“Ir ao encontro de uma onda em estado de completa nudez e imaculada pureza é a forma mais sublime de meditação que encontrei em minha vida”


É uma cena de um documentário italiano de 1963. As Mulheres do Mundo. Fora a constatação básica da graça e beleza universal feminina, alguns pontos talvez mereçam um debate.

O nudismo, em si.

Havia, lá para trás, uma espécie de pureza primitiva nos nudistas. Uma comunhão com a natureza, um retorno à simplicidade, um não pacífico à ditadura de griffes.

Tio Fabio era dessa espécie. Contemplava, em retiros discretos nos quais vestia apenas seus óculos de míope,  a natureza por longos momentos e celebrava a beleza generosa da Mãe-Terra.

Era um naturista, como aqueles do vídeo.

A sociedade moderna vulgarizou a nudez. Colocou-a à venda em filmes, revistas, luminosos.

A nudez ficou associada a exibicionismo. O encontro com a natureza foi atropelado pela exibição compulsiva do corpo com finalidades comerciais ou ególatras. Um dia talvez vendam roupas para o nudismo.

É uma pena.

“Ir ao encontro de uma onda em estado de completa nudez e imaculada pureza é a forma mais sublime de meditação que encontrei em minha vida”, dizia titio. Uma vez, disse a ele que ele deveria escrever um livro sobre a experiência. Eu era adolescente, via piada em tudo a meu redor, e sugeri a Tio Fabio que desse àquele tipo de meditação o nome de meditabunda.

Percebi nele um desapontamento instantâneo. Eu tinha blafesmado sem saber e fui punido não pelos gritos mas pelo silêncio do Tio Fabio. Não ouvir nada dele era pior do que ouvir uma reprimenda terrível.

O tempo me fez entender a reação de titio. Graça não vai bem com erotismo e nem com instantes de introspecção profunda.

Ele não viveu para ver a destruição, por vis razões mercantis, de suas convicções naturistas; e isso me traz um certo conforto.

8 Respostas to ““Ir ao encontro de uma onda em estado de completa nudez e imaculada pureza é a forma mais sublime de meditação que encontrei em minha vida””

  1. Gueixa Says:

    Oi Fabio.
    A sociedade moderna vulgariza tudo. Até a dor.
    Haja vista o julgamento do “Casal Nardoni”, que está acontecendo nesta semana…
    Nada sobrevive à vulgaridade e/ou vulgarização.
    Olhando o filme que voce postou, procurei dentro de mim a sensibilidade, ora adormecida, espero, para tentar debater com alguma elegância…Ainda estou à procura dela.
    Volto depois…

  2. Anarcoplayba Says:

    Depois de vários textos discordando, assino embaixo Fábio.

    Embora eu nunca tenha ido numa praia de nudismo ou ter vontade de ir, há um quê de bonito na imagem de uma praia com pessoas reais (não estou falando de modelos, atletas e fisiculturistas) nuas.

    Vale a retomada de um momento de conversa no O’malleys: as meninas da seleção brasileira feminina de rugby fizeram um calendário pra financiar a viagem delas à copa do mundo feminina de rugby com fotos eróticas. Foi um sucesso, e não pelo corpo das meninas.

    Gente tem cicatriz, celulite, rugas, envelhece. E isso é bonito tbm.

    Afinal, a única opção a envelhecer é morrer.

  3. Karina Says:

    É essa nudez vulgarizada que critico e já critiquei aqui. Vulgarizada e por isso mesmo supervalorizada. Tanto que se valem dela em artes questionáveis e supostos protestos em que n vejo como um corpo nu possa dizer mais do que um corpo vestido. São apelos que implicitamente enxergam a nudez como um “plus”, n como algo natural.

    Já estive em uma praia nudista, mas n fiquei nua. Fui sabendo que os frequentadores poderiam se sentir incomodados, então fui disposta a tirar a roupa, caso pedissem. Se estava ali, tinha que me encaixar às regras. Mas n se incomodaram. E pq n tirei mesmo assim, se pudor n era o problema? Pq para mim seria tão artificial quanto essa nudez criticada aqui. Estou acostumada a ir à praia de biquini, então pq ali eu faria diferente? Se um dia eu estiver com esse espírito mais harmonizado com a natureza e conseguir enxergar naturalidade e prazer nisso, ok.
    A maior prova de que n estava no clima é que o tempo todo em que conversamos com um vendedor/frequentador da praia eu senti aquele desconforto de tentar tornar natural uma coisa que para mim n era: ter um cara nu na minha frente numa circunstância tão… prosaica. E ele expondo tão naturalmente sua nudez quanto uma criança de três anos.

  4. Jorge Gustavo Says:

    E o que dizer das fotografias do Spencer Tunnick? Seriam um retomada do conceito primitivo da nudez, livre dos “pré”conceitos pequeno-burgueses??

  5. laufranco Says:

    Entendo.
    Não é a questão da nudez, mas a beleza que o momento encerra em si.
    Mentes medíocres fazem de tudo uma piada, como se tudo tivesse que ter o tom jocoso e banal que suas mentes desejam. Como se o corpo nu em contato com a água, imagem sublime, fosse a mesma coisa que um filme pornô ou uma novela boba.
    Você e sua piadinha medíocre receberam de seu Tio Fábio uma reposta adequada, o silêncio capaz de organizar sua estrura moral e fazê-lo entender esse sentimento, de que há momentos em que é apenas preciso calar a boca e simplesmente sentir. Aposto que agora você é fã do Antonioni. 😀
    Parabéns, tio Fábio.

  6. R. M. Gonçalves Says:

    Sábio Tio Fabio: que Deus o tenha!

    No aspecto do nudismo tido como liberdade cultural e não como exibicionismo, os índios estão a nossa frente.
    E querer pertencer a uma classe elitizada, frequentadora de alguma praia de nudizmo estilo Saint-Tropez, tira totalmente a essência da questão.

    Acho que o nudizmo sempre será tratado como um tabu, mesmo onde ele é permitido.

  7. Petite Poupée Says:

    Já tive meu momento Iara numa cachoeira de águas geladas e cristalinas. Sem ideologismos, era entrar nua ou ficar ficar molhada… dia memorável, morri de frio! mas foi legal, fora os mosquitos, claro…Ficar sem roupa para além das paredes domésticas foi uma experiência incrível de liberdade…Mas numa praia de nudismo, pelo que me conheço, creio que não…não entraria nesse clima naturalista de ser. Se bem que… olhando essas águas azuis… numa praia deserta…hummm despertaria meu lado sereia com toda certeza!

    Sinceramente Fábio, exibicionismo ou exibidos não me incomodam, vejo por todos os lados e dos mais diferentes níveis…agora, arrogância…afff

  8. abuscademimmesmo Says:

    Concordo com vc, Gueixa. A sociedade vulgariza tudo mesmo. Para vcs terem idéia, aqui em Salvador a miséria alheia, a total falta de mínimas condições de existência, a crassa derrocada dos meninos do Pelourinho ante ao crack, tudo isso é combustível que alimenta a mídia podre, em programas sensacionalistas como o “Na mira”, o “Que venha o povo” e o “Se liga bocão”!

    Esses são programas que exploram a decadência dos dependentes químicos de Salvador, a pobreza exarcebada das populações dos bairros periféricos, enfim, é uma vulgarização de vidas humanas, a notícia como espetáculo, como bem disse José Arbex Jr. no seu livro “Showrnalismo”

    O que dirá de outras facetas humanas, como o nudismo…

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