O sexo, a vida e a morte


Camus

VOCÊ MUITO PROVAVELMENTE já leu O Estrangeiro, do Albert Camus.  Aqui, você pode lê-lo de novo. As primeiras linhas são reverenciadas. “Hoje morreu minha mãe. Ou talvez ontem, não sei bem.”

Uma passagem. Queria discutir uma passagem específica desse pequeno grande romance. O narrador é moralmente condenado, num tribunal, porque um dia depois da morte da mãe  faz sexo com Marie. A condenação moral vai levar a outra bem mais drástica.

Camus disse que se O Estrangeiro tivesse que ser resumido numa linha seria mais ou menos assim: quem não chora na morte da mãe está frito.

Bem, o que eu queria colocar na mesa para debater: há algo de errado em fazer sexo um dia depois da morte da mãe? Visto filosoficamente, o sexo é uma celebração desesperada da vida, ou da possibilidade de vida. É uma resposta à morte, em certo sentido.

O que o narrador de Camus fez foi responder com vida à perplexidade nascida da morte da mãe. Ele estava dizendo: “Estou vivo, por incrível que pareça. E vou seguir adiante. Tenho que seguir. Não existe alternativa.”

Só que a justiça dos homens é hipócrita, não filosófica, e você sabe como termina o narrador.

Sexo é vida, não pecado, não indiferença. Quando a morte de alguém nos esmaga, pode ser a melhor forma de consolação e resignação.

Às vezes, a única.

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31 Respostas to “O sexo, a vida e a morte”

  1. Robson Says:

    Concordo com Camus, com O Estrangeiro, e com você, Fabio.
    Acho que uma coisa nada tem a ver com a outra.
    Além de tudo, o sexo é uma redenção ao sofrimento; é a melhor forma de restabelecer o equilíbrio físico e mental após um grande infortúnio. É como se ele — o sexo — dissesse: “venha, rapaz, não desista, continue respirando…”.

  2. Grace OLsson Says:

    Fábio, o negocio é ver se o cara vai ter cabeca para fazer funcionar a outra cabea…kkk
    OLha, anos atrás, o tio do meu ex-marido faleceu. Aos 100 anos. E, ao votlarmos do velório, meu ex falou: GRACE, POR FAVOR, EU NAO TENHO CABECA PARA SEXO, ESTA NOITE!
    Essa frase, me fez ver, anos depois que, NÓS NAO TINHAMOS NADA EM COMUM.
    Mas, eu nao tive cabeca de pensar em sexo quando minha mae morreu.Acho que, apesar do s exo ser o que é: ALGO PRIMOROSO, ESPLENDOROSO E CHEIO DE VIDA, acho que o respeito que temos à mae é algo que transcende qualqer tipo de amor.
    Inclusive, o s exual.

  3. Rebeca Says:

    Eu concordo que uma coisa é diferente da outra, e vc ñ esta desrespeitando a morte de alguém pq faz sexo um dia depois do ocorrido, dois dias depois da morte da avó materna do meu namorado (alguém que ele era muito apegado) nos fizemos amor, e eu ñ achei falta de respeito, era uma consolação por assim dizer como foi comentado acima, sexo tbm é expressão de carinho, troca de afeto entre duas pessoas que em muitos casos se amam e querem transmitir isso fisicamente. Não acho isso pecado… bjs a todos.

  4. Madame Bovary Says:

    Particularmente, acho que o fato de fazer sexo ou não um dia após a morte da mãe não anula, e nem intensifica, o sofrimento de quem o pratica. São sentimentos diferentes que nosso cérebro, quando saudável, sabe separar um do outro.

  5. Gueixa Says:

    Bom dia Fabio.
    Esses nossos freios morais são eficientes não acha?
    Sexo é realmente celebração à vida.
    Considero até mesmo o momento em que o homem se equivale a “Deus”, afinal desse ato, onde conseguimos nos desligar de tudo – no gozo, arrisco dizer que desligamos de tudo – mas enfim, continuando, desse ato podemos gerar “vida”!
    E no entanto frente à nossa finitude, que temos que aceitar, pois a encaramos diuturnamente, os freios morais vêm e nos reprimem.
    Proponho uma rebelião contra esses freios morais!
    Bj

  6. Nina Says:

    Mas sabe que quando eu li o Estrangeiro a impressão que mais me atormentava era da grande e arrebatadora indiferença, ante tudo e todos?
    Não sei se para o protagonista o sexo significava tudo isso.

    Whatever, concordo moderadamente com a Gueixa. Ausência de freios morais impossibilitariam vida social.
    Presença constante e opressora de freios morais impossibilitariam vida saudável, risos, alegria.

    • Gueixa Says:

      Nina. reconheço que precisamos de freios morais. Por isso os criamos afinal.
      Mas precisamos, antes, racionalizar a importancia deles e em que circunstãncias…
      A obedecermos a isso de forma irracional, ou atávicamente, estaremos de volta às origens que os criaram….

    • Fabio Says:

      Nina, bom ponto o seu. O que mais me chamou a atenção ao reler foi o humor no absurdo. A cena em que ele entra na cela e os árabes barulhentos perguntam por que ele estava lá e ele diz que estava lá por ter matado um árabe e se faz um puta silêncio … nossa, é muito engraçada.
      O narrador não mentia em hipótese nenhuma.
      Pode ser que que o sexo não significasse nada para ele, como vc sugere. Mas para mim ficou a impressão subterrânea de que ele amava mesmo a mãe, e que no sexo no dia seguinte tentou esquecer a dor.

  7. Karina Says:

    existe sexo mais ou menos desrespeitoso?

    pq a Rebeca deu o exemplo do sexo expressão de carinho. E qd o sexo n tem nada de afetivo? é desrespeitoso? e o desrespeito seria em relação a quê/quem?
    muita coisa, qd a gente para pra pensar, n faz mesmo sentido.
    esses protocolos de como se comportar diante da morte são meio estranhos.
    mas isso td depende mesmo de como a pessoa enxerga o sexo. para quem ele representa vida, não deve existir esse sentimento de desrespeito, seja lá de que forma ele aconteça. com afeto ou sem.

    • Robson Says:

      Admiro a cultura oriental que, ao invés de chorar, festeja a morte de um ente querido. Assim tudo fica mais fácil, mais simples…

      • Karina Says:

        acho que a cultura do luto tb é simples e prática, Robson. Esses “manuais de comportamento” são confortáveis. O problema é que impõem uma forma de sentir que pode n se encaixar a todos. e dão margem para que estejamos o tempo todo sob o olhar (im)piedoso das pessoas.

        isso n vai mudar mesmo, precisamos dos protocolos. não precisamos é do rigor que muitas vezes ele nos infunde.

      • Robson Says:

        Falou e disse, Ka!
        Não sei se já confessei isso aqui, mas no último velório em que fui — o da morte de uma tia muito querida —, no momento da oração eu saí e fui procurar algum lugar pra comer um pastel, sem culpa, pois estava faminto. Usei esse tempo para refletir e organizar meus pensamentos, sozinho, e voltei, sem fome, porém, com o mesmo pesar de antes.

      • Karina Says:

        rsrsrs no velório do meu avô comi um doce de leite divino. E do jeito que ele gostava de doces, aposto que aprovou! =))

      • Nicky Says:

        Eu sou a mais devassa:

        eu não vou a velórios.

        Depois explico, tÔ atrasada pra aula! (pra variar, rs)

  8. Nicky Says:

    “Só que a justiça dos homens é hipócrita, não filosófica…”

    Isso resume as 15 linhas de comentário que eu apaguei.
    O resto, o pessoal já comentou 🙂

  9. Eduardo N. Says:

    Então Fábio, acho que sua interpretação do ato de Mersault está um tanto equivocada. Ao meu ver, o personagem fez sexo um dia após a morte da mãe não para celebrar a vida, e sim por que simplesmente ele era indiferente à perda de sua genitora. Ele não sofreu com a morte dela e, por isso, poderia muito fazer qualquer coisa no dia seguinte, até mesmo sexo; para ele, era um dia como os outros, sem nada de diferente. Se não havia sofrimentos, não havia por que não fazer sexo. Acho que você interpretou o protagonista de O Estrangeiro como se ele tivesse sido escrito por Nietzsche ; esse sim, talvez tivesse escrito uma estória em que o personagem faz sexo no dia seguinte à morte da mãe para celebrar a vida e não por indiferença!

    • Fabio Says:

      como no caso da Nina, bom ponto o seu, Eduardo. mas discordo. ele foi condenado porque as pessoas acharam que ele era indiferente, não porque de fato fosse.

      o que ele não fez foi chorar no velório. e o que ele fez depois foi nadar e ter sexo. foi condenado por isso.

      no posfácio do próprio Camus na edição que li, ele diz que o resumo do livro é que “você pode ser condenado à morte se não chorar no velório da sua mãe” …

  10. Rafael Says:

    Ainda nao li o post, mas compartilho textículo sobre… o amor – http://www.e-paulopes.blogspot.com/2010/05/apaixonado-nao-pensa-bem-o-amor.html

  11. Renato Says:

    Olha, o próprio Fabio há muito tempo atrás em um texto na revista VIP, falou que nada leva duas pessoas a praticar sexo, do que o desespero.
    Com base nesse contexto, e que no “fato cientifico” de que à partes do cérebro que só se ativam durante uma oração, ou durante uma relação sexual, juntemos os dois, foi por desespero, e talvez essa concentração única que temos ao fazer sexo, o que nos faz esquecer os problemas, inclusive, mesmo que por alguns minutos o cara se desligou desse sentimento de dor pela morte da mãe, e teve um pouco de prazer. Ou foi para esquecer mesmo nem pensando tanto no prazer proporcionado, pelo desespero da situação.

  12. Pê Sousa Says:

    Eu não acho que se pode dizer que fazer sexo após a morte da mãe seja algo moralmente errado. Mas, talvez, por conta de uma perda como essa, haveria uma dificuldade natural para ficar com a cabeça e a vontade para transar…

  13. Petite Poupée Says:

    Penso realmente q a vida seja pisar fundo… mas eu sou uma sentimental ridícula e uma romântica patética e pra mim alguns ritos são fundamentais ( velar / enterrar, por ex.) e por mais q racionalmente saiba q a morte nada mais é que uma consequência natural da vida, ela sempre me liga a dor, sofrimento, lágrimas e silêncio. Nada disto tem a ver com sexo, pelo menos pra mim.

    Mas sem querer dar uma de Antígona, mas me opondo a sua leitura Fábio, eu acho que Meursault foi condenado não porque transou um dia depois da morte da mãe, mas porque a deixou num asilo. Repara só.

  14. ver sexo Says:

    A foto é absolutamente linda.
    Parabéns e obrigado por este artigo!

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