Numa traição, o problema maior é de quem trai, e não de quem é traído


Muitos brasileiros bravos deram a vida na Guerra do Paraguai

ESCREVI TANTO sobre traição nos últimos dias, e presenciei um debate tão instigante entre os convivas deste blog, que me lembrei agora há pouco de um conto menor de Machado de Assis que trata exatamente disso: Um Capitão de Voluntários. Gostaria que fosse lido e discutido aqui, se não for um incômodo. Ei-lo.

Bem, o narrador é quem trai. Tudo é sutil, como sempre, em Machado. O traidor é tomado por um remorso que não é grande senão por fazê-lo sentir-se pequeno. A traidora se atormenta, mas já não há volta: perde o velho amor e não quer quem pode ser o novo. O traído, o capitão do título, vai estoicamente ao encontro de seu destino. Não explode, não enlouquece, não comete crime nenhum em nome da honra. Apenas alista-se em uma guerra, a do Paraguai, onde se comporta com uma coragem temerária que sugere ao narrador que o amigo traído estava buscando, muito mais que o brilho das medalhas, a paz da morte. Os sobreviventes que seguissem adiante com o peso da culpa.

Não sei dizer por que, ou talvez saiba, Um Capitão de Voluntários foi, durante um bom tempo, uma de minhas obsessões literárias. Li-o várias vezes, citei-o em contos outras tantas, sugeri sua leitura não sei em quantas ocasiões. O capitão, nomeado apenas no final, é um grandioso desconhecido personagem da literatura brasileira. Bravo, forte, controlado, ele de alguma forma remete ao homem vivido por Clint Eastwood em Gran Torino naquele instante em que ele diz à sua improvável e jovem amiga chinesa que é preciso muito cálculo ao tomar uma decisão como a que as circunstâncias exigiam dele.

O capitão, e talvez daí venha minha enorme admiração por ele e por seu criador, é uma eterna lembrança de que, na traição, o ônus maior cabe a quem trai, e não a quem é traído.  Santo Agostinho, num momento em que monjas católicas se matavam em série depois de terem sido estupradas num convento tomado por bárbaros, estancou os suicídios ao afirmar que o opróbrio é de quem pratica e não de quem sofre a violência sexual. A mesma lógica vale para a traição, por mais que, em sua incomparável leviandade amorosa, pareçam leves e felizes homens e mulheres que voltam de um encontro sexual e, na maior, afirmem que a reunião na firma demorou mais que o esperado e o celular tinha que permanecer desligado.

30 Respostas to “Numa traição, o problema maior é de quem trai, e não de quem é traído”

  1. Nicky Says:

    Estou lendo texto…

    Mas já viu aquele filme “Closer”?

    É engraçado como a personagem da Julia Roberts não consegue ser feliz se não estiver traindo. Primeiro, trai o Clive Owen com o Jude Law. Depois trai o Jude Law com o Clive Owen. Depois volta pro Clive Owen!

    E a Natalie Portman também está demais. Adoro as falas dela.
    Pra mim, o filme é um clássico sobre traições.

    (Depois eu comento o Machado)

    • Karina Says:

      Vc falou de Closer, mas enquanto ia lendo o conto me lembrei foi de Simplesmente Amor, da cena em que ela identifica no vídeo do casamento a paixão sofrida do melhor amigo de seu recém-marido. A passagem seguinte, em que ele sai desnorteado pela rua, com aquela música de fundo… ai, ai, ai… Pra completar, só mesmo a outra cena, final, das cartolinas, pra mim de uma delicadeza… 🙂

      • Fabio Hernandez Says:

        não seria o caso de ela dar a ele por misericórdia? um fight pro cara tirar o fantasma da frente. acho que eu poria isso no roteiro.

  2. Karina Says:

    Sobre o conto… acho que devia ler mais contos. E mais contos machadianos, pq ele tem umas belas pérolas escondidas. Nunca ia imaginar que uma das frases mais marcantes de seus textos seria dele: “não é grande senão por me fazer sentir pequeno”. Uau!
    “Cruel como um cossaco russo” agora está sob suspeita! Vai ver tio Fábio tenha andado plagiando tb rs

    Sobre traição… o que eu tinha a dizer está dito. E acredito, sim, que doa mais em quem trai. Se n for assim, é o decreto final de que a situação n merece qq sofrimento por parte de quem foi traído. Bola pra frente que atrás vem gente.

    • Fabio Hernandez Says:

      vc está sendo cruel como uma cigana búlgara. K.
      a cartomante, o alienista, dois grandes contos do Machado. ele não foi só o maior romancista brasileiro, foi tb o maior contista brasileiro.

      • Karina Says:

        pois é, li alguns, esses inclusive, mas talvez os melhores sejam os menos badalados. Dois me surpreenderam nos últimos tempos (este do post foi um), e nunca tinha ouvido falar neles. Se bem que minha época machadiana passou faz um tempinho, período da escola. Foi de um querido professor, inclusive, que ganhei um livrinho de contos dele qd tinha lá meus 15 anos. Na dedicatória, aspas de Paulo Mendes Campos: “não há nada, no melhor de sua obra, que se entregue de braços abertos à primeira leitura.”

      • ana Says:

        não há nada, no melhor de sua obra, que se entregue de braços abertos à primeira leitura.”

        aham

  3. Srta. O Says:

    O que é mais bonito de se ver nos contos de Machado é a sutileza em que relata a tragédia e o amor. Quanto a traição, não sei. Já me peguei inúmeras vezes debatendo essa questão entre roda de amigas e olhe, dói ser traído, assim como dói trair. Agora, mensurar o tamanho da dor é relativo. Há os que traem e não vestem o traje da culpa, assim como há o contrário. O certo é que não há regras, em se tratando de amor, tudo ganha lentes de aumento.

  4. R. M. Gonçalves Says:

    Closer realmente é um ótimo filme!
    Quanto à traição, concordo com o texto, com a lógica do conto e com a Karina.
    Em outras palavras, penso que o indivíduo deve amar muito mais a si mesmo do que a outrem. Desta forma, descobrir uma traição não afetará em nada a quem possui amor próprio, bastando simplesmente romper a relação, seguir adiante e procurar outro parceiro, preferencialmente com um sorriso no rosto, não é Fabio?
    Ahhh… como é bom iniciar algo novo (sem apelar para traição); aquela fase da conquista, dos carinhos… Será que a sensação é sempre a mesma, não importando a sua idade? Não sei…

  5. Says:

    Acho que quem trai nunca conseguirá felicidade plena na nova relação. Bom, na verdade isso é mais o que eu desejo e não o que eu acho, rs Devo estar jogando uma “praguinha” em alguém que ficava trabalhando até tarde e não atendia celular…

  6. Anarcoplayba Says:

    Assistam Soldado Anônimo (Jarhead, em inglês). Morrer em batalha por raiva do chifre é muito aquele filme…

    De resto… existem tantos tipos de infiéis quanto de infidelidades. Os que se sentem culpados… e os que simplesmente move on.

    • Fabio Hernandez Says:

      vou assistir

      • Heleno Says:

        Fábio, assista também: Dedication (2009) no Brasil “Uma história de Amor” não é bem sobre traição… há três personagens que fazer a história ser tão contundente quanto “O brilho eterno de uma mente sem lembranças”… um dos atores participou do BEDMSL… eu achava ser “água-com-açucar” mas por ser um filme “independente” me surpreendeu… amargura, fobia e amor.. tudo misturado!

        http://www.dedicationmovie.net/

      • Fabio Hernandez Says:

        grato pela dica, Heleno. vou ver.

  7. Petit Poupée Says:

    Ah…o olhar de ressaca…adoro

    Sabe Fábio, eu acho q o q está em jogo em Machado não é a traição, nem o traidor/traído, nem remorso/culpa. O que está na mesa é o Amor.

    Façam suas apostas!

  8. Heleno Says:

    Acredito que “Memórias Postumas de Bras Cubas” é o melhor história de Machado de Assis quando falamos sobre traição e amor. É miserável e ao mesmo tempo, bonita.

    Mas o conto do Capitão é igualmente interessante, parabéns Fábio.

    E na traição, o problema maior vai depender de quem tiver algum sentimento: culpa, ressentimento ou amor. Há gente sem remorso que age patologicamente, livre de culpa, e faz o que faz… e há pessoas que sentem toda culpa do mundo, até por ser traído(a)… quando você coloca alguém acima de “tudo” e “todos”.

    O segredo contra a traição é a auto-estima elevada. Pode soar egoista, mas se você mesmo não se ajudar, quem irá?

    E hoje vou naquele bar da semana passada, pedir vodka ao atendente búlgaro. Aconteceu uma história interessante comigo, e pude testar uma máxima do “Manual do Boêmio”. Mas isso é outra historia.

    • Fabio Hernandez Says:

      Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas.
      Os três maiores Machados, de longe.
      Um Capitão é uma obra menor que, por algum motivo obscuro, me laçou.

      Para mim, a melhor maneira de lidar com a traição é entender que ela é ampla, eterna, universal. Mais ou menos como o sofrimento segundo o budismo.

  9. Moça Bonita Says:

    Boa Noite Fábio,

    Creio que o personagem de Clint Eastwood em Gran Torino também se assemelha ao Emílio de Machado pela covardia mascarada de uma pseudohonra. Um não encarou a doença o outro a peja do chifre.

  10. Menina Veneno Says:

    Que isso Mr.Fábio? Clemência pra o traidor

  11. Jeh Says:

    Srta. O, Adorei a frase: “O certo é que não há regras, em se tratando de amor, tudo ganha lentes de aumento.”

    E realmente, não presisa não amar a pessoa em que vc esta para poder trair, trair = atração, momento, as vezes necessitamos de um momento de porazer diferenciado, um bem estar proprio, relativamente diferenciado do prazer senttimental com a pessoa amada. Traição não é egoismo, e sim satisfação pessoal e se seu coração pertencer a uma só pessoa, não vejo problema em estar com outra, não vejo até como uma traição.

  12. fabiana Says:

    oi, vocês estão falando de traição, dando suas resposta, mas o que vocês diriam se soubessem que uma pessoa foi caçada por 23 anos com essa pessoa que se passava por santo incapaz de qualquer mal ou qualquer traição. derrepente essa pessoa é assasinada sem nenhum motivo aparente, pois era querida por toda da família e principalmente pela a esposa e amigos. depois de sua morte surjem os boatos que ele morreu porque estava tendo um caso com uma mulher de bandido e que foi esse bandido que o matou. imaginem o choque da esposa e de toda a familia. é possivel com uma história assim continuar acreditando no ser humano? imaginem comoficou essa esposa.

  13. Says:

    Este tema polêmico é de infinitas interpretações, porém quando falamos de dor e sofrimento devemos estar atentos a pior das traições é a que cometemos a nós mesmos…Quando somos traídos sabemos que antes de mais nada negamos em nós mesmos aquilo que a muito já sabiamos. A intimidade, a relação em muito deixa claro a traição. O traidor é sempre aquele que trai em primeira instância sua intimidade, se afasta, não se relaciona por inteiro a meu ver deviamos pensar em um dualidade cruel, medo de se entregar ?..Quanto ao traído, a dor imensa de trair a si mesmo ao se defrontar com a sua impotência diante do outro, diante do desconhecimento total do que o outro é na sua vida, diria que trair-se a si-mesmo, está no traidor quando êle que julgou e jurou fidelidade não é capaz de honrar a si mesmo, o traído em sua dor percebe que traiu a si mesmo ao entregar sua vida a alguém que não seria capaz de cumprir esse juramento…É cruel na maioria dos casos, fora os isentos de culpas ou vingativos a dor é a de ser enganado…

  14. Erika Says:

    Fui traída pelo meu namorado, a dor é tão ruim que me deixa sem saber o que fazer!! Poxa tem sentimento e é ruim!

  15. turbo force composi袯 Says:

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