Mulher feia não tem vez na empresa: isso está certo?


Anúncio da American Apparel: uns amam e outros adoram odiar

FAZIA TEMPO que eu não me interessava por uma revista impressa. Estou digitalizado no consumo de mídia, feliz ou infelizmente, e o papel ficou restrito, para mim, para a leitura de livros. Jornal, daqueles que mancham as mãos de tinta, já não sei bem o que é.  Em 2009, me conectei talvez até mais do que deveria. Mas, mesmo nadando na imensidão virtual, uma revista de papel me fez parar como nos velhos dias em que as páginas exerciam sobre mim uma fascinação quase que sexual: a Vice.

Gostei da audácia do projeto editorial, da beleza plástica do conjunto, das reportagens espirituosas. Não é toda publicação que tem coragem de publicar as fotos de Richard Kern, um novaiorquino que produz imagens tão eróticas que mentes mais moralistas e rígidas poderiam classificá-las como pornográficas. A boa revista está nos detalhes, e a Vice tem, por exemplo, uma pequena seção notável, os do’s e don’ts das roupas e atitudes contemporâneas.

É uma revista distribuída de graça nas lojas da rede de roupa American Apparel. Recentemente li sobre o dono da American Apparel, Dov Charney. Vi também uma entrevista concedida a uma emissora americana, e então entendi tudo. Charney é a explicação para a fórmula da Vice e da American Apparel, um caso extraordinário e rápido de sucesso no mundo dos negócios nos Estados Unidos. É um cara amado e admirado por muitos, e os demais adoram detestá-lo.

Vi várias vezes, num site, ele ser chamado de perv, pervertido. Isso porque ele tem em sua sala fotos de mulheres de topless, fotografadas por ele mesmo. Charney estimula em sua empresa uma cultura liberal, do ponto de visto do sexo. Muitas funcionárias posam para os anúncios provocadores da American Apparel, e com sua barba de fauno Charney não esconde que já dormiu com várias funcionárias. Num ambiente politicamente correto como os Estados Unidos, onde já não existem cegos mas sim deficientes visuais e nem negros mas afroamericanos, Charney demonstra uma coragem épica, talvez irresponsável até.

Ele foi apedrejado recentemente porque sua empresa não quer mulheres feias nos seus quadros. Há um impacto nos resultados, nos lucros, segundo se diz.  Não acho estranho. Não para uma empresa cujas empregadas posam seminuas para campanhas publicitárias. Preferência para bonitas no departamento de pesquisas avançadas de célula tronco Instituto Planetário da Salvação dos Casos Perdidos seria esquisito. Mas numa cadeia como a American Apparel faz todo o sentido. Beleza, neste caso, é fundamental.

Tenho uma pequena experiência para relatar. Passei na frente de uma loja e entrei para pedir um exemplar. Uma balconista bonita e delicada me passou um exemplar. Perguntei se não havia exemplares antigos, e ela disse que não. Eu já estava a uns 50 metros da loja quando vejo alguém correr em minha direção. Era a atendente, que encontrara uma edição velha e fez questão de me entregar. Havia nela uma graça esbaforida que tornou o meu dia menos frio.

Sem conhecer, gosto de Dov Cherney. Acho que é gente que contraria os ventos que empurra o mundo para a frente e nos liberta de um tédio sem fim.  Bem, gostaria de saber o que vocês pensam.

22 Respostas to “Mulher feia não tem vez na empresa: isso está certo?”

  1. Anarcoplayba Says:

    Em um “site de relacionamentos” um escritório de advocacia colocou um anúncio em busca de uma secretária: mais de 1,70, menos de 65 kg, preferencialmente loira, solteira, e “liberal”. A job description era: coordenar as agendas, atender clientes, organizar viagens e em média 3 a 6 vezes por semana, manter intercurso sexual com os donos do escritório.

    Obviamente isso gerou uma tremenda polêmica e os donos do escritório afirmaram categoricamente que o anúncio foi um trote de terceiros para prejudicá-los.

    Estranhamente decidiram não processar ninguém.

    Ok. Sem hipocrisia: todos sabemos que beleza física é um diferencial imediato. É um cartão de visitas. O simples fato de você ser “esteticamente agradável” já te dá um head start que seria ingenuidade não ser aproveitado.

    No entanto, acho que a linha que separa o aceitável do inaceitávelfoi cruzada quando deixou de ser um comportamento de “esperteza” das candidatas e passou a ser um requisito imposto pelo selecionador.

    Come on: Todo mundo sabe que algumas profissões têm como requisito específico “boa aparência”, mas sem hipocrisia de querer disfarçar isso de uma “busca pela produtividade”.

  2. Camila Says:

    Infelizmente a máxima de Vinicius procede. Coitada daquela que não se encaixar nos padrões de beleza impostos. Muitas vezes o papel da mulher se resume a agradar a vida e a vista dos homens e claro, para decorar ambiente com belos quadros.

  3. Karina Says:

    Certo para quem? Para a empresa? Se é privada, os critérios parecem dentro de um limite razoável. Para as funcionárias? Só se candidata quem quer. Para as excluídas? Acharão uma empresa que valorize seu talento. Para o consumidor? Se n concorda, n tem que pactuar, n precisa consumir.
    É o mercado, enfim, que vai determinar o erro ou acerto dessa decisão.

    Agora, se vc me perguntar se eu me sentiria bem trabalhando numa empresa dessas, digo que não. E nem estou considerando que eles coloquem a beleza em primeiro plano em detrimento de outros critérios. Beleza pode ser só um requisito. Mesmo assim, mesmo partindo desse pressuposto, n gostaria de estar em um ambiente desses. Pq não vejo o mundo sob essa ótica plástica. Embora a realidade seja essa, gostaria que n fosse.

  4. Alice Barros Says:

    Acho ousado, mas verdadeiro. Essa é uma realidade não apenas na American Apparel, mas em muitos outros locais. Exemplo classico: hotelaria. Alguem já viu algum funcionario de hotel que trabalha em contato direto com o público feio e velho?
    =X

  5. Petit Poupée Says:

    Seu exemplo diz tudo…qd a beleza se associa ao algo a mais…bingo! Agora…na prática, entre um atentente bonitão e outro normal as chances de desconto recaem sobre o último rss

    • Alice Barros Says:

      kkkkkkkkkkkkk É verdade!
      Mas cada dia me surpreendo mais com o modo como as coisas funcionam! No hotel que eu trabalho, teve uma senhora que solicitou ser atendida apenas por garçons bonitos… Nãon sei qual seria a intenção dela, mas os meninos ganharam muitas gorjetas bem gordas!

  6. Jéssica Bueno Says:

    Fábio, se eu tivesse lido esse post antes de fazer o meu post, teria me ajudado um bocado. O assunto é completamente diferente, mas poderia usá-lo para dar um contexto mais elaborado. Então, concordo com você quando diz que são as pessoas que contrariam que empurram o mundo para frente. Há um tempo atrás eu iria fazer uma boa critica negativa a Dov Cherney, mas minha opinião a respeito de sexo e mídia anda mudando em uma velocidade assustadora. Até mais, beijos.

  7. Admiral Pip Says:

    Conheci a Vice porque tenho um amigo que escreveu uns artigos para a revista, uma edição especial sobre o Brasil, uma coisa entre o interessante, o grotesco e o babaca – mais interessante que grotesco e babaca, devo admitir. Gostei.

    Quanto ao critério de contratação, concordo com a introdução da Karina, mas não com a conclusão do Anarco, porque a iniciativa privada precisa dessa liberdade, e a beleza é, sim, um ativo, mensurável pelo que pode produzir – e produz.

    • Anarcoplayba Says:

      Pera… n falei que beleza n seja útil. Em alguns casos é NECESSÁRIO, como por exemplo, recepcionistas, vendedoras, modelos, prostitutas…

      O que eu questiono é a afirmação categórica de que “não contrata pessoas feias” associada a admitir abertamente que foi para cama com empregadas.

      Pra mim, se isso fosse uma S.A., ele estaria agindo com excesso de mandato, desviando a função da empresa e se valendo do papel de diretor para obter vantagens pessoais.

      Tudo o que eu acho é que é necessário dar o correto valor para o elemento valorizado: uma coisa é contratyar funcionárias para funções nas quais a beleza é relevante. Outra é tornar isso pré-requisito.

      No entender desse senhor, o Stephen Hawking estaria morrendo de fome se ele fosse reitor de Cambridge.

      E nisso eu falo (e comprovo a lei dos Fórums que diz que é necessário menos que oito comentários para alguém trazer esse argumento à baila): e se uma empresa tivesse como política não contratar negros e judeus? Ou se uma universidade particular cortasse do vestibular negros (como era feito alguns anos atrás)?

      Qual a diferença? A meu ver nenhuma: tudo se resume a aparência física.

      • Karina Says:

        Depois da minha reposta ponderei tb esse ponto, Anarco, a respeito de outros critérios de seleção que parecem bem menos aceitáveis, inclusive para mim. Dei uma refletida e agora que tocou no assunto voltei a pensar sobre isso.

        Acho que a questão é que esse culto à beleza é legitimado pela própria sociedade, haja vista os comentários já feitos aqui. As outras formas de discriminação são condenadas ou, pelo menos, escamoteadas. Enquanto a pessoa que admite preconceitos religiosos ou raciais é olhada com reprovação, a beleza tem se tornado cada vez mais um sonho de consumo. Talvez pq todos desejem a beleza, os que o admitem passam despercebidos, dando ensejo para que isso se estenda até a processos de seleção.

        Em todo caso, analisar esse caso é meio complicado pq n sei de que forma as coisas são conduzidas lá dentro, se há profissionalismo ou não, ou, como vc levantou, se se poderia alegar que ele se vale da posição em benefício próprio.
        A princípio, mantenho minha posição do primeiro parágrafo.
        A do segundo é outra coisa, e ela n muda.

  8. Rafael Says:

    Com o tempo, conforme mais e mais mulheres alcançam as diretorias, penso que também os machos ‘mal diagramados’ vão penar. Igualdade pro bem e pro mal, finalmente.

    Vocês aí de cima, são favoráveis às cotas raciais das universidades?

    • Anarcoplayba Says:

      Contra por princípios:

      A Universidade Pública não se chama Universidade Gratuita. A tese por trás é: criar a nata profissional de cada profissão. Não é “vamos dar estudo” é “vamos preparar professores, pesquisadores, etc.”

      Para isso, sorry, o critério é nível de conhecimento em áreas pré-definidas. As pessoas falam que vestibular não seleciona os melhores. Claro que não: seleciona aqueles que aquela universidade quer (vide as diferenças entre fuvest, ita, Mackenzie, GV).

      Universidade pública não pode perder tempo com aulas de português, história, ou o que quer que seja (e algumas particulares tem “português jurídico”): isso é pressuposto.

      Existem problemas sociais no Brasil? Sim, existem. Mas o caminho não vai ser “camuflar” estudantes de cotas no meio dos demais.

      Em tempo: durante a faculdade entrei nessa discussão com um militante que queria me convencer a assinar um abaixo assinado. Quando vi que as coisas estavam ficando exaltadas, resolvi parar com a discussão aliviando e brincando: “Ah, cara, se é pra ter cotas, devia ter cotas para japoneses, italianos, e, principalmente, para mulheres gostosas, porque isso falta!”

      Resposta dele: “Ei, eu estou defendendo os MEUS interesses, os outros que defendam os deles!”

      • Uila Gabriela Says:

        Não precisava nem continuar,esse cara não era militante nem aqui nem em Marte.

  9. Karina Says:

    Não, não sou, Rafa.

    Sou a favor de cotas sociais. Mesmo que isso signifique legitimar o deplorável ensino público em vez de defender sua reestruturação, sou a favor. Pq a curto prazo é a oportunidade que cabe oferecer. Mas tb sou a favor de que se estabeleçam notas de corte para evitar o nivelamento por baixo.

  10. kdjbajfbk Says:

    Beleza física é tão importante quanto uma boa roupa. Beleza abre portas sim, e não apenas em mercado de trabalho, a lei natural é que mulheres bonitas se casem com homens com mais dinheiro que elas. Mulher com homem liso é falta de opção (e de beleza), e homem liso com mulher feia, também é falta de opção (e de dinheiro). E não me venham com exceções ridículas, porque, ao invés de negar, elas apenas confirmam a regra.

    Tá certo? Tá errado? é bom? é ruim? Não importa, é assim que as coisas funcionam.

    Ah, e mesmo que não abertamente, todas as empresas usam esse critério sim. Tanto é que, no Candá, onde morei, é proibido colocar FOTO 3×4 no curricúlo. Por costume este é automaticamente desclassificado. A justificativa é que poderiam renegar negros, latinos, muçulmanos, etc.. Mas tenho certeza que o críterio da beleza também tem a ver com essa proibição.

    • Anarcoplayba Says:

      “Tá certo? Tá errado? é bom? é ruim? Não importa, é assim que as coisas funcionam.”

      Parafraseando o meu maior paradigma de comportamento (o Coringa): “As pessoas só pensam em dinheiro, sexo, hedonismo… Esse mundo merece uma classe melhor de seres humanos. E eu vou dar isso pra ele.”

    • Fabio Hernandez Says:

      mas … se tudo é feito na base da beleza, o que a pessoa faz qdo a beleza fenece, canadian boy? uma coisa interessante é que o tempo iguala fisicamente as pessoas, já repararam? duas senhoras de 70 anos são duas senhoras de 70 anos, laquê no cabelo. mesmo que uma tenha sido miss e a outra o opost. com o tempo elas se igualam e muitas vezes a ‘feia’ bate a miss na senectude.

  11. Anna Says:

    “Tá certo? Tá errado? é bom? é ruim? Não importa, é assim que as coisas funcionam.”

    Meu Deus… pensando assim qtas coisas erradas já não foram justificadas??!?

    Acho que o problema, não é a feiúra, mas sim a pessoa ser obesa.
    O obeso e a obesa acabam passando a imagem de preguiçosos, não acham? Passam essa imagem de pessoa cansada, dorminhoca… Aí sim, isso supostamente acaba por interferir na performance no trabalho.

  12. Mila Says:

    Certíssimo, só em circo, não a de Soleil. Isso porque até agora vc não me conheceu. Sou a criatura mais feia do Universo. A feia das feias. A baranga-mor. Tanto é que sou virgem aos 47 anos! Não por opção, é pq sou repulsiva mesmo! Sei o que digo!!!Comigo nem photoshop segura, é capaz de queimar a placa mãe e dar bicheira (vírus) no computador. Sou um perigo, menino!

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