Você prefere a calma ou a intensidade no amor?


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Cris e Pedro tinham acabado de sair do novo filme de Woody Allen, Vicky e Cristina. Não era um grande Woody Allen, mas Woody Allen é sempre Woody Allen. Mesmo quando faz um filme menor, vale a pena ver. As obras supremas de Woody Allen ficaram lá para trás. Annie Hall primeiro, depois Manhattan. (Pena que Mariel Hemingway, a garota inocente de Manhattan, tenha envelhecido. O tempo poderia ter parado para ela, para que jamais perdesse os olhos ensolaradamente sonhadores.) O último grande Woody Allen foi A Era do Rádio.
Era mais ou menos isso que Pedro falava depois da sessão, enquanto se dirigiam à Lanchonete da Cidade para comer um sanduíche que leva o nome estranho de bombom.
“O Contardo deu uma pancada na frase essencial da Scarlett”, disse Cris. Ela falava de Scarlett Johanson, que é a Cristina do filme. “Aquela em que ela afirma que não sabe o que quer, mas que tem clareza no que não quer. Vou te dar o artigo dele pra ler.”
“Qual o ponto dele?
“Ele disse que é uma coisa muito infantil. Quem diz que sabe o que não quer se fecha a novas experiências. Pra ele é uma frase covarde e medrosa.”
“Você concorda?”
“Vou te dizer. Aquela frase eu uso com muita freqüência. Eu sei o que não quero”, disse Cris.
“O filme trata exatamente disso”, disse Pedro. “Do medo. Se você tem que optar entre uma história de amor morna que te traga segurança ou uma paixão que te transporte ao céu e ao abismo, o que você faz?”
“Uma coisa morna, nem pensar”, disse Cris. “Sem intensidade você não tem nada no amor.”

No filme, Javier Bardem é um pintor espanhol que vive em Barcelona e faz telas incompreensíveis, mas que desfruta de grande prestígio entre as mulheres. Vem de uma separação atormentada de Penélope Cruz, e está querendo levar para a cama Vicky e Cristina. São duas garotas americanas que foram passar as férias de verão em Barcelona, onde conhecem Javier, a cujo encanto sucumbem.
Javier e Penélope são o símbolo da paixão neurótica. Não funciona. Vicky tem um noivo americano, Doug, um cara certinho e bem-sucedido, mas pelo qual ela não é apaixonada. Vicky e Doug representam a mornidão amorosa.

A tempestade ou a calmaria, o que dá mais certo num caso de amor? É possível um amor ser intenso sem ser neurótico? Uma relação pode ser calma sem ser enfadonha? Esta a maior discussão que o filme traz.

“Aquele beijo”, diz Cris.
Ela se referia ao comentado beijo de Penélope Cruz em Scarlett Johanson. As duas acabam formando um triângulo fracassado com o pintor.
“Achei forçado”, diz ela. “Elas não pareceram gostar de ter se beijado no filme.”
“Concordo. O triângulo ali parecia apenas marketing. Uma mulher ciumenta como a Penélope é no filme jamais aceitaria um triângulo amoroso. A mulher ciumenta morre se vê seu homem com outra mulher”, diz Pedro.
“Você, Pedro. Quem você preferiu, a Penélope ou a Scarlet?”
“A Penélope é muito exagerada. Sou mais a Scarlet.”
“Por que os homens são fascinados pelas loiras?”, disse Cris. “É uma coisa tão … tão infantil.”
“Não sou fascinado pelas loiras”, disse Pedro. “Só falei que prefiro a Scarlet à Penelope.”
“Pedro.”
“Cris.”
“Detesto coisas mornas.”
“Eu também.”
E então, estabelecido o pacto antigelo, dedicaram-se ao sanduíche glorioso da Lanchonete da Cidade.

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14 Respostas to “Você prefere a calma ou a intensidade no amor?”

  1. Manu Says:

    Por incrível que pareça eu sempre digo que sei exatamente o que não quero.
    E sei que amo viver na montanha-russa do meu coração antiquado.

  2. Anónimo Says:

    “Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
    Ambos existem; cada um como é.”
    ***Fernando Pessoa ilustra minha impressão sobre o texto… e, fica a máxima: “Pra bom…meia…! “

  3. nena Says:

    Eu diria que seu relacionamento é tão surpreendente quanto comer um sanduíche depois do cinema. Não me parece fora do “morno”. Você se entrega sempre pelas entrelinhas. Não percebe??

  4. Renata Cardoso Says:

    Javier Bardem? Ô lá em casa

  5. Anónimo Says:

    Caríssimo, costumo ler seu blog com freqüência. Sempre há questões interessantes a serem refletidas… mas o seu último post abriu um canal de reflexão ainda maior em mim, primeiro porque costumo usar a frase: “sei o que não quero” e jamais pensei nela como falta de coragem, mas sim como plena consciência dos meus limites. Mas o que mais borbulhou foi a possibilidade do amor intenso sem neurose! É possível, repergunto! Não sei… minhas experiências me dizem que não (acabo de entrar na Balzaquiana idade e acho que tive experiências suficientes para serem levadas em conta)! Mas meu sonho romântico me impulsiona a acreditar que deva haver em algum lugar!
    Brilhante texto: humano e genuíno!
    Abraço!

  6. :) Says:

    Tô tão cansada de ir do céu ao inferno q, atualmente, prefiro uma história de amor morna que me traga uma certa segurança (se é q é possível), mas sem ser enfadonha… ihh acho q não sei o q quero, mas tenho certeza do q não quero…
    humm, tlvz ainda seja um pouco infantil.

  7. Oliveira Says:

    A tranquilidade

  8. Anónimo Says:

    Relacionamentos “intensos” podem cair na armadilha da neurose que leva ao fim. Só mesmo a maturidade de ambos, e uma conexão de interesses na mesma fase da vida, conduzem a uma relação divertida e compensadora. Na verdade, tudo isto acontece naturalmente. Quando ambos começam a pensar demais sobre o assunto, a coisa já está morna.

  9. PequenAprendiz Says:

    É bom viver um amor neurótico, mas chega um momento que cansa ir e vir do inferno. Relações assim tem prazo certo. Ao menos nunca vi “felizes para sempre” nisso.
    Ah, as loiras com certeza são as melhores lol !

  10. PAULO TAMBURRO Says:

    Taí, você continua o mesmo.Parabéns,cara!

  11. valéria Says:

    para quem é fã de woody allen, você até que entendeu pouco dele. vai me dizer que pedro e cris não se viram em pelo menos um daqueles personagens? w.a. apenas expôs. mas expôs todos os tipos. impossível que você não saia perturbado do filme por constatar que seu modo de vida ou que alguma “falha emocional” sua não esteja ali rodando na tela, na frente de todo mundo. quanto à frase “eu sei o que não quero” , interpreto como uma ironia do autor. a cristina, muito bem descrita por doug numa das cenas, utiliza a frase constantemente para esconder sua suprema insegurança.
    você, fabio, conhece por acaso alguma mulher que sabe ‘realmente’ o que quer e o que não quer?

  12. Julia Duarte Says:

    Só sei que nada sei! lol.
    bjs, Fabio.

  13. Marcos Henrique Says:

    Pela resposta, eu envelheceria ao lado da Manu, da primeira resposta…

  14. R. M. Gonçalves Says:

    Quem procura sexo excepcional e selvagem deve arcar com as conseqüências de um amor neurótico; quem quer estabilidade amorosa e sossego diário, deve se resignar com sexo meia boca. Creio que não exista algo intermediário!

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