Parte 2


Existem casos de amor em que o maior triunfo é a sobrevivência dos protagonistas,
FH

Em Estoril, Carol tinha à mão um bloco no qual ia anotando cenas interessantes para aproveitá-las eventualmente no conto que planejava escrever sobre o cassino. Anotava-as sinteticamente. Numa hora em que ela fora ao banheiro, vira uma vendedora ambulante de fichas mostrar a uma faxineira uma revista em quadrinhos do Zé Carioca. A vendedora era brasileira e parecia dominada por uma espécie de patriotismo nostálgico ao folhear as páginas da revista. “Este é meu país”, dizia a vendedora à faxineira. Carol pensou, na hora, que viver em terra estrangeira é uma das experiências mais duras que podem acontecer a alguém.

Carol e Otávio vinham jogando no 17 pleno fazia quase duas horas. Ele lhe pedira que escolhesse um número, um único número, e ela ficara com 17 porque fora a época mais feliz de sua vida. Dezessete anos. Primeira paixão, primeiro sexo, primeiro orgasmo. Primeira leitura de Clarisse Lispector. Tinha aos 17 olhos de Natasha, a Natasha de Guerra e Paz de Tolstoi, olhos de estrela, brilhantes, sonhadores, aqueles olhos que só temos numa fase da vida. Num certo momento, dera o número 17 duas vezes seguidas. Mas na roleta vizinha. “Vamos mudar de roleta”, disse Carol. “Estamos no número certo, mas na roleta errada”. Otávio a convencera a permanecer onde estavam, sob o argumento discutível de que estatisticamente era impossível que voltasse a dar o 17 depois da dupla aparição. Na verdade, ele estava com preguiça de fazer a mudança: achar um novo espaço vago para se acomodar, encontrar uma cor disponível para as fichas, tudo isso sempre dá muito trabalho.

E eis que apareceu o 17.
“Isso exige uma comemoração”, disse ela, enquanto o crupiê empurrava com a pá as fichas pretas ganhas na direção do casal. A comemoração foi um beijo na boca. O beijo foi interrompido por alguns segundos por Carol. “Me dá a língua”, pediu ela. Otávio perdera já a conta das vezes em que Carol lhe pedira que pusesse a língua num beijo. Ele costumava dizer que tinha a língua curta. Na verdade, sentia-se muito velho para aprendera beijar como ela queria. Beijo bom para Carol era beijo doído para ele.

Isso nunca chegou a ser dito claramente por nenhum dos dois, mas Carol e Otávio sabiam que tinham ido a Portugal numa tentativa desesperada e, afinal, vã de salvar seu amor. A maior parte dos casos termina por falta de amor. O deles parecia estar terminando por excesso. Brigavam com freqüência e violência cada vez maiores. A reconciliação, depois de cada guerra, era voluptuosamente maravilhosa. Mas ficava cada vez mais difícil, para cada um deles, enfrentar o desgaste crescente de atritos sempre mais penosos. A reconciliação era como um momento em que, depois de longamente submersos, afinal respiravam. O problema é que o tempo de respiração diminuía cada vez mais, enquanto o de submersão aumentava cruelmente. Nos últimos meses, parecia ter crescido em ambos a sensação de que não era possível um final feliz para sua história. Era como se o instinto de sobrevivência lhes dissesse que, por mais dolorido que fosse, deveriam afastar-se um do outro. Arrasados, mas vivos. Existem casos de amor nos quais a sobrevivência física é o maior triunfo dos protagonistas.

Otávio lera num Le Carré um personagem dizer que as mulheres que o estapearam uma vez jamais tiveram uma segunda chance. Carol tivera uma segunda, e uma terceira, e uma quarta, e mais uma quantidade de vezes que o fizera perder a conta. Eram tapas, insultos, arranhões. Uma vez, numa fugaz trégua, ele lhe dissera que, como o célebre caso do advogado de Prestes, o líder comunista brasileiro, iria invocar a lei de proteção dos animais em sua defesa. Deram risada, fizeram amor triunfalmente e, como sempre, voltaram a guerrear. O horror e a glória. A agressão e a cópula. A progressiva ruína da capacidade de convivência civilizada dos dois encontrara uma contrapartida desesperada no esplendor sexual. Mas já não havia como ignorar que a causa estava perdida e seu dias como casal, contados.

“Eu não sou assim”, disse ela certa vez depois de gritar insultos. “Você é que me deixa assim. Você é o cara mais egoísta do mundo. Tudo tem que girar em torno de você. Você é que sempre escolhe o filme. O restaurante. E não abre mão nunca do bridge com amigos na quinta.”

“Isso é vitimologia barata”, disse ele. “Você é assim porque é assim. Ninguém é vitima de ninguém. Você projeta em mim todas as suas frustrações. Você olha para mim como se estivesse olhando para o espelho. Você diz para mim tudo que não tem coragem de dizer para você mesma. E eu não jogo bridge há duas semanas.”

“Deus do céu”, disse ela. “A que ponto chegamos. Nossas conversas se transformaram em sessões de psicanálise.”

“Ou em diálogos de filme de Woody Allen na fase Bergman.”

Mas ali no cassino de Estoril pareciam felizes, para sempre felizes. Nada parecia capaz de separá-los enquanto as fichas retinissem e o alarido de gente que ganhava e gente que perdia não se dissolvesse num silêncio funéreo. Otávio estava menos interessado no jogo em si do que nas reações de Carol em sua estréia comoventemente desajeitada num cassino. Talvez fosse seu derradeiro legado: tê-la introduzido nas emoções tumultuadas do jogo. Carol torcia entusiasmadamente cada vez que a bola vagava caprichosa entre os números. E se impressionava com os tipos a seu redor. O homem de grandes bigodes que jogava simultaneamente em quatro roletas. O homem corpulento que anotava, num papelzinho, cada número saído. A mulher sozinha que subitamente começara a soluçar e correra em direção da saída. “Onde estão aquelas mulheres maravilhosas, de vestido negro longo e decotado, que a gente vê nos filmes?”, perguntara ela a Otávio, logo depois de entrarem no cassino. “Na nossa fantasia”, respondera ele. “Claro, claro, na nossa fantasia”, concordara ela. E, então, ficou claro para ela que o conto que escreveria seria também à base de fantasia, como nos filmes.

Pareceu a Otávio, por um momento, que ela tinha os olhos úmidos quando dissera “nossa fantasia”. Mas depois, quando reconstruiu a cena em sua memória, achou que também os olhos úmidos eram apenas fantasia. A cena ficaria melhor, ou pelo menos mais dramática, com lágrimas. O formidável enterro de sua última quimera, como escreveu Augusto dos Anjos. Ele jamais prestara como escritor, mas teve a sensação nítida de que seria capaz de escrever aquela cena com uma qualidade, com uma intensidade que jamais alcançara em suas patéticas tentativas como escritor.

Aquela cena.

Aquela cena na qual, enfim, ele compreendeu que a única esperança que lhes restava era que a bola que girava errática entre os números jamais parasse, jamais parasse, jamais parasse.

6 Respostas to “Parte 2”

  1. Anónimo Says:

    o que é significativo para que duas pessoas permaneçam juntas?

  2. Anónimo Says:

    pelo visto hj em dia….so os interesses financeiros unem…. o interesse pela sobrevivencia

  3. Anónimo Says:

    a sobrevivencia?ninguem sobrevive,os anos vão apenas passando….conta-se como apenas mais um ano sem aquela pessoa.

  4. Anónimo Says:

    e vc, está feliz sem aquela pessoa?

  5. Anónimo Says:

    mas eu entendo: não é difícil sobreviver “sem” uma pessoa; é difícil sobreviver “após” uma pessoa. como eu. tudo vai ser difícil depois que o conheci. quem conseguirá me fazer viver aquilo de novo? ele é único…

  6. Anónimo Says:

    Ninguém mais assina estes e-mails? Estranho…
    Sabe o que mais me incomodava no Otávio? o medo de ser feliz. A covardia. Covardia custa caro:não concede segunda chance. O que foi perdido, por falta de tentar outra fórmula, foi perdido. Vc. sabe do que eu estou falando…

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