O presente que não dei


O mundo basicamente de divide entre os que dão e os que recebem presentes. Eu estou na primeira turma. Poucas coisas me trazem tanto prazer quanto acertar num presente a alguém querido. É uma questão de vocação. Gosto muito mais de dar do que de receber presente.
E no entanto. E no entanto, quando olho para trás e examino minha relação com os presentes, não é algum que dei que me chama a atenção mais que os outros. É um que não dei. E aqui peço licença para uma digressão pugilística. Uma vez li uma matéria numa revista americana sobre um grande lutador. Ele tinha dezenas de vitórias, e apenas duas derrotas. Mas foram derrotas épicas, disputas que entram na lista dos maiores combates do boxe. O articulista escrever que paradoxalmente aquele lutador – chamemos pelo nome, Thomas Hearns – seria lembrado não pelas vitórias mas pelas derrotas.

É mais ou menos o que acontece comigo em relação aos presentes. O que não dei é o que não sai e não sairá jamais de minha mente.

Meu pai. Meu pai, que jamais deixara de trabalhar por causa de doença, um homem vigoroso e exuberante, um certo dia se queixou de dores. Uma bateria de exames mostrou que o problema era aparentemente simples: pedras na vesícula. Uma cirurgia rápida, uns poucos dias de recuperação no hospital e pronto. De volta à vida normal.

A cirurgia foi marcada para uma semana em que eu, um repórter iniciante, faria uma cobertura de um encontro de produtores de petróleo em Quito, no Equador. Tudo parecia banal na questão médica de meu pai, e então embarquei. (Vou poupar você da descrição das dores de cabeça pela perda da mala na conexão que fiz a caminho de Quito.)

Comprei uns poucos presentes nas raras horas vagas que tive em Quito. Mas não para meu pai. Tento entender as razões, e acho que jamais consegui dar presentes a meu pai que eu julgasse dignos dele. Meu pai amava livros. Mas qual livro dar para ele?

Na volta, encontrei meu pai no hospital. Minha mãe, delicadamente, me perguntou o que eu trouxera para ele. Nada. O que parecia ser um problema corriqueiro se transformou num pesadelo. Em pouco tempo meu pai foi fisicamente devastado – mas não mentalmente. Como Sócrates, que confortou seus discípulos na hora de beber a cicuta que o mataria, meu pai nos consolou em sua morte. Deu-nos, na prática, um exemplo sublime de força na adversidade. De aceitação dos reveses. Montaigne escreveu que nada mostra com tanta clareza a estatura de um homem como a sua atitude perante a morte. Pela medição de Montaigne, meu pai foi um gigante.

E eu. E eu. Eu não trouxe nada a meu pai de Quito. E ele estava num leito de hospital. Mas. Mas tudo parecia tão simples. Foi a última oportunidade que tive de dar um presente a meu pai. Um mentiria se dissesse que não carrego um sentimento de culpa nestes anos todos. Uma sensação. Para usar uma frase de um conto de Machado de Assis que li obsesivamente numa fase de minha vida, Um Capitão de Voluntários, uma sensação que não é grande senão por me fazer sentir pequeno.

Presentes. Gosto de dá-los. Muito. Mas o que não dei é que jamais esqueci.

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10 Respostas to “O presente que não dei”

  1. Tereza Says:

    Como seria bom se pudéssemos dar nosso último presente para as pessoas que amamos…mas não sabemos. sinto a mesma coisa, tbém não dei um presente que queria ter dado. É a vida.

  2. Anónimo Says:

    é. parece que lhe incomoda mesmo ganhar presentes. não devia, afinal a alegria em recebê-los é também um presente para quem os oferece. e dá-los? não. não tive essa impressão sobre você. desculpe-me, mas você não gosta de presentear. foi só um assunto”gancho” para a sua crônica.

  3. Larissa Says:

    Eu estava excluindo meus favoritos e vim ver q site era este. Confesso q me emocionei lendo seu texto. Sou muito apegada ao meu pai, só de ele ficar doente, com qualquer dorzinha, já me preocupo.
    Uma pena vc não ter dado esse presente, mas tenho certeza de q seu pai não está mais chateado, triste ou o q for, afinal, pai é pai.
    :]*

  4. Anónimo Says:

    Obrigada meu alter-ego,
    Lendo seu texto percebi que esse foi o meu script com meu pai e o que é pior continuo repetindo com a minha mãe que também amo. Acho que aprendi agora ….não quero ficar “reprovada nessa matéria”.
    Beijos e UM FELIZ 2009!!

  5. Anónimo Says:

    Obrigada meu alter-ego,
    Lendo seu texto percebi que esse foi o meu script com meu pai e o que é pior continuo repetindo com a minha mãe que também amo. Acho que aprendi agora ….não quero ficar “reprovada nessa matéria”.
    Beijos e UM FELIZ 2009!!

  6. PAULO TAMBURRO Says:

    Os melhores presentes ficam no passado das nossas intenções.Quem sabe no futuro…

  7. Edna Says:

    realmente o presente que não damos e o que mais nos marca, pensar que não se tera mais a oportunidade de olhar determinada pessoa nos olhos e dizer o quanto nos é importante…o quanto é amado, e mais coisas que com os abraços e olhares por si so já tudo se diz…. presentear adoro presenter, adoro abraços, e sinto falta de alguns….os presentes que não dei foram por algum tempo guardados, com o tempo se perderam, mas as lembranças….

  8. Edna Says:

    realmente o presente que não damos e o que mais nos marca, pensar que não se tera mais a oportunidade de olhar determinada pessoa nos olhos e dizer o quanto nos é importante…o quanto é amado, e mais coisas que com os abraços e olhares por si so já tudo se diz…. presentear adoro presenter, adoro abraços, e sinto falta de alguns….os presentes que não dei foram por algum tempo guardados, com o tempo se perderam, mas as lembranças….

  9. Regina Says:

    Sei bem como vc se sente.. ha quase um ano perdi o meu pai, vitima de um cancer devastador que em 3 meses o levou… uma ocasiao ele me escreveu pedindo que eu enviasse um livro para ele, porem este livro ja havia se esgotado na editora…
    Meses apos a sua morte, arrumava uma gaveta e achei aquela carta… nossa chorei tanto .. por nao ter conseguido comprar aquele presente..

  10. Violeta Says:

    Menino, tens aqui uma irmã na mania de dar presentes, minha filha diz que quase patológico. Maria Emília me chama maga. Pelo bem ou pelo mal, pela dor ou delícia, é assim que somos.

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