Aqueles olhos verdes


OS DEDOS do pianista escorregavam pelo teclado, e sua voz medíocre, caricatura da voz de Sinatra, ecoava pelas mesas do salão escuro e chique naquela noite quente. O homem sombrio olhou para a jovem de imensos olhos verdes a seu lado e sorriu. Divisou a silhueta de seus seios livres por baixo do vestido leve de verão, e foi invadido por fugazes pensamentos concupiscentes.

Sorriu de novo. “Por que você ri tanto?”, ela perguntou, os cabelos claros displicentemente atirados para trás. Respondeu com mais um sorriso. Talvez risse tanto por causa dos dois gins-tônicas que tomara, talvez porque a própria situação fosse, de certa forma, risível. Olhava os vultos elegantes espalhados pelo salão e identificava, neles, pessoas que pertenciam a um mundo bem diferente do seu.

Outro mundo. Sorriu de novo. Quando jovem, sonhara com a possibilidade de, um dia, contribuir para o fim desse outro mundo. O tempo liquidara a chama. O leitor de O Capital se transformara num admirador e pregador do capitalismo. Só o mercado salva, como Hayek, o gênio do liberalismo, tanto pregara. Não, não ia falar sobre Hayek com ela, e nem sobre sua conversão, não agora, pelo menos. A jovem bonita e atraente olhava-o intensamente nos olhos, e cantarolava a canção que vinha do canto onde ficava o piano. You must remember this, a kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh. As time Goes By. O homem pediu ao garçom o terceiro gin-tônica e lembrou a velha cena. Rick, bêbado, pede a Sam que toque a música. Sam não quer. Você tocou para ela, tem que tocar para mim, ordena Rick. It seems the same old story, a fight for love and glory, a case of do or die. Rick e Ilse, amores impossíveis, braços que se desenlaçam em despedidas supremas. Era o que escrevera, há tantos anos, Eça.

Será que alguém o lia ainda hoje?

Estava ficando piegas, sentimental, e decidiu, então, parar de beber. Bêbado sentimental, eis uma das mais perversas combinações que a humanidade jamais produziu. Pensou na jovem. Ela inclinou-se para apanhar seu copo de vinho e ele sentiu seu cheiro perturbador de fêmea no esplendor, e esse cheiro era melhor ainda do que o que vinha do gin-tônica, e por um momento desejou tê-la em pleno bar. “Ih, meu Deus, estou trabalhando demais”, ela lhe contara. “Pareço a Amélia.” Não, não parecia. Ou parecia tanto quanto uma nota de um euro parece uma nota de um peso equatoriano. Falou-lhe de seus namorados, a voz suave manobrando astuciosamente para não mostrar saudades. Traíra certa vez um, Dona Flor dos Jardins. Gostava dos dois, precisava dos dois, dormia com os dois. Contava tudo sem nenhum sentimento de culpa e isso, se um dia poderia tê-lo chocado, agora de certa forma o encantava.

O pecado pode ser puro, aprendera. E belo.

Tinha havido até um príncipe, um remoto descendente de reis e rainhas, um jovem destronado que talvez se convertesse em Pedro 87 ou 88 caso fosse restabelecida a monarquia. “Ele era o máximo”, dissera ela, convicta. Será que as noitadas reais também eram o máximo?, pensou ele em voz alta. Ela riu e não quis responder. Pareceu ao homem que os olhos dela diziam que sim, e ele achou então que havia pelo menos um motivo para respeitar Pedro 87 ou 88, o quase príncipe. O pianista deixara de tocar e o bar agora estava silencioso. O homem gostou. Não queria ouvir nada além da voz dela, e suas histórias sobre o lugar onde trabalhava, seus namorados, suas viagens, seus sonhos de capricorniana. Capricornianas, será que elas sempre se atravessariam em seu caminho?, o homem se perguntou. Muito tempo atrás, existira uma, olhos verdes, tão verdes e tão puros e tão doces e tão enfeitiçadores que ao mesmo tempo enterneciam e intimidavam. Machucara-a e fora machucado, achara um dia que jamais iria parar de doer, e um dia parara, e ele curiosamente ficara frustrado quando parara. Ele saberia, anos depois, que Proust escrevera sublimemente sobre a dor da perda da dor amorosa.

Nada dura para sempre, nem os amores eternos. Nem a dor da perda desses amores eternos.

Não restava ninguém no bar além dos dois, o homem sombrio mergulhado em reflexões tolas, proustianas, a jovem interessante se encaminhando com graça para o carro. Deixou-a na porta de seu apartamento, aquele ovo, como ela dizia, aquele ovo na Consolação do qual ela haveria de sentir saudade o resto da vida, e se foi. Morava no sétimo andar. Sétimo andar. Uma dia talvez escrevesse sobre o quarto de moça daquela capricorniana de olhos verdes.

No caminho, começou a cantarolar Aqueles Olhos Verdes, mas logo parou. Ninguém ligava mais para um bolero.

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7 Respostas to “Aqueles olhos verdes”

  1. Anónimo Says:

    Se realmente a dor da perda não durasse,e ás vezes para sempre,não haveria a culpa,o arrependimento e vc tb não estaria aqui escrevendo exatamente sobre isso……sempre . 😉

  2. Neyde Says:

    Como você é intenso…escreve maravilhosamente bem…”você é meu vício..desde o início.” Vou te levar comigo na minha caminhada no parque do flamengo…Beijos

  3. Ricardo Steil Says:

    Outro grande texto. E daqui onde estou imagino, Proust, naquele imenso, enorme banquete lá no céu, ao lado Hemingway e cia., se roendo de inveja por não ter escrito “Aqueles Olhos Verdes”.

  4. Anónimo Says:

    Dizem q o sofrimento é opcional… hummm isso eu já não sei!
    Mas q o amor é escolha, disso eu não tenho dúvidas.

  5. Rui Moio Says:

    O encanto da película Casablanca e da bela melodia “As Time Goes By”… Um texto lindo este!…

  6. Nicky-san Says:

    Eu gosto de boleros.

    (E aposto que os meus olhos verdes são muito mais lindos que os dela.)

    • Fabio Hernandez Says:

      Ollhukikontrei, Nicky-san

      O verso mais bonito: em cujas quietas águas/um dia me mirei …

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