Foi só o tempo que errou


“Sabe, liguei o rádio do carro naquela estação e pensei: a próxima música que tocar vai ser pra nós”, ela disse. “Tocou uma música que dizia. Dos nossos planos é que tenho mais saudade. Onde está você agora além de aqui dentro de mim? Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou. Vai ser difícil sem você porque você está comigo o tempo todo.”

Os olhos dela estavam úmidos. Ela falava com sofreguidão, com intensidade, e isso não era comum nela. Quieta, discreta, poucas palavras. A pressa com que falava parecia indicar que ela sabia que já não tinham tanto tempo assim para conversas daquela natureza. Era a última oportunidade talvez para olharem para trás e falarem do que representaram um para o outro, ou uma das últimas. Há tempo para chegar e há tempo para partir, está escrito no Eclesiastes, e para eles tinha chegado a hora de partir. Ele não conhecia aquela música. O repertório musical dos dois era diferente, e num determinado momento deixaram de compartilhar as canções que agradavam a um e outro. E os livros, e os filmes, e os planos. Ele foi procurar depois a música da qual ela falara. Vento no Litoral. Legião. “Sei que faço isso pra esquecer, eu deixo a onda me acertar, e o vento vai levando tudo embora.”

“Recebi um email do advogado”, ele disse. “Ele escreveu que tinha sido um final feliz. Final feliz, eu ri ao ler. Final feliz. Antigamente final feliz era, sei lá, bem, não era isso. Não o que ele quis dizer. Que minha proposta de partilha tinha sido aceita, e que estávamos prontos para ir ao juiz para selar a separação. Quando nos encontramos naquela festa. Não, final feliz não era isso. ”

“Você”, ela disse. “Você preencheu todos os meus céus. Olhos de estrela nunca mais, nunca mais.”

“Olhos de estrela. Você tinha olhos de estrela. No seu quarto de moça você tinha olhos de estrela.”

Quarto de moça. Rubem Braga. Era um dos textos preferidos dele. Quarto de Moça. Rubem Braga narrava o encontro com uma mulher que ganhara o mundo, e com isso dinheiro e poder e celebridade, mas perdera seu quarto de moça humilde no qual sonhara tanto. Rubem dizia que, se pudesse lhe dar um presente, reconstruiria aquele quarto para ela. Quarto de moça. Ele se lembrava do quarto de moça da mulher com a qual tivera, nas palavras do advogado, um final feliz.

“Eu não consegui fazer você ser feliz, e me sinto fracassada por isso, e isso me dói tanto, tanto”, ela disse.

“Eu também não consegui te fazer feliz, mas acho que significou uma vitória no fracasso. Derrotas podem ser esplêndidas. A nossa acho que foi. Não tiramos a essência um do outro. A tristeza nos uniu, não só ela, é verdade. O sexo era bom, e como era, mas a tristeza foi talvez a nossa conexão mais forte. Não perdermos o que tínhamos de mais genuíno é um triunfo no fracasso.”

“Seus olhos. Seus olhos são tão tristes. Me sinto culpada. Sempre me sinto culpada, você sabe. E se eu tivesse feito …”

“Nós fizemos o que tínhamos que fazer. Nós lutamos. Nós guerreamos, nós fomos guerreiros, os dois, não só eu, você também. Mesmo quando caídos nós combatemos de joelhos pelo nosso amor, por nós dois, e apenas aconteceu que fomos derrotados. Li num livrinho que você me deu que o que importa não é o resultado, mas a luta, a intenção, a entrega, e então nós, sei lá, nós tentamos, e então está tudo bem.” O livrinho ao qual ele se referiu era o Gita. Krishna e Arjuna, o grande diálogo de Gita. Apenas faça, diz o mentor Krushna ao discípulo e guerreiro Arjuna. Ganhar ou perder não diz nada.

“Agimos certo sem querer”, ela cantou. “.”

“Você trouxe uma música, eu trago outra. Desenhos no Jornal.”

“Ah, essa música não. É tão triste. Dói, deus, como tudo isso dói.”
Pareceu a ele que ela estava prestes a chorar, e não havia nada que ele pudesse fazer ou dizer que trouxesse conforto a ela. Ou a ele mesmo. Não há analgésico que diminua a grande dor das coisas que passaram.
“A arte é triste. Uma vez escrevi isso. A alegria não produz nada que preste na arte. Gosto daquele verso. O final. Um rosto distante se apagando no meio da multidão.”

“O jeito como você escreve. O jeito como você olha. Seus livros esparramados na estante, e a luz do abajur até tarde da noite. Eu nunca. Eu nunca vou esquecer.”
“Você dançando. Pequena bailarina. Aquela música. A que fala que todo mundo devia vê-la dançando na areia. É assim que lembrarei de você. Tiny dancer dancing in the sand.”
E então eles se despediram, e então eles eram, para sempre, um rosto distante se apagando no meio da multidão.

23 Respostas to “Foi só o tempo que errou”

  1. PequenAprendiz Says:

    Gostei de ter encontrado Renato Russo por aqui e essa música que considero tão melancólica…
    É cômico pensar que mesmo havendo esforço de ambos, o amor não subsiste. Está além das nossas forças.
    Meu Mestre definiu isso como impermanência.
    “… e o vento vai levando tudo embora…”
    Tamt. Bx!

  2. Anónimo Says:

    parfait!

  3. amanda Says:

    você tá acabando comigo.

  4. Renata Says:

    Uma vitória no fracasso é algo que eu nunca imaginei ser possível , mas com a vida agente aprende que o fim é o encerramento de um ciclo e começo de outro , porém é triste pq nele há uma despedida , um Adeus
    Além de sincero, sensível .
    bjs

  5. Anónimo Says:

    Adoro ler seus comentários sobre o amor de ”alguem”, afinal tudo é verdade, um grande beijo

  6. rachel Says:

    minha nossa senhora, rapaz. você sempre me tira o fôlego, affe. lindo. clap clap.

    bjbj

  7. bic azul Says:

    Bela música, bela citação.

    Uma história triste. Me lembra “Tem que acontecer”, do Sérgio Sampaio.

    Mas eu invejo um pouco o casal. Poucos sabem terminar. Poucos têm a chance de ser gratos, de acabarem sem rancor, de fazer jus a tudo de extraordinário que passou.

    Um abraço.

    • Fabio Hernandez Says:

      se vc ler essa resposta, me conta como tão as coisas, bic azul; escrevendo muito? abração

  8. Guilherme Says:

    Fabio, ao ler seu texto me recordei de meu próprio momento em que nada poderia salvar o que duas pessoas tentaram demais. Mas no momento certo acabou se salvando, sim. Talvez agora não seja o momento, como diz a música, “foi só o tempo que errou” talvez num momento mais pra frente, seja o tempo certo para essas duas almas amantes.
    Boa sorte para eles!

  9. Laryssa Says:

    E eu ainda estranho quando encontro minhas lágrimas rolando sobre as palavras de outrem que tão bem traduzem a minha dor…

  10. Araceli Says:

    Ning se apaga com um texto desse. Lindo demais. Vento no Litoral é perfeito, mas vc se supera, Hernandez. Parabéns.

  11. Débora Says:

    Ah, Fábio, se a todas as relações tivessem um final tão belo.É…final belo.Paradoxal, não é?! Mas é o que achei da sua estória.Ou melhor, história mesmo, pois sei que foi real! rs
    Abraço e até mais posters!;)

  12. Anónimo Says:

    Lindo. Muito bom mesmo. Mas o final…tiny dancer…chave de ouro!

  13. Bel/Cris Says:

    Extraordinario!!!! Amei esse texto.

  14. Bel/Cris Says:

    A proposito li outro dia essa frase: Vão-se os amores, ficam as histórias. Acho que no final das contas é isso que vale, não é mesmo?
    Beijos!!!!

  15. Cristian Says:

    me vi agora em texto… me senti fracassado em meu relacionamento anterior… nem mesmo o amor intenso e complicidade foram capazes de manter viva nossa união… mas tentamos. Como dói…

  16. Nicky-san Says:

    😥

    Ai, quero uma semana de férias de histórias tristes!!

  17. Nicky-san Says:

    ps.: Adoro “Aula de Inglês” do Rubem Braga.

    • Fabio Hernandez Says:

      200 crônica selecionadas do Rubem Braga, um livro editado pela Record e organizado por outra grande cronista, Paulo Mendes Campos, é essencial.
      Acho que na Internet se encontra exemplar usado baratinho, baratinho.
      Quarto de Moça, O Rei Secreto de França, Uma Moça Chamada Pierina, uau!
      Ao lado do Graham Greene, e em menor escala o Dostoievski, o Rubem foi meu maior inspirador.

      • Nicky-san Says:

        Estudei o Rubem na faculdade, e adorei.

        Li Dostoievsky semana passada. Parece que ele enxerga o que tem de pior na gente, escreve e não dá pra negar que faz um sentido absurdo! É lindo e perturbador ao mesmo tempo.

        O Greene ainda não conheço, preciso conhecer!

    • Fabio Hernandez Says:

      noites brancas do dostoievski é vital. humilhados e ofendidos é a minha história, a de um escritor barato, só que russo. foi escrito em folhetim, é uma delícia de ler.
      greene: fim de caso e o cônsul honorário é um bom começo, mas tb gosto demais dos comediantes (ou farsantes).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: