O que assassina o amor é a lorota premeditada


O amor traído termina como a Ofélia pré-rafaelita: sem respiração

MINHA AMIGA BLONDE acha que peguei duro na questão da traição. Que fui muito careta. Blonde usa muito bem as palavras, e me fez pensar uma segunda vez no assunto.

No entanto, mantive fundamentalmente minha idéia. A traição mata um romance.  Afoga o amor como se este fosse a Ofélia pré-rafaelita de Millais. Ninguém perdoa, embora muitos homens e mulheres finjam perdoar. A confiança amorosa leva uma vida para ser construída e um passo falso a destrói num segundo.

Agora. Se existe num casal um acordo em relação a um sexo aberto, aí é outra história. Não configura traição. Há até uma cumplicidade na decisão de cada um ampliar, por acordo, seus limites sexuais e afetivos. Muito bonito. Mas dá certo? Para ser franco, jamais vi um caso de casamento aberto que efetivamente funcionasse. Não sei se Blonde conhece algum. Esqueci de perguntar.

Alguém conhece?

Quanto à traição clássica, ela é imperdoável porque envolve mentira e hipocrisia, como vocês devem ter visto no caso da primeira-dama da Irlanda do Norte, a sessentona que finalizou um garoto bonitinho 40 anos mais moça enquanto frequentava a igreja e dava lições de moral para os pecadores. Quantas vezes ela terá dito ao marido que ia esticar o expediente, ou que ia visitar uma amiga, quando na verdade ia  entregar os vestígios de sua beleza perdida a um adolescente? O marido pediu licença de seis semanas e disse que perdoa a mulher, mas quem acredita nisso, como disse Wellington, acredita em tudo.

Mais que a traição em si, o que assassina o romance é a lorota premeditada. É o homem ou a mulher chegar tarde em casa e ainda receber um leitinho quente em solidariedade de você num pós-coito em que você é um obstáculo a superar rumo à cama.

Se você combina com sua namorada ou seu namorado que ninguém é de ninguém, é outra história. Mas nunca vi isso de verdade. Vi, aqui e ali, ilusões de liberdade sexual, despedaçadas pela dura realidade de uma ausência de ciúme que costuma ser minada pela consciência da cópula do outro com um terceiro ou uma terceira. É uma situação que funciona bem melhor na fantasia do que na realidade.

Mas posso estar enganado, como gosta de dizer minha amiga Blonde. Posso sempre estar enganado.

27 Respostas to “O que assassina o amor é a lorota premeditada”

  1. Anarcoplayba Says:

    Já tive, algumas sex-friends, que são mulheres com as quais eu não hesitaria um segundo em passar uma tarde agradável, quer seja tomando sorvete, vendo um filme, ou transando como coelhinhos epiléticos.

    Mas Relacionamento aberto? De verdade? Nunca vi um saudável.

    Eu, filosoficamente, até mesmo acharia bonito: ninguém é de ninguém e, ser capaz de dividir uma vida com alguém sem o sentimento de posse, sem o sentimento de “My Preciouuuusssssss”, é lindo.

    Mas não me sinto preparado pra isso ainda. E acho que a humanidade tbm ão está preparada pra isso.

  2. Nina Says:

    E as traições não-sexuais? De princípios? Ideologias? (não que uma traição sexual não seja uma traição de princípio – o princípio da monogamia, mas acho que vcs me entenderam). O que será que dói mais? Há diferenças?

    • Fabio Hernandez Says:

      Traição não sexual.
      Se for de princípios, fod .., quer dizer, ferrou. É o fim.

      Outro dia, Nina, melhor, Ninotcka vi uma reportagem sobre o Camus (O Estrangeiro é biblioteca essencial) nos 50 anos de sua morte. Numa polêmica que envolveu sua mãe, ele disse: “Entre trair a justiça e trair minha mãe traio a justiça.” Trés belle.

  3. R. M. Gonçalves Says:

    Acredito que um casamento aberto, como referido no texto, além de ser falso, deveria ser caracterizado como insanidade mental.
    Normalmente quando um ser humano deseja algo (comer um pastel, beber um copo de veneno, traçar a empregada) é porque ele quer preencher um vazio. Ora, compactuar um conúbio no qual há a necessidade de expandir os horizontes sexuais é no mínimo deprimente; “algo falta” ao casal que os fazem querer buscar fora, em outras pessoas. Pode ser a falta de auto-confiança, de respeito ou de vergonha da cara mesmo! Um parafuso a menos. Pode funcionar no começo, mas depois… não consigo — dessa forma — idealizar uma “família” (no sentido literal da palavra).

    • Heleno Says:

      Concordo. Também acho insanidade mental.

    • Ana Says:

      Discordo em gênero número e grau. O sexo é bom, mas muito pouco para fundamentar a nossa vida e muito menos para julgar caráter de uma pessoa.

      Relacionamentos abertos dão errado por causa do frissom que causará entre terceiros- e pelo fato de que todo mundo sempre quer fidelidade sexual, mas nem sempre quer dar, por uma questão ainda puramente cultural.

      No dia em que conseguirmos manter tais relacionamentos acho que conseguiremos realmente ser livres no amor. Não consegui e cada vez menos acho que conseguirei, mas é tudo por uma possessividade e insegurança instaladas desde a infância e através dos séculos.

      Ou não.

      • Heleno Says:

        “Felizes mesmo sãos lobos, que escolhem uma parceira (e vice-versa) para o resto da vida.”

        Ana,

        Sexo serve sim, para julgar o caráter de uma pessoa… nossa sociedade prova isso. Veja os rótulos deploráveis sobre quem faz muito sexo, seja homem (garanhão) ou mulher (…) julgar é alheio a nossa vontade… quem mora em apto sabe 😀

        Afirmo que é insanidade mental porque amor é possessividade, e exclusividade. E sim, é culpa de nossa cultura ocidental. Quando você abre mão destes dois sentimentos, é sinal que o seu amor não era tão “amor” assim, então é “insanidade” continuar em um relacionamento que vai te render.. algum retorno financeiro ou sexual… no final, não compensa, é uma tragédia… estar preso a alguém que não por amor…

        O relacionamentos abertos em determinado momento dão errado, porque alguém acaba se apaixonando pelo “estranho(a)”… a brincadeira fica séria… e alguém sofre.

        Ou não.

      • Anarcoplayba Says:

        Ctrl+C e Ctrl+V no comment do Heleno.

      • Fabio Hernandez Says:

        hahaha

      • ana Says:

        sexo serve para determinar caráter…mas não deveria…

        “porque amor é possessividade, e exclusividade”…bem, amor é tudo menos isso. Já disse alguém que “só possuirás uma borboleta se permitires que ela voe”. Claro, sempre funciona melhor na teoria do que na prática. mas pensamos do mesmo lado, apenas queria uns subjuntivos a mais 😀

  4. Karina Cabral Says:

    Eu conheço um casal que mantém a proposta de relacionamento aberto há mais de 30 anos. Um casamento lindo, apaixonado até hoje, com filhos e tudo. Não sei como conseguiram, sinceramente.

    Sobre traição… Eu concordo com tudo que foi dito, neste e no post anterior, sobre lealdade, sobre confiança, sobre vasos quebrados, sobre tentativas frustradas de perdão e reconciliação.

    Mas, de todos os casais que conheço, e olha que conheço muita, muita gente… Conto nos dedos de uma mão os que nunca traíram um ao outro, ou um, ou outro. E aí pergunto: é possível um relacionamento longo e duradouro sem traição?

    Eu não sei responder essa pergunta.

    Toda vez que fui traída, terminei por confessa incapacidade de apagar o passado, de perdoar. Nunca traí, mas tive vontade, quase irresistível. Será que isso também não é trair? Não sei.

    No fundo, acho que gostamos de nos iludir com essa idéia de amor intocado e perfeito…

    • Fabio Hernandez Says:

      Karina Cabral, se você não foi tecnicamente finalizada por outro, não traiu. Pensamento é nuvem passageira, e vc mostrou controle.
      Relacionamentos longos se caracterizam, basicamente, pela confiança um no outro. Perdida ela, bye. Vc acompanhou aquele caso da primeira dama irlandesa? Pois é. Um longo relacionamento, 30 anos, mas a notícia de que ela conheceu biblicamente um garoto com um terço de sua idade (59/19) provavelmente vai matar esse casamento.
      Se o homem ou a mulher não consegue ficar mto tempo com alguém sem trair é porque a relação não é excitante o suficiente para prrencher todos os espaços.

  5. Nicky Says:

    A Ofélia é tão triste…

    Pra mim, traição é exatamente como você colocou: uma mentira.
    Não lembro quem disse e não vou abrir o Google agora, mas lembrei de uma frase: “Me machuque com a pior verdade, mas não me iluda com a mentira mais doce.”

    E fico pensando se eu realmente preciso saber a verdade.
    “Todo mundo trai” é tão frio… e tão verdadeiro.
    Não conheço UM casal que nunca se traiu e, sério, acho isso deprimente.

    • Fabio Hernandez Says:

      Nicky-san
      Qdo vc não descobre a verdade, a verdade descobre vc.

    • Petit Poupée Says:

      Oi Nicky, sobre o seu hãn?…Acho q o blog deveria colocar pra visualizar os comentários antes de postá-los, simples assim ( deficiências do meu dedo nervoso rss).
      Vc acha a Ofélia triste?
      Eu acho meio bobinha…
      triste eu acho a primeira-dama da Irlanda do Norte…bjuss

      • Fabio Hernandez Says:

        bobinha a Ofélia? o quadro deslumbrante do Milllais ou a personagem trágica do Shakespeare, Petit? não apoiada em nenhum dos casos. a velhota irlandesa era alegre demais e então ficou triste de tanta alegria.

  6. Alice Barros Says:

    Traição não é algo aceitável nem em uma amizade. Por mais que a gente viva cercado de histórias de traições, nunca nos acostumamos a isso. “Todo mundo trai”, ok, já cansamos de ouvir isso mas para conviver com isso com naturalidade, é preciso atravessar um grande abismo. Qualquer tipo de relacionamento exige confiança…
    sem o sentimento de posse, como bem já foi dito.
    Só aceita a traição numa boa quem não ama, quem não tem o menor zelo pela relação que construiu.
    A traição mata o romance, a lorota premeditada mata o romance e um desapego exagerado colabora pra sufocar um romance.
    Adorei o texto, Dad. =*

  7. aline Says:

    Conheço um casal que vive essa liberdade sexual. Na verdade é uma grande amiga. Ela só teve coragem de me contar suas aventuras a pouco tempo. Está feliz, inclusive. O namorado tem outra mulher, uma jovem de 18 anos, ela sabe e os três já foram pra cama. Dentro desse contexto de relação pós-moderna cabe ainda swing e transas em locais megahiper inusitados. Perguntei outro dia qual a sensação? Ela disse:
    – Orgasmo visual-sensorial-excêntrico. Liberdade para vida inteira. É só encontrar o parceiro certo.
    Até hoje não entendi. Melhor: prefiro ficar sem compreender.

    • Fabio Hernandez Says:

      coloquemos assim: ela ‘diz” que está feliz.
      não me lembro onde li, uma mulher na mesma situação estava aflita para ver em qual das duas o cara despejava o líquido sagrado porque ali estava uma declaração esguichada de preferência.

  8. Srta. O Says:

    Eu, no alto da minha ingênua experiência de liberdade sexual, percebi que nem eu, nem nenhuma mulher consegue se desapegar do clichê “quero ser feliz no amor, ter um amor só meu”. Falta-nos sanidade emocional para conseguir distingui o que se quer transmitir e o que se é realmente.

    A idéia do relacionamento aberto, a primeira vista, demonstra ser a chance perfeita de ter algo seguro, e ao mesmo tempo, poder olhar pros lados e conseguir um fight ali na esquina, sem compromisso. Mas como disse meu amigo Anarco, até hoje não vi nenhum vingar.

    E pra finalizar, concordo com você, F: as conjecturas amorosas são o início do fim.

    • Fabio Hernandez Says:

      conseguir um fight? achei por um momento que era light, fogo pra cigarro, e só depois percebi que é fogo para outra coisa.

  9. Petit Poupée Says:

    Fábio…Fábio…és o último dos românticos…figurinha rara 😉

  10. Fernando Says:

    Belo post.
    Não tenho muitas histórias, nem casos de casais para contar. Mas como a Karina perguntou dos relacionamentos duradouros sem a traição, não tem a necessidade da traição mas a dúvida.

    E talvez outras coisas mantenham esses casais unidos, que não o sexo (que não seja a existencia de filhos).

  11. Rebeca Says:

    Oi Fabio, gostei muito do post e concordo com tudo que vc disse. Tbm acho que essa coisa de relação liberal ñ dá certo. Acho que o amor nos faz desejar querer aquela pessoa e querer tbm o bem e a felicidade dela, a traição destroi esse bem estar que nos desejamos ao nosso companheiro, levamos tempo pra construir isso quando se começa a relação, o sentimento vai se erguendo na confiança e na convivencia e depois acaba numa só atitude. É melhor resistir a essa tentação e ñ fazer isso. Bjs a todos…

  12. Paula Romano Says:

    Caro Fabio,

    Gostei dos seus textos. Em especial desse, que resolvi comentar. =)

    Concordo que sempre há poréns na vida, e existem muito mais que um milhões de possibilidades de levar um relacionamento. Mas que no fim das contas sempre acaba chegando ao mesmo lugar.

    Essa história de ninguém é ninguém é tão bobagem, quanto dizer que “não sinto ciúmes”. Se for pra levar a vida no ninguém é de ninguém. Não é mais fácil e prático ser solteiro? Se a vontade que prima é sair com quem dá na telha – por mais que isso seja em comum acordo – fica sozinho, você acaba inclusive se libertando de almoços aos domingos. E presente em dia dos namorados.

    Quando a gente assume um relacionamento com alguém, além da maravilha que é estar acompanhado, um caminhão de outras vem junto com isso. Não há como negar. E ser só de um, não deveria ser motivo para tormento. Afinal, não foi essa a sua escolha?

    Parabéns pelo blog! =)

  13. Moacy Says:

    Li todos os textos e gostei de todos, afinal somos humanos, nunca pensamos iguais. E não é o amor que iremos vê-lo da mesma forma. Um pouco de liberdade sempre é bom. Assim evita os martírios de um sentimento que muitas as vezes não existe. Se a minha carametade não preenche uma lacuna nos meus sentimentos talvez ela precise se redimir e não inibir a minha libido em momentos singelos.

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