Um homem e sua paixão


Olha. O título acima é o de um filme que acho que só eu vi. Quer dizer. O Jabor também: Eu Te Amo, para mim o melhor filme dele, cita Um Homem e sua Paixão. Engraçado. Não é sobre o filme que eu sentei aqui para escrever. Mas já que dei aquele título. Mastroianni, Monica Vitti. Um casal como tantos outros. Moram numa casa nos subúrbios. O personagem de Mastroianni um dia está andando pelo centro quando alguma coisa — o destino? — o atrai a um leilão. Ele levanta ao acaso a mão teimosamente na disputa de algo. Era uma câmara.

A câmara se torna sua paixão. Ele filma tudo, e o resto vai perdendo importância, incluída a mulher — oh Monica, você devia ter sido preservada para todo o sempre com a beleza italianamente assombrosa daqueles dias em que era rainha sobre as rainhas. Um cara um dia lhe pede carona, um jovem errante, e o personagem de Mastroianni acaba acolhendo-o em sua casa. Uma das cenas mais excitantes e simples do cinema, para mim, é aquela em que Mastroianni, com um esguicho nas mãos, começa a jogar jatos de água nos dois, a mulher e o jovem vagabundo, até uni-los. A água torna transparente a blusa de Monica, ou quase. Pelas mãos do marido ela vai se tornando uma adúltera relutante. Adúltera relutante. Gosto da expressão. Alguém aí é uma adúltera relutante, ou conhece uma? Naquele filme Monica Vitti é uma mulher que ama desesperadamente o marido, e também é uma adúltera relutante. Uma hora ele parece interessar-se novamente por ela, e se abraçam, e se beijam, e ele a arrasta para a cama. Ela suspira aliviada. Parecia ter recuperado o marido que se fora rumo a um mundo apenas dele, e ela soube que o perdera para sempre quando percebe, depois do sexo, a presença da câmara de filmar. Ele interpretara um papel. Ele estava excitado não pela mulher, e que mulher, mas pela filmagem.

A cena final, ah, a cena final. Vontade de contá-la, mas talvez alguém queira ver o filme, e então paro por aqui. Digo apenas: entra em qualquer lista curta dos melhores finais de cinema. Na minha opinião, pelo menos, e suponho que na do Jabor.

. Eu queria, na verdade, falar de um herói da minha vida e de muitas outras pessoas, ou anti-herói, sobre cuja obra o tempo não haverá de fazer efeito. Bobby Fischer, o enxadrista americano, morto há poucos dias. Vejo a página de obituários da Economist, e não há como não se emocionar com a foto preto e branco do jovem Fischer. Jovem ainda, paletó e gravata, queixo apoiado na mão esquerda, abotoaduras elegantes, os olhos postos com devoção concentrada no maior amor de sua vida: o tabuleiro de xadrez. Ele nunca casou, ele nunca fez nada além de jogar xadrez e, progressivamente, perder o juízo. Ah, mas como ele jogava, como ele jogava.

Bobby Fischer acabou com um duradouro reinado dos russos no xadrez em 1972, numa histórica disputa na Islândia. Os líderes soviéticos usavam a hegemonia no xadrez para apregoar a “superioridade” do comunismo. Ao bater Boris Spasski, o campeão mundial, Fischer se tornou um herói da Guerra Fria. (Não vou escrever sobre a Guerra Fria, simplesmente me recuso. Preguiça. Wikipedia para maiores detalhes.) Fischer de alguma forma antecipou no tabuleiro o fim do comunismo.

Spasski era assessorado, nos intervalos das partidas pelo título mundial, por 35 grandes mestres de xadrez. Fischer tinha um caderno de anotações, e ele próprio, e sua mente prodigiosa. E venceu. Fischer sonhava fazer uma casa na forma de uma jogada clássica de xadrez, o roque. Não fez. Ele tinha sido o principal trunfo de si próprio na Islândia, e depois se converteu também em seu pior inimigo. Via conspiradores por toda parte. Tinha sempre a seu lado pílulas para neutralizar envenenamento em sua comida.

Morreu solitário como sempre foi, Bobby Fischer, um gênio, um gigante, um herói improvável, o campeão eterno de todos nós os desajustados, e foi com um arrepio que eu soube que o local escolhido por ele para morrer foi a remota Islândia, onde vivera seus dias de rei e guerreiro, onde fora capaz de destruir, sozinho, apoiado apenas em seu extraordinário talento e em sua vontade inquebrável, um exército de quase 40 grandes mestres soviéticos ávidos por liquidar aquele judeu americano petulante. A Islândia era acolhedora para ele, como era acolhedor o clube de xadrez novaiorquino em que, garoto, estudava longamente o jogo quando devia estar na escola.

. E então me lembro de Fitzgerald, e de seu Gatsby, um dos meus grandes heróis literários. E me vem obsessivamente a sentença final do romance de Fitzgerald, e ei-la, braços remando contra a corrente, rumo ao passado, estamos todos condenados a isso. Jay Gatsby amava Dayse, a pérfida Dayse, e enriqueceu apenas para conseguir se reaproximar dela, anos depois, ela já casada. Ele voltou no tempo, ele era apaixonado, ela era calculista, e ninguém dava festas como as de Jay Gatsby, e Dayse se atirou nos braços dele fascinada pela opulência de Gatsby, uma adúltera nada relutante, uma mulher que tinha seu preço como se fosse uma jóia, e ela e todos o abandonaram quando as coisas correram mal para ele, exceto o narrador, que grita aquele grito sublime de amizade, admiração e lealdade quando Gatsby se afasta derrotado do local onde conversavam os dois, e este é um grito que tanta gente como eu gostaria de ter gritado para Bobby Fischer: “Ei, Gatsby, você é melhor que todos eles.”

7 Respostas to “Um homem e sua paixão”

  1. Anónimo Says:

    Remar contra a corrente,não é nada ruim para hj em dia.Pode ser a glória, num mundo em que a maioria se julga o”esperto”apenas se mantendo na confortável posição de se deixar levar,pois nadar contra a corrente ou resgatar o passado, é muito mais difícil,e é a única maneira de manter teus princípios sólidos , principalmente qd o mundo que te apresentam mais se parece com uma fantasia.Resgatar o passado não quer dizer não viver o presente ou não saber se colocar de frente para o futuro,mas sim aprender tb com os próprios erros.

  2. Ricardo Steil Says:

    Scott, retona o mesmo tema em Suave É A Noite – meu preferido, por sinal -, só que no caso, na pele de Dick Denver, vai mais fundo, ao invés de liquidá-lo, permite que viva no otracismo e sofrendo a amargura pelos dias de glória que jamais retornaram. Eis aí uma das grandes neuroses dos nossos dias: a inexorabilidade do tempo. E o pior é que, grande parte da humanidade, sofre desta.

  3. Anónimo Says:

    vc eh um escritor barato?
    pode ateh ser….mas eh o idolo de uma jovem estudante do curso de historia como eu….
    obg por suas maravilhosas cronicas!!!!

  4. duda Says:

    Oi, gostou do termo relutante, né?? Eu sabia. Eu vi aquele filme. E não me esqueço da cena do esguicho. Nem da beleza do Marcelo e da Monica. beju

  5. jose oliveira Says:

    tinha tudo para neutralizar.

  6. jose mendes de oliveira Says:

    nao e monica vitti .e virna lisi

  7. sebastiao ferreira Says:

    Este é um filme que assisti na band há muito tempo e gostaria de reve-lo, e se possivel ter para assistir qundo tiver vontade. Nota 10 para Um homem e sua paixão.

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