“A barriga flácida daquela modelo é apenas marketing”


Pete e Lucy estavam sentados nas espreguiçadeiras do bar em frente do Serpentine, o lago que divide o Hyde Park, em Londres. Era um dia de verão típico de Londres: calor moderado, nuvens no céu, risco de chuva. O verão londrino é parecido com o outono paulistano, com a diferença de que as pessoas em Londres usam camisetas, bermudas, saias curtas e em São Paulo, nas mesmas condições, o que se vê nas ruas são capotes, casacos, às vezes cachecóis. Uma mesma temperatura é contemplada de forma diversa de acordo com a origem da pessoa é uma das primeiras lições que você aprende ao morar fora.

No calçadão a poucos metros do bar, um grupo de jovens patinadores era objeto da atenção de alguns passantes. Eles tentavam pular, patins nos pés, em velocidade, um obstáculo de altura móvel. Um deles conseguiu saltar uma altura de mais ou menos um metro, numa manobra plasticamente bonita, e mereceu aplausos da platéia. Mas um companheiro fracassou, e alguns observadores aproveitaram para seguir adiante.  Pete gostaria de saber andar de patins, como as pessoas que se reúnem nas noites de quarta-feira no Hyde para passeios coletivos pelas alamedas esplêndidas do parque, mas achava que não tinha coordenação suficiente para aprender, e se contentava em observar os patinadores sempre que ia ao bar do Serpentine, como naquele final de tarde de julho.

Pete e Lucy estavam tomando sorvete, ele uma casquinha com uma bola de chocolate belga, ela um copinho com duas bolas de morango. Cabelos presos num rabo de cavalo que lhe dava ares de colegial, Lucy era magra, barriga lisa. Freqüentava a academia e sabia que duas bolas de sorvete não iriam atrapalhar suas formas. Pete estava alguns quilos acima do peso. Exercícios e dietas ficavam sempre para a segunda-feira seguinte. Ele  jamais pedia outro sabor que não fosse chocolate. Remetia-o à infância passada em São Paulo, nos anos em que seu pai fora correspondente do Times no Brasil e gostava de levá-lo ao Ibirapuera para tomar sorvete no quiosque amarelo de um italiano mal-humorado, fugido da Itália com a miséria pós-guerra.

Pete trabalhava, como Lucy, numa consultoria multinacional cujos escritórios ficavam em Leicester Square, e foi ali que se conheceram.  Ele já estava lá quando ela ingressou na consultoria  e interesses comuns, como a paixão pela música do Massive Atack e pelas pinturas dos pré-rafaelista s, os aproximaram. Estavam perto dos 30 anos os dois, e saíam juntos fazia alguns meses.

Ele lia o jornal enquanto tomava o sorvete, ela contemplava os barquinhos que se moviam lentamente no Serpentine.

“Adorei”, ele disse.

“Hmmm?”

“Essa história.”

Mostrou a ela a foto de uma modelo loira, nua, com a barriga flácida orgulhosamente exposta. A foto tinha sido publicada numa revista feminina, e ganhara repercussão internacional. Nunca antes uma barriga flácida fora tão notada e aplaudida.

“Já tinha visto isso”, disse ela. “Achei um horror. Você gostaria que eu tivesse uma barriga horrível dessas?”

“Não é esse o ponto”, disse ele. “Acho libertador publicador esse tipo de coisa. Para as mulheres, quer dizer. A mulher real olha e pensa: puxa, não sou tão pior que as outras.”

“Ninguém precisa ver a banha de uma modelo para se sentir melhor”, ela disse. “Achei um absurdo também o que a diretora da revista disse. Que era uma revolução. Revolução foi a francesa, que cortou a cabeça de rei.”

“No universo das revistas femininas, talvez tenha sido”, disse ele.

“Só seria mesmo uma inovação se daqui por diante a revista mostrasse sempre mulheres reais. Mas não. Isso foi apenas marketing.”

“Você acha mesmo?”

“Não acho. Tenho certeza. Se a gente pegasse todas as mulheres que estão aqui no Hyde e perguntasse a elas o que acharam da foto da loira barriguda, pode crer. A resposta seria: golpe de marketing.”

“Você acha mesmo?”, perguntou ele,  na melhor parte do sorvete, a casquinha.

“Aposto tudo que eu tenho, como se estivesse numa mesa de pôquer. All in. Tudo mesmo. Inclusive você.”

Ele lançou um último olhar para a barriga flácida que percorrera o mundo.  Fechou o jornal e mudou de assunto.  Jamais conseguira convencê-la em discussões, e não seria ali no Serpentine, em torno da loira barriguda, que isso aconteceria.

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