A dose mínima de sofrimento necessário


Quase dez da noite de 31 de dezembro, e o ano se vai indo. Barulho, e o som distante do mar de Itaparica. Uma brisa quente, e as páginas percorridas do livro que dei a mim mesmo de aniversário, a biografia dos Beatles por Bob Spitz. Pera. Presente de aniversário? Esqueci. Presente de Natal. “Esqueceu não, você errou”, diz a pequena proustiana. Ela sublinha errou com alguma satisfação. Bem. Sabia que Lennon decidira se tornar músico ao ouvir Elvis. The Pelvis. Não sabia exatamente que música. I Forgot do Remember to Forget. Eis o nome. Gosto do jogo das palavras. Esqueci de lembrar de esquecer. Como o jovem Lennon, ali na distante e portuária Liverpoool, poderia resistir a uma música com um título desses, e na voz soberbamente inovadora de Elvis?
E então verifico a hora, e vejo que o ano se vai acabando, e lembro fugazmente que perdi a final de um torneio de tênis de mesa no hotel agora à tarde, e a vitória estava em mim mas se foi, e eu ia me irritar comigo mas … mas me lembrei de lembrar do que disse Krishna a Arjuna na iminência de uma guerra colossal diante da qual Arjuna hesitava porque do outro lado estavam parentes (alguns deles usurpadores, é verdade) e amigos queridos. Palavras do mestre Krishna ao guerreiro Arjuna:o que importa é a luta, o esforço, a intenção, e não o resultado.
E então me ocorre que gostaria de desejar alguma coisa legal a vocês antes que 2007 se encerre. Numa época me inclinei pelo budismo. Depois me afastei. Sou ocidental demais para uma jornada longa budista. O incenso pode às vezes me confortar, mas também pode me incomodar. Mas aprendi a respeitar e admirar alguns conceitos. Por exemplo, o da impermanência. Nada fica, nada dura. Gostemos ou não.
E jamais, mesmo longe do budismo, neguei a verdade fundamental dos budistas: o sofrimento está na essência do ser humano. Todos sofremos, e paradoxalmente a dor universal mitiga a nossa própria. Basta olharmos um pouco mais para a angústia alheia e um pouco menos para a nossa.
Considerado o princípio vital do budismo, sei lá, eu aqui sob a brisa quente baiana, as luzes de Salvador no horizonte, sob a inspiração talvez dos orixás, e com certeza sob a guarda generosa de iemanjá, eu aqui desejo a todos vocês a dose mínima necessária de sofrimento para 2008. Lol.

11 Respostas to “A dose mínima de sofrimento necessário”

  1. escrevedora Says:

    obrigada! feliz 2008!

  2. Anónimo Says:

    a impermanencia só é valida se é um resultado natural das coisas ,e não simplesmente pq a pessoa decide seguir como uma regra para si propia sem pensar no outro,quer seja provocando ou premeditando uma situação.só vale se fluir naturalmente,assim como da mesma maneira que tudo tem principio meio e fim.

  3. Anónimo Says:

    a impermanencia só é valida se é um resultado natural das coisas ,e não simplesmente pq a pessoa decide seguir como uma regra para si propia sem pensar no outro,quer seja provocando ou premeditando uma situação.só vale se fluir naturalmente,assim como da mesma maneira que tudo tem principio meio e fim.

  4. Araceli Says:

    Vc é ótimo. Eis o nome.

  5. Araceli Says:

    Vc é ótimo. Eis o nome.

  6. PequenAprendiz Says:

    Lol
    Gostei dos votos da dose mínima necessária de sofrimento para 2008.
    Itaparica. Algo que eu não vou esquecer de ouvir você dizer: Esquerda… esquerda… direita… direita… LOL
    Tamt. Bx!

  7. Anónimo Says:

    Meus votos a vc são a dose mínima necessária de alegria e entusiasmo pra tornar 2008 um ano para se guardar na memória…
    Um beijo

  8. Julia Says:

    Fabio, Fabio, sensacional o “dose mínima necessária de sofrimento”. Acho isso ótimo, sofrimento vem, faz bem e a gente sabe que vai embora. No meio do caminho é só pensar que nem sempre será assim…

  9. rachel Says:

    oxalá, querido. pra ti também.

    beijo,

  10. rachel Says:

    oxalá, querido. pra ti também.

    beijo,

  11. Anónimo Says:

    com a dor podemos crescer ou não,assim como podemos crescer sem dor,se aprendermos a valorizar tudo o que temos desde o começo de nossa vida,ou seja pela educação em seu mais amplo sentido.

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