Um pedido eterno de desculpa


Recebi de minha amiga Anne, médica, o texto abaixo. Transcrevo-o tal como recebi. Exceto pelo título, uma expressão que utilizei há algum tempo, e que Anne decidiu usar também agora, num “plágio de um amigo” que ela não nomeia. Posteriormente ela me informou que esse amigo era eu mesmo, e confesso que gostei da frase de que me esqueci.

Nesse mês ele vai fazer 15 anos. Já está um homem, como as mães gostam de dizer. Ele se parece comigo fisicamente: a pele mais morena, cabelos e olhos castanhos. Outro dia veio todo contente porque tinha alcançado 1,80 m de altura. Muito, se comparado ao que imaginamos que nossos genes doariam. É tranqüilo, seguro e bem-humorado, como o pai. Tanto que aprendeu a lidar com as minhas crises – cada vez mais freqüentes – de mau humor. Brinca e diz que eu precisava de um namorado. Separei-me quando ele tinha 3 anos. Mas conseguimos com que ele sempre tivesse a companhia de ambos. Decidiu ser médico, como nós, mesmo sem nenhuma influência. Queríamos apenas que seguisse a sua vocação. Como gosta de ler e escrever, eu pensei que quisesse ser jornalista. Mas é apenas uma paixão distante pelas letras, como eu tenho. Ou culpa minha, por tê-lo enchido de livros quando era criança. Adora uma bola, o tal futebol. E sonhou ser jogador também, mania de moleque. Foi uma coisa que o uniu ao pai. Jogavam todos os finais de semana, junto com seus amiguinhos e pais. Agora está trocando a turma e alguns desses jogos por saídas com garotas. Talvez a minha maneira mais reservada o tenha inibido de comentar sobre elas. Conta apenas para o pai. No fundo, acho melhor: é uma fase em que libera os seus instintos e a minha opinião feminina só iria atrapalhar. Pelo menos é o que penso.

Lembro-me de todas as dificuldades que tive ao engravidar dele. Precisei trabalhar muito, inclusive com plantões noturnos. O meu namorado ainda estava fazendo especialização. Resolvemos nos casar, no meio daquela situação totalmente nova. Posso apenas dizer que fiz o que pude para que o meu filho tivesse conforto, e nem sei se foi muito… Olho para ele com a sensação de que poderia ter sido mais feliz se eu tivesse planejado tudo melhor, mas aconteceu. Quem sabe eu poderia ter optado por interromper a gravidez naquele momento. Poderia ter me casado, estabilizado a minha vida profissional e, então, ficado grávida. Não o teria privado de alguns brinquedos e de alguns passeios. Não teria que inventar tantas desculpas para a falta de recursos com que foi criado. Quem sabe ele até teria um irmão para lhe fazer companhia. Mas tudo foi superado. E quero que ele continue feliz como parece. Só isso importa.

Sou uma médica de 42 anos, casada e sem filhos. Em 1990 fiquei grávida de meu namorado, que também era médico, e decidi fazer um aborto. Na época ele concordou com a minha decisão e lhe deu apoio emocional e financeiro. Casamo-nos quatro anos depois. Não temos filhos por opção.

Escrevi esse texto, plagiando um amigo meu, como “um eterno pedido de desculpa” a meu filho. O que escrevi é exatamente como imagino que seria o meu filho (sim acho que seria um menino…) e como teria sido minha vida se não tivesse interrompido a gravidez. Não quero entrar na questão do certo e do errado ou de quando começa a vida. Assim como outras muitas mulheres que fizeram aborto, não vi uma solução melhor naquele momento. Para mim, não existe arrependimento. Acho que na vida às vezes existem dois caminhos, mas o melhor é sempre o que escolhemos. Mesmo que o outro nos deixe com saudades do que não vivemos.

24 Respostas to “Um pedido eterno de desculpa”

  1. Jux Says:

    saudades daquilo que não vivemos…
    no mundo dos sonhos, não erro, não prisão…

    🙂

  2. Anónimo Says:

    Um soco na boca do estomago. E o pior é que não se sabe se o texto é pro ou contra o aborto. Mais de qualquer forma faz pensar

  3. Anónimo Says:

    Amei!!! Parabéns pelo texto

  4. Anónimo Says:

    Amei!!! Parabéns pelo texto

  5. amanda Says:

    puxa vida.

  6. Mariana Vidigal Says:

    Lindo o texto. Parabens!

  7. João Carlos Says:

    Não é a imprensa do nosso país que preza pela liberdade de expressão? Seja Fábio, seja Paulo, não disse mais que a verdade sobre o Mainardi. Admiro sua coragem escritor sincero. Parabéns.

  8. Anónimo Says:

    Paulo,
    Parabéns, você vocalizou o que muita gente achava do tal Diogo Mainardi e não tinha como falar. Você tá certo, o cara atira para todo lado sem fundamento nenhum. E ainda acha que é o bom!!!!! Parabéns,aquele Mainardi é uma anta!

  9. Maria Leticia Says:

    Já achava esse Diogo Mainardi um grande mbecil. Agora, acho ele muito mais. O cara foi indicado por Epoca como um dos 100 Mais Influentes e reage dessa maneira… Como um cara desses pode ter espaco na Veja???? Sou muito mais o Fabio Hernandez que alem de escrever mil vezes melhor que o Mainardi , fala de um tema muito mais interessante. Sou mioto mais voce Fabio!

  10. Maria Leticia Says:

    Já achava esse Diogo Mainardi um grande mbecil. Agora, acho ele muito mais. O cara foi indicado por Epoca como um dos 100 Mais Influentes e reage dessa maneira… Como um cara desses pode ter espaco na Veja???? Sou muito mais o Fabio Hernandez que alem de escrever mil vezes melhor que o Mainardi , fala de um tema muito mais interessante. Sou mioto mais voce Fabio!

  11. Anónimo Says:

    por que o mainardi não dá espaço para comentários na coluna dele?? não gosta de críticas? um ditador!

  12. bic azul Says:

    um texto tocante. não há como não imaginar a situação. já disse nesse espaço que sou contra o aborto, mas não me ocupo de julgar quem o pratica. certa vez, escrevi um conto que usava uma situação parecida para ilustrar um pensamento meu: a saudade é punição dos livres. agora, depois de ler esse conto, penso que, talvez, que o preço do amor não só a liberdade, mas toda a vida.

    parabens à sua amiga Anne.

  13. Anónimo Says:

    um eterno pedido de desculpas vá lá mas,essa coisa de saudades do que não vivemos é um tanto melosa e soa como posia barata,pois como ter saudade de algo que sequer vivemos?saudade da imaginação?da expectativa?pode sim haver certa melancolia ate mesmo depressão por aquilo q vivenciamos e deixamos depois de vivenciar mas do q não aconteceu…..uhmmmmmsaudade do que não vivemos??é o mesmo que sentir o gosto de algo q nunca provamos e mesmo assim seguir desejando mesmo sem saber o sabor q tem.I CAN´T BELIEVE THAT.

  14. Ana Says:

    Diogo Mainardi é um b****! É o cara mais desqualificado de toda imprensa, vc ainda foi bacana naquele perfil que escreveu dele. Ele nem merecia estar na lista.
    beijo

  15. Pedro Henrique Says:

    Excelente o texto dessa médica .Chorei pois tenho uma história parecida . Minha filha (sim, imagino uma menina) teria hoje 22 anos . Porém não concordo com o final ; na vida nem sempre escolhemos a melhor opção , o melhor caminho .
    Não sou um apologista da culpa , só acho que quando tomamos um caminho “errado’ aprendemos ( ou não) e crescemos.
    Olha Doutora , tenho certeza que voce seria uma ótima mãe ,alias vou retificar e dizer ….Doutora olha ali na frente , ali na encruzilhada ,tem um caminho fascinante e assustador .Olha parece que tem uma placa “MATERNIDADE” está escrito ,rs .
    Pq não ?? Engata a segunda e não esuqeça de me convidar pro batizado .
    Parabens pelo texto e sensibilidade .
    Pedro Henrique

  16. ???? Says:

    …e lhe deu apoio emocional e financeiro…

    ??????

  17. Anónimo Says:

    Adorei o texto. Super reflexivo. Nunca cosegui escrever, falar ou até mesmo ler a respeito. Me identifico com ele e deixo aqui meu testemunho de que carregarei um sentimento de culpa e angústia pro resto da minha existência. Alívio X Arrependimento ou Arrependimento X Alívio? Nao sei… O que apenas sei e o que sinto é o que minha consciência me permite.

  18. Anónimo Says:

    Adorei o texto. Super reflexivo. Nunca cosegui escrever, falar ou até mesmo ler a respeito. Me identifico com ele e deixo aqui meu testemunho de que carregarei um sentimento de culpa e angústia pro resto da minha existência. Alívio X Arrependimento ou Arrependimento X Alívio? Nao sei… O que apenas sei e o que sinto é o que minha consciência me permite.

  19. Anónimo Says:

    Doutora!
    Em 1970 estudavamos medicina e ele dizia q eu era o amor eterno dele e q ficariamos juntos para sempre.Acreditei,ingenua q era !
    Engravidei e ele me convenceu a fazer aborto.Era a melhor(?) solução !
    Nos casamos 5 anos depois,tivemos 3 filhos e ele nos abandonou depois de10 anos de casados.
    Criei meus filhos.Que sao boa gente !
    Mas,o pai??Se eu soubesse,naquele tempo o q sei agora, a respeito dele,certamente teria escolhido outro ,para ser PAI DOS MEUS FILHOS!
    Hoj em dia nao tenho marido,meus filhos menos pai ainda,mas as putas da vida tem e terao-com certeza- um bom mantenedor ! Ele “tira” dos filhos ,pra dar pras putas!! E se acha certo,pq diz q FILHO SÓ SERVE P ENCHER O SACO!! Pode isso????

  20. Dana Says:

    Achei um pouco sonhador o texto, porque depois do assassinato cometido não adianta lamentar.

  21. Anónimo Says:

    parabens pelo texto! acho que ninguém melhor para expressar seus sentimentos sobre o assunto , que quem passou pela experiência, as que criticam são meras telespctadoras da vida com seus achares muitas vezes sem fundamento, muitas vezes quando se pegam em igual situação são as primeiras a procurar desesperadamente por esse artifício. acho que a palavra da vez é não julgar ninguém apenas tentar entender os porques….

  22. Anónimo Says:

    parabens pelo texto! acho que ninguém melhor para expressar seus sentimentos sobre o assunto , que quem passou pela experiência, as que criticam são meras telespctadoras da vida com seus achares muitas vezes sem fundamento, muitas vezes quando se pegam em igual situação são as primeiras a procurar desesperadamente por esse artifício. acho que a palavra da vez é não julgar ninguém apenas tentar entender os porques….

  23. Anónimo Says:

    EU ODIEI ESTA PAGINA PQ ELA NÃO AJUDA EM NADA AS POUCAS INFORMAÇÕES SÃO MINIMAS NECESSARIAS

  24. Anónimo Says:

    estou grávida e preciso fazer um a aborto, preciso de uma clinica, me ajude eu imploro, me indique alguem por piedade,
    fe.caty@yahoo.com.br

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