Carol, Eduardo, Marco e Pedro


Era primavera de 2001, um começo de noite quente e sem brisa, e os dois estavam num barzinho de São Paulo.”Amo o Eduardo”, disse Carol. “O amor é feito de admiração e de desejo, e isso quer dizer que amo muito o Eduardo.” Carol olhava Pedro fixamente nos olhos. Ela tinha enormes olhos verdes, e usava óculos que lhe davam um ar de professora de primeiro grau. Carol tinha o hábito, nas conversas, de colocar os óculos sobre a cabeça, e Pedro não gostava. Preferia o cabelo dela solto. Era um cabelo bem tratado, cabelo de mulher da sociedade paulistana, 500 reais a sessão no cabeleireiro, e além disso ele gostava do ar de professora. Talvez porque sua própria mãe tivesse sido professora.

Era primavera, e eles estavam tendo um caso fazia quatro meses. Carol era casada com um banqueiro, Eduardo, e Pedro fora convidado para escrever um perfil dele para uma revista de negócios. Pedro foi um dia ao casarão do banqueiro no Morumbi para completar seu trabalho de apuração de informações. Reparou numa estátua de uma mulher nua em tamanho natural, e ouviu de Eduardo que a comprara por impulso depois de vê-la num restaurante em Paris. Eduardo soube, da dona do restaurante, que a mulher que servira de modelo era a filha dela mesma. Ofereceu a ela um dinheiro considerável, e acabou por trazer a estátua como um troféu de caça para sua casa. Pedro olhou para a mulher do banqueiro e pensou que ela daria uma estátua ainda mais interessante que a da filha da dona do restaurante parisiense. Imaginou-a, por um momento, sem roupa, e gostou do que viu mentalmente. Na saída, deixou com o banqueiro o número de seu celular caso ele quisesse acrescentar alguma coisa mais para o perfil. No dia seguinte, ligaram para seu celular da casa do banqueiro. Mas quem o procurava era Carol, e não Eduardo. Se encontraram num barzinho longe o suficiente da área de risco para Carol, e quando ela pagou a conta já era certo que a história não terminaria ali.

“O Eduardo. Não me imagino vivendo sem ele”, disse Carol. Estavam na cama do pequeno apartamento de Pedro em Pinheiros. Pedro gostava dos resíduos do perfume que ela deixava no lençol. Ela usava Paris. Uma vez Pedro seguiu na rua uma mulher apenas porque sentiu nela, ou imaginou sentir, o cheiro do perfume. Paris. Ela sempre pedia para ele colocar o tema de Blade Runner quando se deitavam. Vangellis. Aquele sax melancólico. “A música esquenta o começo, e depois ninguém ouve nada mesmo”, ela lhe dissera quando Pedro lhe perguntara se aquela melodia durava o bastante para animar uma jornada sexual completa. Carol dizia que a música lhe lembrava um amor que tivera no passado, também ele jornalista. Marco. Marco Aurélio, como o imperador filósofo. Carol guardara tudo que Marco Aurélio lhe escrevera. Marco morrera jovem, aos 32 anos. Carol tinha na bolsa uma fotografia dele, um três por quatro que escondia cuidadosamente de Eduardo, mas não de Pedro. Para Carol, Pedro era fisicamente parecido com o que Marco teria sido se a moto em que viajava para Santos não tivesse sido colhida por aquele caminhão que não foi detido pelo freio na pista escorregadia da Imigrantes num começo de noite garoento. Marco despertara em Carol o gosto pelos bons livros, e ela tentara sem muito sucesso criar nele o gosto pelas roupas finas.
“E sem mim, você consegue se imaginar?”, Pedro perguntou.
“Consigo. Não vou mentir pra você. Pedro. Nosso pacto é a verdade. Você também não mente pra mim. Eu gosto disso. Lembro aquele dia. Perguntei se você tava saindo com alguma outra mulher, e você me falou daquela repórter do Estadão. Perguntei se o sexo era bom, e você confirmou imediatamente.”
Sim, ela tinha razão. Enganavam muita gente, mas não mentiam um para o outro. Era uma espécie de código de ética que haviam firmado mutuamente.
“Pedro. Você esperava que eu deixasse o Eduardo pra ficar com você?”
Ele pensou que não. Pedro só podia oferecer a ela palavras, e palavras menores que as de Marco Aurélio. A vida não é um romance em que o amor triunfa. Pedro silenciou. Era comum, nele, se refugiar subitamente no próprio silêncio. Sentia então um conforto parecido com o que tivera, criança, no colo da mãe professora.
“Você esperava isso, Pedro? Que eu abandonasse o Eduardo? Você não me respondeu.”
“Não. Nunca esperei. Como poderia esperar isso se você tantas vezes me chama de Eduardo e não de Pedro?”
“Não exagera. Duas vezes, ok, três, e nunca na cama.”
Ele nada falou, embora soubesse que sua mudez fosse capaz de exasperá-la mais que palavras duras.
“Pedro. Escuta. Não vou dizer que te amo. Seria uma precipitação e um exagero. Mas. Mas. Se não nos víssemos mais, sentiria sua falta. Muito. Você … você … fala pra minha alma. Como o … como o Marco.” Pareceu a ele que ela estava tocada ao falar no nome do amor antigo, mas podia ser apenas impressão. Talvez Pedro gostasse de vê-la tomada pela emoção, ela que tinha um domínio sobre si mesma tão rígido.
Era a maior declaração que Carol fizera a Pedro. Ele respondeu mais uma vez com o silêncio.
“Você talvez imagine que eu seja uma mulher fria. Calculista. Não dizem que toda capricorniana é uma máquina calculadora e fria como as geleiras de Perito Moreno? Mas escuta. Escuta bem. Eu não sou isso. Eu continuo a menina sonhadora que nasceu e cresceu na avenida São Luiz.”
Pedro continuou estacionado em seu silêncio. Ele jamais a condenara. E ela mesma: será que se julgara e condenara num impiedoso tribunal íntimo?
“Você acha que rico é ruim e pobre é bom, Pedro? Você se acha melhor que o Eduardo apenas porque não cobra juros dos outros?”
“Eu teria me vendido se alguém me comprasse, Carol. Sou igual a todo mundo. Talvez pior porque sou incompetente até pra me vender.”
“Pedro. Eu. Pedro. Eu odeio você. Entendeu? Eu te odeio. O que você é é um cínico esnobe que acha desprezível quem não conhece o Montaigne e o Proust. Você é … você é patético, Pedro. O Marco. O Marco era muito melhor que você, e nunca foi um pretensioso vazio. Os contos que ele dedicou a mim. Neles eu não era uma mulher superficial, como naquele conto seu inspirado em mim. Pedro. Você acha mesmo que eu telefonaria a um jornalista que vi pela primeira vez na minha casa ao lado do meu marido e o convidaria pra beber? Ficção ruim, Pedro. E o Eduardo, Pedro … o Eduardo te dá de dez a zero na cama.”
Ele riu. Dez a zero. Ocorreu a ele que Carol jamais trocara o nome dele pelo do marido quando o insultava. Também pensou que poderia suplantar a realidade de Eduardo, talvez, mas não o fantasma de Marco. Fantasmas são imbatíveis. Aspirou o ar em busca de algo do perfume pelo qual se obcecara como um mergulhador que necessita de oxigênio para ir em frente. Paris. Pedro queria dizer que a admirava e respeitava pela inteligência prática e beleza superior, e que não desprezava Eduardo apenas porque ele não lera Montaigne nem Proust, e que aceitava a goleada que ela lhe impusera, mas achou melhor não abandonar o refúgio de seu silêncio.Ela se levantou, se arrumou rapidamente e partiu. Com a graça majestosa que sobrevivia até a uma explosão de fúria. Os óculos de professora, como ele os amava naquela primavera de 2001.

No dia seguinte, ela iria com o marido passar o final de semana na esplêndida casa de Campos de Jordão, e os dois seriam um casal bonito e feliz, e talvez saíssem em colunas sociais, sorridentes e vitoriosos. Carol. Ela voltaria para Pedro quando estivesse entediada em São Paulo?
Pedro pensou nisso, e não encontrou resposta. Ele acendeu um Hollywood, esticou os braços, apanhou “Adeus, Minha Adorada” e se entreve com o pequeno grande livro de Raymond Chandler. Quis ouvir música, e pegou um disco antigo. Don Maclean, mas não era American Pie que ele desejava escutar. Era uma canção b, desconhecida, ou conhecida apenas pelos especialistas em Mclean. What a Shame. Gostava do trecho final. In this moment I recall you face/And I wonder if you sti
ll think about me/Occasionly I still think of you/And I watch the river flows/And I know I must let go/But it’s oh so hard/For the waves are all around my small canoe/I had always hoped this boat could carry two.
Preguiça de legendar, mas enfim. Na raça. Aqui e agora vejo o seu rosto/E me pergunto se você ainda pensa em mim/De vez em quando ainda penso em você/E contemplo o movimento do rio/E sei que tenho que deixá-lo/ Mas como isso pode ser duro/ Pois as ondas estão todas elas cercando minha pequena canoa/ Eu sempre achei que ela levaria dois.

10 Respostas to “Carol, Eduardo, Marco e Pedro”

  1. Araceli Says:

    Qta verdade num só texto.

    Lindo, como sempre.

    Abraços.

  2. Araceli Says:

    Qta verdade num só texto.

    Lindo, como sempre.

    Abraços.

  3. Anónimo Says:

    suas palavras me emocionam.
    e compartilho contigo a paixão por rubem braga.

  4. Anónimo Says:

    essa mistura de realidade e ficção…fantástico! adorei!

  5. Anónimo Says:

    Je t’aime!
    Bx!

  6. Julia Says:

    “A vida não é um romance em que o amor triunfa”. Taí uma frase que eu gostaria de ter escrito. Linda!

    bjs

  7. Anónimo Says:

    e leva dois…q vão morrer afogados ehueheu

  8. Anónimo Says:

    e leva dois…q vão morrer afogados ehueheu

  9. carinhosa Says:

    Que miscelânea de personagens…hahahaha. A foto 3×4 com o Marco ainda tenho. Coitado, você o matou numa curva de Santos.
    E não tenho Paris, que era de outra, mas o Poison que você me deu.
    De resto, você continua dramático e descrente. E eu, prática e intragável. É vida que segue em 2008
    bêju

  10. carinhosa Says:

    Que miscelânea de personagens…hahahaha. A foto 3×4 com o Marco ainda tenho. Coitado, você o matou numa curva de Santos.
    E não tenho Paris, que era de outra, mas o Poison que você me deu.
    De resto, você continua dramático e descrente. E eu, prática e intragável. É vida que segue em 2008
    bêju

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