“Mulher detesta receber livro de presente”


“Some daqui”, ela disse a ele aos gritos. Ela sabia gritar. Era uma coisa tão natural nela como andar, ou dançar, ou cozinhar, ou pintar, ou ler, ou escrever. Moravam juntos fazia um ano, e ela o estava mandando embora de casa. Não funcionara, e ponto. Ele não tentou dissuadi-la em parte porque sabia ser impossível, e em parte também porque sabia que a história deles fora à falência como um daqueles bancos de investimentos americanos apanhados pela grande crise financeira de 2008. Em amores falidos quanto menos conversa houver melhor. Os diálogos costumam apenas aprofundar a dor e a raiva.
Quando decidiram morar juntos, depois de um namoro curto de cinco meses, um projetava grandes expectativas no outro. Um romance saudável não combina com expectativas elevadas: a frustração costuma ser letal. Espere pouco de um caso de amor e as chances de ele florescer são, paradoxalmente, maiores. Eles esperaram muito um do outro, e depois se culparam mutuamente pela decepção.
No final, o que restara de bom fora, apenas, a vida sexual.. Ele não conseguia se deitar ao lado dela na cama sem querer possuí-la. Parecia um feitiço. Ele gostava dos sons dela no sexo, dos gemidos suaves e constantes. Gostava do cheiro dela, do contorno delicado de seu corpo miúdo e bem feito. Do jeito de fechar e de abrir os olhos quando ele estava por cima dela. Gostava da expressão dela quando ficava sobre ele. Uma vez a fotografara assim e depois dera à foto o nome de Orgasmo Poltersgeist. Ela se sentia lisonjeada com o fascínio sexual que exercia sobre ele. Poucas sensações elevam tanto uma mulher quanto a de saber que é desejada. Mas o sexo bom apenas retarda o fim de uma história de amor, não o evita.
“Uma vez você falou que me dava orgasmos como ninguém”, ela disse na conversa final com ele. “Você achava que isso era suficiente. Mas não. Orgasmo uma mulher pode ter com um vibrador. Um casamento é muito mais que uma fábrica de orgasmos. Um casamento é feito fora da cama, não nela. Um casamento se constrói quando estamos de pé, e não deitados.”
Ele riu sozinho. Essa frase dela lembrou a ele uma tirada clássica de Churchill, o líder inglês da Segunda Guerra. “Sente-se em vez de ficar de pé, se você pode. E se deite em vez de ficar sentado, se der.” De Churchill ele se lembrava de outra tirada clássica. Uma mulher dissera a ele, numa festa da aristocracia inglesa, que poria veneno na sua bebida se fosse casada com ele. Churchill replicara que se fosse marido dela tomaria o veneno alegremente.

Ela tinha um vibrador, guardado na gaveta de calcinhas. Comprara pela internet para evitar o embaraço da compra pessoal. Homens se sentem constrangidos ao comprar preservativos, e mulheres sentem o mesmo ao comprar vibrador. Ele viu no vibrador – rosa, delicado, efeminado até, mas eficiente em suas cinco fases de vibração – um competidor. De uma forma estranha ele preferia que, se era para ter orgasmos sem ele, que fosse com outro homem e não com uma maquininha cor de rosa. A aquisição se fizera no final do casamento.

“Você não me enxergava nem nos presentes que dava para mim”, ela disse ao despedi-lo. Olhou para uma esstante cheia de livros que ele lhe dera. Uma mistura exótica e desconexa de letras. Greene, Llosa, Confúcio, Roth, Updike. “Você sabe que eu adoro ler. Ter um bom livro nas mãos me dá um prazer quase sexual.” No momento ela estava lendo A Menina Má, de Llosa. Vagava lenta e com atenção extrema pelas linhas e pelas páginas de Llosa. Ele dizia nos bons tempos, brincando, que ela era sua menina má.
“Mas. Porém. No entanto.” A cada palavra a voz dela subia de tom. “Caraca. Será que você nunca vai entender que mulher detesta receber livro de presente?”

13 Respostas to ““Mulher detesta receber livro de presente””

  1. Anónimo Says:

    eu,adoro!

  2. Silvia Says:

    Ótimo texto!!!
    Gritar é horrível, mas péssimo mesmo é quando só assim te ouvem pq de nada adianta…Boa semana!

  3. carmim Says:

    p*** m****…muito igual!

  4. Anónimo Says:

    Eu amo! Principalmente quando conseguem perceber e acertar o tipo de literatura que apreciamos!

  5. juliana Says:

    Eu diria que uma mulher que gosta de ler adora receber livros de presente. Só não do mesmo homem de quem ela é a Menina Má. Esse poderia ousar um pouco mais.

  6. Juliana Says:

    Diria que as mulheres adoram (ao menos as que gostam de ler) receber livros de presente. Só não do mesmo homem de quem ela é a Menina Má. Esse poderia ousar um pouco mais.

  7. Julia Says:

    Adoro receber livros de presente, mas nem todas mulheres gostam. Só as normais.

  8. PequenAprendiz Says:

    Não concordo. Depende do tipo de pessoa que é essa mulher e dos seus interesses. Os livros sempre nos ensinam algo, e esse algo pode ficar gravado na mente por muito tempo, não como um perfume que acaba, uma rosa que seca.

  9. Luci Says:

    ja aconteceu isso comigo…..mas nao com livros….alias adoro receber de presente….mas sim com eletrodomesticos….rs…….Otimo texto, sempre leio e sempre volto.

  10. Lívia Says:

    Mulher não suporta receber é qualquer utensílio que vá ser usado pela casa, não por ela!!! rsrsrs Isso aprendi com minha mãe. Como estou na fase de ir morar só, acharia muito delicado receber uma geladeira, p.ex. =D
    Tudo depende da circunstância, digamos assim.
    Livros são o melhor presente que podem me dar, desses mais óbvios. No caso de um amor, talvez eu esperasse mais mesmo, como já disseram aqui embaixo.

  11. Anónimo Says:

    Sem generalizações. Acho que, no final, tem a ver com expectativas. Não é o livro, é que ela espera que ele saiba sempre lê-la, sem que se abra numa palavra. Então, que do nada, ele saiba que é para dar uma flor, assim, por dar, porque cumpre uma expectativa de ‘almas em sintonia’. É, não é fácil. Ninguém disse que seria. Por isso, quando não se espera nada e algo acontece parece mais simples, permanente; a excitação acaba tendo um efeito calmante. O contrário do efeito provocado pela feroz e implacável frustração. O bom é que sempre dá para recomeçar e, de repente, a gente aprende. Ganha-se umas, perde-se outras (algum tio deve ter dito isso). Mas não vamos culpar os livros. Ou os homens. Ou as mulheres. As expectativas, tudo bem… A culpa é das expectativas.

  12. Priscila Says:

    Eu adoraria receber um. Mas não tantos!!

  13. PAULOTAMBURRO Says:

    AS LOIRAS?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

“Mulher detesta receber livro de presente”


“Some daqui”, ela disse a ele aos gritos. Ela sabia gritar. Era uma coisa tão natural nela como andar, ou dançar, ou cozinhar, ou pintar, ou ler, ou escrever. Moravam juntos fazia um ano, e ela o estava mandando embora de casa. Não funcionara, e ponto. Ele não tentou dissuadi-la em parte porque sabia ser impossível, e em parte também porque sabia que a história deles fora à falência como um daqueles bancos de investimentos americanos apanhados pela grande crise financeira de 2008. Em amores falidos quanto menos conversa houver melhor. Os diálogos costumam apenas aprofundar a dor e a raiva.
Quando decidiram morar juntos, depois de um namoro curto de cinco meses, um projetava grandes expectativas no outro. Um romance saudável não combina com expectativas elevadas: a frustração costuma ser letal. Espere pouco de um caso de amor e as chances de ele florescer são, paradoxalmente, maiores. Eles esperaram muito um do outro, e depois se culparam mutuamente pela decepção.
No final, o que restara de bom fora, apenas, a vida sexual.. Ele não conseguia se deitar ao lado dela na cama sem querer possuí-la. Parecia um feitiço. Ele gostava dos sons dela no sexo, dos gemidos suaves e constantes. Gostava do cheiro dela, do contorno delicado de seu corpo miúdo e bem feito. Do jeito de fechar e de abrir os olhos quando ele estava por cima dela. Gostava da expressão dela quando ficava sobre ele. Uma vez a fotografara assim e depois dera à foto o nome de Orgasmo Poltersgeist. Ela se sentia lisonjeada com o fascínio sexual que exercia sobre ele. Poucas sensações elevam tanto uma mulher quanto a de saber que é desejada. Mas o sexo bom apenas retarda o fim de uma história de amor, não o evita.
“Uma vez você falou que me dava orgasmos como ninguém”, ela disse na conversa final com ele. “Você achava que isso era suficiente. Mas não. Orgasmo uma mulher pode ter com um vibrador. Um casamento é muito mais que uma fábrica de orgasmos. Um casamento é feito fora da cama, não nela. Um casamento se constrói quando estamos de pé, e não deitados.”
Ele riu sozinho. Essa frase dela lembrou a ele uma tirada clássica de Churchill, o líder inglês da Segunda Guerra. “Sente-se em vez de ficar de pé, se você pode. E se deite em vez de ficar sentado, se der.” De Churchill ele se lembrava de outra tirada clássica. Uma mulher dissera a ele, numa festa da aristocracia inglesa, que poria veneno na sua bebida se fosse casada com ele. Churchill replicara que se fosse marido dela tomaria o veneno alegremente.

Ela tinha um vibrador, guardado na gaveta de calcinhas. Comprara pela internet para evitar o embaraço da compra pessoal. Homens se sentem constrangidos ao comprar preservativos, e mulheres sentem o mesmo ao comprar vibrador. Ele viu no vibrador – rosa, delicado, efeminado até, mas eficiente em suas cinco fases de vibração – um competidor. De uma forma estranha ele preferia que, se era para ter orgasmos sem ele, que fosse com outro homem e não com uma maquininha cor de rosa. A aquisição se fizera no final do casamento.

“Você não me enxergava nem nos presentes que dava para mim”, ela disse ao despedi-lo. Olhou para uma esstante cheia de livros que ele lhe dera. Uma mistura exótica e desconexa de letras. Greene, Llosa, Confúcio, Roth, Updike. “Você sabe que eu adoro ler. Ter um bom livro nas mãos me dá um prazer quase sexual.” No momento ela estava lendo A Menina Má, de Llosa. Vagava lenta e com atenção extrema pelas linhas e pelas páginas de Llosa. Ele dizia nos bons tempos, brincando, que ela era sua menina má.
“Mas. Porém. No entanto.” A cada palavra a voz dela subia de tom. “Caraca. Será que você nunca vai entender que mulher detesta receber livro de presente?”

13 Respostas to ““Mulher detesta receber livro de presente””

  1. Anónimo Says:

    eu,adoro!

  2. Silvia Says:

    Ótimo texto!!!
    Gritar é horrível, mas péssimo mesmo é quando só assim te ouvem pq de nada adianta…Boa semana!

  3. carmim Says:

    p*** m****…muito igual!

  4. Anónimo Says:

    Eu amo! Principalmente quando conseguem perceber e acertar o tipo de literatura que apreciamos!

  5. juliana Says:

    Eu diria que uma mulher que gosta de ler adora receber livros de presente. Só não do mesmo homem de quem ela é a Menina Má. Esse poderia ousar um pouco mais.

  6. Juliana Says:

    Diria que as mulheres adoram (ao menos as que gostam de ler) receber livros de presente. Só não do mesmo homem de quem ela é a Menina Má. Esse poderia ousar um pouco mais.

  7. Julia Says:

    Adoro receber livros de presente, mas nem todas mulheres gostam. Só as normais.

  8. PequenAprendiz Says:

    Não concordo. Depende do tipo de pessoa que é essa mulher e dos seus interesses. Os livros sempre nos ensinam algo, e esse algo pode ficar gravado na mente por muito tempo, não como um perfume que acaba, uma rosa que seca.

  9. Luci Says:

    ja aconteceu isso comigo…..mas nao com livros….alias adoro receber de presente….mas sim com eletrodomesticos….rs…….Otimo texto, sempre leio e sempre volto.

  10. Lívia Says:

    Mulher não suporta receber é qualquer utensílio que vá ser usado pela casa, não por ela!!! rsrsrs Isso aprendi com minha mãe. Como estou na fase de ir morar só, acharia muito delicado receber uma geladeira, p.ex. =D
    Tudo depende da circunstância, digamos assim.
    Livros são o melhor presente que podem me dar, desses mais óbvios. No caso de um amor, talvez eu esperasse mais mesmo, como já disseram aqui embaixo.

  11. Anónimo Says:

    Sem generalizações. Acho que, no final, tem a ver com expectativas. Não é o livro, é que ela espera que ele saiba sempre lê-la, sem que se abra numa palavra. Então, que do nada, ele saiba que é para dar uma flor, assim, por dar, porque cumpre uma expectativa de ‘almas em sintonia’. É, não é fácil. Ninguém disse que seria. Por isso, quando não se espera nada e algo acontece parece mais simples, permanente; a excitação acaba tendo um efeito calmante. O contrário do efeito provocado pela feroz e implacável frustração. O bom é que sempre dá para recomeçar e, de repente, a gente aprende. Ganha-se umas, perde-se outras (algum tio deve ter dito isso). Mas não vamos culpar os livros. Ou os homens. Ou as mulheres. As expectativas, tudo bem… A culpa é das expectativas.

  12. Priscila Says:

    Eu adoraria receber um. Mas não tantos!!

  13. PAULOTAMBURRO Says:

    AS LOIRAS?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: