E eis que me chega uma carta misteriosa do Senhor M


Monteiro Lobato, no traço de J. Wasth Rodrigues, em 1916
Imagem publicada em A Tribuna, 13/12/1982

 

NÃO SEI COMO, uma carta apareceu em minha caixa de correio. Uma carta de papel, como as de antigamente, assinada por um certo Senhor M. Compartilho seu conteúdo por tê-la considerado interessante.

Um minuto de atenção, por favor:

“O senhor é um ingrato, Fabio Hernandez. Aprendeu a ler com meus livros infantis e depois, traiçoeiramente, insinua que Frida Kahlo e eu fomos separados no berço. Não adianta o senhor alegar que quem o fez  foi, em verdade, uma rapariga que frequenta lugares suspeitos como seu blogue. Pois, se a engraçadinha acendeu o fósforo, o senhor o atirou num tanque de gasolina.

O senhor há de lembrar que sua mãe andava pela sala de sua casa modesta de menino com livros meus, e Negrinha é um conto que ela sabia praticamente de cor, tanto quanto certos poemas de Manuel Bandeira e Fernando Pessoa. Por Quem os Sinos Dobram, um de seus livros favoritos, escrito por um norte-americano que me pareceu ter futuro, Ernest Hemingway, o senhor só pôde lê-lo aos 21 anos porque eu o traduzi. Se o senhor me pagasse uma taxa pelo número de vezes em que citou Robert Jordan e a cigana que diz que a terra treme três vezes na vida das pessoas na questão do amor, eu poderia abrir um banco de investimentos aqui onde estou.

Emília, Pedrinho, Narizinho, O Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Sítio do Picapau Amarelo: o quanto estes nomes podem transportá-lo, no colo, a dias em que o senhor tinha, como gosta de dizer, ‘olhos de Natasha’, e sonhava acordado com os olhos arregalados?

Já mais moço, quantas vezes citou como exemplo raro de coragem a crítica que fiz em 1922, na Semana de Arte Moderna, a Anita Malfatti, mesmo achando-a talentosa? Alguém tinha que dizer o que ninguém ousava: que devíamos ter identidade cultural própria e não, como alguns modernistas, copiar num deslumbramento cego o que vem de fora.

Um país se faz com homens e livros, eu disse. E  combati o bom combate, como falou São Paulo numa passagem que eu sei o quanto lhe é cara, pois dita à beira de uma cova num dia ensolarado de setembro em que o senhor desesperou: escrevi livros, e pus o melhor de mim nos feitos para as crianças por entender que despertar nelas o amor da leitura as faria, e também ao meu Brasil, melhores.

Também, muito anos antes que as pessoas se embevecessem com o senhor Barack Obama, e quando o racismo dominava os Estados Unidos a ponto de lugares separados nos homens para brancos e negros, previ um presidente negro norte-americano. Modéstia à parte, acertei nisso ao contrário de George Orwell em seu fatalismo aterrador no seu romance 1984, publicado em 1949. Onde o Grande Irmão, o líder que espiava todo mundo, senão nas páginas assustadas de Orwell? Mesmo assim, o visionário é ele, e não eu. Claro, ele era inglês e eu um homem simples do interior, como aliás seu tio, que me estimulou a lhe escrever esta carta.

Quanto à sobrancelha contínua, que me aproxima fisionomicamente de Frida Kahlo, as de seu tio não estão muito distantes, e mesmo o senhor poderia por um momento olhar para o espelho, se me permite, e verificar se as suas, ainda que não reproduzam as minhas, estão de acordo com os padrões estéticos convencionais. Despeço-me aqui, não inteiramente certo de que o senhor fará um exame de consciência, mas convencido por outro lado de que Frida Kahlo, se despertou tantas paixões, é porque tinha todos os atributos necessários para integrar, e talvez até presidir, o tal Clube dos Bonitos, embora imagine que ela preferisse fazer arte a submeter-se ao julgamento arrogante de pessoas que deveriam estar lendo livros em vez de se produzir para fotografias.

Atenciosamente

M”

 

 

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21 Respostas to “E eis que me chega uma carta misteriosa do Senhor M”

  1. Fabio Hernandez Says:

    Não sei como, encontrei um pequeno conto que recomendo a vcs:
    http://www.domtotal.com/colunistas/detalhes.php?artId=418

  2. Nicky-san Says:

    Posso ser inadequadamente à moda antiga, mas amo cartas.
    1 carta de papel, dobrada cuidadosamente no envelope imaculadamente branco, é muitíssimo mais cara que 20 e-mails na caixa de entrada…

    (Se você deixar, escrevo um conto inteiro no seu espaço de comentários. Parei!)

    Não sei onde pára a genialidade da simplicidade do senhor M e onde começa o inestimável e inegável brilhantismo – sentimental – deste escritor barato…
    Um tenta fazer com que as pessoas abram os olhos e leiam! Estudem! Sejam simples e comecem a mudar seu país a partir da escolha do que leem.
    Outro tenta fazer com que um bando de mulheres alvoroçadas e cheias de hormônios pensem em questões que não fazem exatamente parte de suas rotinas, por vezes fúteis, às vezes sem tempo, enfim…
    Às vezes, um tanto intrometidas, sim, mas sempre refletindo sobre as palavras melancólicas, divertidas, engraçadas, chocantes deste escritor que tem a audácia de se definir como barato.

    Longe de mim comparar dois autores distintos – em época, em contexto histórico, motivação, inúmeros motivos! -, mas o fato é que ambos têm algo essencial em comum:
    são combustíveis vitais aos nossos sonhos de meninas, por mais que sejamos mulheres…

    Não há quem não tenha uma boa história pra contar, o que fazemos é apreciar a maestria com que vocês o fazem e, com pouco sucesso, tentamos imitar, mesmo que tenhamos sucesso em um só aspecto, o que, pelo menos pra mim, é excepcional…

    (Ih, escrevi demais. I apologize! Mas é que entendam, ainda estou emocionada…)

    ;**

    • Fabio Hernandez Says:

      Pode escrever vários contos numa carta só, Nicky-san!
      Quem escreve com sinceridade, com humor, com graça como vc pode.

  3. Karina Says:

    Nunca li Monteiro Lobato. Ainda. Mas me parece que ele pensava como a mocinha do conto do José Sampaio que nos indicou, crianças são adultos em miniatura, ele não as subestimava. Com esse pensamento tão moderno tb foi um vanguardista. E não sei quanto ao Lobato em corpo, mas a alma dele é muito bem humorada em sua ranzinzice.

  4. Pê Sousa Says:

    Taí! Não sei se aplaudo o misterioso Senhor “M” com seu sagaz sarcasmo ou uma vez mais tenho de aplaudir você, Fabio, que – até então – não sabia possuir sobrancelhas de taturana…

    Mas com certeza, é uma excelente maneira (e cortês, talvez?) de dar bronca em alguém. E pode ter certeza que eu adoraria levar bronca de um dos grandes gênios da nossa nada pobre literatura. Flw

  5. Renata Says:

    Fábio… tento me conter, mas a minha admiração por vc cresce exponencialmente….

    • Fabio Hernandez Says:

      Putz, fiquei vermelho, Re. Sua comparação é que motivou a bronca que levei do Senhor M …

      • Re Says:

        Confusão de Re’s!

        ei to aqui viooo?! =)
        mas eu percebi e entendi!!
        A-D-R-E-I o novo post, e percebi seu silencio depois do que falei.

        meu Re, é de Rebeca

      • Fabio Hernandez Says:

        Nome lindo, bíblico. Já leu Rebeca, a Mulher Inesquecível? Se não, devia.

      • Re Says:

        =) obrigada seu escritor barato!

        Vou procurar para ler. Venho lendo vários livros citados por você no blog. continue dando dicas, estão sendo otimas para mim!

        Já tenho uma carinho enorme por você, seu blog e todos aqui.
        beijooo Fabio!

      • Fabio Hernandez Says:

        Na sessão de leituras:
        http://bravonline.abril.com.br/conteudo/literatura/rubem-fonseca-seminarista-510204.shtml

        É uma matéria sobre o Rubem Fonseca, um dos maiores escritores brasileiros vivos, e o primeiro capítulo de seu novo livro.

        Do Rubem recomendo Agosto, que se passa na época do Getúlio Vargas, e acaba sendo uma aula de história.

      • Nicky-san Says:

        Posso confessar uma coisa engraçada que aconteceu hoje?

        Estava eu, indo pra biblioteca devolver 3 livros e pegar mais um.
        Encontro meu melhor amigo!

        Depois que não encontramos Jane Austen, que ele queria ler, olho pra prateleira e vejo uns 10 exemplares do Grahan Greene!
        :O

        Eu lembrei logo de quem?
        E adivinha?
        Meu melhor amigo está lendo Greene por minha (hehe, sua) causa, fabio hernandez!

        Achei o máximo!
        Ah, deixa eu me defender: só não peguei algum Greene pra mim porque estou ocupada com o Nelson Rodrigues. Estou perdoada?

        Beijo,
        M.

      • Fabio Hernandez Says:

        Muito bom, Rebeca! Vou tentar copiar pra galera.

      • Re Says:

        opssss…. A-D-O-R-E-I***

  6. Alice Barros Says:

    Adoooro Monteiro Lobato, adoro os livros, as estórias, as personagens e o universo fantástico que ele criou para as crianças. Sem dúvidas um gênio!
    Todos deveriam ler… em qualquer idade!
    Enfim, Fábio! Que bronca de luxo, hein? Achei mto bacana o texto do misterioso sr. M, e reitero as palavras de Nicky…
    Você, sr. Fábio tem enchido de reflexões, pensamentos e alegria minhas leituras diárias e minha vidinha tão mais ou menos. Do mesmo modo que o Monteiro Lobato encheu minha cabecinha quando menina de sonhos e pensamentos maluquinhos.

    Ótimo post!
    =*

  7. M.Farina Says:

    Gosto muito dos teus textos, Fábio Hernandez… gosto especialmente de um em que Carol diz (mais ou menos) que não é todo dia na vida de uma mulher que um cara entra numa sala e parece a ela que há um macaco em seu estômago… por isso gostaria de saber onde posso encontrar esse Robert Jordan e a tal cigana que diz que a terra treme três vezes na vida das pessoas na questão do amor… Podes me auxiliar, por favor?

    • Fabio Hernandez Says:

      Putz, vou tentar; a frase da Carol é uma citação do Norman Mailer, e é como vc colocou mesmo. O Robert Jordan é de Por Quem os Sinos Dobram, do Hemingay, e é nele que a cigana fala da terra que treme.

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