A esquina


O mundo cabia ali, naquela esquina. Meus amigos e eu naquela esquina. Passo por ela, tantos anos depois, e revejo por um átimo os rostos jovens, inocentes e cheios de esperança da turma que se reunia na esquina. Éramos jovens, éramos imortais, éramos invencíveis. O Totó, o Zezé, o Banus, o Minhoca, o Ed, o Artime, o Pepe. O Belisco e o Maguila. Cada um de nós tem na memória dois ou três lugares que definiram uma época, uma vida, um sonho. Aquela esquina é, para mim, um desses lugares sagrados.

Meus amigos. Descer a minha rua para encontrá-los na esquina era um grande programa. Eu podia contar com meu amigos. Eles podiam contar comigo. Éramos um só. Isso acontece apenas em momentos especiais. Você e seus amigos como um todo. Depois a vida como ela é se apresenta e os amigos se dispersam. Ficam fragmentos, às vezes. Mas a verdade é que aquela proximidade, aquela intensidade, aquela intimidade, aquela cumplicidade, isso fica lá para trás. Existe um momento solene e impossível de repetição em que os amigos e nós somos um só, e exatamente por isso podemos enfrentar tudo.

A minha esquina. A nossa esquina. Ríamos muito. Encontrávamos em tudo motivo para rir. Amigos riem muito. Basta às vezes um olhar. Todos entendem o significado desse olhar mudo e todos caem na gargalhada. Muitas vezes o humor entre amigos vem simplesmente do nada. Como diz Tio Fabio, um homem sábio do interior, a mais legítima prova da amizade está na risada sem motivos. Nós ríamos com motivo e sem motivo na esquina.

E flertávamos também. Lá vinha a Ana Estela com seus olhos assombrosamente azuis. Mais azuis do que um céu de verão adolescente. Ela e outras meninas passavam a uma prudente distância de nós. Jamais na mesma calçada. Mas a verdade é que estávamos muito mais ocupados em rir do que em namorar. Depois que crescemos um pouco os risos se alternaram com inquietação. Foi na esquina que recebemos, perplexos, a notícia de que o Badô tinha se matado. Virou o revólver contra a cabeça e apertou o gatilho. Um pouco mais velho que nós. Drogas. Antes o Marcão tinha feito a mesma coisa. Aprendemos muita coisa sobre a vida na esquina. Incluída a morte. A morte absurda, jovem, estarrecedora. Outras baixas haveria. O Mingo numa briga. O Edu numa moto. Talvez não fôssemos tão imortais quanto supúnhamos.

E eis que a esquina como um ponto mágico um dia se perdeu. Tento lembrar se houve uma última vez, um último encontro. Não, não houve. É como se um dia tivéssemos combinado nos encontrar no dia seguinte na esquina e, por alguma razão insondável, simplesmente não tivéssemos comparecido. Melhor assim. Imagino, olhando para trás, como teria sido dura uma despedida de nós e de nossa esquina, um dia tão amada como a mais amada das namoradas. Ninguém se despede da inocência sem tristeza e dor. E então me ocorre que por um momento eu pudesse voltar a ser garoto correria à esquina e diria a meus amigos: “Amo vocês. Obrigada por tantas coisas boas”. Eles com certeza achariam ridículo, e ririam de minha declaração de amor, e eu também. Mas, deus, como nos amávamos. Nós não nos despedimos. Apenas um dia deixamos de aparecer naquela esquina em que cabia o mundo, e à qual às vezes volto, na imaginação e na saudade, em noites frias e escuras na busca do calor e da luz que a mera lembrança dos meus amigos traz.

14 Respostas to “A esquina”

  1. Sabrina Jung Says:

    Ta a fim de fazer todo mundo chorar, e´??

  2. Anónimo Says:

    Consciente de que, antes eu nunca havia lido algum artigo de sua autoria, me despertou atenção a sua capacidade em descrever detalhes, é como se estivesse realmente dentro de sua memória, em minha opinião, a frase em que se diz “Ninguém se despede da inocência sem tristeza e dor” é realmente o que o artigo nos demonstra, apesar de ser intenso e eterno o sentimento fraternal entre os amigos o tempo leva consigo a convivência diária, entretanto nos deixa a saudade e a sensação de que a vida é enaltecida por momentos de verdadeira felicidade. Parabéns Fábio! Excelente artigo!

  3. Marcia Says:

    ótimo texto, parabéns!

  4. Marcia Says:

    ótimo texto, parabéns!

  5. rachel Says:

    que texto mais lindo, poético, emocionante… homens, eu invejo isso em vocês. as mulheres, talvez uma ou outra grande amiga… mas os bandos sempre foram heterogêneos. não crescemos unidas como vocês e não unidas permanecemos… pena. ainda bem que sempre há a exceção à regra e a nossa ‘grande amiga’ que resta é carregada vida afora e seguimos cada vez mais cúmplices. há que ter alguma compensação no final, não?

    beijo querido, adorei tudo. especialmente essa frase aqui: “Ninguém se despede da inocência sem tristeza e dor.”

  6. Julia Says:

    Grande Tio Fabio…rir com motivo e rir sem motivo é a prova legítima de qualquer relacionamento. Sensacional, as always!

  7. Tiana de Souza Says:

    É bom ter amigos e boas lembranças. “A vida fica mais doce”!
    Gostei do texto. Parabéns!

  8. Fabrizio Salina Says:

    Também tive a minha esquina, lá no interior de Minas. E como diz o Carlos: “…Minas não há mais”. Nem minha esquina, nem meus amigos, nem o resquício de nossas conversas, nada! Tudo esfumaçou-se e desfes-se numa rapidez impressionante. Uns seguiram as drogas, outros tornaram-se juízes, médicos etc. sempre novas trajetórias e desgostos que não permitem mais a jovens adultos sentarem em uma velha esuina para conversarem. Os tempos mudaram, as necessidades são outras e não somos mais donos de nosso tempo e de nossas afinidades…Penso que todos nós temos dentro um vazio que corresponde ao local ideal de nossa infância/adolescência, onde conversávamos sobre os desenhos, a escola, as meninas da sala… é a vida. Mas me pergunto, o que nos faz crescer e perder este encanto que a existência nos proporcionava de forma tão banal? Com o passar dos anos o sentimento de solidão nos invade como dardo, encravando-se cada vez mais.

  9. Fabrizio Salina Says:

    Também tive a minha esquina, lá no interior de Minas. E como diz o Carlos: “…Minas não há mais”. Nem minha esquina, nem meus amigos, nem o resquício de nossas conversas, nada! Tudo esfumaçou-se e desfes-se numa rapidez impressionante. Uns seguiram as drogas, outros tornaram-se juízes, médicos etc. sempre novas trajetórias e desgostos que não permitem mais a jovens adultos sentarem em uma velha esuina para conversarem. Os tempos mudaram, as necessidades são outras e não somos mais donos de nosso tempo e de nossas afinidades…Penso que todos nós temos dentro um vazio que corresponde ao local ideal de nossa infância/adolescência, onde conversávamos sobre os desenhos, a escola, as meninas da sala… é a vida. Mas me pergunto, o que nos faz crescer e perder este encanto que a existência nos proporcionava de forma tão banal? Com o passar dos anos o sentimento de solidão nos invade como dardo, encravando-se cada vez mais.

  10. bic azul Says:

    Tenho uma história forte com esse texto. Já no final da minha adolescência, o li e me assustei, já que estava assistindo a tudo, de repente, sumir.

    Alertei um amigo. Contei a ele. O fiz ler o texto. Imagine: éramos imbatíveis! Donos de nossas vidas! Jamais iríamos deixar o tempo que passar e os compromissos da vida adulta separar as amizades de tantos anos. E com esta promessa sincera, nos aliviamos para, anos depois, perguntar um para o outro, via e-mail:

    “e aquele texto da esquina, heim?”

  11. Anónimo Says:

    Puxa-vida…Foi na esquina que eu e minha turma organizávamos a revolução…Até aí não entendia direito o que significava a palavra “UTOPIA”. A esquina me abriu os olhos!

    Parabéns, Fábio. Gosto de tudo que você escreve.

  12. lu.moraes Says:

    lenbrei da minha esquina,ela não e mais a mesma e nem eu,novas esquinas virão…obrigado por hoje.

  13. lu.moraes Says:

    lenbrei da minha esquina,ela não e mais a mesma e nem eu,novas esquinas virão…obrigado por hoje.

  14. Ricardo Figueiredo de Moraes Says:

    Fabio,voce ate parece que conviveu comigo e conheceu a minha esquina.Que belo texto.Parabéns

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