Ninguém é punido por esse crime sexual contra a mulher


Como isso pode acontecer?

FALAMOS OUTRO DIA de O Anticristo, o filme de Lars von Trier em que somos obrigados a ver a bunda de Willem Dafoe mais do que gostaríamos. O que eu não disse foi o seguinte: a cena em que fechei os olhos (uma das, ok) foi aquela em que a mulher pega uma tesoura e, num desvario sexual alucinado, corta o clitóris como se estivesse cortando unha.

Ela estava se punindo pelo prazer que a fizera, na cópula desvairada com o marido pouco tempo antes, perder de vista o filhinho do casal. Que despenca da janela.

Bem, dando uma olhada no noticiário, vejo que no encontro anual de líderes mundiais em Davos, na Suíça, haverá um painel para discutir um assunto tratado pelas iniciais: FMG. Vou ver o que é e descubro que é Female Mutilation Genital, mutilação genital feminina. MGF, então. A extração do clitóris, em outras palavras. No filme, a própria mulher tirou sua fonte de prazer sexual, mas na vida real não é isso que acontece. É algo que se impinge.

Entre nós, brasileiros, não é um tema feminino presente nas discussões, ou estou errado? Mas no mundo é. Sobretudo na África e no Oriente, é comum a MGF, e já na infância, como se vê no perturbador quadro acima. Por trás disso, está a visão do sexo como pecado, aliada ao cinismo de dizer que é o equivalente da circuncisão masculina. É uma contradição monstruosa essa visão. Se o sexo não fosse prazeroso, a espécie humana estaria extinta há muito tempo. Nossos ancestrais teriam passado todas as noites jogando baralho e depois roncando, e nenhum de nós estaria aqui. De resto, em sua sabedoria acachapante e indiscutível, a natureza tem sempre razão. Se fez homens e mulheres em idade de procriação se olharem de forma diferente, tinha seus motivos. Não fosse o sexo e nenhum santo existiria. São Paulo, São Pedro, Santo Agostinho, nenhum deles teria oportunidade de fazer as coisas boas que lhes trouxeram a santidade póstuma.

As brasileiras, ao contrário de tantas outras mulheres em outras partes, estão livres do terror da MGF. É uma sigla que jamais vi no Brasil, aliás. Alguém viu? Imagino, porém, que de alguma forma as brasileiras sejam solidárias ao sofrimento alheio. Não correr o risco da tesoura errada (ou da faca errada) no lugar errado na hora errada pelos motivos errados é uma benção. Se eu fosse mulher (e nesse caso provavelmente seria lésbica), estaria pensando agora como é bom ser brasileira.

45 Respostas to “Ninguém é punido por esse crime sexual contra a mulher”

  1. Ninguém é punido por esse crime sexual contra a mulher « Fabio … – mulher Says:

    […] https://fabiohernandez.wordpress.com/2010/01/27/ninguem-e-punido-por-esse-crime-sexual-contra-a-mulhe…O que eu não disse foi o seguinte: a cena em que fechei os olhos (uma das, ok) foi aquela em que a […]

  2. Grace Olsson Says:

    Fábio, eu convivi, por 2 anos, com a África. E, uma vez, estava eu em Mogadisho, a Capital da Somália, quando me deparei com uns berros sem fim. Uma menina, de apenas 6 anos,e stava sendo mutilada.
    Olha, o que eu vi, NUNCA VOU ESQUECER.Eu tive pesadelos por um bom tempo.
    Outra vez, foi no Quênia. E eu perguntei aos pais da menina, como eles se sentiam ao ver a filha esperneando.
    A resposta?
    Alah vai cuidar melhor dela, se tiver o clitóris extirpado.Afinal de contas, Grace, mulher nao veio ao mundo para sentir prazer.
    Acho que o Mundo precisa se inteirar de assuntos desse porte.
    E ser brasileira, para mim, fez toda a diferenca naquele momento.

    Mas, um paradoxo foi vivenciado por mim. Ao saber que eu era brasileira, os homens de lá, enfatizaram o quanto seria maravilhoso ter uma mulher brasileira na cama. Segundo eles, SOMOS O PAIS DO FUTEBOL E DAS MULHERES SEDUTORAS.

    E eu disse a eles que TER O CLITÓRIS EXTIRPADO IMPEDE E MUITO DE SENTIR PRAZER. E que, talvez por sermos livres do estigma, sejamos mais felizes.
    E que eles têm mulheres lindas. MAS QUE VIVEM DEBAIXO DO JUGO.
    Ainda mantenho contato com alguns deles, via email e skype. Eles vao precisar de muito tempo para mudar o conceito sobre seualidade.

  3. Camila Says:

    Gostei da abordagem. Mostra que a religião quer condenar o incondenável, e que a defesa do nome de Deus/Alá/Criador é um disfarce para subjugar e exercer poder sobre as partes mais oprimidas dos povos que geralmente são as mulheres e as crianças.

  4. Karina Says:

    Também não conheço uma versão brasileira para FMG. Felizmente, é uma realidade que não nos cabe. A primeira vez em que li algo mais parecido com um relato a respeito dessa prática o que senti foi repulsa e uma angústia!…
    Se interessar a alguém, está nesta matéria, de 2006, que tem tb algumas outras considerações interessantes:
    http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2006/12/07/ult2682u292.jhtm

    As alegadas liberdades religiosa e cultural frequentemente escamoteiam coisas assim. Lamentável. Tanto pior quando o Estado está tão infiltrado na sociedade que traz ainda o pretexto da soberania para afastar essas críticas.

  5. Petite Poupée Says:

    Q maldita fé é essa?!?

    Eu só entenderia essa abuso como um ato de fé se cortassem a metade do pênis dos meninos também, ora bolas!!

    • R. M. Gonçalves Says:

      ai… só de pensar doeu até o cabelo!

      • Petite Poupée Says:

        É Robson… vc me vez lembrar daquele ditado q começa com refresco e termina com pimenta…só pra discontrair rs

      • Nicky Says:

        Aí doeu o cabelo?
        Na primeira vez que li sobre isso, tive um pesadelo horrível!

        É f**a.

  6. R. M. Gonçalves Says:

    Fabio, concordo com tudo que li até o momento; não tenho nada a acrescentar, a não ser a afirmação de que a religião culturalmente mal interpretada bestializa a humanidade! Por isso sou agnóstico 😉
    Abraços, Robson.

  7. Srta. O Says:

    Quando se entra no terreno da cultura de um país, tudo é obscuro e estranhamente respeitado, por pior que seja a crendice.
    É um absurdo tamanha ignorância desse povo ao destruir o órgão de prazer feminino, mas eles fazem isso em nome de algo maior. Se a gente for olhar os muçulmanos, por exemplo, vamos ver coisas terríveis sendo feitas em nome de um ser superior que vai os levar ao paraíso das sei lá quantas virgens. A nossa cultura, graças a Deus (lá vamos nós nos agarrar a ums er superior tb), nos deixa boas heranças nesse sentido.
    Mas que é de doer até a alma ler uma coisa dessas, isso é.
    Ai, ui. X/

    • Jorge Gustavo Says:

      Eu não tinha nada para comentar a respeito desta postagem, mas achei interessante quando vc cmentou sobre a questão cultural.

      Tudo bem, é de uma ignorância sem tamanho o que é cometido a milhares de mulheres que vivem sob este tipo de cultura e dou graças a Deus não vivermos sob a mesma égide.

      Mas, como vc falou, é uma questão cultural, que não vai ser transformada a menos que os próprios integrantes desta cultura optem por esta transformação.

      O colonialismo, em determinado aspecto, foi justificado por que caberia ao homem cristão-ocidental trazer o dito “selvagem” para as benesses do processo civilizatório: isto foi chamado de “fardo do homem branco”. Mas foi este fardo que culminou em choques culturais tremendos, gerando massacres étnicos sem tamanho.

      • Karina Says:

        Jorge (extensivo à Srta O.),

        No meu comentário fiz essa ressalva da diversidade cultural/religiosa justamente por reconhecer que frequentemente se recorre a esses argumentos em questões como essa. As liberdades e diversidades devem ser respeitadas? óbvio que sim! Mas para tudo há limites. Isso é extremamente complicado, eu sei, e dá margem a muitas distorções. Mas não é possível que uma mutilação seja admissível como aspecto cultural ou religioso. Nesse artigo cujo link deixei ali em cima essa questão é abordada… nenhuma religião há de defender que se mutile uma “obra divina” (muito embora o judaísmo tb pratique isso, só n sei baseado em quê exatamente)

        Os efeitos dessa agressão na mulher não são apenas psicológicos, assim como também não é só do prazer que a mulher está sendo privada, é de sua integridade. E numa fase da vida em que ela não tem defesa, é um ato covarde e desumano.
        Li relatos em que os futuros maridos das mulheres muitas vezes introduzem paus para abrir o orifício que acaba muitas vezes sendo quase totalmente fechado em função da cicatrização. E quando engravidam, muitas morrem tb pelo mesmo motivo, não há espaço para que os bebês possam sair.
        Isso tudo é contra qualquer lei, de deus ou dos homens.

      • Jorge Gustavo Says:

        Karina,

        Eu fui mal interpretado, por erro exclusivamente meu. Eu, obviamente, não concordo e repudio veementemente a mutilação genital feminina. Ela exemplifica minha crítica fundamental ao relativismo cultural, no qual tudo é aceitável, pois cada cultura seria soberana e autônoma.

        Porém, o extermínio desta prática não se dará por influência externa, mas sim deve partir de dentro da própria cultura onde ela é realizada. Somente os participantes da sociedade que a executa tem argumentos concretamente válidos para estimular sua interrupção.

        Você diz que tal prática é contra lei, de Deus e dos homens. Isto é relativo: nas sociedades judaico-cristãs, no qual o corpo é considerado o templo de Deus, de fato, é. No direito romano, praticado em nosso país, no qual o corpo é inviolável, também. Mas nas sociedades onde está prática existe, certamente, o praticante não está violando os princípios do sua religião ou do seu sistema legal.

        Caberia ao Estado onde tal prática é realizada, transformá-la em crime. Mas, sobretudo, caberia à sociedade onde tal prática é realizada também considerá-la como tal.

      • Karina Says:

        Ah, sim, agora ficou mais claro. Também acredito que essas mudanças devam partir da própria sociedade. Se as partes afetadas têm força e voz para uma “revolução”, aí é outra história, mais um capítulo a ser discutido.

        E quado falei que é contra a lei de deus e dos homens não me ative à lei no seu sentido literal. O que é legal não é necessariamente legítimo, e é a isso que me refiro.

      • Jorge Gustavo Says:

        Karina,

        Vc tocou num ponto importante: o que é legal não é necessariamente legítimo. Fiquei curioso pois eu tenho para mim que tudo o que é legítimo não é, necessariamente, legal.

        Peguemos como exemplo a sobrevivência. É legítimo eu fazer tudo o que estiver ao meu alcançe para garantir minha sobrevivência. Mas esta legitimidade se perde quando eu decido roubar algo do meu semelhante para tal, passando a ser ilegal.

        Você poderia desenvolver?

      • Karina Says:

        Humrum.

        Legítimo é tudo aquilo admitido pelo bom senso. O fato de eu ter dito que o que é legal n é necessariamente legítimo não exclui seu raciocínio de que o que é legítimo não é necessariamente legal. Ambas as afirmações só confirmam que legalidade e legitimidade podem se associar mas não devem se confundir. E essa dubiedade interpretativa é benéfica no sentido de que permite uma maior justiça. Aí voltamos ao seu exemplo: roubar é ilegal. Mas roubar numa circunstância extrema não pode ter o mesmo peso que o roubo praticado por razões muito menos legítimas. Deve ser punido? sim. Com a mesma severidade? creio que não.
        Cada caso, um caso.

      • Karina Says:

        concluindo…
        nesse exemplo, eu não diria que a legitimidade se perde diante da ilegalidade do ato, diria o inverso: a ilegalidade acaba se diluindo (n se perdendo, pq crime há) diante da legitimidade da motivação.

      • Jorge Gustavo Says:

        Karina,
        Mas esta é uma das críticas ao direito no qual vivemos, o qual criminaliza em igual medida atos de legitimidade diferentes. Mas esta questão é muito delicada: o que determina o que é ou não legítimo? Vc diz que legítimo é tudo aquilo admitido pelo bom senso. Mas quais as normas que regem o bom senso?
        Poderíamos dizer que bom senso é tudo o que é moralmente aceitável. Mas qual o conceito de moral? Moral é tudo aquilo que atenderia aos anseios do maior número de pessoas (utilitarismo) ou tudo aquilo que é considerado aceitável pelos padrões culturais vigentes em uma sociedade em determinado período histórico?
        Se nos atermos ao conceito utilitarista, o direito à subsistência é moral e, portanto, legítimo, pois atende ao maior número de pessoas. Mas, se para garantir a minha subsistência eu roubo uma laranja ou enfio dinheiro na meia, estou sendo imoral, precisando ser punido na mesma medida.

    • Fabio Hernandez Says:

      Srta O! Acabo de ver R por aqui e em seguida vc. Mundo pequeno!

  8. Nicky Says:

    O meu choque maior, aos 16 anos, quando li sobre isso, foi saber que há MULHERES que têm isso como profissão.

    Uma mulher tirando de uma menina a chance de se tornar mulher algum dia…

    Toda vez que eu vejo essas coisas, penso: Como é bom ser brasileira!
    Mas também me sinto minúscula diante de tamanha crueldade e frieza.

  9. Heleno Says:

    É o mais devastador disso, disso tudo é que a pobre criança ainda pode morrer devido as precárias condições de higiene (lâminas enferrujadas, sem fio de corte… contaminadas…) e as que sobrevivem nunca sentirão prazer algum.

    Eu tenho um grande amigo que vai ao bar que freqüento regularmente (aquele em que trabalhava o garçom búlgaro) que sempre dizia: “o céu e o inferno são aqui, na terra. Basta viajar…”

    Ainda bem que vivo em uma sociedade que apesar de muitos problemas, de ainda não respeitar totalmente a mulher em sua plenitude de igualdade com nós homens, as temos como serem humanos em pé de igual e parceria em nossas vidas (amorosa/sexual).

    O que foi retirado daquela criança que posteriormente irá ser uma mulher adulta é a sua condição humana plena. Apenas cabe aos homens caçadores, fortes e saudáveis o controle da tribo e o direito ao prazer sexual. À mulher, cabe apenas ter filhos, prepara alimentos e cuidar do homem.. e como em algumas caçadas os homens ficam até semanas longe da tribo, a retirada do clitóris significa “que ela será fiel, pois não sentirá desejo sexual para traí-lo… com outro homem” … além de outro detalhe: em muitas tribos, os casamentos são arranjados e a mulher só pode casar uma única vez.

    Isso é uma coisa que entra em conflito profundamente com nossa cultura/crenças ocidentais sobre matrimônio, vida sexual e direitos humanos.

    Apesar de saber o porquê, isso ainda muito me choca.

  10. Jorge Gustavo Says:

    PS:

    É claro que o papel dos organismos internacionais e demais entidades de direitos humanos é pressionar para que o Estado do país onde exista a prática a criminalize e, simultaneamente, obtenha autorização para divulgar dentro da sociedade em questão os perigos e riscos que tal procedimento causa ao sexo feminino.

    Mas, uma vez que isto tenha sido feito, o protagonista é a sociedade na qual esta prática exista.

    • Jorge Gustavo Says:

      Pressionar, melhor dizendo, no sentido de utilizar-se de diplomacia, pois cada Estado é soberano.

  11. Anarcoplayba Says:

    É filhadaputice sofismática, mas esse é o argumento que eu uso sempre quando vejo gente defendendo a liberdade religiosa irrestrita.

    As pessoas adoram lembrar da liberdade religiosa, mas se esquecem que você não deveria ser livre para atentar contra a liberdade dos outros. Voltaire falava que mesmo que discordasse de você defenderia até a more seu direito de expressar sua opinião, não o seu direito de explodir quem discorda de você.

    • Karina Says:

      Gosto muito desse pensamento do Voltaire, Anarcótico. Lembro de tê-lo lido num livro didádico no alto dos meus… 12 anos, acho… e foi amor à primeira vista.

  12. Jorge Gustavo Says:

    Ontem à noite eu estava pensando sobre esta discussão, em que medida determinados tipos de comportamento, aos olhos da cultura no qual nos inserimos, podem ser considerados inaceitáveis, quando me deparei assistindo ao programa “Taboo”, no National Geographic.

    Neste programa, abordaram três casos: as mulheres-girafa da Tailândia (que utilizam anéis de latão ao redor do pescoço, de modo a abaixa os ossos do ombro, dando-nos ilusão de ótica que o pescoço foi alongado), a obsessão com perfeição estética norte-americana (no qual um homem, em forma, quis implantar bolsas de silicone nos glúteos, aumentando-os) .

    Mas o caso que me chamou a atenção ocorre em Darfur, Camarões, no qual as mães e avós aquecem pilões de madeira e pressionam nos seios das suas filhas e netas em fase de início de puberdade, contendo, ou mesmo interrompendo, o desenvolvimento dos seios.

    Tal procedimento é justificado pela mãe de uma criança pois, desta forma, ela estaria retardando a entrada da filha na fase adulta, de modo que ela não desviasse a atenção dos estudos ou corresse o risco de engravidar antes da hora, envergonhando a família e perdendo a chance de ter um bom casamente e um futuro promissor.

    O que mais me chamou a atenção é que a criança submetida a esta prática também desejava ter seus seios achatados, tal qual as meninas da Tailândia que, aos 10 anos, já dizem que farão as mesmas coisas quando tiverem filhas. Em Darfur, estima-se que mais de 8 milhões de mulheres, entre 8 e 80 anos, tiveram ou terão seus seios achatados.

    A antropóloga entrevistada, após a criança admitir que queria o procedimento, levantou uma questão importante: o que pode parecer irracional aos olhos da nossa cultura, são plenamente compreensíveis e socialmente desejáveis para outra.

    Então, fica aqui a questão: é óbvio que a MGF e o achatamento dos seios são uma afronta ao sexo feminino, mas até que ponto as mulheres submetidas a estas práticas não foram culturalmente ensinadas que é assim que deve ser e, portanto, desejam e até se encarregam de dar prosseguimento a elas?

    • Anarcoplayba Says:

      Eu arriscaria dizer que liberdade não se pede, se toma ou se conquista. Se elas querem achatar os seios, fazer o q… agora, contra a vontade das crianças? Complicado.

      Eu, pessoalmente, ainda colocaria um outro ponto: Será que os motivos por trás da MGF e do Achatamento são os mesmos? Em um, querem que a mulher não se distraia dos estudos… no outro, é porque as mulheres “não nasceram pra sentir prazer”. Pessoalmente, acredito que sejam situações diferentes.

      Eu manteria a discussão orbitando em torno da liberdade: não existe liberdade dentro de um propósito, e somos livres para escolher nosso propósito. Ou seja, paradoxalmente, podemos escolher como vamos perder nossa liberdade.

      Se elas querem usar anéis de latão, achatar os seios, trincar os dentes (http://anarcoblog.wordpress.com/2007/09/18/quanto-mais-eu-assisto-national-geographic-mais-fico-feliz-por-ser-ocidental/), ok.

      Agora ser coagida a extirpar o clitóris, não ok.

      Ainda sobre o tópico, lembremos dos nossos piercings tbm, que não são nada muito diferente.

  13. Karina Says:

    Que o conceito de bom senso caia na pantanosa subjetividade tb não estou negando, por isso disse que lei e legitimidade não devem se confundir. Se isso fosse possível, todas as leis seriam legítimas e vice-versa, então n estaríamos aqui discutindo essa questão. É subjetivo, sim, e essas decisões sempre vão depender, em último caso, de todo o histórico do julgador.

    Vc colocou isso como uma crítica ao Direito. A crítica existe, sim, mas é inerente a ele. Que alternativa poderíamos propor? Não legislar pq não se podem assumir critérios claros que se enquadrem a toda infinitude de casos? Complicado, né? Nosso Direito ainda é muito mais pontual do que o americano, p.ex., já que as bases são diferentes. Então o Direito aplicado lá é mais suscetível de ser injusto que o daqui?

    Quanto ao bom senso estar atrelado à moralidade… sim, é a definição que melhor cabe, a meu ver. E aí voltamos à relativização. Já acordamos que as diferenças devem ser respeitadas e que o problema surge quando enxergamos uma diferença como algo além disso, como o caso da mutilação. Então abro um parênteses: uma vez, numa discussão a respeito das mulheres afegãs e o Talibã, a jornalista Ana Paula Padrão, que esteve lá na época da invasão americana, deu uma declaração que me clareou bastante a mente. Ela disse que o problema não é as mulheres usarem burcas ou não serem “livres”, o problema é não lhes ser dada oportunidade de escolha.
    Depois disso, passei a estender esse raciocínio a muitas matérias. Óbvio que em nenhuma sociedade temos total liberdade. E não estou falando só das leis declaradas. Falo tb da leis “invisíveis” com as quais convivemos desde que as sociedades se formaram. Bem ou mal, somos tolhidos desde o nascimento. Mas, Jorge, se apelarmos para a relativização com relação a TUDO, nos omitiremos sempre, e as barbaridades vão sendo eternamente cometidas. É complicado, muito complicado, e enquanto escrevo isso vou pensando em várias práticas tb abomináveis pra mim, como as tailandesas que vc mencionou aqui em cima, mas que consigo tolerar como cultural. Então penso tb na prática que algumas tribos indígenas têm de sacrificar gêmeos, ou bebês com alguma deformação. Para isso as entidades indígenas fecham os olhos tb. E achamos normal? Normal para nós? Normal para eles?

    Enfim, Jorge, não chegaremos a conclusão nenhuma pq acho que é impossível chegarmos a algum raciocínio fechado nessa discussão. Há valores maiores que estão acima de qualquer relativização ou subjetividade, mas como extraí-los desse emaranhado cultural a ponto de torná-los realmente universais e objetivos, como muitos exigem do Direito, impossível. Mas se essa troca de opiniões nos servir para expandir um pouco mais nosso horizonte, já é um ganho e tanto.

    • Jorge Gustavo Says:

      Karina,

      Eu concordo com vc, mas acho que o conceito de barbárie é, assim comos os demais conceitos que tratamos, subjetivo.

      Veja o caso das meninas em Darfur: a própria “vítima” do achatamento dos seios não o julga uma barbárie! Se ela própria não se considera uma vítima, o que se pode fazer para fazê-la se sentir como tal?

      Foi interessante vc mencionar a questão da liberdade de escolha pois, por exemplo, as meninas da Tailândia (do povo Kaya) tem a opção de não utilizar os anéis e, ainda assim, optam por fazê-lo por se tratar de um costume cultural e, portanto, socialmente aceitável.

      Tendo isto em vista, caberia a nós dizer o que é barbárie, se as próprias sociedades não a vêem como tal?

  14. Heleno Says:

    Isso não acontece ao acaso, faz parte da uma cerimonia de iniciação da vida sexual de uma garota que vira mulher…

    • Heleno Says:

      O ritual da estirpação clitóris em sí para nós, ocidentais é chocante e até desumano. Mas para a tribo é um ritual de fé – tal como as luvas recheadas de formigas tucandeiras (Alto Xingu-Brasil) que os índios colocam nas duas mãos dos jovens e eles desmaiam, sem esse ritual eles não pode ser considerados homens.

      E como já foi dito neste tópico:

      “A religião culturalmente mal interpretada bestializa a humanidade!”

      Eu trocaria a palavra religião por “cultura”.

      Abraço a todos.

      • Fabio Hernandez Says:

        Uma coisa tem que ser considerada: a supressão do prazer sexual traz tb a supressão de muitos tormentos provocados pelo sexo.
        Palavras do Buda. Que para se livrar da tentação conseguia transformar mentalmente qualquer mulher gostosa num monstro repulsivo.

  15. R Says:

    A discussão está interessante, mas é muito complexa e dificilmente chega-se a uma conclusão comum. Temos que considerar alguns pontos (acho):

    1 – Antropocentrismo. Na acepção da palavra em que se tende a julgar os outros a partir do nosso ponto de vista cultural, religioso, moral… Infelizmente isso sim, leva a ausência liberdade cultural, como está sendo questionada aqui.
    Se fugimos do nosso ponto de vista, os exemplos dados na discussão deixam de ser “bárbaros” e passam a ser fatos do cotidiano, assim como a mutilação de seios com colocação de uma substância estranha sob a glândula mamaria ou a extirpação de células adiposas com uma agulha de grosso calibre, que são aceitos na nossa sociedade com o nome de cirurgia plástica (sim exagerei na descrição, mas a hipérbole era necessária).
    Claro que dirão, mas a mulher aqui tem escolha de fazer ou não; sim têm, bem como as “mulheres-girafa”, as meninas de Dafur, os índios do alto Xingu. Só que algumas são culturalmente e socialmente “pressionadas” a fazerem.

    2 – Legalidade e legitimidade: ora, é simples e fato, as leis não servem ao indivíduo, a lei serve a sociedade, com o objeto de tornar a vida coletiva possível e não para tornar a vida individual mais fácil. Assim, não é possível relativizar a lei, justificando-se com situações extremas. Daqui a pouco justificaremos assaltos, sequestros, assassinatos e outros, por terem sido necessários a um indivíduo. Ou ainda diremos que roubar e até mesmo matar para comer (novamente hipérbole necessária), deve ter a pena reduzida ou ser punido com menos severidade.

    3 – Não estou defendendo nenhuma cultura, só estou dando o direito delas existirem. A minha opinião pessoal sobre acontecimentos de outras culturas, não interessa a ninguém.

    4 – Concordo absolutamente com a colocação que toda mudança dentro de uma sociedade e cultura deve acontecer no seu interior e não ser uma imposição externa.

    Termino com um texto interessante, da minha época de universidade, já faz algum tempo:
    http://arquivoculturamauff.blogspot.com/2009/08/ritos-corporais-entre-os-sonacirema.html

    Abraços

    • Karina Says:

      R,

      Li o texto do link. Não vou me alongar mais pq acho que já me esgotei e daqui pra frente corro o sério risco de ser redundante. Não vamos mesmo sair dessa discussão.

      Só vou comentar o item 2, que parece mais especificamente dirigido ao que eu disse anteriormente aqui. Quero deixar claro que eu NÃO disse em momento algum que a lei não deva ser respeitada. Pelo contrário. Acho até que defendi tanto o Direito que vou parecer lobista dos togados rs O que eu disse foi que, felizmente, legal e legítimo não se confundem. Se isso para vc inviabiliza a Justiça, para mim é um primeiro passo para que a Justiça possa ser mais justa. E, desculpe, mas as hipérboles nesse caso não são necessárias; elas só distorcem as ideias, geram confusão e dão ensejo a uma conclusão simplista de questões que não são nada simples.

      • Karina Says:

        ai, meu primeiro parágrafo soou bem pretensioso, como se alguém tivesse solicitado minha opinião! Explico: eu disse que li o texto. O que falei depois foi para justificar o porquê de eu n comentar a respeito do texto, já que mencionei tê-lo lido. só.

      • Anarcoplayba Says:

        Claro que vc defendeu o Direito, Nê: Vc me adora.

      • Karina Says:

        Ó, ainda não tínhamos fugido do tema do post… vem vc com essas ilações!…

    • Fabio Hernandez Says:

      R, você por aqui!

  16. Petite Poupée Says:

    Eu sugiro a presença do nosso mediador Fábio, onde está vc?

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