“Parece que o macho sente o cheiro da fêmea com outro”


Amigas, de Gustave  Klimt, um de meus artistas favoritos

NÃO TIVE COMO não trazer para cá, nossa Quadra Central, como diz meu primo Minhoca, essa carta, com uma pequena edição para evitar constrangimentos. É a Srta O, e o curioso é que, para mim, num gesto de franqueza e cortante sinceridade, ela revelou o nome real. Que, inacredivelmente, é o mesmo da rival, Srta T, elas que travam uma batalha interminável por R. (A quem chegou agora à história, sugiro a leitura de dois textos deste blogue que tratam dessa novela amorosa.) Acho que agora está claro o cenário. Tenho minha visão formada, que passei pessoalmente a O. Vamos ver a da nossa turma, se bate com a minha. (Vanessa, que tinha desistido de comentar depois de uma ‘chapuletada’ minha, para usar uma expressão divertida dela num email pessoal, está convocada a se juntar ao grupo de análise.)

A carta:

Minha versão. Conforme R  contou, adicionei-o no orkut em 2004, quando estava em vias de terminar meu primeiro namoro. Logo que adicionei R, recebi a resposta quase que instantaneamente e engatamos uma conversa. Ele estava em férias na cidade, e combinamos para o dia seguinte um encontro. Lá, ficamos. Ele voltou pra cidade na qual estava morando e nos comunicávamos via e-mail. Enfim, até aí, tudo perfeito.

A partir do instante que nos encontramos e ele falou que havia retomado o namoro com a ex, meu mundo caiu. Estava completamente apaixonada por ele; um sujeito mais velho do que eu 10 anos, tímido, bem humorado e muito inteligente. O meu tipo. Resolvi, com a fúria de uma leoa por sua presa, aceitar a situação com a esperança resignada de tê-lo um dia só pra mim. (Inocente esperança,) Só que foram passando meses, anos. Nos encontrávamos toda as vezes que ele vinha passar o final e semana aqui, de 15 em 15 dias, uma vez por mês. Havia vezes em que ele me chamava para voltar com ele para a cidade para que ia viajar, de tão apaixonado.

Eu ficava aqui, à espera dele. Não sentia vontade alguma de conhecer outra pessoa. Até um dia que ele me chega com outra bomba: ele havia marcado a data para se casar com a namorada (se eu lhe disser que o nome dela é o meu, você acreditaria? É fato.). Seria dali a cerca de 5 meses. Meu mundo desabou mais uma vez. A partir daquele momento, entrei em um trabalho mental para esquecê-lo. Não havia mais chance, pensava. Ele vai estar casado no final desse ano, perdi. Mas ele não conseguia se desvincular de mim. Nem minha cabeça dele. Só que eu não podia conviver com isso. E então falava pra ele que, se ele casasse, ele podia esquecer que eu existia, pois casamento pra mim é coisa séria demais. Até que faltando um mês para o casamento, ele desmarca tudo. Todos com a roupa comprada, passagem reservada. Foi o caos. Sö lembro de ele me ligar no dia, com uma voz embargada e me dizer: não vai ter mais. Desmarquei o casamento. Só liguei pra te contar.

Foi a melhor coisa da minha vida ouvir aquilo. dava pulos de 2 metros do chão.

Mas, por incrível que pareça, eles desmarcaram a data, mas continuaram a namorar. A causa  eu nunca soube. Ao longo desses 6 anos de namoro, eles estiveram em vias de término mais de 10 vezes. Todas começadas por ele. Mas a namorada jamais desistiu de lutar por ele. Terminada a residência dele na outra cidade, fez um concurso para a nossa cidade e passou. A namorada dele tb fez e passou. Ele veio pra cá primeiro, ficávamos feito namorados, íamos a restaurantes, cinema, passear de mãos dadas. Qualquer lugar era uma oportunidade para escancararmos nosso amor. Só que depois veio ela. E desde então, passou a ser insuportável para mim beijar uma boca que já havia sido beijada por ela ontem, por exemplo. Encontrar amigos dele na rua me confundindo com ela (nomes idênticos, mesmos lugares, mesmo tipo físico.) Até que não teve mais jeito.

Terminei com R.

Logo em seguida, conheci um sujeito na faculdade que me despertou a atenção – era descomplicado em relação a minha relação com R. Ficamos poucas vezes e logo começamos a namorar.

Parece que o macho sente o cheiro da fêmea com outro.
R começara a me ligar diversas vezes depois de duas semanas da minha ausência. Tinha saudades, queria me ver, me escrevia cartas, deixava na minha caixa de correio, no email, tudo.  Eu não resistia a atender as ligações de R, pois o que ele me falava era tudo o que eu queria ouvir em todo esse tempo de espera. Mas jamais traí meu namorado nesse tempo.

Meu namorado, ciumento obsessivo, com a mesma profissão de R e sua namorada, ao saber do interesse de R por mim, tratou de descobrir o telefone de T.  Revelou a ela que R  estava me procurando. Foi uma briga homérica. Meses depois, descobri que meu namorado tinha um transtorno de personalidade que me deixou doente. Ele era sociopata e, em poucos meses, destruiu minha vida com seus ataques repentinos de ciúmes de R e qualquer um que ele imaginasse existir. Estava completamente fraca, perdida. Aos poucos, retomei minhas conversas com R, ele sabia dos surtos do meu ex e era com ele que sempre me abria. A partir do momento que falei a R que estava solteira, ele pirou.

Marcamos um encontro e demoramos a ficar novamente. Eu queria reestabelecer minha vida e não queria mais voltar a R antigo; queria um namoro normal. Ele prometeu tentar. Mas em vão. Já se foi mais de um ano depois dessa promessa, e nunca namoramos só nós 2: eu e R. Então, acho que com toda razão, terminei com R mais uma vez. Estou sozinha, Fabio. Não tenho sentido necessidade de ter R, de desejar loucamente beijá-lo, sabe? Acho que de tão calejada eu simplesmente parei de sentir. Hoje, nos resumimos a conversas pela MSN.

Mas posso te revelar que o que sinto por R foi o maior amor que existiu em meu peito.”
E assim se encerra a versão de O, mas não a história enrolada e complexa que ela vive com R e, indiretamente, T. Ambas com tipos físicos semelhantes, ambas com o mesmo nome, ambas controladas emocionalmente e sexualmente por um homem que não é malvado, mas sedutor e confuso amorosamente. Termino com um quadro de mais um artista de que gosto, também ele austríaco à maneira de Klimt: Egon Schielle. Na mulher melancólica de Schielle vejo, não sei por que, O.

33 Respostas to ““Parece que o macho sente o cheiro da fêmea com outro””

  1. R Says:

    Caro Fábio, a história dela não destoa da que lhe contei, inclusive no tocante do casamento, que eu mencionara e preferiste excluir. Só corrijo duas coisas para que fiquem bem claro para os sábios leitores:
    1- o cancelamento do casamento se deu aproximadamente 6 meses antes, sem roupas, passagens compradas, somente acertos de lugares e contratos. Não corrige, mas sempre falei para O que só casaria se tivesse certeza do que estava fazendo.
    2- Quando ela falou que estava solteira, não pirei. Na verdade estava conseguindo consertar a minha vida e tocar o barco. Mas como uma sábia leitora já comentou; não resisto a ela. É fato.

    Bem, agradeço novamento o interesse.
    Abraço,

    R.

    • Fabio Hernandez Says:

      Tem um filme chamado A Mulher do Lado, que mostra um homem e uma mulher divididos. Mas tb não recomendo que vc veja agora, R.

      Minha opinião franca: você é um cara legal, gente fina, bom pra escrever e pra falar, mas — a despeito das boas intenções — está fazendo mal para todos, inclusive vc.

      Torço por vc, por quem tenho sei lá por que simpatia.

      Fabio

  2. Nicky-san Says:

    R,
    1. Você ainda está com a T?
    2. O que você sente pela O?

    Menino, pára de ser indeciso e toma uma atitude!

    Antes tarde do que mais tarde… Sei lá… Se demorar muito, vai ficar sem nenhuma DE FATO.

    Se é a O que te deixa louco, fica com ela.
    Pra quê complicar tanto assim as coisas?

    A T vai sobreviver, trust me
    O que não pode é ficar com uma querendo a outra. Não é pior pra você?

  3. Nicky-san Says:

    ps.: também gosto do Klimt, fabio 🙂

  4. Srta O. Says:

    F, agora que vi que você publicou. Tentei mostrar o outro lado da história, contada por mim, vista aos meus olhos. Pode ser, por minha memória um pouco fraca para datas passadas, ter errado sim, peço desculpas. E as palavras enfáticas, R, são força de expressão. Não sei ser morna, você deve saber :). Um beijo a todos, obrigada pelos comentários.

  5. Vanessa Says:

    1. Fábio primeiro obrigada por ler meu e-mail rs..rs… a chapuletada doeu mais já passou rs..rs…rs Posso voltar a fazer parte do grupo de analise mais com cautela rs…

    2. Srta. O., choquei ao ler sua carta, a pouco vivi uma situação parecida (quer dizer ainda vivo)e consigo sentir exatamente o seu sofrimento… juro que torço por vc!!!!!!!!!

    3. Sr. R espero q tome uma decisão logo e pare de fazer as duas sofrerem, se não quer + a Sr. O deixe a em paz….

    Bjs…

  6. M.Farina Says:

    Olha… desculpe a dureza das palavras, mas detesto esse R.
    É Cafa sim e da pior espécie.

    Não há dúvida existencial no mundo que justifique segurar duas mulheres por tanto tempo (e, por favor, na mesma cidade? Que humilhação para ambas…).

    A Srta. O não devia perder mais nem um minuto da vida dela pensando ou falando com R – ele não tem consideração por ela.

    R não merece nem O nem T – é um egoísta. Devia ficar sozinho, namorando a si próprio.

  7. Uila Gabriela Says:

    Mulher sensata esse Srta.O
    Nada mais acertado do que tentar viver a vidinha dela sem o Sr.R indeciso, com todo o respeito meu caro, mas não dá pra ficar fazendo a mulher sofrer enquanto vc não se decide ^^

  8. Eliane Says:

    Nada como conhecer o outro lado…
    Confesso que agora passei a entender melhor a senhorita O! Quando nos apaixonamos perdemos a razão e entendo ela ter vivido a base da “esperança” das circunstâncias mudarem… Para você senhorita O digo o seguinte: “Nem sempre convém virar a página… por vezes é melhor rasga-la.” Ele pode sim ter sido o maior amor que existiu na sua vida ATÉ O MOMENTO, mas não é o amor que você merece! Ele pode ter todas as qualidades do mundo, mas um cara que está com duas mulheres porque ama as duas e não sabe com quem ficar, para mim, perde a credibilidade!
    Siga sua vida mesmo, é o melhor que você faz…
    Quanto ao R, não tem nem mais o que comentar!!!
    Beijos queridos!!!

  9. Eliane Says:

    Mais uma frase para você O: “Quando alguém se dedica a alimentar ilusões, perde oportunidades”…

  10. Fabio Hernandez Says:

    É, não parece haver outra saída melhor para O do que reunir todas as suas forças e tentar romper uma relação doentia, neurótica — e já morta sem que talvez os dois saibam.

    Terá força para isso?

    Meu palpite é que não agora, pela obsessão sexual que domina o casal. Qdo O encontrar sexo à altura do que teve e tem com R, ou pelo menos que não seja apavorantemente pior, ela estará pronta para seguir vida nova e dar uma bota definitiva em R. Que, notem, não é um mau cara, apenas gosta das duas. Se vivesse num país muçulmano, estava tranquilo. Como é brasileiro, ficou dividido: machucou as duas e também a si próprio.

    Torço por todos. Não há vilões nesta história, apenas ingênuos, sonhadores e atrapalhados.

  11. Alice Barros Says:

    Essa história aumenta um pouco a cada dia. Cada vez que venho ao blogue me deparo com novidades… Enfim, já não tenho mais dicas pra dar.
    A hora é de decisão do R. E isso, não podemos fazer por ele. Ele é tão indeciso quanto patricinha em inauguração de loja de grife!!!!
    Decida-se R, a única pessoa que pode resolver essa situação é você.
    Boa sorte a todos!

    • Fabio Hernandez Says:

      Em último caso proponho uma prece coletiva pela alma torturada dos três: o que quis tudo e pode ficar sem nada, a que soube da dupla jornada mas ficou na moita e a que se agarra ao ditado segundo o qual quem espera sempre akcança.

    • Fabio Hernandez Says:

      Alice, vc já passou por alguma situação parecida de apuro amoroso? Minha sensaçao é que é mais fácil resolver os problemas dos outros que os nossos.

      • Alice Barros Says:

        Hahaha!!! Meu prezado Fábio, se eu te contar meu grande apuro amoroso, certamente você não acreditará!
        Te enviarei um e-mail, aí vc saberá!
        Mas eu sou assim mesmo: muito decidida e objetiva, até mesmo quando sou eu quem tenho que resolver…
        Beijos

  12. Rafael Says:

    Há sempre 3 versões de uma história: a minha, a sua e a verdadeira.

    • Fabio Hernandez Says:

      Adoro essa frase, Rafa.

    • Nicky-san Says:

      Isso tá mais pra:
      Há 2 versões da história, a minha e… ah, só tem uma!

      É raro quem consegue se colocar no lugar “do outro” pra tentar entender melhor a situação, não?

      • Fabio Hernandez Says:

        raríssimo, Nicky-san, como diria o agregado José Dias de Dom Casmurro …

  13. Erika Says:

    Bom, agora que já fiz trinta, não acho mais que porque estamos apaixonados ficamos cegos. Mas já achei. E nessa época, me envolvi numa história bem complicada que só se complicou mais e mais. E seria preciso um post inteiro pra contar. Ou dois. 🙂

    Só acho que quando você fica “adulto” sabe que se aquilo não é bom pra você, é melhor se manter longe. Afinal, acho que isso é o que a maturidade quer da gente.

    E, por experiência própria, se de cara o sujeito não fica com você, tem grandes chances de nunca ficar.

    Há vida após o R.

    • Fabio Hernandez Says:

      Putz, eis uma frase sábia como as de Tio Fabio: de o cara não fica com vc logo, enormes chances de jamais ficar.

      É uma verdade amorosa que dói, mas não poderia retratar melhor a vida romântica como ela é, e não como gostaríamos que fosse.

  14. Erika Says:

    E comentando o comentário do comentário :), essa coisa toda realmente lembra o filme que tu citou, Fábio.

    “ni sans toi, ni avec toi”. E é bem isso daí mesmo. Nem ficam bem juntos nem ficam bem separados.

    Adoro Fanny Ardant.

    E mais ainda Truffaut.

    • Fabio Hernandez Says:

      Essa a frase, Erika. Nem com vc, nem sem vc.
      Acho que escrevi vários textos, no passado, inspirado nela e na Mulher do Lado, do Truffaut, um dos melhores filmes que vi na vida.

  15. Adri Says:

    Na mesma cidade, e ser confundida com a T, é humilhação demais.
    Aproveita que a coisa com R está morna e botina nele, asap!
    Vai ser feliz!!!

    • Fabio Hernandez Says:

      o rr virou meu chapa, gosto dele e entendo o drama, já vivi uma situação parecida e na dúvida entre as duas etcetc, me estrepei como o rr.
      mas que ele merece uma bota, merece, e faz tempo. demorou.

  16. Flávia Says:

    Vivo uma história semelhante, porém não sei se ele tem outra.

    Juntos temos muitas diferenças, mas na cama… É BOM DEMAIS.

    Tenho certeza de que ele não é o homem ideal para mim, temos muitas diferenças, inclusive sócio-econômicas. Mas eu não tenho interesse por nenhum outro homem.

    E, Fábio, sei que ele não fica comigo por inteiro, mas tb não consegue desvencilhar-se. Nem eu.

    Enfim… vamos levando…

    • Fabio Hernandez Says:

      ele é casado? uma das piores coisas que podem acontecer a uma mulher é se apaixonar por um homem casado. torço por vc, flávia.

  17. Flávia Says:

    Não, Fábio… Ele não é casado.
    Aliás, esta é uma premissa: não me envolvo com homens que tem defeito. kkkk

    • Fabio Hernandez Says:

      queria propor a abolição de kkk e a substituição pela expressão que, infelizmente, o Cafa consagrou: hahaha.
      Que vocês acham?

  18. Srta. O Says:

    Flávia, Fábio: a pior coisa que pode existir é ser amante de um homem solteiro. Lembrem disso. Beijo!

    • Fabio Hernandez Says:

      Srta O: acho sua frase admirável. O RR escreve bem, sem dúvida, mas vc tem um talento natural, parece que as palavras jorram de vc. Engraçado que vc não tenha seguido alguma carreira ligada à escrita.

      • Srta. O Says:

        Na verdade segui e larguei, já te contei. Mas obrigada pelas palavras, um elogio recebido de você, pra mim, vale muito.

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