Toda mulher precisa de um homem em quem colocar a culpa


“Detestei esse livro que você me deu para viajar”, Cris disse. “O cara engana a mulher e deixa ir embora o amor da sua vida. Mesmo sem suportar a mulher com quem é casado. Isso nas primeiras cinco páginas. Tive vontade de jogar fora. Vou dar mais uma chance de, sei lá, umas trinta páginas.”
Cris se referia a O Animal Agonizante, de Philip Roth, um dos escritores favoritos de Pedro. Ele gostava da mordacidade de Roth, de seu estilo caudaloso e cruel, da libidinagem que governava seus personagens, a começar por ele mesmo, quase sempre mal-escondido atrás do personagem principal. Um judeu-americano soberbo, Roth. O escritor que melhor traçou o retrato depressivo, a angústia tonitruante do homem contemporâneo em sua marcha inescapável rumo à velhice e impotência. Henry, o cara de quem Cris falava, tinha um impasse sinistro logo no começo do livro, além do clássico mulher ou amante. Ele era cardíaco, e tomava um remédio que lhe tirava a potência, logo ele, um obcecado sexual. Uma cirurgia arriscada é a única chance de ele recuperar a vida sexual. Fazer ou não fazer?
“Acho que você não devia dar uma única página a mais de oportunidade para o livro”, Pedro disse. “Livro é assim: ou você gosta ou desiste. Conheço gente que vai adiante por teimosia, mas acho isso uma estupidez. Você não tem na vida tanto tempo assim para ler todas as páginas que gostaria de ler. Não faz sentido desperdiçar tempo com páginas que estão te incomodando. O mesmo vale para um filme. Vinte minutos e a coisa não anda, é tempo de se erguer da poltrona e ir embora do cinema.”
Cris provavelmente voltaria à leitura segura de Travessuras da Menina Má, de Vargas Llosa. O Animal Agonizante talvez não fosse o melhor Roth, mas Pedro gostava muito. A relação entre Henry e seu irmão Nathan o comovia. “Ninguém conhece alguém melhor que um irmão”, estava escrito ali. Ao ler essa frase Pedro se lembrou do magnífico final de um romance do inglês Martin Amis. Uma rivalidade amorosa separou dois irmãos, mas a paixão que os ligava acabou por triunfar. Um deles morre, e o que sobrevive escreve ao irmão morto uma carta que é uma pequena obra-prima. “Você preencheu todos os meus céus”, dizia a carta. “Ter você equivaleu a ter cem irmãos.” Pedro pensava no seu irmão Itamar, equivalente a cem irmãos.
“Devem ter errado na circuncisão do Roth e ele perdeu o pênis”, disse Cris. “Só assim dá para entender a visão tão errada que ele tem de sexo e casamento.”
Pedro devaneou por alguns momentos. Pensou que era um crime Roth não ter recebido um Nobel. Assim como acontecera com Graham Greene. Um francês inexpressivo ganhara o último Nobel de Literatura. O problema não estava em Roth, como não estivera em Greene, mas nos homens que decidiam e decidem o prêmio.
“Mesmo que o Animal Agonizante seja tudo isso que você disse, ele valeria por uma frase”, disse Pedro para Cris.
“A melhor frase do mundo não faz um bom livro”, ela disse.
“Neste caso faz. O Roth escreveu que toda mulher precisa de um homem em quem colocar a culpa. Gênio.”
“Ele é misógino”, ela disse. “Parece detestar mulher.”
“O vibrador liberou a mulher da necessidade de homem para ter orgasmo”, disse Pedro. “Mas em quem ela vai colocar a culpa por tudo de ruim que acontecesse se não num homem? Botar a culpa no vibrador não dá.”
“Às vezes acho você tão misógino quanto o Roth, Pedro”, disse Cris.
Pedro ficaria lisonjeado se fosse comparado a Roth na prosa, mesmo sabendo que isso seria um absurdo, mas não na misoginia. Era Roth mesmo misógino? As mulheres em seus romances pareciam servir para basicamente oferecer prazer, e depois angústia, aos homens. Roth construíra grandes personagens masculinos, mas que mulher interessante ele criara? Onde a sua Capitu, ou Bovary, ou Karenina? Mas. Mas de um escritor capaz de escrever aquela frase sobre a função essencial do homem tudo deve ser perdoado. Sim, pensou Pedro. .

3 Respostas to “Toda mulher precisa de um homem em quem colocar a culpa”

  1. Anónimo Says:

    Roth é muito pesado, como todo médico escritor. Fala tranquilamente de um fato trágico. Conta com naturalidade as mazelas do ser humano. A doença é parte da vida de todos, como é da sua própria, mesmo que os leitores não tenham se submetido a tantos anos de treinamento para encarar desta forma. Melhor deixar apenas o Nobel de medicina para eles. E continuar com o chato (???) do Le Clézio.
    Em tempo: o Le Clézio mereceu o Nobel nem que tenha sido apenas pelo seu charme. O Roth não o tem.

  2. Lyla Says:

    Eu li esse livro do Philip Roth. Gostei muito, é uma história de amor das mais dolorosas.
    Lembro da descrição que ele faz da garota: “Ela é uma daquelas mulheres que sabe se vestir de maneira elegante, sem ser vulgar..tem uma sensualidade recém-descoberta, com a qual ainda não sabe lidar. E usa muito bem as palavras, não é uma dessas adolescentes tronchas que ficam dizendo ‘tipo assim’.”
    Estou transcrevendo da minha memória, não são as palavras exatas. E não achei o Roth misógino não. Mas porque o personagem masculino dele é sempre velho e cheio de libido? Será uma projeção dele mesmo??

  3. PAULO TAMBURRO Says:

    E MAIS AINDA: O VIBRADOR NÃO TEM BARBA !

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