O amor e o berro


Um poeta português disse que as cartas de amor são ridículas. Mas mais ridículo ainda é não escrever cartas de amor. Tenho um acréscimo à voz do poeta: algumas cartas de amor ultrapassam os limites do ridículo. São pomposas, verborrágicas, exageradas. A grande carta de amor é necessariamente simples e objetiva. Assim como a grande declaração de amor. A simplicidade é bela ao falar e ao escrever. Uma pessoa afetada na forma de se comunicar com as demais é afetada em outras esferas. “A verdade tem que falar uma linguagem simples, sem artifícios”, escreveu um filósofo. O amor também. Isto é, se for verdadeiro.

As virtudes da economia ao se expressar têm notáveis exemplos históricos. Conta-se que os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a uma esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês. Quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”. Num outro caso, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia à qual cabia a escolha ouviu um extenso discurso do primeiro arquiteto. As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: “Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer”. Para Sêneca, “nos grandes arroubos da eloqüência há mais ruído que sentido”.

Os espartanos serão eternamente reverenciados pela simplicidade com que viviam e se expressavam. Uma vez perguntaram a uma autoridade de Esparta por que os espartanos não colocavam por escrito as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las. A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens aos feitos e não às palavras. “O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia”, escreveu Montaigne. (Realmente sinto que estou exagerando nas citações. Deus, pareço um almanaque. Mas olho para trás e tento cortar algumas citações, e não consigo, não por mérito meu, mas dos donos das frases. Dá para deletar a seguinte reflexão de Plutarco? Disse ele: “A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir. Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Não só não causa sede como confere um traço de nobreza”.)

Também no amor, há mais “ruído que sentido” nas frases espalhafatosas ditas ou escritas. A mais genuína, a mais poderosa declaração de amor é, muitas vezes, o olhar silencioso, o gesto mudo, e, no entanto, estamos quase sempre inclinados a berrar nossa paixão. Na cama, sobretudo, trava-se muitas vezes uma competição para ver quem gritar mais alto, um torneio de gemidos geralmente insinceros e ensurdecedores que cada parceiro acredita, numa mistura de ignorância e ingenuidade, serem excitantes. O berro amoroso incomoda o ouvido e dificilmente chega ao coração. E provoca não orgasmos maravilhosos, não maratonas sexuais inacreditáveis, mas simplesmente sede.

11 Respostas to “O amor e o berro”

  1. Anónimo Says:

    te adoro!

  2. Anónimo Says:

    preciso assinar?

  3. Anónimo Says:

    Exatamente isso…disse tudo!
    Pobres ingênuos

  4. Anónimo Says:

    às vezes o berro e as palavras mal ditas são para banalizar e libertar,tudo depende,nem tudo é o que parece ser..existe o gemido forçado e também a verborragia…tudo m***q se joga no ventilador

  5. Anónimo Says:

    Desde a primeira vez q vi o seu blog , me tornei sua fã, adoro as coisas q vc escreve…

  6. Martha Says:

    …verdade…!

  7. Oliveira Says:

    Fabio
    Quando escrevo sobre você, suas citações desaparecem, eles se assimilam ao personagem tomando a forma que ele tem, ou que ele tenta passar; dando tom natural e familiar. As citações continuam em meus diálogos, mas de maneira mais suave.
    Continue, você é a melhor coisa que eu já li neste “transito virtual”.

  8. Anónimo Says:

    Concordo: cartas de amor são ridículas. Mas rendem boas gargalhadas no futuro. Outro dia, arrumando o armário, deparei-me com cartas trocadas com meu marido a 20 anos atrás. E o que dizer dos cartões comprados em papelaria? Simplesmente bregas! Mas quer saber…valeu cada centímetro de linha escrita!

  9. Anónimo Says:

    Meu querido e admirado escritor, o amor se escreve com um olhar, melhor ainda se este olhar tiver réplica. Está estabelecida um relação amorosa que germinará, regada pelo tempo. Já o berro é o ápice do gozo, pouco conseguem.Forte abraço.

  10. Neyde Says:

    Meu alter Ego….AMEI.
    Campos é o meu preferido…nada sei…mas dele entendo um pouco.
    Me pergunto..quem sou eu nessa relação/leitura com FH?
    Vc escolheu o heterônimo de Fernando Pessôa mais representativo do modernismo Português.Vc FH (também é um heterônimo!!!) é marcado pela antítese como Campos.Quanta identificação!!! Quanto AMOR(não é sexo) X MEDO registrado nos seus textos!!!…Quanta sensibilidade!!!Quanto medo!!

  11. Neyde Says:

    Escrito por Fabio Hernandez – 16/01/2007

    Ame quieto……

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: