Mulheres que sofrem por sexo


“A Tracey. Você gosta dela?”, ele perguntou.

“Detesto. Mas do Hirst gosto. Gosto muito”, ela respondeu.

Estavam em Praga, jantando no U Mecesane, um dos mais antigos restaurantes da cidade. Mais de 400 anos.  Um relógio de cuco marcava a hora errada, 15 minutos adiantado. Era um salão pequeno, elegante sem ser suntuoso, e ele comia com entusiasmo um prato local que lhe fora recomendado pelo garçom falante, pedaços de carne recheados de presunto e bacon, e flambados com brandy, acompanhados de croquetes de batata. Ela apenas achava ok o pato que pedira. Tinha história aquele restaurante em Mala Strana, uma região de Praga a poucos minutos da Charles Bridge. Por volta de 1620 em suas mesas costumava se sentar um célebre carrasco de Praga, Jan Mydlar.

“Alguém disse que a Tracey é a Susan Boyle da arte. Lol.”

“Me dá um ódio quando você fala lol.”

“Não sou só eu. O Paulo também fala.”

“O Paulo é um bobo. Você sabe o que penso dele. Só porque leu Guerra e Paz pensa que sabe muito.”

Ele estava se referindo a Tracey Emin, a menina má da arte contemporânea inglesa.  E ela a Damien Hirst, o menino mau. Tracey, depois de quatro anos, acabara de montar uma nova exposição, chamada “Mulheres que Sofrem por Sexo”. O destaque era uma animação em que uma mulher, que Tracey dizia não ser ela, se masturba. Quanto a Susan Boyle, alguém comparara por maldade Tracey Emin a ela supostamente por ambas impressionarem pelo contraste entre o talento e a feiúra.

“Sei lá. A Tracey mistura demais a vida privada com a de artista pra se promover. Mas ela tem peito. Quero dizer, não peito fisicamente, que ela não tem, mas coragem. Ela é atrevida, e gosto disso. Acho também que ela provoca sentimentos, sei lá, eróticos nas pessoas que vêem seus trabalhos. Como a  Anais Nin fazia na literatura.”

“Mas aquela boca torta da Tracey. Francamente.”

“Minha boca é meio torta também. Lol.”

“Mas é boa de beijar. Não devia falar isso. Você vai ficar se achando. Como o Paulo. Só porque leu Guerra e Paz.”

“ Putz, não consegui passar da introdução”, ele disse. “Certos livros, melhor ver a história no cinema e depois dizer que leu para mostrar que você é culto. Guerra e Paz, por exemplo. Não existe escritor no mundo que mereça que a gente o acompanhe ao longo de uma maratona de 1 200 páginas.”

“Bom esse vinho”, ela disse. Era um cabernet da região.

“Meu, me atrapalhei quando o garçom falou se eu queria um vinho czech. É o mesmo som de chique. Achei que ele tinha perguntado se eu queria um vinho chique. Lol.”

“Praga é engraçada”, ela disse. “A cidade é linda, artística. Você vai ao museu do Mucha e depois ouve Mozart numa igreja, e no meio do caminho passa pela casa do Kakfa. É uma Paris em miniatura. Mas as pessoas são tão rudes. Fui expulsa de uma farmácia. Reparou nos motoristas de táxi?”

“Um quase me bateu porque eu sentei com você no banco de trás e não ao lado dele, lembra?”

“Por que eles são assim?”

“Acho que é por influência do domínio russo. Foram mais de 40 anos. Não há humor que resista ao stalinismo.”

“O bigode do Stálin. Horrível. Pior do que o do Hitler.”

“Mas esse restaurante, essa noite, esse lugar. E acima de tudo você.  Não, não vou esquecer. Praga forever.”

Na manhã seguinte, eles tomariam um avião, mas para destinos diferentes. Ele voltaria para o Brasil, onde morava, e ela para iria para  Paris, onde acabara de ser designada  correspondente de um jornal brasileiro. Tinham decidido viver em Praga a lua de mel que jamais tiveram. Sonhavam ir para Praga no começo do namoro, e acabaram indo no final. O lugar certo na hora não tão certa assim.

“Não vai chorar”, ela disse. Era firme, controlava bem as lágrimas, e assim fizera uma carreira rápida na redação que a levara velozmente a Paris. Ele era sentimental, um pouco atrapalhado, e achava que o emprego era menos importante que a vida pessoal. Sua carreira se estagnara, ou se movia lentamente como Henry Miller com a bengala na velhice, mas ele não se queixava.

“Lembra o Bogart em Casanova?”

“Sei de cor as falas.”

“ ‘Sempre haverá Paris para nós’”, ele diz na hora da despedida lembra?”

“Lembro a primeira vez que vimos juntos. Você  parecia um menino de dez anos entusiasmado como se estivesse vendo uma partida de seu time pela primeira vez.”

Ele respirou fundo. “Sempre haverá Praga para nós”, disse. E achou ter visto nos olhos delas um brilho úmido, talvez lágrimas tão reprimidas quanto Praga fora nos anos soviéticos.

Mas podia também ser apenas uma impressão. Afinal, ela não parecia ser, ao contrário de Tracey Emin e tantas outras, uma daquelas mulheres que sofrem por sexo.

6 Respostas to “Mulheres que sofrem por sexo”

  1. Ana Says:

    Fabio irriquieto, só posso dizer que o que tu nomeia “amor” eu chamo de “sexo”. Sim, as mulheres sofrem por sexo, nunca tinha verbalizado isso, mas entendi uma impressão que eu já tinha. E me interessei por Tracey Emim.Fui ao site, e me deparei com uma das coisas que me assombra na arte contemporânea, uma atitude que eu achava inteiramente feminina, mas tendo em vista dois blogs que leio muito -o seu e o do Carpinejar- também percebo agora como uma atitude masculina: a auto exposição. Ou ainda, como diz a Tracey e também a Sophie Calle, do “Cuide bem de Você”, por exemplo, obras auto biográficas. Nas contradições pós-modernas toda essa exposição parece não desnudar. Como eu digo ‘quem se expõe se esconde’, num estereótipo de si mesmo, que de repente não há mais como voltar atrás no personagem. E, teoricamente, seria uma atitude masculina se expor e da mulher se esconder. Mas à mulher é permitido chorar, no homem é vergonha. Ainda assim, da mulher se espera uma conduta correta, e rebeldias são orbigações dos homens. Ao expor uma rebeldia, Tracey e outras, destoam do papel atribuído a elas como mulheres, chamam atenção, talvez única e somente por chamar atenção, e não para um ponto de questionamento da sociedade contemporânea. Acho que na verdade o que eu quero dizer seja exatamente isso: a arte não questiona, papel precípuo dessa manifestação. As mulheres sofrem por sexo, mas talvez Tracey não soube questionar, apenas querendo chamar atenção. Na exposição ela escondeu perguntas importantes. Ou nada disso que eu quis dizer…

    • Karina Says:

      Ana,

      Quando fala que “quem se expõe se esconde”…
      Há pouco tempo li a opinião de um crítico, Luís Antonio Giron, que atribui a esse “estereótipo de si mesmo” um nome: autoficção. Concordo com ele. Concordo com vc. Sem generalizar. Não acho que toda autoexposição seja necessariamente camuflada por ficção. Mas as chances são grandes. E como se desligar do personagem que, muitas vezes, é tão mais interessante? Acho que a contradição maior esta aí: o espectador muitas vezes sabe que são personagens mas insiste na ilusão. Todos brincando de acreditar.
      =D

  2. Karina Says:

    Hum… não entendi pq reduziu a sexo. Parece que a ideia dessa artista não era essa. Ou entendi errado?! Não conhecia a exposição, mas, ao que parece, o conceito é mais amplo. Pelo menos é o que ela diz.

    (intervalo…. juntando ideais…)

    Ok. Agora, relendo o comentário da Ana, me parece que vc reformulou o título e daí, talvez, sua própria concepção. Só não bateu com a conclusão do texto, ficou deslocado dizer que “ela não parecia daquelas que sofrem por sexo”. Amor, sim. Mas posso estar enganada nessa minha compreensão atrevida. Sorry!

  3. Monique Buzatto Says:

    É engraçado ver um homem sensível, que pode ter essas impressões erradas que geralmente as mulheres que têm.

    Aliás, é engraçado ver uma mulher toda cheia de si, com tamanha convicção do que quer sem se importar com o que precisa sacrificar pra conseguir.

    Bom texto… Melancolia e realidade na dose certa. Adorei!

  4. Alice Says:

    LIiindo esse texto… Sensibilidade e romantismo que é tão difícil de encontrar em homens!
    Parabéns Fábio!

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