Parabéns por me trair, querida


"Boa escolha, amor"

"Boa escolha, amor"

OLHA. NÃO VOU dizer que é bom e nem ruim. Apenas é diferente. Os ingleses lidam com a traição de um modo único. Acaba de sair um livro em que uma historiadora, Antonia Fraser, conta o caso de amor que teve com o dramaturgo Harold Pinter, morto em 2008 e Nobel de Literatura três anos antes. Eram ambos casados e houve um tremendo falatório nos círculos intelectuais de Londres.

Quando Antonia foi contar ao marido que estava apaixonada por Pinter, ouviu dele, Hugh Fraser, um parlamentar do Partido Conservador, o seguinte comentário: “É o melhor teatrólogo do mundo no momento. Uma escolha adequada.” Quando os dois homens afinal de encontraram, travaram uma demorada conversa em torno do críquete, de assuntos de política internacional e de Proust.

Isso me fez lembrar de outra história de amor à inglesa. Eric Clapton, por um tempo, frequentou a casa de George Harrison pretensamente por razões musicais e de amizade. Na verdade, estava dando em cima de Patti, a mulher de George. (A Layla de Clapton é Patti.) Patti resistiu por um tempo, mas uma hora cedeu. Foi embora para viver (miseravelmente) com Clapton. (Que depois pegaria Carla Bruni, que pegaria Mick Jagger, parte da Itália e da França e, mais recentemente, Sarkozy.)

Um dia, em plena separação, tocam a campainha e Clapton vai atender. É George, o amigo enganado. Tem um revólver na mão. Aperta o gatilho. Era água. Os dois não deixaram de ser amigos, ao contrário. O espetáculo no Royal Albert Hall em homenagem a George, morto aos 58 anos em 2001, foi comandado por Clapton.  No palco estava Dani, o filho de George com a segunda mulher, Olívia. (Para dar uma filosofada, eu diria que, sem que Clapton levasse Patti, George não teria tido Dani, a sua cara, e nem Olívia,  que segundo os relatos foi uma grande companheira nos momentos duros dele, às voltas com um cãncer provocado pelo cigarro. Mas aqui não é filosofia.)

Nestes dias, um escândalo sexual agita o futebol inglês. John Terry, o capitão da seleção da Inglaterra, casado com sua namorada de adolescência e Pai do Ano em 2009, finalizou, como dizem os cafas, a mulher de um amigo, Wayne Bridge. Ele também é da seleção e os dois casais eram amigos de sair juntos.

A grande indagação é se Terry vai … continuar a ser capitão. É este o drama maior: Terry merece a posição de capitão do selecionado? Quem não é inglês não entende. Tévez, por exemplo, argentino maloqueiro, colocou no último jogo, por baixo da camisa do Manchester, uma camiseta em que dizia ser do “Time do Bridge”. Tévez é tango e fúria, os ingleses são músicas regionais no ukelele e um espírito blasé.

Não estou dizendo que é melhor ou pior. Apenas é assim o jeito inglês.

18 Respostas to “Parabéns por me trair, querida”

  1. Grace Olsson Says:

    Eu tenho um amigo inglês, de Merseyside que me disse, descaradamente, que nao via problema algum em ser traído.Afinal de contas, ele também dava as suas puladas de cerca. nada mais democrático.
    Seria tao bom que todos pensassem assim.kkkkkkk

  2. Karina Says:

    E já que falou em Harold Pinter, o cara do silêncio, do não-dito, das frases suspensas… Ele talvez traduza melhor o espírito inglês, nesse sentido, do que uma simples definição de blasé. Deve haver uma boa dose de contenção por trás dessa indiferença que os ingleses expõem. Será que não?
    Coincidentemente (e agora a ideia de coincidência quase me foge, n sei pq rsrs), ele tem uma peça intitulada Traição. A única a que assisti, aliás.
    A trama gira em torno de uma mulher que trai o marido com seu (dele) melhor amigo. Num determinado momento, o marido descobre, por meio da mulher, a traição. Mas nenhum deles revela ao amigo-traidor-amante que o marido traído já sabe. Então o que se imagina traidor acaba traído por ambos, numa outra forma de traição. E ele tb descobre que o amigo-marido tb já traiu a mulher, e fica confuso ao ver que aquele amigo confidente omitiu isso dele. É mais um sentimento de traição, numa outra perspectiva.
    Em meio a isso tudo, o silêncio. Dizem que o silêncio nas peças de Pinter é o que as carrega de tensão. Senti exatamente assim. E talvez os ingleses traídos sintam o mesmo quando se carregam de silêncio ao se verem diante de uma traição.

  3. Uila Gabriela Says:

    Se for sincera essa relação, ótimo, continuem encarando a traição dessa forma tranquila.
    Mas eu me pergunto se isso só não é mais um jeito inglês de simplesmente esconder os sentimentos, qualquer dia esses caras explodem 🙂
    E estava com saudades de comentar, msm que nunca tenha deixado de ler.

  4. Rafael Says:

    Esse texto da Patti é ótimo: ‘Meu triângulo amoroso infernal com George e Eric’

    http://bit.ly/HEkWH

    • Karina Says:

      a parte chocante da história toda:

      “George, com seus olhos castanhos aveludados e cabelo cor de avelã, era o homem mais lindo que eu já havia visto.”

      Gosto não se discute meeeeeeesmo.

      rsrs

      • Fabio Hernandez Says:

        putz, se eu fosse mulher correria atrás do george.
        no tempo em que a patti fala, era ele um garoto de olhos tristes, um talento incrível para tocar guitarra, uma franja revolucionária, traços delicados.
        meu beatle predileto, sem dúvida.

      • Karina Says:

        vai ver o sex appeal dele tenha sido a franja mesmo. Não à toa foi adotada por outros revolucionários, os “emos”.

    • Fabio Hernandez Says:

      Sensacional, Rafa. sensacional.
      Eu já tinha lido muita coisa num livro de memórias da Pattie, mas há detalhes ali que eram inéditos para mim.
      Ninguém era de ninguém, essa a verdade …
      Grato!

      • Rafael Says:

        🙂 meu beatle predileto também, sem dúvida!

        será q se drogavam tanto pq ninguem era de ninguem ou ninguem era de ninguem pq se drogavam tanto?

  5. Alice Barros Says:

    Me pergunto até que ponto os ingleses priorizam a amizade sobre o amor (homem e mulher)… Eu em algum momento pensei algo do tipo: vão-se os namorados, ficam os amigos. Mas pensamentos como esse só me vem a cabeça em momentos de crise, de fim de namoro, de carência e solidão completa.
    Estranho aceitar uma traição numa boa… Mas como dizem, só os latinos tem um sangue fervente…
    =*

    • R. M. Gonçalves Says:

      Acredito, Alice, que eles priorizam até o ponto em que a amizade valha mais que o amor. É ddifícil perder um amor, de fato; mas, mais difícil ainda deve ser perder uma amizade genuína… portanto…

  6. R. M. Gonçalves Says:

    “Dizem” que mais vale um amigo do seu lado, do que uma mulher que te traiu… mesmo que tenha sido com esse mesmo amigo.

    Pensamento popular: “minha mulher fugiu com o meu melhor amigo… … sinto muita falta ´dele`”.

    George foi sensato 😉

    Abs, Robson

  7. Anarcoplayba Says:

    São uns loucos esses ingleses.

  8. Renan de Dijon Says:

    “Que sei eu?” Montaigne.

  9. Pê Sousa Says:

    Olha, não sei se estou sendo um tanto puritano, mas pra mim traição é pura sacanagem mesmo, e imagino como fica a vida de quem é traído(a) e a vida de quem trai. No primeiro fica aquela sensação horrível de desesperança quanto ao amor; já no segundo, ainda que se possa curtir uns míseros instantes de realização para o ego, acredito que é apenas uma forma desesperada de esconder uma vida sentimental medíocre…

    Mas vá lá, né? Há gosto para tudo.

  10. Pê Sousa Says:

    Quanto mais quando o “outro(a) é o seu(sua) melhor amigo(a)…

    Mas pensando do lado filosófico, quem é o mais culpado: o companheiro, ou o amigo que deu em cima?

    Os mistérios humanos…

    Abs

  11. Uvinha Says:

    Chá deixa as pessoas mais calmas e sociáveis. Se tiverem que dar uma má notícia aos seus parceiros, façam como os ingleses: repassem a informação somente depois das 17h. Os resultados são comprovados. =)

  12. René Ramirez Says:

    show de bola, acho q a vivencia la é maior, na europa em geral a coisa é menos aspera como em paises latinos, não sei se por cultura ou educação !!!

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