada a 35 anos com um homem 15 anos mais jovem e sao muito felizes ate hoje, mais felizes que 99 % dos casamentos.

      • Fabio Hernandez Says:

        então vc e sua tia são as exceções, Graça-san, porque todos os demais casamentos de mulher mais velha com cara novo dão errado.

      • Graça Says:

        Fabio, eu nao fui casada !! Nao acredito em casamento, pelo menos nao no de papel passado e morando no mesmo teto.

        Minha tia tem um casamento tradicional e pasme, hj ela tem 75 e ele 60. Ela nao e rica, se vc esta pensando nisso.

        As vezes vc e muito generalista e ate mesmo preconceituoso, sabia? Tenho outros exemplos de casamentos que deram certo, mas nao vou escrever um romance aqui…

  5. Graça Says:

    Fabio, meu querido…vc e um homem muito versatil, um homem de muitas faces e confesso…essa me encantou !

    Ler o texto ouvindo a musica e realmente a deixa, maravilhoso, nos transporta.

    “Para tudo que a gente leva existe alguma coisa que a gente deve deixar”. Essa nao e a grande magia da vida? Pra mim, nao existe nada mais gostoso do que a eterna troca…a via de mao dupla…

  6. Petite Poupée Says:

    Eu gostaria de ter escrito :

    Escarra nessa boca que te beija!

    Ainda q não tenha coragem pra dizê-la pra ninguém…

  7. Rosa Says:

    Ameyyy seu blog, menino

    Cê é um gênio de ‘escritor barato’!

    Beijos e (mais) sucesso!

    *Ae, postei um texto seu num blog q faço parte,
    chega junto e confere http://www.8balls.com.br/?p=25303

    • Fabio Hernandez Says:

      bunetinho o blog que vc faz parte, rosa!

    • Mica Muratto Says:

      Rosa, valeu a dica do texto do Fábio: “Por que os homens traem as gostosas?” kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

      Irvin Yalom em Quando Nietzsche chorou aborda o tema e dispara o óbvio que de tão óbvio ninguém vê: “Para cada mulher bonita por ai, existe um pobre coitado que está CANSADO de fodê-la!” – SIMPLES ASSIM!

      Sobre as sensuais kkk nosso grande Fábio escreve:

      “Uma mulher sensual, por exemplo. Ela não se define pelas curvas, mas, como diz a palavra, pela volúpia, pela intensidade dos seus sentidos. Pela maneira como ela gosta de tocar, sentir, cheirar o seu homem.
      Essas, não digo que não sejam traídas, tão instável e cruel é o universo com suas tentações que chegam aos inocentes na alma como raio em céu azul. Mas é mais difícil. O homem pensa uma, duas, várias vezes antes de dar um passo que possa colocar em risco uma mulher que o trata na cama como ele merece. Na maior parte das vezes, demora tanto pensando que a tentação passa.”

      kkkkkkkkkkkk
      kkkkkkkkkkkk

      Fábio, quanta ingenuidade! Em se tratando de sexo, desde quando os homens pensam??? Não importam as qualidades da mulher: bonita, gostosa, sensual… o ponto é: o cara cansa, o olfato vicia e o que cheirava, fede.

      • Fabio Hernandez Says:

        ingenuidade … hmm, acho que há dúvidas em relação a isso, mica.
        agora, que grande frase a do yalom ….

  8. Pê Sousa Says:

    Me lembro desse texto e, do que, uma constatação: mantenho um exemplar do livro de Fh em minha estante, para, qualquer dia mais sem graça, ir lá, tomá-lo e viajar nas divagações mais baratas e não menos profundas desse grande escritor que vc é, FH.

  9. Pê Sousa Says:

    kkk

    • Reinaldo Aragão Pereira Says:

      Assistir o filme um dos mais belo romançe,e a trilha sonora lindissima.saudade da minha adolecencia.O amor verdadeiro não tem limite de idade.

  10. Antônio Says:

    Assisti esse filme quando tinha 18 anos.Por 29 anos tenho gravado na memória e sempro lembro da música,mesmo sem ouvir a melodia.Não sei porque esse filme me marcou.Hoje indiquei-o para minha filha de 18 anos apresentar num trabalho da faculdade.Vim pesquisar e encontrei a música.Parece que foi ontem..

  11. Ricardo Sérgio da Fonseca e Alves Says:

    Assisti por acaso este filme em torno dos meus 35 anos.Fui tocado emocionalmente pela história e pela música que me levaram de retorno para a adolescência.Hoje já aos 60 anos me emocionei novamente ao ouvir a música e ver slides do filme.Parabéns e obrigado.

  12. Bahiense Says:

    para sempre sera 1 so vez ,nao havera outra chance de viver tudo de novo como diz o titulo do filme o tudo lindo , limpido sagas aventuroso . e isso parece que vivo no passado nao e isso ,mas e que ficou la para tras a marca da saudade e barra .

  13. Bahiense Says:

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