Maldição Eterna


“ALÔ?”

“Oi. Sou eu.”

Só pessoas que têm ou recentemente tiveram uma relação especial com a gente podem se apresentar dessa forma. Sem dizer o nome. Demora um bom tempo até que a gente esqueça o som de determinadas vozes. Por isso, declinar o nome, pelo menos por um período, é perda de tempo.

“Oi, Nadja. Tudo bem?”

Era ela. Nadja, meu amor perdido. Eu sempre quis falar coisas inteligentes para Nadja, bem diferentes de um simples “tudo bem?”. Sempre quis impressioná-la com falas cinematográficas. Hoje vejo como isso foi ruim para o nosso romance. Eu deveria ter acreditado que ela pudesse gostar de mim como eu sou mesmo, com minhas frases banais e gramaticalmente manquitolas. Uma relação em que você se sinta na obrigação de parecer melhor do que é não pode ter um futuro muito brilhante.

“Fabio, eu queria escrever um texto sobre a minha verdade. A minha versão sobre o fim do nosso romance. Você já apresentou, nos seus textos, a sua verdade. Não acho muito justo. Aliás, não acho nada justo.” (Ela frisou o “nada” esticando deliciosamente a primeira sílaba. É uma das pequenas coisas que mais me trazem saudade. Me ocorre o seguinte pensamento: a saudade das pequenas coisas dói ainda mais que a saudade das grandes coisas.)

“O que você está querendo é inusual, Nadja. Posso adiantar que…”

“Não me adiante nada, Fabio.”

Nadja jamais tivera muita paciência com embromações. Daí o corte abrupto de minha frase. Num momento isso me encantou. Depois confesso que senti falta, em Nadja, de uma dose um pouco maior de paciência. Pelo menos comigo. É curioso, nas relações, como muitas coisas que vemos no começo como virtudes no outro ou na outra se transformam depois, aos nossos olhos, em defeitos. O tempo é cruel como um velho cossaco russo.

“Eu quero expor o meu lado. Fabio, você sempre foi imaturo. Extremamente imaturo. Você gosta do amor impossível. Você gosta da fantasia, não da realidade. Você não deu certo comigo por mais que eu amasse você. Você não deu certo com a Constância por mais que ela amasse você. Será que você percebe que não dá certo com ninguém? Quando será que você vai crescer, Fabio? É isso que eu quero escrever no artigo. Você é um embuste, Fabio. Alô, você está aí?”

Ela queria uma prova de que seu golpes verbais estavam doendo. E eu dei, talvez por uma espécie de gentileza póstuma.

“Sim. Pode ir em frente, Nadja.” (Recentemente li numa revista americana que a melhor coisa que você pode fazer quando se vê numa conversa destruidora com sua namorada é encerrar essa conversa enquanto os danos não são tão grandes assim. Infelizmente, em relação a Nadja, só li depois de um número considerável de conversas pesadas.)

“Você me atirou para fora de sua vida com esse comportamento infantil, Fabio. E me atirou para os braços de outro homem. Bem melhor, aliás, que você, Fabio. Principalmente naquilo.”

Naquilo? Um dos maiores temores de um homem é que seu sucessor seja melhor que ele naquilo. O ideal seria que nossos sucessores fizessem tudo – cantar, escrever poesias, ganhar dinheiro, eventualmente até dar uns beijos -, menos aquilo.

“Fabio. Eu… eu…”

Passou pela minha cabeça a possibilidade de que ela completasse a frase assim: “… amo você”.

“… eu odeio você. Quero que você se ferre.”

Nadja me odeia e eu aceito que seja assim. O grande amor só é grande amor se terminar em maldição eterna.

9 Respostas to “Maldição Eterna”

  1. Louis Says:

    Não importa quantas mulheres eu conheça em minha vida, todas se mostram infantis quando a relação acaba, todas tentam nos deixar machucados, como a sua Nadja.

    Take your whisky, dude.

  2. Robson Roso Says:

    Antes a maldição do ódio por uma parte e amor da outra, do que o amor de ambas as partes e dúvida se teria dado certo.

    “Hoje nos encontramos por acaso na sala de reunião da escola, ela vinha buscar o filho bagunceiro e eu era o professor que deveria explicar porque o mantive de suspenção. Quando eu a vi, 9 anos haviam passado, mas ela continuava exatmente como eu lembrava, tentadora e hipnotizante como fogo em altas chamas. Eu estava vinte quilos mais gordo os anos foram cruéis comigo, e nu como sentia sempre perto dela.

    Estou com pressa, preciso voltar pro trabalho posso levá-lo depois conversamos? (Ela perguntou articulada e decidida como sempre)

    Sim, pode sem problemas (Quando eu consegui dizer não pra ela?)

    Ela foi embora, colocou o filho no carro, teve um momento de hesitação, mas voltou.

    Eu ainda estava na minha mesa suando para dissipar toda água que queria escorrer dos meus olhos.

    Ela Entrou. Eu estava horrível e tentei me recompor. Antes que pudesse balbuciar um fonema, ela forte e bela se colocou:

    Por que isso aconteceu, conosco? Porque houve fim sem começo, se o que mais existia era amor, Robson? (Ela se lembrava de mim)

    Não respondi. Ela só precisava dividir a dúvida e voltou pro seu carro, seu filho, sua vida, seu marido, sua carreira, seu mundo construído longe de mim.

    Fumei meu ultimo cigarro na sala de aula, minha grande transgressão, eu como todo homem sensível sou combustível para mulheres, nosso sexo é calor e ela, um éter. Eu morro só pra ela, centelha, exista. E morreria todas vezes fossem necessárias.

  3. Luis Jhonne Says:

    Não acho que para ser um grande amor, termine em maldição eterna, mas sempre termina ruim, isso é uma certeza.

    Qual foi o ano do término de vocês?

  4. Monique Buzatto Says:

    Eu tento levar minha tendência de “literaturizar” a vida pra dança.
    É impressionante como mexe comigo.

    E sabe, acho que às vezes a gente comete os mesmos erros. Minhas espectativas são altas com relação aos homens, admito!
    Mas as suas são ainda maiores com relação a RELAÇÕES, eu acho.

    Essa coisa de “a vida imita a arte ou a arte imita a vida?” é perigosa.
    Deliciosamente perigosa.
    Hollywood e os escritores tentam nos fazem acreditar na lenda do grande amor e, o que é pior, conseguem!

    O problema é que não enxergamos as simbologias da arte nas nossas vidas.

    Sabia que dá pra falar de uma pessoa só sentindo o jeito como ela dança?
    Assim sendo, eu queria MUITO dançar tango com você, um dia…
    É outro jeito de brincar com a literatura da vida e de saber se o problema é com a Nadja ou com você.

  5. nardele Says:

    Ao amigo Louis lá em cima: isso obviamente não é verdade. Meu término recente (ui, como dói dizer isso) foi mega pacífico, mesmo tendo sido extremamente doloroso pra mim.

    Mas eu fico pensando Fabio, será mesmo que tem aquele amor na vida que a gente não vai esquecer, mesmo que viva 200 anos?

  6. Marlon Santana Says:

    Ah, meu caro… você sabe… isso tudo é amor. Ela tem mais raiva dela própria por não ter sido complacente com seus defeitos.

  7. Amanda Says:

    Pior do que a maldição seria a indiferença.

  8. WILLY Says:

    corram atrás de seus amores, e não deixem o tempo acabar mais com vcs do que ja acabaram. se abram para eles. E digam a realidade: que ambos vão morrer sofrendo, sendo que os 2 possam morrer juntos e felizes. o nosso destino é agente que faz. ninguêm gosta de sofrer.

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